segunda-feira, 24 de outubro de 2011

PERGUNTAS QUE NÃO QUEREM CALAR

O que vale realmente no mundo são as perguntas, não as respostas. Mas crescemos ouvindo que precisamos encontrar saídas, ter respostas, buscar explicações e soluções para tudo, para todos, para todos os problemas. Professores saudosos preparavam suas aulas, na maior boa vontade, carinhosa e cuidadosamente, sempre no intuito de ajudar-nos a encontrar respostas. Sou-lhes grato por tudo, mas lamento dizer: isso não importava e não importa. Tenho melhores lembranças dos poucos que me ajudaram a formular perguntas, a questionar. Perguntas abrem cabeças, respostas relaxam, perguntas provocam, respostas congelam, perguntas são adrenalina, respostas são naftalina, perguntas são taças de sorvete de pistache no meio da tarde, respostas são canecas de chocolate quente antes de dormir. Ao perguntarmos, ainda que involuntariamente, estamos questionando, enfrentando, encarando. Ao respondermos, estamos definindo, delimitando, enquadrando. A pergunta incomoda, a resposta acomoda, a pergunta insiste, a resposta decide, a pergunta revoluciona, a resposta rotula. A resposta precisa da pergunta, não existe sem ela. A pergunta tem vida própria, ela se basta, abaixa-se, levanta-se e vai embora, não está nem aí, só quer perguntar, não quer saber. Ela acorda com os primeiros raios de sol, veste qualquer roupa legal que encontra, desce as escadas e vai trabalhar, numa boa. A resposta põe despertador, fica duas horas escolhendo e combinando roupas, espera o elevador subir e chega atrasada aos encontros, deixa todos esperando. Meias respostas, respostas prontas, respostas mal criadas, pessoas respondonas, chatos têm respostas para tudo. Neuróticos precisam achar saídas, necessitam preencher relatórios, completar lacunas, responder tudo. Criaturas de um mundo bom e natural, crianças, no afã de tudo descobrir, perguntam o tempo todo. Mal acabamos de raciocinar e elas já mandam outra pergunta. Não estão preocupadas ou concentradas em ouvir e compreender as respostas. Ranzinzas de nossas próprias armadilhas, achamos que elas estão nos testando, nos provocando, mas não é nada disso. Ao perguntar, conversam em voz alta consigo mesmas, brincam de aprender, radiantes com o turbilhão de emoções, de novidades e de curiosidades que entram pelas janelas e portas abertas de suas inocências e de seus descompromissos. Em ambientes de democracia, a liberdade de imprensa e de pensamento questiona e lança discussões, provoca espaços de discernimento, de desconstruções, de refazimentos e dessarmações. Ao ar livre, numa manhã de sábado, a pergunta propõe um tênis de mesa de nossa inteligência e de nossas emoções. Já em espaços e momentos ditatoriais são oferecidas respostas, roteiros e planos sequenciais estabelecidos que não devem ser questionados, racionalizados ou refeitos. Quanto menos perguntas, melhor! Estrategicamente, estudantes, questionadores, lideranças e pensadores são convidados a se retirar dos palcos onde exercem o ofício de lançar perguntas, idéias maquiavélicas de suas comédias divinas, eis que a convivência de questões diversas e descontroladas são desconfortáveis e desestruturantes. Amantes perguntam-se o tempo todo: você me ama? foi bom para você? quer casar comigo? quer ouvir uma coisa? Bocas perguntam, olhos indagam, mãos interrogam e os ouvidos se fecham em respeitoso contemplar de enebriantes momentos mágicos que asfixiam. Corpos que levitam, suores que inundam, batimentos que extrapolam, retinas que se dilatam, tudo pela emoção das perguntas. Beijos calam respostas equivocadas, favorecem os momentos com silêncio e contemplação. De um lado a pergunta entra como fantasia, por outro a resposta sai feito realidade.

domingo, 9 de outubro de 2011

TERCEIRA LISTA – 5 MÚSICAS POPULARES BRASILEIRAS

Amigos leitores, depois de um longo e nem tão tenebroso inverno assim - viva a primavera e viva a tiavera -, estou de volta com minha série de canções favoritas. Vocês se lembram, fiquei de produzir quatro listas e, ao final, os leitores poderão escolher, dentre as vinte músicas, quais serão as três melhores do blog. Abaixo, as dez primeiras concorrentes. Hoje teremos mais cinco. Boa leitura!

ÁGUAS DE MARÇO – Tom Jobim
AS APARÊNCIAS ENGANAM – Tunai - Sérgio Natureza
CHEGA DE SAUDADE – Tom Jobim – Vinícius de Moraes
CHORO BANDIDO – Edu Lobo – Chico Buarque
EU E A BRISA – Johnny Alf
A MOÇA DO SONHO – Edu Lobo - Chico Buarque
CAIS – Milton Nascimento – Ronaldo Bastos
PARA VER AS MENINAS – Paulinho da Viola
QUANDO O AMOR ACONTECE – João Bosco – Abel Silva
ROSA – Pixinguinha – Otávio de Sousa


COMEÇARIA TUDO OUTRA VEZ – Gonzaguinha

Gonzaguinha começou a aparecer no cenário musical no final dos anos sessenta, através dos festivais. Nessa época, juntou-se a Aldir Blanc, Paulo Emílio e Ivan Lins para fundar o MAU-Movimento Artístico Universitário. Produziram um extenso repertório com temática de protesto, que serviu de base para o Programa Som Livre Exportação, da TV Globo. Irônico e agressivo, ficou taxado de ‘cantor rancor’ e ‘poeta maldito’ no meio musical e na mídia. No começo dos anos oitenta, mudou essa imagem com uma série de canções românticas, que foram gravadas pelas principais cantoras, Elis, Simone e Maria Betânia. Apesar de ter morrido muito jovem, aos 45 anos, num acidente de carro, deixou um grande repertório de músicas fortes e dramáticas. ‘Começaria tudo outra vez’ é uma de suas melhores canções e está entre as grandes da mpb. Ele gostava de compor sozinho e fazia questão de trabalhar com músicos excepcionais, que o ajudaram a desenvolver arranjos coletivos e produzir trabalhos muito marcantes.


DEPOIS DOS TEMPORAIS – Ivan Lins – Vitor Martins

Em se tratando de Ivan Lins, não há meio termo: é amado ou odiado com todas as forças. Sinceramente, acho que ele não tem o devido reconhecimento aqui. O trabalho dele no mercado americano é extremamente valorizado, foi gravado por Sarah Vaughan, George Benson e pelo produtor Quince Jones, entre vários outros. Vitor Martins escreveu essa letra forte e maravilhosa quando Ivan estava se separando de Lucinha Lins, sua primeira mulher. As citações de paralelos entre a relação amorosa do casal e as tormentas do mar, sua profundidade, sua beleza, sua calmaria mostram a habilidade do letrista e a intimidade de quem conviveu com eles durante tanto tempo. O arranjo que Gilson Peranzzetta escreveu é magnífico, com as cordas em crescente e o solo de Márcio Montarroyos é um capítulo à parte, ele que foi considerado um dos cinco melhores trompetistas de todos os tempos pela Downbeat.


LIGIA – Tom Jobim

Dentre as inúmeras pérolas que o Tom compôs, escrevendo letra e melodia, essa se destaca. Lígia é uma declaração de amor à mulher, sobretudo à mulher carioca. Ele passeia pelo Rio, falando de costumes, do chopp, da caminhada de Copacabana até o Leblon, tudo dito de forma surpreendente. Ele usa inversões de sentido, cria uma espécie de figura de linguagem que tudo diz às avessas e com fina ironia. Assim, ele canta: ‘eu nunca quis tê-la ao meu lado num fim de semana, num chopp gelado...e quando eu me apaixonei não passou de ilusão, nem seu nome eu guardei”. É um tentar convencer-se de que tudo não aconteceu ou de que não deveria ter acontecido, mas escrito por alguém que dominava as nuances da língua portuguesa, assim como o fazia com as combinações harmônicas. Gosto muito do final, com mais uma figura de comparação e contradição: ‘seus olhos morenos me metem mais medo que um raio de sol’. Há várias gravações desta música, com Chico Buarque, Gal Costa, Elis Regina e muitas instrumentais, dentre elas uma versão com Stan Getz, que gosto muito.


OCEANO – Djavan

Escrita em 1989, essa é uma das melhores canções de Djavan. Ele é uma matriz musical, tem um estilo muito próprio de compor. Criou uma maneira peculiar de produzir músicas românticas com um toque de sofisticação e baladas pop com refinamento harmônico. Escreve letras meio confusas, algumas aparentemente sem nexo, mas as leio como uma literatura revestida de charme especial. Inicialmente, Oceano foi uma tentativa de compor uma música em espanhol, numa levada flamenca, mas ficou engavetada durante um tempo. Por insistência da filha, resgatou a idéia, compôs um belo poema (“assim que o dia amanheceu lá no mar alto da paixão... cadê você, que solidão, esquecera de mim”), num português literalmente mais que perfeito e convidou Paco de Lucia para fazer um solo inesquecível na segunda parte da música, um colorido todo especial e que resgatou a ideia inicial com influência moura.


SOL DE PRIMAVERA – Beto Guedes – Ronaldo Bastos

Essa linda música dá nome ao terceiro disco de Beto Guedes, de 1980. Aliás, os três primeiros discos individuais dele são os melhores de sua carreira: A Página do Relâmpago Elétrico, Amor de Índio e Sol de Primavera. Junto com o pessoal do Clube da Esquina, influenciado pelos Beatles, nessa época ele produziu trabalhos magníficos, lindas harmonias para letras delicadas e profundas. Aqui, Ronaldo Bastos escreveu uma obra de arte e falou por toda uma geração que saía do período de regime militar: ‘já choramos muito, muitos se perderam no caminho, mesmo assim não custa inventar uma nova canção que venha nos trazer sol de primavera’ e termina com um ‘achado literário’ que é de uma profundidade e sabedoria imensas: ‘a lição sabemos de cor, só nos resta aprender’. O arranjo de Wagner Tiso valorizou demais a canção, numa linha erudita com cordas e flauta transversal que mostram bem a importância que o pianista, maestro e líder do Som Imaginário teve na produção musical dos mineiros.