quinta-feira, 3 de novembro de 2011

ACHADOS E PERDIDOS

A coisa funciona mais ou menos assim: uma campainha do sensor imaginário denuncia nossa presença na sala que, por ter um enorme espelho ao fundo, passa a impressão de ser maior do que realmente é. A cabeça gira vagarosamente e o olhar sai varrendo um monte de objetos estranhos, uma parafernália de coisas que nunca usamos, superficialidades feitas de plástico, isopor ou madeira de baixa qualidade, pequenas engenhocas mal acabadas para passar o tempo e desafiar-nos a imaginação. Acabamos de entrar num ambiente sagrado, complexo, desconfortável: é o achados e perdidos de nós mesmos. O que será que deixaram para trás e restou impregnado em nós? Como identificar essas criaturas esquisitas que esqueceram tantas coisas dentro da gente e não se importaram em vir buscar? Também há muitos itens que levaram e eram importantes para nós, mas se esqueceram de devolver, pedaços que nos foram tirados sem o nosso consentimento e, não raro, sem o nosso conhecimento e damos como perdidos. Paradoxal constatar que ficamos anos sem sentir falta dessas partes que nos foram tiradas no meio da madrugada, às sete da noite durante o jantar ou no alto da montanha de neve, antes que a aula experimental de esqui terminasse. Muitas foram arrancadas de forma abrupta, sem preliminares, sem anestésicos ou considerações plausíveis e são responsáveis pelos nossos desequilíbrios emocionais e frustrações sentimentais. Na construção desse lego colorido, divertido e curioso que é a nossa personalidade e que define nossos destinos, certamente essas peças fizeram falta, o quebra cabeças nunca ficou completo. Há coisas com as quais convivemos diariamente, tentamos catalogar para manter um mínimo de organização, mas já não sabemos a quem pertencem, se nos foram dadas ou se as tiramos à força de alguém. Carregamos algumas tralhas e até sabemos quem são os donos, mas nos recusamos a devolver ou reembolsar algum valor equivalente, mesmo que seja para desencargo de consciência. Alguns pertences foram levados ainda na caixa, com o código de barras, nome, telefone, rg e cep, ainda sem uso, nem deu para notar que eram importantes e que nos fariam falta. Embora egoísta, o lado positivo disso tudo é que passamos a usar ou nos adaptamos a itens ou estruturas sólidas que mudarão nossos comportamentos e nos transformarão em pessoas do bem. De certa forma, nossa ética quer acreditar que os fins justificam os meios. A partir de uma coisa que não nos pertencia, que nunca compraríamos e que certamente fará falta a alguém, realizamos nossas trajetórias de sucesso, corrigimos rotas, ajustamos componentes psicológicos inerentes ao nosso mundo e aos nossos interesses. Dito e escrito assim, parece confuso e pomposo, mas trata-se de apropriação indébita de qualidades alheias. Nessa brincadeira maquiavélica, intencionalmente ou não, são levadas confiança, autoestima, generosidade, amorosidade e alegria. E, mundo cruel, para compensar o que nos foi tirado, pegamos de outras pessoas em situações diversas e a trama emocional se perpetua de forma engenhosa, feito teia de aranha, feito formigas construindo seus complexos labirintos subterrâneos, feito abelhas produzindo seus favos de mel em coletividade, com hierarquia, método, engenho e arte. O melhor a fazer? Chorar sob um cobertor? Tirar os sapatos e caminhar sobre brasas? Rir de si mesmo e mergulhar no lago gelado de águas passadas? Nada disso. Simplesmente apague a luz desse quarto de achados e perdidos, tranque a porta a sete chaves, uma para cada dia da semana que virá.