quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

A SINA DA VACINA QUE ENSINA

Na hora da vacina, a espetada da agulha é traumatizante para crianças e pais; depois é só tranquilidade e benefícios duradouros. Com essa filosofia na cabeça, levei meus filhos ao show do João Bosco, voz e violão, uma releitura de suas músicas mais antigas e sucessos de artistas consagrados. Tiro e queda. Eles detestaram a apresentação, ficaram muito invocados e, se já não gostavam do 'aguirilôba, brigadugenti', agora é que vão querer distância desse tipo de música. Tá de brincadeira, pai? Com caras de o-que-é-que-eu-vim-fazer-aqui?, cintos de segurança afivelados, cada um ligou o seu ipod no primeiro set-list de heavy rock que encontrou e vamos à pizza, entrada de focaccia de alecrim e sal grosso, que ninguém é de ferro. Para mim foi surpresa nenhuma, tudo certo como dois e dois são cinco, diria o rei; ou melhor, tudo sob controle, diria o comandante do Titanic. O show foi sensacional. João tocou Agnus Sei, Caça à Raposa, Incompatibilidade de Gênios, Escadas da Penha, Bala com bala, todas do começo da carreira e deixou as mais populares pro final: Papel Machê, Quando o Amor Acontece, Ametista e O Bêbado e a Equilibrista. Considerando as idades deles e relevando a corujice do pai, já possuem relativa cultura musical e muita afinidade com instrumentos. 'Só não serão músicos, profissionais ou amadores, se não quiserem', carimbou o tio Carlos, há algum tempo. Voltando ao concerto, Bruno, dez anos, começou todo animadinho, na metade do show estava esticado, com as pernas em cima dos meus joelhos e, ao final, praticamente deitado no carpete. Rafael, mais velho, parecia ter assistido a uma ópera completa com cinco horas, de tão cansado e desanimado. Tudo compensou quando, na saída do teatro, ele mandou duas observações ultra pertinentes: 'não entendi nada das letras' e 'ele usa uns acordes bem diferentes, não é, pai?' Yes! Give me the five! Estamos falando de letras do Aldir Blanc, com a complexa estética do sincretismo religioso e a romântica malandragem suburbana carioca. Para um garoto de treze anos, a simples identificação e estranheza dessa literatura musical é sinal de que está tudo bem; não entender, então, é o máximo da inteligência. So far, so good. E o comentário sobre os acordes diferentes? Estamos falando de nonas, décimas terceiras e diminutos, com a dinâmica de interpretação do estilo-joão-bosco de tocar violão. De tão feliz, liberei duas latinhas de guaraná para cada um durante a pizza, porque normalmente é uma só. Sempre ouvi mpb, blues, jazz, soul music americana e rock ingês clássico. Bem ou mal eles sempre estiveram expostos a esse tipo de música e, nos últimos anos, passei a ouvir rock mais pesado, por influência deles. Em menos de um ano vimos Guns & Roses, Green Day e Ringo Star, entre outros. Procuro ouvir um pouco de tudo, de Vivaldi a Restart, sem preconceito ou predisposição negativa, afinal há que se ter conhecimento e convicção pra elogiar ou esculhambar. Há três tipos de música: a boa, a ruim e a do Clube da Esquina, que não é boa nem ruim, é fundamental. A experiência de ver João Bosco ao vivo foi interessante e importante, a vacina da qualidade musical foi inoculada e renderá frutos positivos. Assim é a vida. Assim é o ‘mundo, mundo, vasto mundo’. Quantos ensinamentos nos foram passados por nossos pais e amigos e, à época, não fizemos a leitura equilibrada e justa de sua importância? Tem nada não. O importante é que a emoção sobreviva.