quarta-feira, 28 de março de 2012

BIA REIS – UMA MEMÓRIA MUSICAL

Foi com imenso pesar que soube da morte da jornalista e radialista Bia Reis, há pouco mais de uma semana. Embora não a conhecesse pessoalmente, sua voz calma e serena era-me familiar e prazerosa, eis que todos os domingos, invariavelmente, às onze horas, eu acompanhava o programa ‘Memória Musical’, que ela produzia e apresentava desde 1990 e manteve de forma brilhante e competente nesses vinte e dois anos. Para quem acabou de chegar ao planeta cultura musical e nunca ouviu falar do programa, a proposta era entrevistar grandes artistas e colher deles revelações sobre as músicas que marcaram suas vidas. Domingo passado, dia 25 de março, seus colegas da FM Nacional e integrantes da equipe que produzia o programa fizeram uma homenagem surpreendente ao lembrar as músicas que marcaram a vida dela. Foi uma edição muito bonita, elegante, sem extremismos, com textos e depoimentos impecáveis, emoção na medida certa e apresentado pela ótima jornalista Marli Arboleia. Parabéns a todos da rádio, pela justa, merecida e sincera homenagem. Desde menino sempre gostei de rádio. Considero a mídia mais completa e abrangente, pois talvez seja a única na qual pode-se executar qualquer atividade enquanto ouve-se música ou notícias: correndo, pedalando, trabalhando, vendo tv, dirigindo, de olhos fechados, nenhum outro veículo de comunicação possibilita essa versatilidade de contato com o ouvinte. Há sete anos escrevi-lhe um email, elogiando-a e ao programa. Disse-lhe da minha admiração pelo formato e pela produção inteligente, da elegância e respeito com que ela recebia e apresentava seus convidados, demonstrando profundo conhecimento pelo trabalho deles. Disse-lhe, ainda, que considerava ‘Memória Musical’ o melhor programa musical entre todos os que eu já tinha ouvido, inclusive entre os diversos programas das grandes redes americanas, nos quase três anos em que morei na terra do Tio Sam. Registrei que, especialmente, os programas com Egberto Gismonti, Lô Borges e Dori Caymmi tinham sido os campeões para mim e sugeri que ela lançasse cds com coletâneas dos inúmeros depoimentos registrados. Dias depois, imaginem minha alegria, quando ela me respondeu dizendo que tinha ficado muito feliz ao ler meu depoimento e que se emocionou bastante com meus elogios, que lera várias vezes minha mensagem antes de me responder. Como o ‘Memória Musical’ tinha ótima audiência e fazia muito sucesso, em 2004 ela lançou o ‘Projeto Brasília’, aos sábados, entrevistando e dando oportunidade a cantores e compositores da cidade. Dentre as muitas qualidades, ela tinha uma em especial: sabia ouvir, deixava o convidado falar e introduzia considerações pertinentes e rápidas. Parece óbvio, mas isso é raro, tanto em rádios quanto na televisão, poucos jornalistas têm essa perspicácia e sensibilidade em conceder o espaço de forma respeitosa às idéias e novidades trazidas pelos convidados. A melhor exceção trata-se do jornalista Roberto D’Avila com sua Conexão, o melhor talk show da TV brasileira. Em Brasília, outro programa excelente em formato, conteúdo e estilo de apresentação é o ‘Então, foi assim?’ do jornalista e produtor Ruy Godinho, também oferecido pela FM Nacional nas tarde de sábado, quando o compositor fala sobre o processo de criação musical. Voltando à Bia Reis, a memória musical e afetiva que ela semeou ficará por muitos anos em nossos corações e mentes e, certamente, terá deixado influências para que discípulos e admiradores ‘toquem’ o projeto da melhor forma. Ao deixar o plano piloto e completar esse ciclo, imagino outros planos em que ela terá oportunidade de conhecer e entrevistar gênios e talentos que também nos deixaram saudosos e com ótimas lembranças. Bia Reis, parabéns, saudades, a música agradece o seu talento e dedicação.

domingo, 18 de março de 2012

DA SÉRIE: COISAS QUE ME AZUCRINAM – PARTE 2 – A FILA

Essa, com certeza, você já viu e teve aquela reação meio raiva, meio graça, meio espanto. Situação: FILA DE CINEMA. Entediado com o reality show de cada dia que, apesar de versátil, cultural e profundo, às vezes cansa, daí o sujeito vai ao cinema e leva mulher, sogra, cunhada, filhos e os amiguinhos que foram passar o fim de semana. Sabe aquele programão em família, domingo no shopping, várias salas de cinema, lançamento blockbuster, energia exaltada, o leitor visualizou a cena. Muito bem. Nosso amigo posiciona, estrategicamente, um representante em cada uma das filas. Para quê? Lógico, se dar bem, ganhar tempo, levar vantagem em tudo, lei de Gerson, certo? Esse hábito ridículo é de uma cretinice sem tamanho, para mim é de uma mediocridade e burrice estupendas. Há uma linha divisória de comportamentos éticos difíceis de serem tipificados claramente, que guardam relevantes situações e que constituem motivo de atenção das pessoas sensatas e educadas. Estou falando de lixo jogado pela janela do carro, uso do celular em locais fechados, a espera elegante de que todos saiam antes de se entrar no elevador, e por aí vai, mas esses temas serão abordados oportunamente. Voltando à cômica cena, o senhor cérebro vai pagar para todos, os ingressos serão comprados em única vez, mas cada um vai avançando enquanto conversam, dão piscadinhas, mandam beijos, os mais distantes enviam torpedos informando que a fila deles está mais ligeira, ficam se monitorando em sintonia e atualizando o status da missão. Trata-se de operação delicada, importante, que exige concentração, mas, ao mesmo tempo, uma performance que transmita naturalidade e harmonia, praticamente uma evolução de escola de samba parada em frente aos jurados, fazendo bonito pra ficar bem na fita. Qualquer pessoa com o mínimo de inteligência sabe que, estatisticamente, filas andam praticamente juntas, nos bancos, no trânsito, no supermercado e, até para solteiros desesperados, a fila anda. Por essa máxima, evidente que os espertinhos chegarão juntos até à faixa amarela do caixa e ouvirão, ao mesmo tempo, a tão esperada senha libertadora daquele suplício: o famoso ‘próximo da fila’. Aí vem a melhor parte. Num passe de mágica, simetricamente, dirigem-se todos para a fila do provedor financeiro que irá compensar o esforço concentrado da comunidade com o tão esperado ingresso. Alegria geral, os incautos se abraçam, riem e, cientes da estratégia bem executada, preparam-se para a próxima etapa: a fila da pipoca.

sexta-feira, 16 de março de 2012

DA SÉRIE: COISAS QUE ME AZUCRINAM – PARTE 1 - A GRAMA

Fico indignado quando vejo uma placa de: NÃO PISE NA GRAMA. Conto até dez, pois dá vontade de pisar é na placa. Explico: quer coisa mais natural pra se pisar do que grama? Grama foi feita pra ser pisada. Pisar em grama é bom demais da conta. Ela existe pra isso. Se não pisada sua existência carece de sentido, não se justifica. Detalhe: não estou falando dessas gramas especiais japonesas, cheias de frescura, frágeis, que não aguentam chuva, frio ou trotes de filhotes de galgo. Falo das gramíneas, divulgadas pelas revistas agropecuárias especializadas, que constituem o mais importante grupo de plantas daninhas herbáceas: grama-batatais, capim-canela, capim-oferecido, rabo-de-burro, amargoso, pé-de-galinha, grama-de-burro, sapé e capim-navalhão, entre outras. São resistentes e ótimas de se pisar. Mas aí, vem o fiscal todo importante e manda pregar a maldita placa. Ninguém pisa, trata de desviar, crime inafiançável, cadeia pros pisadores de grama. Eu posso com isso? Fico imaginando um sujeito desses num clube de golfe, sofrendo ao ver aquela imensidão de grama bonita, aparadinha, em desníveis planejados estrategicamente e sendo pisada por todo mundo, levando bolada, tacos de ferro arrancando tufos sem piedade. O sujeito tem ataque de histeria com rigidez catatônica. Sente-se ema e quer enfiar a cabeça num daqueles buracos. O golfista dá aquela tacada sensacional, ouve-se, em afinado coro, o público bradar a última das vogais e sair, em comitiva, atrás do tigrão-da-floresta de plantão. Nessa maluquice sem fim que virou a vida da gente, no limite do limite, penhasco de um lado e abismo do outro, a melhor coisa a fazer é tirar os sapatos de couro e borracha a nos isolar das raízes, a nos entupir de radicais livres. Livre-se deles. Depois, caminhar, lentamente, descontraidamente, pisando naquela grama gostosa, úmida do orvalho matutino, fria nas noites de inverno das nossas almas inquietas, um merecido mergulho na piscina daquela criança ingênua e franca que habita nossos sonhos e que nos incita a sermos felizes de novo. Em tempo: agora falando sério, não precisa sair chutando placas, mas não deixe de caminhar na grama, valeu?

domingo, 4 de março de 2012

A VEZ DO BRASIL MUDAR A VOZ DO BRASIL

Durante muitos anos o famoso bordão anunciava: ‘em Brasília, dezenove horas’. Depois mudou para: ‘Sete horas em Brasília’. Aí, direto e reto, entra ‘O Guarani’, ópera de Carlos Gomes, adaptada para ritmo de samba, forró, choro, roda de capoeira, bossa nova, moda de viola e até techno! Pronto. Isso dá um desânimo no pacato cidadão, sobretudo quando se está preso no engarrafamento, sem áudio cd, naquela dependência agradável do rádio amigo de quase todas as horas, menos de sete às oito da noite. Transmissão obrigatória em todas as rádios brasileiras, à exceção das mídias via internet e tv por assinatura, ‘A Voz do Brasil’ é um antiviagra, um paralisante crioterápico, um parafuso com a ponta virada pra cima na entrada da porta à espera de quem vai ao banheiro às três e meia da manhã. Ninguém ouve mais esse martírio. Nem motorista de táxi. Nem vigilante de obra, com aquele radinho que tem capa de couro. O sujeito desliga na hora, pois a pilha está cara. Criado em 22 de julho de 1935 por Armando Campos, para popularizar as idéias do amigo Getúlio Vargas, inicialmente chamou-se ‘Programa Nacional’ e era apresentado por Luiz Jatobá. De 1938 a 1962 passou a se chamar ‘A Hora do Brasil’. Por determinação do presidente Médici, a partir de 1971 recebeu o nome de ‘A Voz do Brasil’. Depois o artigo foi retirado e permanece até hoje: 'Voz do Brasil'. Em 1995, entrou para o Guiness Book como o programa de rádio mais antigo do Brasil e é, também, o noticiário mais antigo entre as rádios do Hemisfério Sul. Quem não acredita, pode conferir no wikipedia, que não me deixa mentir sozinho. Apesar da veiculação obrigatória imposta pelo Código Brasileiro de Telecomunicações para todas as rádios brasileiras, algumas delas, da capital paulista e, paradoxalmente, do estado do ditador gaúcho, amparadas por liminares, estão desobrigadas de sua transmissão. Estatisticamente, cidades das regiões norte e nordeste são as que mais ouvem o programa, provavelmente pela falta de informativos diários de política, economia e cultura e da massificação de rádios regionais que priorizam a grade com musicais populares. Entendo que a sociedade precisa se atentar para discutir e excluir resquícios do período da ditadura militar que restaram impregnados no cotidiano brasileiro, entre eles voto e horário político obrigatórios e a manutenção, por parte de órgãos oficiais, da ocupação de espaços estratégicos importantes na mídia. Do ponto de vista prático, único, da comunicação, o programa não se justifica mais, tamanha a rapidez com que as notícias e divulgações oficiais são apresentadas e atualizadas na internet em tempo real e, mesmo, nas redes de televisão por assinatura. Dificilmente haverá situações em que o governo mantenha reservada alguma notícia a ser divulgada, de forma inédita, às sete da noite. Há recentes discussões sobre a obrigatoriedade de transmissão do programa, inclusive com projeto de lei na pauta de votação para os próximos meses. Infelizmente, essa flexibilização considera apenas a possibilidade de alterar o horário de início do programa para as 19, 20 ou 21 horas em rádios particulares não educativas. Rádios de concessão educativa, públicas, legislativas, comunitárias e estatais permaneceriam com a obrigatoriedade normal. Há espaço de alterações pontuais para rádios particulares que desejem transmitir jornada de futebol no horário de 19 às 22 horas, mas com o prévio consentimento de órgãos competentes. Acho que as alterações deveriam ser mais radicais e efetivas. Penso que deveria haver um rodízio semestral entre todas as rádios de uma mesma cidade, por todo o país, de forma que apenas uma delas transmitisse o programa diariamente. Com isso, seria preservado o direito àquele cidadão que desejasse continuar ouvindo o programa e o estado continuaria a divulgar ações e informações pertinentes às várias esferas do executivo, legislativo e judiciário que utilizam o programa. Com a palavra, organismos sociais, representantes das mídias e o povo brasileiro, com sua voz, a voz do Brasil!