domingo, 9 de dezembro de 2012
NÃO SAIA DE CASA SEM SUA MEIA LUPO
A cerimônia religiosa prosseguia em clima de completa harmonia e participação dos fiéis. O jovem pároco se preparava para concluir a pregação do evangelho, quando estabeleceu-se uma pequena confusão entre os presentes, seguida de manifestações de espanto, barulhos e gritos de mulheres pedindo ajuda. Curiosa e preocupada, a multidão concentrou-se em torno do grupo que tentava ajudar alguém caído no chão. Era Josivaldo, que passara mal repentinamente. Aflita, Gregorina, sua mulher, desabotoara sua camisa pólo amarela para ele respirar melhor, mas não estava adiantando. Enquanto alguém teve a ideia de chamar o serviço médico, amigos o carregaram e o deitaram no banco de madeira. Pessoas usavam os livretos de cânticos para abanarem Josivaldo, outros resolveram tirar-lhe os sapatos e colocar suas pernas no alto do banco. Foi quando Gregorina experimentou aquela terrível visão que a devastou mais do que o infarto do marido: uma de suas meias estava furada, o dedão cumprimentava e batia continência a todos. Nem em seus piores pesadelos, Gregorina, tímida, reservada, imaginara que alguma dia passaria por uma situação tão constrangedora daquelas. Quantas vezes ela insistira para que o seu amorzinho jogasse aquela meia fora, mas ele não a ouvia. Tantas vezes, durante os jogos da estrela solitária, ela tentara cortar aquela unha enorme, independente e exibida, mas ele reclamava que estava concentrado na peleja e que o procedimento poderia esperar e ser feito mais tarde. Agora ela se via ali, em plena igreja, com toda a comunidade eclesiástica, suas vizinhas e amigas presenciando aquela situação patética, seu amado aguardando o socorro e todos ali, constritos, contemplando aquele dedão saindo da meia. Gregorina tentou se acalmar, mas a vida imita a arte, daí começou a passar um filme em sua cabeça, suas colegas de dança na academia comentando a cena, Jane Godoy publicando a fatídica foto na coluna social com os dizeres: Josivaldo e sua meia, ambos em péssimo estado; provavelmente Márcio Cotrim criaria um novo verbete - meia furada - e o publicaria no jornal de domingo. À medida que pensava, hipóteses outras se encadeavam em sua mente e a assustavam, como sua filha sendo ridicularizada na sessão de tingimento capilar, seu extrovertido neto correndo em volta do sofá a repetir: 'uma era vez' um vovô com sua meia furada no meio da multidão...E, pior dos mundos, quando a notícia chegasse ao conhecimento daqueles quatro sobrinhos endiabrados, cínicos, que perdiam a tia mas não a piada, aumentando, exagerando, criando detalhes, como faziam desde pequenos, com o propósito único de irritá-la e tirá-la do sério. Teria que cancelar as comemorações de passagem de ano, os almoços mensais especialmente preparados para aqueles capetas que agora se aproveitavam da situação. E mais, com a rapidez das redes sociais, a notícia cruzaria os estados e seria divulgada nos arredores da metrópole onde nascera, tudo por conta daquele outro sobrinho debochado, mais descarado que os quatro irmãos metralhas juntos. Aquilo tudo era castigo demais, depois de tantas orações, tantas novenas, não conseguia compreender a razão de tanto infortúnio. Felizmente, a ambulâcia chegou e, quando Josivaldo era conduzido de maca, Gregorina retirou seu xale comprado em Punta del Este e o jogou sobre os pés do amado, enquanto ligava para sua secretária separar um par de meias novas e um cortador de unhas bem afiado.
* Por tratar-se de história verídica, a pedido da família, os nomes dos personagens foram trocados.
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