Quando o amor apresentar-se no meio da madrugada,
dê-lhe atenção, cuide para que não escorra pelos dedos,
ofereça-lhe tempo, disponibilize-se, respire e o mereça,
guarde na caixa antiga de si mesmo as oportunas reservas,
os mais longínquos projetos de viagens, as melhores intenções.
Abstenha-se de dar-lhe ordens embaladas em papéis de sugestões,
seja-lhe audição para que se desmereça, deixe que desmorone,
que a tudo dificulte e assuste, eis que anseia lançar-se em mar revolto,
nada há de comum, conservador ou previsível nesse momento,
trate, portanto, de esvaziar-se e cuide de aprender tudo de novo.
Saiba que é permitido experimentar e sentir, mas não revelar,
o amor não quer ouvir, só precisa ser amado e surpreendido,
não o sufoque com cobranças, programações e compromissos,
deixe-o livre para que não lhe brote o pânico da não retribuição,
do desencanto e do sofrimento que sutilmente lhe ronda a alma.
O amor tem urgência diária de carinho, criatividade, humor e respeito,
tudo acrescido a doses precisas de ironia no jogo emocional da sedução,
daí, o não apontará para o seguir em frente e o sim a possíveis abismos,
quando o amor sentir-se confiante, confortável e pronto para instalar-se,
só então as tonalidades cinzas e negras cederão lugar ao vermelho.
sexta-feira, 29 de março de 2013
quinta-feira, 21 de março de 2013
AUTOESTIMA X EGO
Altos e baixos. Subindo e descendo. Assim é o termômetro da vida, o eletrocardiograma que nos impulsiona e nos traz de volta, o tobogã dos parques temáticos que habitam nossa existência. Estamos sempre a questionar coisas e momentos que não se explicam, sem lógica, situações que acontecem de forma rápida e circunstancial. Ao acharmos que estamos no embarque de um trem a caminho de uma nova trilha, o fim se apresenta, nos decepciona, nos enche de tristeza e de inseguranças. Deparamo-nos com tantas situações complexas e singulares que espantam nossa mente e nosso coração, trazendo-nos angústia e sofrimento. Foram tantos os momentos de necessidade de recomposição mental e espiritual, verdadeiros labirintos de testes e provações, estrada íngrime com abismos e grutas escuras, que precisei entender e diferenciar autoestima de ego para acalmar minha alma e seguir em frente. Com frequência, confundimos essas sensações. Achamo-nos sozinhos, abandonados, ficamos sem referências, confusos. Autoestima é acreditarmos em nós mesmos, deixarmos a criança pura e boa que existe dentro de nós falar mais alto, sabermos que somos éticos, justos, bons e solidários. Não importa o que pensam de nós ou que aparentemente não sejamos competentes para demonstrar o nosso valor. O que conta é o nosso respirar, nossa emoção, nossos instintos naturais, nosso anjo da guarda a nos guiar pela floresta escura com tranquilidade e confiança. Ego é outra coisa, é a parte ruim, é a ansiedade, o medo, a fraqueza, o desequilíbrio. Ego é a busca de reconhecimento o tempo todo, querer ser elogiado, contentar-se com superficialidades que nos envaidecem e não nos engrandecem. Acho curioso e, às vezes engraçado, ouvir pessoas dizendo que receberam ou realizaram algo que 'fez bem para o ego delas', 'isso inflou meu ego', repetem, equivocadas. A mídia dedica um espaço enormemente ridículo às mediocridades de celebridades com suas imunidades e paredões que dividem o nada do nada. Grande parte dos órgãos de comunicação dita os conceitos, os modismos de forma irresponsável, mirando-se num espelho três por quatro de seu descompromisso e alienação para difundir uma imagem distorcida, despropositada de qualquer intenção cultural. Humildade, agradecimento, gentileza, tranquilidade são pontes que nos ajudam a fortalecer a autoestima. O ego nos confunde, nos limita, nos enfraquece, nos deprime e nos cega. O ego diz 'muito obrigado e faça o favor'. A autoestima diz 'muito agradecido e pode dar-me o prazer?'. A diferença é gritante. Por uma porta entram obrigações, favores, débitos, pendências. Por outra saem agradecimentos, prazeres, leveza, naturalidade. Como amante da língua portuguesa, adoro a palavra autoestima, composta pelas cinco vogais, que se entrelaçam e convivem com as consoantes para explicar quase tudo desse mundo mundo vasto mundo, que o poeta de Itabira falou.
domingo, 10 de março de 2013
TEMPO DE FALAR SOBRE O TEMPO – 38.45
Há muito queria escrever esta crônica sobre o tempo. Pacientemente, esperei o momento certo, fiquei ali sentado, dando um tempo, quando fui contemplado com o sinal de sua presença. Revelou-se de forma inesperada, sutil, marcante. Registro formal preciso, dizia-me que tudo daria certo e na hora certa, que necessitaria exatamente de tempo, para pensar, fazer e melhorar. Tudo mudou desde então. Foi-se o período sabático de reciclagens, prenúncio de novos tempos, novo ciclo, a roda da fortuna a brindar-me em círculo virtuoso. O conceito de tempo é tão delicado, relativo e particular. O que para uns é muito rápido, para outros é insuportável de se aguardar. A palavra tempo tem origem no latim. Ela é derivada de tempus e temporis, que significam a divisão da duração em instante, segundo, minuto, hora, dia, mês, ano, etc. Os latinos usavam aevum para designar a maior duração, o tempo. A palavra idade, por exemplo, surgiu de aetatis, uma derivação de aevum. Tema recorrente na música, literatura, cinema e no cotidiano, claro e inegável que há tempo para tudo. Há várias passagens bíblicas que falam sobre o tempo, entre elas o Livro dos Eclesiastes 3: ‘Tudo tem o seu tempo determinado e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer e de morrer; tempo de plantar e de arrancar o que se plantou; tempo de derrubar e de edificar; tempo de chorar e de rir; tempo de prantear e de dançar’. Um dos maiores clássicos da literatura brasileira, ‘O Tempo e o Vento’, de Érico Veríssimo, é uma trilogia épica que remonta ao passado histórico do Rio Grande do Sul dos séculos XVIII a XX, focaliza as disputas de terra e poder e é dividido em O Continente, O Retrato e O Arquipélago, chegando até à ditadura Vargas. ‘O tempo não para’, cantava o poeta Cazuza, que foi ao inferno, conheceu os Jardins do Éden e voltou. Esse, que é um de seus maiores sucessos, foi composto por ele, Arnaldo Brandão e pelo dramaturgo americano Howard Ashmann, quando parte da mídia já o dava como morto. Senso comum ouvir pessoas reclamando que não têm tempo para nada, que seus dias deveriam ter pelo menos trinta horas e queixando-se de que, a cada ano, o tempo está passando mais rápido. Há o ‘Tempo Rei’ de Gilberto Gil, transformando as velhas formas do viver e a ‘Oração ao tempo’ de Caetano que, sutilmente o compara ao amor paterno: ‘és um senhor tão bonito quanto a cara do meu filho’. Uma de minhas favoritas é ‘Resposta ao Tempo’, de Cristóvão Bastos e Aldir Blanc na magnífica voz de Nana Caymmi, com suas batidas na porta da frente. Os práticos de plantão abusam da máxima ‘tempo é dinheiro’ como formato de verdade universal. Às vezes o dinheiro prolonga o tempo, mas não o compra ou controla. A propósito, partindo do conceito de que a vida imita a arte, o cineasta Andrew Niccol dirigiu e lançou em 2011 ‘O preço do amanhã’, com Amanda Seyfried e Justin Timberlake. No roteiro ambientado em futuro próximo, as pessoas nascem com um relógio integrado ao corpo, que controla o tempo restante de vida. Aos vinte e cinco anos, ganham um ano de bônus e, para viver mais, terão que comprar horas adicionais. Nessa sociedade, os ricos e poderosos conseguem ganhar décadas de uma só vez, podendo até se tornar imortais. Os outros têm de pedir esmolas, pegar emprestado ou roubar mais horas para chegar vivo até o final do dia. Ficção, previsão ou predição? Na comédia romântica de 1993, ‘Feitiço do tempo’, o diretor Harold Ramis aborda o tema de forma leve e traz a ideia de como podemos aproveitar o tempo e as oportunidades a cada dia. Contracenando com a linda Andie MacDowell, Bill Murray, repórter de televisão que faz previsões de meteorologia, vai a uma pequena cidade preparar matéria sobre a chegada do inverno. Pretendendo ir embora o quanto antes, inexplicavelmente, ele fica preso no tempo e é condenado a repetir os mesmos eventos do dia anterior. Ganhador de cinco Oscars em 2012, ‘A invenção de Hugo Cabret’ é uma pérola para os amantes da sala escura. O genial diretor Martin Scorsese homenageia Georges Méliès,considerado o inaugurador da narrativa cinematográfica, pioneiro da ilusão e dos efeitos especiais, já no século XIX. Baseado no romance homônimo de ficção histórica do americano Brian Selznick, de 2007, no princípio o filme centra-se em Hugo, magistralmente interpretado por Asa Butterfield, órfão que, nos anos trinta, mora clandestinamente numa estação de trem parisiense. Ele acerta grandes relógios e furta para sobreviver, sempre fugindo do inspetor que nunca o alcança porque o aparelho que usa na perna o impede de correr. Hugo é pego por um velhinho que toca uma loja de brinquedos na estação e que se apodera do seu maior tesouro, um caderno herdado de seu pai relojoeiro, com as instruções para reparar um antigo autômato em forma de menino. Inseguros e infelizes, casais em crise resolvem dar um tempo, que é uma pausa, um interromper do tempo conjunto. Americanos usam a expressão ‘give me a break’ para afastar alguém de forma abrupta: dá um tempo! Nos ringues, o gongo do tempo de final do assalto interrompe o massacre que resultaria em iminente risco de morte. Na ânsia de ouvir uma boa notícia, famílias se contentam com a imprevisibilidade médica e científica de que só o tempo dirá sobre o estado e a evolução do quadro do paciente. Ao final de noventa minutos de jogo, técnicos, jogadores e torcida culpam e massacram juízes por ter-lhes furtado trinta preciosos segundos de tempo extra que, acreditam, seriam suficientes para ganhar a partida. O tempo corrige quase tudo, as decepções amorosas, as decisões inconsequentes, os equívocos financeiros, o ódio e as injusticas, o tempo leva e traz amarguras, o tempo não tem pressa, está à nossa disposição e não está nem aí para nós.
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