domingo, 27 de fevereiro de 2011

COLO DE MÃE

Mergulho no tempo. Vinte e sete de fevereiro de setenta e seis, Divinópolis, mineira cidade do Divino. Desde lá mamãe nos deixou, seguiu seu caminho, partiu para outros planos de vivência e convivência. Já são mais de dois terços de minha existência sem a sua presença física, a vida passou muito depressa e a emoção ficou congelada no tempo. Porque muito doente e em longo processo de sofrimento, concordamos, sem combinação prévia, que foi o melhor que lhe aconteceu. Aceitei mas não entendi, acostumei mas não esqueci, toquei o barco mas o olhar ficou naquele cais. Fiquei assim, sem latim, sem treino, sem muita conversa, sem troca de intimidades, sem desabafos, ficou assim. E o que ficou, o que teria sido, o que não foi e nunca será? Não fosse o amor, a serenidade e o exemplo de nosso pai, nada teria valido a pena, nada teria feito sentido, seria vida desvivida. Mas tudo valeu, evoluiu, os dias se alternaram, as estações vieram e se foram, emoção e razão caminhando lado a lado, lágrimas contidas e sorrisos amarelos ocupando todos os espaços. Aos dezessete, quando se apresenta a fase adulta, quando ficam pra trás as tolices da adolescência, quando se quer e é preciso mudar o verbo e dizer tudo o que não foi dito, elogiar, agradecer, desculpar-se, nada disso foi possível porque ela não estava mais lá. Uma vez sem Lia, eu lia e relia meus cadernos e anotações do que me fazia bem e me confortava, eu escrevia e declamava em voz alta pra mim mesmo que algum sentido e que coisas boas estavam no forno da alma, no aroma perfumado dos temperos do bem, na neblina que esconde e aos poucos mostra a curva bem feita da vida. Na conversa diária desses trinta e cinco anos muito já foi dito, agradecido, pedido e confessado, coisa de mãe e filho, olhares que já vêm com legendas, risos com trilha musical, lágrimas coloridas, arco íris da vida que tudo constrói e explica. Lembro que era linda, séria, carinhosa, presente, ela era um presente! Sua beleza ficou impregnada e brilhante nos rostos e maneiras de filhos, sobrinhas, netas e bisneta, e isso é muito bom de ver. Quando o escuro se pronuncia e o silêncio invade minhas entranhas, pego minhas coisas e entro num lugar imaginário, universo próprio de quem fez por merecer um pouco de paz, uma espécie de depósito onde os sonhos foram guardados, onde tudo foi dito e nada ficou a dever. É de lá que vem o ar, é lá onde eu fico, durmo, acordo e volto para os que amo.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

A MOÇA DA BICICLETA

Ela adorava as manhãs de sábado. Esperava ansiosamente que chegassem logo as manhãs de sábado. Pegava sua bicicleta e saía, feliz, pelos vilarejos, pelos campos, passava por rios, sempre alegre. Ia visitar os enfermos e necessitados, doentes crônicos ou aqueles que tivessem passado por um pequeno acidente qualquer. Era um anjo que andava de bicicleta. Todos a cumprimentavam e ela acenava, sem diminuir o ritmo das pedaladas, precisava fazer muitas visitas. Era uma reabilitadora. Adorava fazer isso, ajudar pessoas a reaver seus movimentos, voltar à rotina diária, recuperar a auto-estima e tocar o barco da vida. Era uma reabilitadora de almas. Sentia tamanho prazer em seu ofício, acreditava que todos mereciam uma segunda chance e tomava para si as dores, as dificuldades, toda espécie de deficiências. Não havia limitação ou impossibilidade para ela em sua missão, tudo podia sempre melhorar, nada havia que a desanimasse ou que a fizesse desistir do seu trabalho. Era uma reabilitadora de corpos, de almas e de mentes. Na adolescência, acostumara a cuidar de sua mãe com massagens, compressas e conversas. Sabia contar estórias. Gostava disso. Ela as inventava enquanto deslizava as mãos, de forma cadenciada e suave. Suas mãos pequenas e macias percorriam os corpos, os músculos, nervos e ossos preguiçosos sucumbiam ao seu toque e respondiam de forma surpreendente. Criava uma estória para cada paciente, velhos, crianças, a todos dedicava um tema. Ao final dos encontros, prendia a estória no varal da imaginação de cada um e retomava do ponto exato, a cada sábado, a cada visita. Era uma reabilitadora e todos mereciam uma segunda chance. Sonhava conhecer o mar, viajar e ficar deitada no convés de uma embarcação olhando a lua e as estrelas, naquela imensidão sem fim, ouvindo o barulho das ondas e sentindo o vento forte em seu rosto. No fundo de seu coração, sentia que esse sonho nunca chegaria, que nunca sairia daquele lugar, que tanto amava e onde crescera. Sabia dosar sonhos, queria contar estórias, podia ajudar pessoas. Sempre haveria manhãs de sábado. Pegava sua bicicleta e saía, feliz.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

O ABC DO BBB

Durante o comercial, o charmoso apresentador manda aquela vinheta, de boca cheia: preparem-se para visitar a casa mais falada do país, a mais famosa, a mais animada!!! As famílias brasileiras se ajeitam no conforto de seus sofás, impacientes, curiosas, de norte a sul, dos oito aos oitenta: vai começar o abc do bbb. O falador que locuta a chamada pula a parte informativa de que serão hipnotizados, torturados e alienados, tudo em nome da cultura e dos bons costumes locais. Já sei, muitos não concordam, outros se sentem ofendidos, serei chamado de radical, insensível, mas a vida é isso, cada um no seu quadrado, e bota quadrado e enquadramento nisso... Confesso minha ignorância, minha incapacidade de entender a riqueza da formatação do programa, os diálogos, a trama, tudo tão sofisticado que me passa batido, não consigo captar a magnitude desse evento que literalmente une e pára o país. Quando aqui chegou, o programa já fazia sucesso nos States, Itália, França, Japão, entre outros. A diferença é que esses países interromperam a transmissão dois anos depois, pela baixa audiência e desinteresse dos patrocinadores, mas aqui a coisa pegou e já se vai mais de uma década de sucesso. Outros canais tentaram competir, Casa dos Artistas no Sbt, A Fazenda na Record, mas nada se compara ao BBB. Fico impressionado com a qualidade dos diálogos, as argumentações, quando será que a gostosona siliconada vai beijar o saradão, estão apenas se apalpando ou rolou uma transa debaixo do edredon? Será assim a vida real? Quem, com um mínimo de sanidade mental, fica falando sozinho no quarto, olhando para as paredes, inconformado, lágrimas escorrendo, enquanto se posiciona em direção à câmera 'escondida' no teto? Em que mundo de tanta mediocridade haveria habitantes desse naipe? A emissora pega os espectadores numa hora de descontração, banho tomado, jantar maneiro, horário nobre, momento perfeito para educar, informar, questionar, mas a direção prefere usar a grade para alienar, deseducar, inverter valores, dar espaço e tornar famosas pessoas sem o mínimo de talento dramático, dispostas a tudo para virar celebridade a caminho da ilha de Caras. Penso que, nos piores delírios maquiavélicos dos produtores, a idéia é apresentar a novela das oito, ou nove, sei lá, onde famosos tentam se comportar como pessoas comuns e depois, no bbb, comuns tentam se passar por famosos. Fico imaginando um reality show desses com pessoas realmente cultas, inteligentes, interessantes, discutindo e apresentando temas, de forma didática, popular, acessível, sem desfiles melodramáticos de apresentação nem egos inflados, imagino como seria produtivo, agradável, um verdadeiro serviço prestado à cultura, vindo de quem domina e concentra a mídia nacional. Houve projetos, no passado, quando concertos eruditos foram apresentados ao ar livre e eram concorridíssimos, a população mais humilde respondia de forma emocionante, com atenção, interesse e gratidão a oportunidade de acesso a eventos daquela natureza. O poeta Fernando Brant já cantou a pedra há muito tempo: 'todo artista tem de ir aonde o povo está, se for assim, assim será'! Beleza, mas corta, pois o apresentador charmoso está de volta e, de forma natural, minha mente busca adjetivos e termos afins com as iniciais do programa: bbb de bobagem, de besteira, de brega, de bigamia, de babaquice, de briga, de baixeza, de baitolagem, de bial.