quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

O ABC DO BBB

Durante o comercial, o charmoso apresentador manda aquela vinheta, de boca cheia: preparem-se para visitar a casa mais falada do país, a mais famosa, a mais animada!!! As famílias brasileiras se ajeitam no conforto de seus sofás, impacientes, curiosas, de norte a sul, dos oito aos oitenta: vai começar o abc do bbb. O falador que locuta a chamada pula a parte informativa de que serão hipnotizados, torturados e alienados, tudo em nome da cultura e dos bons costumes locais. Já sei, muitos não concordam, outros se sentem ofendidos, serei chamado de radical, insensível, mas a vida é isso, cada um no seu quadrado, e bota quadrado e enquadramento nisso... Confesso minha ignorância, minha incapacidade de entender a riqueza da formatação do programa, os diálogos, a trama, tudo tão sofisticado que me passa batido, não consigo captar a magnitude desse evento que literalmente une e pára o país. Quando aqui chegou, o programa já fazia sucesso nos States, Itália, França, Japão, entre outros. A diferença é que esses países interromperam a transmissão dois anos depois, pela baixa audiência e desinteresse dos patrocinadores, mas aqui a coisa pegou e já se vai mais de uma década de sucesso. Outros canais tentaram competir, Casa dos Artistas no Sbt, A Fazenda na Record, mas nada se compara ao BBB. Fico impressionado com a qualidade dos diálogos, as argumentações, quando será que a gostosona siliconada vai beijar o saradão, estão apenas se apalpando ou rolou uma transa debaixo do edredon? Será assim a vida real? Quem, com um mínimo de sanidade mental, fica falando sozinho no quarto, olhando para as paredes, inconformado, lágrimas escorrendo, enquanto se posiciona em direção à câmera 'escondida' no teto? Em que mundo de tanta mediocridade haveria habitantes desse naipe? A emissora pega os espectadores numa hora de descontração, banho tomado, jantar maneiro, horário nobre, momento perfeito para educar, informar, questionar, mas a direção prefere usar a grade para alienar, deseducar, inverter valores, dar espaço e tornar famosas pessoas sem o mínimo de talento dramático, dispostas a tudo para virar celebridade a caminho da ilha de Caras. Penso que, nos piores delírios maquiavélicos dos produtores, a idéia é apresentar a novela das oito, ou nove, sei lá, onde famosos tentam se comportar como pessoas comuns e depois, no bbb, comuns tentam se passar por famosos. Fico imaginando um reality show desses com pessoas realmente cultas, inteligentes, interessantes, discutindo e apresentando temas, de forma didática, popular, acessível, sem desfiles melodramáticos de apresentação nem egos inflados, imagino como seria produtivo, agradável, um verdadeiro serviço prestado à cultura, vindo de quem domina e concentra a mídia nacional. Houve projetos, no passado, quando concertos eruditos foram apresentados ao ar livre e eram concorridíssimos, a população mais humilde respondia de forma emocionante, com atenção, interesse e gratidão a oportunidade de acesso a eventos daquela natureza. O poeta Fernando Brant já cantou a pedra há muito tempo: 'todo artista tem de ir aonde o povo está, se for assim, assim será'! Beleza, mas corta, pois o apresentador charmoso está de volta e, de forma natural, minha mente busca adjetivos e termos afins com as iniciais do programa: bbb de bobagem, de besteira, de brega, de bigamia, de babaquice, de briga, de baixeza, de baitolagem, de bial.

3 comentários:

  1. Mas é exatamente pelas palavras descritas na última linha que as pessoas cultas e interessantes não fazem um programa, pois o povo quer outro tipo de entretenimento, quer esse de b...,b....,b....
    E eu não entendo como o B...IAL caiu nessa!
    bj

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  2. É uma pena que os conceitos de distração mudaram tanto,a vida ficou muito materialista,o povo só pensa em dinheiro e............lamentável,me nego a asistir programas deste tipo,bjs

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