quarta-feira, 27 de julho de 2011

AMY, A CANTORA QUE NÃO CONHECEREMOS

As manchetes se repetiram à exaustão: Amy Winehouse é encontrada morta por overdose em sua casa, o que já era esperado pela imprensa e fãs. A prematura saída de cena da cantora britânica adiciona-se à estatística de outros artistas excêntricos, também vitimados pelas drogas aos vinte e sete anos: Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison, Brian Jones e Kurt Cobain. Os poucos shows e imagens disponíveis na curta carreira mostram-na, invariavelmente, bebendo e colocando o copo no chão em pleno palco, tropeçando nos fios, equilibrando-se no pedestal do microfone, esquecendo as letras ou criando confusões em tribunais e hotéis. Meu lado conservador pensa que é um absurdo inaceitável uma personalidade, de qualquer segmento, apresentar-se em público sem o mínimo de condições físicas, mentais ou psicológicas. Isso é falta de respeito para com a platéia, seja o evento pago ou gratuito, e depõe negativamente contra a pessoa em foco. Amy precisava de ajuda constante, não tinha condições de ficar sozinha e só deveria voltar a se apresentar quando estivesse física e emocionalmente equilibrada. Maior de idade, rica e famosa, recusou a intervenção do pai, que tentou várias vezes interná-la para reabilitação, mas ela disse e escreveu: no, no, no! É uma pena! Eu admirava muito o potencial de sua voz, seu estilo de cantar, sua irreverência estética trash e sua sinceridade em admitir e explorar questões pessoais nas letras que escrevia. Harmonicamente, suas canções eram simples, mas extremamente criativas já que, baseadas em informações e características jazzísticas, eram uma releitura do rhythm and blues, música negra americana que exige balanço, invenção rítmica, andamentos quebrados e voz rouca, elementos musicais típicos dos artistas da Motown Records nos anos setenta e incompatíveis com uma cantora inglesa, branca, pequena e de aparência frágil. Por isso, eu evitava as imagens depreciativas mostradas nos dvds ou clips e optava por degustar seu imenso potencial vocálico imaginando-a negra, ao ouvir seus dois únicos cds, Frank (2003), ótimo como primeiro trabalho e Back to Black (2006), uma obra prima que recebeu cinco grammies. Hábito que cultivo com frequência, prefiro analisar e apreciar cantores e cantoras em cds, pois, em se tratando de música, o som da palavra vale mais que mil imagens. Fico imaginando o que seria de sua voz e de sua carreira caso ela conseguisse se livrar dos efeitos do álcool e das drogas! Se, em curto espaço de tempo e com as cordas vocálicas tão agredidas ela produziu um excelente trabalho, ouso inferir que ela se tornaria a melhor cantora viva desta primeira metade do século. Alguns críticos citam Janelle Monáe, Dionne Bromfield e Adele como suas sucessoras. Sinceramente, pelo que produziram até aqui, acho que nenhuma delas chega perto do talento de Amy. Tive a oportunidade de ver e ouvir Etta James no House of Blues de Los Angeles, a dez metros de distância, essa sim, uma cantora extraordinária e que ainda se apresenta aos setenta e três anos, mas que também teve sua carreira e performance comprometidas pelas drogas. Para compensar o vácuo musical que Amy deixou, vazaram informações de que há registro de material inédito que ela teria gravado e que renderiam três ou quatro cds. Ótima notícia, diante de tanta mediocridade que tem sido lançada, sobretudo vinda do mercado norte-americano e travestida sob o rótulo de música pop. Minha música favorita dela é 'Love is a losing game'.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

BOLETIM DE OCORRÊNCIA NADA CONVENCIONAL

De acordo com o relato das testemunhas arroladas neste documento, o casal de namorados chegou ao restaurante do hotel e foi conduzido à mesa reservada para comemoração dos seis meses de intensa relação amorosa; disseram que escolheram vinho tinto da região de bordeaux safra 2004, água san pellegrino, escargots gratinados à provençal e torradas com manteiga de ervas como entrada; que brindaram e começaram a rememorar o dia em que se conheceram naquela agradável tarde de outono na capital parisiense; que, devido ao efeito do vinho, sucedeu-lhes descontrolado tesão(sic) e que os mesmos começaram a se beijar, inicialmente de forma discreta e romântica, mas que o desejo foi-lhes tomando o juízo, de forma que os beijos iniciais deram lugar a amassos(sic), mãos desgovernadas que percorriam-lhes os corpos mutuamente; que, a despeito das discretas solicitações do maître para que evitassem inusitada cena que causava burburinhos e frisson(sic) nos demais clientes, o casal se instalou debaixo da mesa, enquanto peças de suas roupas eram arremessadas ao léu, inclusive soutien de renda na cor prateada que causou a queda do suporte metálico utilizado pelo garçom para manusear o maçarico enquanto preparava o crème brûlée na mesa ao lado; que a faísca do citado equipamento atingiu a toalha branca de linho, o que teria ocasionado um pequeno incêndio, causando tumulto e histeria generalizada nos comensais; que, nada obstante os diversos baldes de gelo utilizados para debelar as chamas e que inundaram o tapete, o jovem casal permanecia debaixo da mesa dando prosseguimento à jornada sexual a que se submeteram, diante dos olhares atônitos e incrédulos da pequena multidão que se pusera a observar a inusitada e grotesca cena. Fato seguinte, o casal relatou que deixou o tumultuado local por falta de condições mínimas de concentração e dirigiu-se ao hall do hotel com a intenção de dar prosseguimento à saga amorosa em suíte previamente reservada na cobertura, com hidromassagem e vista panorâmica da cidade; que adentraram o elevador e que a porta do mesmo ficou emperrada tendo em vista que parte do vestido da depoente, na cor branca, ficou preso na porta e que, pressentindo a situação de perigo que se anunciava quando o elevador começou a mover-se, o cavalheiro retirou um pé de sapato na cor preta e o colocou no canto inferior esquerdo da porta, enquanto puxava o tecido do vestido e apertava aleatoriamente vários botões no console digitalizado do equipamento; que o elevador travou a tempo de acontecer uma tragédia, mas que a mulher ficara numa posição extremamente desconfortável, considerando que ainda não fora possível soltar o vestido acima descrito; que o sistema de alarme disparara emitindo som extremamente alto e que tornava inaudível a tentativa de comunicação feita através de aparelho celular; que, após quinze minutos aproximadamente, conseguiu finalmente remover o tecido e o pé de sapato, o que liberou o fechamento da porta, mas que ocasionou movimento abrupto do elevador, e que este percorreu doze andares em queda livre, deixando os ocupantes bastante tensos e preocupados, assim como a equipe de emergência, que adotou providências de isolamento de curiosos que se dirigiam ao local, mas que o corpo técnico a tudo assistia sem condições de atuação positiva no sentido de solução do problema; que, finalmente, o elevador efetuou parada na altura da sobreloja, evitando, com isso, a colisão do mesmo com o chão; que a perícia efetuada em seguida não encontrou motivação técnica plausível para o estacionamento relativamente suave do elevador e que caberiam duas linhas de explicação para o ocorrido: extrema sorte dos ocupantes e/ou ação de evento sobrenatural que culminou com o encerramento do caso sem vítimas ou maior gravidade. Nada mais tendo a declarar, o casal e testemunhas foram liberados, levando consigo cópia deste boletim de ocorrência.

terça-feira, 12 de julho de 2011

GILBERTO GIL + ZÉLIA DUNCAN = VERSATILIDADE

Gilberto Passos Gil Moreira, baiano, 69 anos e Zélia Cristina Duncan Gonçalves Moreira, carioca, 47 anos. Além do último sobrenome, o que teriam em comum esses dois artistas brasileiros? Ok, são cantores, músicos e compositores. Muito mais que isso, no que se refere a talento, eles representam o que há de mais versátil, completo e moderno na música contemporânea brasileira e, de certa forma, universal, pois ambos cantam também em inglês e suas performances cênicas não têm fronteiras estéticas. Verdadeiros curingas, eles conseguem se sair extremamente bem em shows ao ar livre, em espaços fechados - salas intimistas ou grandes teatros – em entrevistas e programas de televisão, em cds e dvds gravados em estúdios ou direto dos shows, ou seja, mídias e espaços distintos. Eles jogam nas onze. Em se considerando as várias categorias que envolvem o trabalho artístico musical, acho difícil encontrar nomes alternativos que sejam tão competentes e versáteis quanto eles. A seguir, de forma separada, um pouco do que penso sobre cada um desses artistas.

Gil declara influências marcantes de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e João Gilberto. Autodidata, utilizou essa mistura antagônica de valores e criou uma matriz musical que não tem fronteiras ou preconceitos. Nela tudo cabe em dinâmica e criatividade. Daí vieram mesclagens culturais em suas relações com artistas do mundo do reggae, do pop, ícones da bossa nova, sambistas, gente do funk e nos ritmos baianos, como o afoxé. Criou a Tropicália, movimento musical e cultural importante e produziu, em sequência, trilogia de lps fantásticos: Refazenda (75-rural), Refavela (77-urbano) e Realce (79-mundial). Gravou 57 álbuns e ganhou 8 grammys, entre milhares de participações em trabalhos de outros artistas, festivais internacionais e trilhas para cinema. Perfeccionista e talentoso, consegue fazer um cd de puro rock e deixar os punks e metaleiros de plantão impressionados. O mesmo desempenho se aplica para forrós ou sambas tradicionais, harmonias bossanovistas ou em músicas intimistas melodicamente ricas que retratam seu mundo e suas relações pessoais. Como letrista, destaca-se em seu trabalho a preocupação com temas sociais, humanistas e ambientais, frutos de sua origem interiorana e suas raízes africanas. A exemplo dos grandes vinhos tintos, Gil tem uma energia que se mostra cada vez mais consistente e surpreendente.

Zélia nasceu em Niterói, mas dos seis aos dezesseis anos morou em Brasília, onde virou cantora e desenvolveu estilo próprio em performances nas noites da capital. Lembro-me de vê-la se apresentando no Amigos e Bar Bom Demais, espaços alternativos daqueles anos oitenta. Na época, impressionou-me a rara textura de timbre médio que hoje flutua seguro em extenso registro vocálico e que lhe dá suporte para ótimos e variados desempenhos musicais. Ela é uma artista completa. Musicalmente, de forma simultânea, consegue ser novidade e vanguarda, clássica e conservadora. Em 2001 lançou o seu melhor cd, Sortimento, ótimo repertório com algumas parcerias inéditas e regravações consistentes. Sua carreira se divide antes e depois dessa produção, que mostra sua versatilidade e lhe proporciona uma espécie de blindagem contra rótulos ou segmentação de estilo. Em curto espaço de tempo gravou outra obra prima com releituras de obras consagradas da mpb - Eu me transformo em outras-2004 -, e substituiu ninguém menos que Rita Lee nos concertos que marcaram a volta dos Mutantes em Londres, Estados Unidos e Brasil, em 2006 e 07. A exemplo de Gil, ela canta samba, reggae, rock e música brasileira, com competência e originalidade. Tem condições de produzir um cd só de blues, de jazz ou de choro com a mesma propriedade, o que lhe abre portas para uma carreira internacional de sucesso que, espero, aconteça brevemente.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

O TRAMPOLIM DA ALMA

Com o passar dos anos, começam a ficar frequentes aqueles momentos em que retomamos situações de nossas vidas, flash backs involuntários de nós mesmos, depósitos emocionais de comportamentos questionáveis, registros capciosos de poeira em baixo de nossos tapetes. Tem jeito não, eles insistem em montar acampamento e mostrar presença em cada vacilada de nossa concentração, no ponto morto do sinal de trânsito, no aconchego da fronha limpa e macia, na mudança da série nos aparelhos da academia, no abraço carinhoso dos filhos que sujam de chocolate a camiseta recém saída da lavanderia. Como evitar, resistir ou relevar? Atire o primeiro aparelho touchscreen, sempre disponível e nos disponibilizando a tudo e a todos, aquele que não passou por experimentações da natureza! Em meio ao nada da vida atribulada, nas requisições de atenção à mediocridade urgente, escondido entre toda aquela papelada a ser lida e assinada, eis que eles se apresentam, faceiros, em câmera lenta, folgados, acomodados e confortáveis no ar condicionado de nossos infernos astrais. Como evitar, resistir ou relevar? Quantas oportunidades perdidas para, no momento certo e pessoas em questão, desfilar o repertório completo de indelicadezas, desopilar incontestáveis argumentações em ordem crescente numérica, desencadear um arrazoado de motivos que se utilizem de vasto e complexo vocabulário da fina flor do lácio inculta e bela. Longe disso, quantas confissões gastas com ouvintes equivocados, tantas verdades reveladas em situações inadequadas, um sem número de declarações amorosas arquivadas sem direito a recursos, inúmeros discursos ensaiados com direito a suporte de iluminação, figurino e música, mas que foram mal representados e, por consequência, mal interpretados, tiros nos pés em pelica de cromo alemão nos sapateados criativos dos musicais de nossos sonhos e da nossa imaginação? Vida que segue, sala aconchegante com dimer de iluminação indireta, ogivas perfeitas varrendo mondrians milimetricamente pendurados em parafusos com buchas, brisa do mar que invade a cobertura e balança delicadamente a orquídea negra de nossa emoção, set list de orquestras com melodias preferidas de nossos bailes de formatura, tudo a serviço e gasto de modo equivocado com pessoas erradas, ingênuas, insensíveis. Como evitar, resistir ou relevar? E se, no lugar da confusa e criativa verborragia lusitana, tivéssemos simplesmente dito verdades cruas, revelando formas simples e diretas, abraços e apertos de mãos estendidos ao romance com direito a taças de vinho branco gelado, morangos maduros e Bill Evans nos convidando a dançar de rosto colado? O ministério da paciência adverte: gente lesa gera falta de gentileza!