terça-feira, 12 de julho de 2011

GILBERTO GIL + ZÉLIA DUNCAN = VERSATILIDADE

Gilberto Passos Gil Moreira, baiano, 69 anos e Zélia Cristina Duncan Gonçalves Moreira, carioca, 47 anos. Além do último sobrenome, o que teriam em comum esses dois artistas brasileiros? Ok, são cantores, músicos e compositores. Muito mais que isso, no que se refere a talento, eles representam o que há de mais versátil, completo e moderno na música contemporânea brasileira e, de certa forma, universal, pois ambos cantam também em inglês e suas performances cênicas não têm fronteiras estéticas. Verdadeiros curingas, eles conseguem se sair extremamente bem em shows ao ar livre, em espaços fechados - salas intimistas ou grandes teatros – em entrevistas e programas de televisão, em cds e dvds gravados em estúdios ou direto dos shows, ou seja, mídias e espaços distintos. Eles jogam nas onze. Em se considerando as várias categorias que envolvem o trabalho artístico musical, acho difícil encontrar nomes alternativos que sejam tão competentes e versáteis quanto eles. A seguir, de forma separada, um pouco do que penso sobre cada um desses artistas.

Gil declara influências marcantes de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e João Gilberto. Autodidata, utilizou essa mistura antagônica de valores e criou uma matriz musical que não tem fronteiras ou preconceitos. Nela tudo cabe em dinâmica e criatividade. Daí vieram mesclagens culturais em suas relações com artistas do mundo do reggae, do pop, ícones da bossa nova, sambistas, gente do funk e nos ritmos baianos, como o afoxé. Criou a Tropicália, movimento musical e cultural importante e produziu, em sequência, trilogia de lps fantásticos: Refazenda (75-rural), Refavela (77-urbano) e Realce (79-mundial). Gravou 57 álbuns e ganhou 8 grammys, entre milhares de participações em trabalhos de outros artistas, festivais internacionais e trilhas para cinema. Perfeccionista e talentoso, consegue fazer um cd de puro rock e deixar os punks e metaleiros de plantão impressionados. O mesmo desempenho se aplica para forrós ou sambas tradicionais, harmonias bossanovistas ou em músicas intimistas melodicamente ricas que retratam seu mundo e suas relações pessoais. Como letrista, destaca-se em seu trabalho a preocupação com temas sociais, humanistas e ambientais, frutos de sua origem interiorana e suas raízes africanas. A exemplo dos grandes vinhos tintos, Gil tem uma energia que se mostra cada vez mais consistente e surpreendente.

Zélia nasceu em Niterói, mas dos seis aos dezesseis anos morou em Brasília, onde virou cantora e desenvolveu estilo próprio em performances nas noites da capital. Lembro-me de vê-la se apresentando no Amigos e Bar Bom Demais, espaços alternativos daqueles anos oitenta. Na época, impressionou-me a rara textura de timbre médio que hoje flutua seguro em extenso registro vocálico e que lhe dá suporte para ótimos e variados desempenhos musicais. Ela é uma artista completa. Musicalmente, de forma simultânea, consegue ser novidade e vanguarda, clássica e conservadora. Em 2001 lançou o seu melhor cd, Sortimento, ótimo repertório com algumas parcerias inéditas e regravações consistentes. Sua carreira se divide antes e depois dessa produção, que mostra sua versatilidade e lhe proporciona uma espécie de blindagem contra rótulos ou segmentação de estilo. Em curto espaço de tempo gravou outra obra prima com releituras de obras consagradas da mpb - Eu me transformo em outras-2004 -, e substituiu ninguém menos que Rita Lee nos concertos que marcaram a volta dos Mutantes em Londres, Estados Unidos e Brasil, em 2006 e 07. A exemplo de Gil, ela canta samba, reggae, rock e música brasileira, com competência e originalidade. Tem condições de produzir um cd só de blues, de jazz ou de choro com a mesma propriedade, o que lhe abre portas para uma carreira internacional de sucesso que, espero, aconteça brevemente.

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