sábado, 13 de agosto de 2011

EM NOME DO PAI E DOS FILHOS

Pai, que felicidade acompanhar a chegada de seus oitenta anos e ver como o senhor cuidou tão bem do seu corpo e de sua cabeça, como respeitou as mudanças naturais da vida e como tem aproveitado, sabiamente, tudo o que se apresenta, de forma equilibrada e saudável. Não bastasse isso, encanta-me constatar como tem cuidado tão bem de todos nós. Tenho pensado em tantos momentos felizes que já passamos, das bagunças e risadas em nossas viagens, da riqueza e criatividade dos improvisos, das chegadas e partidas por tantas cidades, tudo sempre foi tão único, tão profundo e tão verdadeiro.

Quando as dificuldades apareciam e tudo ensaiava ruir, acostumamos a nos recolher, compreender, aceitar, levantar a cabeça, buscar as boas novas, recomeçar, valorizar e aproveitar cada oportunidade para evoluir e transcender. Esse crescer tão diferente e tão cheio de situações inesperadas nos lapidou e nos preparou para as coisas da vida, pois a vida é arte da mudança, é adaptação, é o pão novo de cada dia. Assim, quando mamãe precisou visitar outros planos, o senhor foi pai, foi mãe, foi amigo, foi honesto ao dizer que não sabia exatamente o que iria acontecer, foi atencioso, foi sincero, foi presente, tornou-se o espelho nosso do que produzimos e o reflexo de tudo isso aqui está, aqui estamos, aqui estaremos, juntos e felizes.

A escola da vida lhe forjou na arte da solidariedade, da educação, da gentileza, da humildade, ensinou-lhe a abrir mão de muitas coisas aparentemente boas e fáceis em prol de oportunidades para os que estavam à sua volta, de interromper seus estudos pelas dificuldades financeiras e o senhor foi aluno e diretor de sua própria escola, criou lógica, equações e métodos pessoais, reinventou-se e, mesmo quando muitos diziam não, o senhor foi sábio e coerente ao respeitar suas intuições, seu código próprio de conduta, virou-se nos trinta, ou melhor, continua virando-se muito bem nos oitenta.

Recordo-me, também, de algumas passagens que compramos para viagens equivocadas, canoas furadas, estradas sem saída, mas o senhor estava sempre lá, maquinista a nos esperar nas estações do mundo com braços e sorrisos abertos, farol a iluminar os caminhos de nossas embarcações, cais e porto seguro de nossos destinos, respeitando nossas curiosidades e necessidades de aventuras e descobertas, tudo de forma razoável, sem cobranças exageradas, sem discursos teóricos incoerentes, simplesmente oferecendo-nos carinho, atenção e exemplos positivos.

Fico imaginando como, às vezes, deve ser difícil ver e aceitar tanta mediocridade, ostentação, falta de ética, um deslumbre de superficialidades e atitudes que são diametralmente opostas à sua personalidade, às coisas que acredita e que valoriza. Tenho guardado os valores que o senhor sempre nos passou de serenidade, dignidade, atenção e respeito ao próximo, às crianças, idosos e animais. Recorro ao poeta Vinícius de Moraes para fechar esse registro em forma de homenagem: existiria verdade, verdade que ninguém vê, se todos fossem no mundo iguais a você! Em nome dos irmãos e de toda a família, obrigado por tudo, desejamos-lhe muitos anos de saúde, paz, alegria e que Deus o proteja. Amamos você!

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

SEGUNDA LISTA – 5 MÚSICAS POPULARES BRASILEIRAS

Já que deu ibope e como amante da democrática MPB, matarei dois coelhos com uma caixa d’água só: incluirei as músicas pedidas pelo Carlão batera, meu guru para assuntos de mpb, do Maurinho cordas de aço (está fazendo falta nos ensaios) e aceitarei a sugestão do prezado Renatão, líder da super banda ‘Cadillac Mineiro’, a mais famosa desse lado do Mississipi. Com isso, farei mais três listas de canções favoritas e, ao final, os leitores poderão votar dentre as vinte concorrentes e eleger as três melhores músicas do blog, estamos combinados? Só peço um pouco de paciência, afinal, com tantos músicos, artistas e leitores entendidos, a responsabilidade é grande e agora aumentaram as oitavas, mas tentarei contemplar representantes dos diversos segmentos da mpb contemporânea. Então, vamos lá e, como diria o sumido ‘manuvéio’, toca o boréu!!!


A MOÇA DO SONHO – Edu lobo - Chico Buarque

Para mim, nos quesitos qualidade e excelência musical, há três vertentes que se destacam: Estados Unidos com o jazz, Cuba com a salsa e Brasil com a mpb. Que letrista teria a coragem e bagagem para começar uma música com a frase: ‘Súbito me encantou a moça em contraluz’? Essa canção é uma viagem, deve ser ouvida em reflexivo silêncio e quando se está em paz, de preferência com uma taça de tinto seco. A melodia é rica, tranquila e equilibrada: muito prazer, sou Edu Lobo, ele diria! Recomendo a versão feita ao vivo no Mistura Fina, para o dvd VENTO BRAVO, com Cristóvão Bastos ao piano, Jorge Helder no contrabaixo e Rafael Barata na bateria. Fico imaginando essa música interpretada pela pianista Diana Krall, de certo seria um sucesso mundial. Mais uma taça de tinto e bons sonhos!


CAIS – Milton Nascimento – Ronaldo Bastos

Como bom mineiro, costumo dizer que existem três tipos de música: a ruim, a boa e a do Clube da Esquina! Milton e sua trupe criaram um estilo de fazer e tocar um determinado tipo de canção, cuja sonoridade mistura mpb, jazz e latinidade, que cresceu e ganhou notoriedade internacional, a ponto dos críticos americanos criarem uma modalidade para premiar essas criações: world music. CAIS é do lp Clube da Esquina 1, álbum duplo lançado em 1972, obra rara com uma série de preciosidades de Milton, Ronaldo Bastos, Fernando Brant, Lô e Márcio Borges. Essa primeira fase deles é a que mais gosto, meio experimental, criações em grupo feitas até dentro do estúdio e a voz do Bituca, linda e límpida como um diamante fino a penetrar e conduzir nossas emoções pelas esquinas do mundo. A letra de Ronaldo Bastos é misteriosa, criativa e o arranjo do maestro Wagner Tiso conduz a música num clima barroco bastante especial.


PARA VER AS MENINAS – Paulinho da Viola

Samba é um dos estilos mais ricos e marcantes da mpb, mas sou meio radical quanto ao que se produz atualmente nessa área. Respeito e admiro os sambas feitos até a entrada em cena de Paulinho da Viola. Depois dele a coisa degringolou ladeira abaixo. Ele tem inúmeros clássicos, é um mestre e fabrica seus próprios instrumentos. PARA VER AS MENINAS é uma pérola, melodia e letra perfeitas. A sensibilidade, segurança e tranquilidade de Paulinho o colocam num lugar muito especial no cenário cultural brasileiro. Gosto muito da interpretação de Marisa Monte, com o cavaquinho sutil de Mauro Diniz, filho de Monarco da Portela, dando cadência, estilo e classe às pausas contidas nesse samba.


QUANDO O AMOR ACONTECE – João Bosco – Abel Silva

João Bosco é uma matriz. Ele é único, criou o seu próprio estilo de cantar e tocar violão. Esteja sozinho ou com uma grande banda, sua batida produz uma usina de sons que vão do flamenco aos tambores africanos, do choro ao fado, do samba canção às texturas eruditas. Tem uma extensa folha de serviços prestados à mpb, musicando obras de excelentes letristas que se tornaram clássicos, sobretudo na primeira fase, com Aldir Blanc. Essa canção é muito marcante, Abel Silva escreveu um texto lindo falando de amor e que emociona pela forma como João utiliza a onomatopéia dos artifícios vocais em sintonia com a dinâmica crescente do arranjo orquestrado.


ROSA – Pixinguinha – Otávio de Sousa

Essa pérola é um clássico da música popular brasileira, composta em 1917 e imortalizada através de gravações extraordinárias do seresteiro Silvio Caldas e de Orlando Silva, ‘o cantor das multidões’. Gosto muito, também, da gravação de Marisa Monte no disco MAIS, de 1998, delicada e sutil, com arranjo minimalista executado pelo tecladista japonês Ruyichi Sakamoto. Ficou elegante e moderna, mas manteve o rigor da melodia e o andamento original de valsa. A letra é um tratado perfeito de como se deve, formalmente, elogiar uma mulher, deixando-a envaidecida e, literalmente, nas nuvens.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

CINCO MÚSICAS POPULARES BRASILEIRAS

Produzir uma relação de cinco músicas populares brasileiras letradas é muito difícil. Para cada uma escolhida outras mais se apresentam e começam a nos torturar e a nos lembrar os momentos de nossas vidas em que elas aconteceram e nos marcaram. Muito mais que notas e acordes embalando palavras e poemas, música é tudo aquilo que nos alegrou, nos massacrou, nos acompanhou, nos fez crescer e transcender. Fiquem os leitores à vontade para discordar e sugerir outras de suas preferências e, estejam certos, caso eu decida refazer essa relação, outras cinco canções diferentes serão escolhidas, tamanha é a quantidade de obras primas que compõem nossa música popular brasileira. Elas estão em ordem alfabética e não há destaque ou preferência. Essas músicas me conhecem!


ÁGUAS DE MARÇO – Tom Jobim

O conjunto da obra jobiniana é extremamente rico, criativo e particular, sobretudo em texturas harmônicas e pela capacidade de produzir melodias simples e geniais. Fazer o simples com qualidade é muito difícil, tarefa para poucos. Aqui, Tom usa uma letra cadenciada que trata do meio ambiente para falar do cotidiano com muita sabedoria e propriedade, tudo conduzido por uma linha melódica em moto contínuo, que envolve o ouvinte numa trama rítmica incomum, causando estranheza e conforto ao mesmo tempo.


AS APARÊNCIAS ENGANAM – Tunai - Sérgio Natureza

Última música, lado B, do LP ‘Essa Mulher’, de Elis Regina, gravado em 1979. A letra é uma pérola e faz um paralelo entre mudanças de estações e fases dos relacionamentos amorosos, inverno e verão, amor e ódio. Para mim é a melhor música de Tunai. Ele escreveu uma melodia complexa e elegante, que vai permeando harmonicamente a letra, com sensibilidade e criatividade. O arranjo de Camargo Mariano brinda e veste a voz de sua mulher, num momento difícil de suas vidas, em que se iniciavam os desacordes e desacordos da separação.


CHEGA DE SAUDADE – Tom Jobim – Vinícius de Moraes

Emblemática, essa música é considerada por muitos como um marco, o início da bossa nova. Gravada pela primeira vez por Elizeth Cardoso no LP ‘Canção do Amor Demais’, de 1958, imortalizou-se na voz de João Gilberto. Começa em tom menor falando de saudade e tristeza, mas quando o poeta muda o clima da letra na segunda parte e aborda esperança e alegria, Jobim altera a melodia para tom maior, mudança sutil que evidencia a genialidade da dupla.


CHORO BANDIDO – Edu Lobo – Chico Buarque

Chico tem habilidade literária e concisão estética para contar uma estória complexa e torná-la popular numa letra de música. Edu Lobo criou um estilo de tocar violão e compor melodias sofisticadas e agradáveis. Depois do samba canção, jovem guarda e tropicália, ele mescla a base harmônica da bossa nova a influências rítmicas pernambucanas e letras com temática social para iniciar um estilo que viria a se chamar música popular brasileira. A sinergia na união dessa dupla de gênios já produziu músicas memoráveis, mas classifico ‘Choro Bandido’ como o melhor trabalho deles até aqui.


EU E A BRISA – Johnny Alf

Essa obra prima é um clássico e foi composta em 1965 por Johnny Alf, codinome de Alfredo José da Silva, músico, letrista e compositor excepcional, que criou um estilo vanguardista de cantar e tocar piano, influenciou muita gente e nunca teve o devido reconhecimento, nem do público nem da mídia. Morreu pobre e esquecido aos 80 anos e não deixou discípulo à altura que dê sequência à sua escola melódica esteticamente perfeita e criativa. De sofisticada linha harmônica, é daquelas músicas únicas, que não se parecem com nada que se tenha ouvido.