Já que deu ibope e como amante da democrática MPB, matarei dois coelhos com uma caixa d’água só: incluirei as músicas pedidas pelo Carlão batera, meu guru para assuntos de mpb, do Maurinho cordas de aço (está fazendo falta nos ensaios) e aceitarei a sugestão do prezado Renatão, líder da super banda ‘Cadillac Mineiro’, a mais famosa desse lado do Mississipi. Com isso, farei mais três listas de canções favoritas e, ao final, os leitores poderão votar dentre as vinte concorrentes e eleger as três melhores músicas do blog, estamos combinados? Só peço um pouco de paciência, afinal, com tantos músicos, artistas e leitores entendidos, a responsabilidade é grande e agora aumentaram as oitavas, mas tentarei contemplar representantes dos diversos segmentos da mpb contemporânea. Então, vamos lá e, como diria o sumido ‘manuvéio’, toca o boréu!!!
A MOÇA DO SONHO – Edu lobo - Chico Buarque
Para mim, nos quesitos qualidade e excelência musical, há três vertentes que se destacam: Estados Unidos com o jazz, Cuba com a salsa e Brasil com a mpb. Que letrista teria a coragem e bagagem para começar uma música com a frase: ‘Súbito me encantou a moça em contraluz’? Essa canção é uma viagem, deve ser ouvida em reflexivo silêncio e quando se está em paz, de preferência com uma taça de tinto seco. A melodia é rica, tranquila e equilibrada: muito prazer, sou Edu Lobo, ele diria! Recomendo a versão feita ao vivo no Mistura Fina, para o dvd VENTO BRAVO, com Cristóvão Bastos ao piano, Jorge Helder no contrabaixo e Rafael Barata na bateria. Fico imaginando essa música interpretada pela pianista Diana Krall, de certo seria um sucesso mundial. Mais uma taça de tinto e bons sonhos!
CAIS – Milton Nascimento – Ronaldo Bastos
Como bom mineiro, costumo dizer que existem três tipos de música: a ruim, a boa e a do Clube da Esquina! Milton e sua trupe criaram um estilo de fazer e tocar um determinado tipo de canção, cuja sonoridade mistura mpb, jazz e latinidade, que cresceu e ganhou notoriedade internacional, a ponto dos críticos americanos criarem uma modalidade para premiar essas criações: world music. CAIS é do lp Clube da Esquina 1, álbum duplo lançado em 1972, obra rara com uma série de preciosidades de Milton, Ronaldo Bastos, Fernando Brant, Lô e Márcio Borges. Essa primeira fase deles é a que mais gosto, meio experimental, criações em grupo feitas até dentro do estúdio e a voz do Bituca, linda e límpida como um diamante fino a penetrar e conduzir nossas emoções pelas esquinas do mundo. A letra de Ronaldo Bastos é misteriosa, criativa e o arranjo do maestro Wagner Tiso conduz a música num clima barroco bastante especial.
PARA VER AS MENINAS – Paulinho da Viola
Samba é um dos estilos mais ricos e marcantes da mpb, mas sou meio radical quanto ao que se produz atualmente nessa área. Respeito e admiro os sambas feitos até a entrada em cena de Paulinho da Viola. Depois dele a coisa degringolou ladeira abaixo. Ele tem inúmeros clássicos, é um mestre e fabrica seus próprios instrumentos. PARA VER AS MENINAS é uma pérola, melodia e letra perfeitas. A sensibilidade, segurança e tranquilidade de Paulinho o colocam num lugar muito especial no cenário cultural brasileiro. Gosto muito da interpretação de Marisa Monte, com o cavaquinho sutil de Mauro Diniz, filho de Monarco da Portela, dando cadência, estilo e classe às pausas contidas nesse samba.
QUANDO O AMOR ACONTECE – João Bosco – Abel Silva
João Bosco é uma matriz. Ele é único, criou o seu próprio estilo de cantar e tocar violão. Esteja sozinho ou com uma grande banda, sua batida produz uma usina de sons que vão do flamenco aos tambores africanos, do choro ao fado, do samba canção às texturas eruditas. Tem uma extensa folha de serviços prestados à mpb, musicando obras de excelentes letristas que se tornaram clássicos, sobretudo na primeira fase, com Aldir Blanc. Essa canção é muito marcante, Abel Silva escreveu um texto lindo falando de amor e que emociona pela forma como João utiliza a onomatopéia dos artifícios vocais em sintonia com a dinâmica crescente do arranjo orquestrado.
ROSA – Pixinguinha – Otávio de Sousa
Essa pérola é um clássico da música popular brasileira, composta em 1917 e imortalizada através de gravações extraordinárias do seresteiro Silvio Caldas e de Orlando Silva, ‘o cantor das multidões’. Gosto muito, também, da gravação de Marisa Monte no disco MAIS, de 1998, delicada e sutil, com arranjo minimalista executado pelo tecladista japonês Ruyichi Sakamoto. Ficou elegante e moderna, mas manteve o rigor da melodia e o andamento original de valsa. A letra é um tratado perfeito de como se deve, formalmente, elogiar uma mulher, deixando-a envaidecida e, literalmente, nas nuvens.
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