domingo, 9 de dezembro de 2012

NÃO SAIA DE CASA SEM SUA MEIA LUPO

A cerimônia religiosa prosseguia em clima de completa harmonia e participação dos fiéis. O jovem pároco se preparava para concluir a pregação do evangelho, quando estabeleceu-se uma pequena confusão entre os presentes, seguida de manifestações de espanto, barulhos e gritos de mulheres pedindo ajuda. Curiosa e preocupada, a multidão concentrou-se em torno do grupo que tentava ajudar alguém caído no chão. Era Josivaldo, que passara mal repentinamente. Aflita, Gregorina, sua mulher, desabotoara sua camisa pólo amarela para ele respirar melhor, mas não estava adiantando. Enquanto alguém teve a ideia de chamar o serviço médico, amigos o carregaram e o deitaram no banco de madeira. Pessoas usavam os livretos de cânticos para abanarem Josivaldo, outros resolveram tirar-lhe os sapatos e colocar suas pernas no alto do banco. Foi quando Gregorina experimentou aquela terrível visão que a devastou mais do que o infarto do marido: uma de suas meias estava furada, o dedão cumprimentava e batia continência a todos. Nem em seus piores pesadelos, Gregorina, tímida, reservada, imaginara que alguma dia passaria por uma situação tão constrangedora daquelas. Quantas vezes ela insistira para que o seu amorzinho jogasse aquela meia fora, mas ele não a ouvia. Tantas vezes, durante os jogos da estrela solitária, ela tentara cortar aquela unha enorme, independente e exibida, mas ele reclamava que estava concentrado na peleja e que o procedimento poderia esperar e ser feito mais tarde. Agora ela se via ali, em plena igreja, com toda a comunidade eclesiástica, suas vizinhas e amigas presenciando aquela situação patética, seu amado aguardando o socorro e todos ali, constritos, contemplando aquele dedão saindo da meia. Gregorina tentou se acalmar, mas a vida imita a arte, daí começou a passar um filme em sua cabeça, suas colegas de dança na academia comentando a cena, Jane Godoy publicando a fatídica foto na coluna social com os dizeres: Josivaldo e sua meia, ambos em péssimo estado; provavelmente Márcio Cotrim criaria um novo verbete - meia furada - e o publicaria no jornal de domingo. À medida que pensava, hipóteses outras se encadeavam em sua mente e a assustavam, como sua filha sendo ridicularizada na sessão de tingimento capilar, seu extrovertido neto correndo em volta do sofá a repetir: 'uma era vez' um vovô com sua meia furada no meio da multidão...E, pior dos mundos, quando a notícia chegasse ao conhecimento daqueles quatro sobrinhos endiabrados, cínicos, que perdiam a tia mas não a piada, aumentando, exagerando, criando detalhes, como faziam desde pequenos, com o propósito único de irritá-la e tirá-la do sério. Teria que cancelar as comemorações de passagem de ano, os almoços mensais especialmente preparados para aqueles capetas que agora se aproveitavam da situação. E mais, com a rapidez das redes sociais, a notícia cruzaria os estados e seria divulgada nos arredores da metrópole onde nascera, tudo por conta daquele outro sobrinho debochado, mais descarado que os quatro irmãos metralhas juntos. Aquilo tudo era castigo demais, depois de tantas orações, tantas novenas, não conseguia compreender a razão de tanto infortúnio. Felizmente, a ambulâcia chegou e, quando Josivaldo era conduzido de maca, Gregorina retirou seu xale comprado em Punta del Este e o jogou sobre os pés do amado, enquanto ligava para sua secretária separar um par de meias novas e um cortador de unhas bem afiado. * Por tratar-se de história verídica, a pedido da família, os nomes dos personagens foram trocados.

domingo, 22 de julho de 2012

TRÊS MOMENTOS EM MIL CORAÇÕES

Aconteceu, primeiro, quando eu me deitei de costas no chão frio. Fiquei ali parado, absorto, simplesmente a contemplar o céu. Hipnose de um azul intenso, profundo, eu finalmente conseguia me concentrar no céu. Daí comecei a ver os detalhes, as nuances, os contrastes que sempre estiveram ali e eu, envolvido numa correria sem fim, meio ou início, atropelado por uns e a atropelar outros, acalmei meu coração já que agora a visão era estética de pura estática. Um céu que abraça pássaros, aeroplanos, nuvens, tempestades, que tudo reflete e faz refletir. Estava ali o tempo todo, um tipo raro da maior complexidade envolta na maior simplicidade e disponibilidade. O céu das asas deltas e das andorinhas, dos paraquedistas e dos urubus, dos deuses e das marias do céu. Depois, foi quando eu me postei, hipnotizado, em frente ao mar. Horas se passaram, homens e mulheres passaram, passou a fome e o presente ia naturalmente virando passado. O mar que a muitos assusta e amedronta, que é o sustento de tantos, tragédia e descanso de aventureiros e desesperados, com suas profundezas, sua vida própria, expandindo-se em ondas crescentes e ritmadas, magia e estratégia líquida e certa. Eu que desci produndamente em mergulhos solitários justamente por não conhecer o limite dessa profundidade, que visitei cidades submersas com suas igrejas e cemitérios, eu que era recebido, envolto e devolvido por criaturas marinhas imaginárias, eu agora voltava a boiar em segurança, com os olhos fechados e a pele ficando novamente seca pelos raios de sol. Por fim, eu penetrei a floresta fechada de minhas impressões, lugar que em segundos transformava o dia em noite, com seus troncos imensos, folhagens de incontáveis tons de verde, os ventos e a umidade que congelavam minhas veias e dificultavam minhas passadas. De olhos fechados, eu andava e não estava só. Sentia-me conduzido por mãos macias e pequenas que me desviavam de buracos e que, calmamente, esperavam eu ultrapassar as complexas armadilhas que os troncos retorcidos caídos montavam. Lugar de ar puro e habitat de animais perigosos, senti minha mão se soltar de minha estrela guia. So então, quando fiquei sozinho e os medos se dissiparam, pude ver uma luz no fim daquela vereda, que não era saída nem chegada, era simplesmente minha travessia.

domingo, 3 de junho de 2012

WAGNER MOURA EM TRIBUTO À LEGIÃO URBANA

No peito dos desafinados também bate um coração! O verso final do clássico ‘Desafinado’ de Tom Jobim e Newton Mendonça bem que poderia ser o título desta crônica, sobre os shows que a MTV transmitiu ao vivo nas noites de terça e quarta, 29 e 30 de maio, direto do Espaço das Américas, na Barra Funda, SP. Karaokê de luxo para o ator-cantor Wagner Moura, que recebeu o convite de Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá para cantar as músicas da Legião em dois shows, parte das comemorações dos trinta anos da criação da banda. Convite aceito de cara, o admirador e fã incondicional se lançou de corpo e alma no projeto e, ironia à parte, incorporou o capitão Nascimento do filme ‘Tropa de Elite’ e usou a principal característica da personagem: a coragem para o enfrentamento cego e meio irresponsável ao que se apresentava estabelecido e intocável. O concerto deu o que falar na mídia em geral, jornais, rádios e sobretudo nas redes sociais. Curiosa e atentamente, eu já vinha acompanhando os ensaios dos shows em estúdio transmitidas pela MTV e meio que me preparei para o que seria, sem expectativa e preconceito. Deixei passar uns dias para processar um certo estranhamento que tive e acompanhei tudo com cuidado, já que é uma obra concluída, consagrada, influente, popular e aberta. Rolou de tudo, críticas contundentes à perfomance vocal e aos exageros performáticos do ator, elogios sinceros ao trabalho levando-se em consideração a complexidade das músicas e o fato dele ter procurado imprimir estilo próprio e não imitar a forma original e extremamente marcante com que Renato Russo imortalizou as músicas. Carmem Manfredini, irmã de Renato e falando em nome da família, criticou de forma contundente não o projeto em si, mas a falta de preparo para o ator que, segundo ela, não tem um bom ouvido musical, que faltou ensaio, afinação, assessoria de um profissional de canto e que os dois artistas da banda deveriam tê-lo orientado melhor. Ainda segundo ela, foi constrangedor, desrespeitoso e frustante, pois gostaria que a homenagem tivesse sido mais bem feita, já que cantar as músicas de Renato Russo é difícil até para um profissional e há que se ter cuidado com essa obra. Magoada, registrou que não foi consultada e que os representantes de Marcelo e Dado alegaram que a família não tem poder de decisão por não serem artistas. Hilárias as manifestações via twitter e facebook, pelo caráter informal, condensado e virótico das postagens. Resumo geral: poucas vezes vi um evento receber tantas manifestações críticas diferentes, contraditórias, técnicas, emocionais, positivas e agressivas, mas absolutamente todas com um mínimo de razoabilidade e veracidade. Normalmente nos manifestamos ou nos deixamos influenciar por determinada vertente, mas, nesse caso, todos têm razão, há margem de compreensão e defesa para todas as linhas críticas imagináveis. O cara desafinou mas foi corajoso e autêntico, os integrantes da banda assumiram o risco de uma tragédia mas se divertiram e conduziram os concertos com equilíbrio e classe, a platéia se comportou de forma apaixonada e respeitosa, com exceção de um sujeito no segundo dia, criticando aos berros de 'baixo astral' a performance acústica da música 'Geração Coca-Cola' e conseguiu tirar Dado do sério, mas o elemento foi convidado a abandonar o local e a harmonia reinou até o final. Foram importantes as participações do guitarrista Andy Gill, líder da banda Gang of Four, do pós-punk britânico, que influenciou os legionários Renato, Marcelo e Dado nos anos oitenta, de Marcelo Catatau e Clayton Martins da banda cearense 'Cidadão Instigado' e do baixista dos Paralamas Bi Ribeiro. A banda base teve Rodrigo Fávaro no baixo, Gabriel Carvalho, guitarrista do grupo baiano 'Sua Mãe', cujo cantor é Wagner Moura e Caio Fonseca, teclados. Acho que foi um evento importante para reviver e discutir o belo e intenso trabalho deixado pela Legião, Wagner Moura foi talentoso e se divertiu bastante, mas Renato Russo merece homenagens com mais qualidade profissional e técnica. No final, tentei chorar e não consegui, mas também não foi tempo perdido. A seguir, o set list das músicas, por ordem de apresentação: 1) Tempo perdido 2) Fábrica 3) Daniel na cova dos leões 4) Andrea Doria 5) Quase sem querer 6) Eu sei 7) Quando o sol bater na janela do seu quarto 6) A via láctea 9) Esperando por mim 10) Índios 11) Monte Castelo 12) O teatro do vampiros 13) Geração coca-cola 14) Damageg goods (Andy Gill) 15) Ainda é cedo 16) Baader-Meinhof Blues 17) Sereníssima 18) Se fiquei esperando meu amor passar 19) Há tempos 20) Perfeição 21) Teorema 22) Antes das seis 23) Giz 24) Pais e filhos 25) Será 26) Faroeste caboclo

domingo, 13 de maio de 2012

A CULPA NÃO É DAS MÃES

Mamãe mandou eu bater nesse daqui, mas como eu sou muito teimoso eu vou é bater nesse daqui! Essa brincadeira poderia ser usada perfeitamente pelo Anderson Silva ao se referir à própria mãe. Embora desobediente e respondão como qualquer adolescente de plantão, decidiu levar à sério e acatar as orientações maternas, daí saiu batendo em todo mundo e hoje é um ídolo e respeitado campeão mundial, mas conservou a voz infantil para deixar a mamãe bem impressionada. Injustamente, algumas mães são acusadas de escravizar seus filhos, mantendo-os presos e podando-lhes a liberdade. Às vezes elas erram a mão na fina e complexa linha divisória da educação que acolhe, testa e prepara o filho em conceitos de liberdade e independência para as batalhas da vida. Por coincidência de data e destino, neste ano o dia das mães caiu justamente no treze de maio, dia consagrado pela princesa Isabel ao abolir a escravatura. Hilária a figura da mãe judia, super protetora e repressora, personagem recorrente utilizada por Woody Allen e magnificamente caracterizada no filme 'Contos de Nova Iorque', quando aparece no céu de Manhattan dando conselhos sobre mulheres e casamento. Isso irrita e ridiculariza o filho diante da multidão que, dividida, apoia e reforça as cobranças da mãe ou questiona a interferência indevida da velhinha. Para qualificar a tão almejada vaga no serviço público que representa estabilidade e segurança o concursando diz que 'o emprego é uma mãe'. Ameaçado e posto sob a mira dos ataques americanos, o ditador iraquiano reagiu com veêmencia ao mostrar a sua convicção estratégica e, respaldado pelo poder bélico, disse que seria travada a 'mãe de todas as batalhas'. Outra situação muito comum é aquela em que o sujeito fica sem saída, pressionado e sem saber exatamente o que fazer, não resiste e solta a pérola: eu quero a minha mãe! Sem entender as razões que levaram sua mãe a abandoná-lo ainda criança, anos depois John Lennon escreveu a belíssima e intensa música 'Mother' para registrar as dificuldades emocionais que passou, já que ao reencontrá-la e prestes a retomar o relacionamento ficou marcado para sempre ao se despedir e vê-la atropelada do outro lado da rua. Nos estádios, o inconsciente coletivo da multidão se revela sem pudor e sem condescendência para desqualificar o adversário ou o juiz atacando-lhes justamente a pobre e inocente progenitora, com os mais impropérios palavrões. Sigmund Freud criou a expressão 'Complexo de Édipo' ao se referir à fase da infância quando os meninos são apaixonados pela mãe. A origem do tema vem da lenda grega que originou a história de 'Édipo Rei, escrita por Sófocles': Laio, rei de Tebas, foi advertido de que uma maldição iria acontecer, pois o próprio filho o mataria e se casaria com a mãe. Ao nascer, abandonado pelo pai no Monte Citerão e com um prego em cada pé, Édipo sobreviveu, foi salvo por um pastor e adotado pelo rei de Corinto. Ao saber da previsao, Édipo foge da cidade pois achava que a tragédia se daria com seus pais adotivos. No caminho, provocado, brigou e matou Laio, sem saber que era seu pai. Voltando à cidade natal, casou-se por acaso com Jocasta, sua mãe biológica, com quem teve quatro filhos. Durante uma peste, ao consultar o oráculo, Jocasta e Édipo descobrem a verdade, ela comete suicídio e ele fura os próprios olhos por ter estado cego e não reconhecer a própria mãe. A tragédia inspirou Igor Stravinsky a compor um oratório e a banda americana The Doors a escrever a música The End. Sem intenção predeterminada, a crônica começou em tom de comédia e terminou dramática, mas foi a forma que encontrei, nada tradicional, admito, para homenagear as mães em seu dia. Felicidades!

sábado, 5 de maio de 2012

POLÍTICA E ECONOMIA, DAS JURAS AOS JUROS

Neste espaço o leitor acompanha, em sua maioria, abordagens e análises relacionadas a temas culturais, mas o título já antecipa, a pauta hoje está relacionada à política e economia. Com frequência ouço pessoas dizerem que não se interessam por política. Entendo perfeitamente essa opção, fruto do desgaste ligado a escândalos de corrupção, tráfico de influência e falta de ética, mas há um equívoco ao se confundir política com políticos. Acompanho diariamente esses assuntos, pois as discussões e decisões do presente conduzem e definem nossa situação futura, afinal queremos e buscamos estabilidade e crescimento. O país precisa urgentemente de uma reforma política estrutural que dê suporte ao presidencialismo de coalizão. Não se chega ao poder sem composições partidárias, ainda que muitas delas tenham linhas programáticas divergentes. Isso é democracia, convivência de opostos, com foco e respeito ao eleitor que dá voz e voto a seu representante. Atualmente existem quase trinta partidos e o ambiente político, com suas complexidades e interesses, se perde e se corrompe na falta de regras e de coerência. Na guerra diária por espaço, os partidos naninos se unem e se fortalecem num conjunto esquizofrênico e desarmônico de idéias para brigar com aqueles grandes, mais coerentes e realistas pela experiência e história traçadas. O Brasil precisa de uma reforma política com regras claras e definidas, partidos com estruturas consolidadas nos estados e municípios, com muitos anos de formação e serviços prestados aos cidadãos, representatividade e fidelidade partidária. Entendo que o país não comporta nem precisa mais do que cinco ou seis partidos. Precisamos, ainda, acabar com o voto obrigatório para qualificar melhor nossos representantes. Berço da democracia, os Estados Unidos têm dois partidos grandes, que se revezam na disputa do poder. Desobrigada de votar, pouco mais de quarenta e cinco por cento da população sai de casa e exerce o seu direito na decisão. A baixa adesão não traduz a leitura de desinteresse ou desinformação. O eleitor está mais preocupado é com a economia, isso é que faz a diferença. Quando morei lá, pude constatar que, a cada dez páginas dos principais jornais, oito abordavam economia e apenas duas cobriam política. Aqui no Brasil, graças à visão dos presidentes Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso que, juntos, inauguraram a modernidade paterna conjunta ao criar o Plano Real, o país começa a colher os frutos da estabilidade monetária. Mantida e consolidada no governo Lula, a economia brasileira cresceu e hoje se destaca entre as oito potências do cenário mundial e a tendência é melhorar ainda mais pelo enorme potencial de exploração de energias alternativas, produção agrícola e recursos naturais. Nas últimas semanas, estamos acompanhando a queda de braço da presidenta Dilma Roussef e equipe com os banqueiros na bem formatada estratégia político-financeira para derrubada dos juros e lucros bancários. Estava difícil entender e aceitar bancos oficiais e privados cobrando dezesseis por cento de juros ao mês no cartão de crédito num cenário de inflação de seis por cento ao ano. Até os tradicionais agiotas particulares e os escritórios de factory sentiam-se intimidados com tamanha ganância. Ficamos todos surpresos e satisfeitos com as manchetes de que os bancos, em apenas uma semana, baixaram os juros do cheque especial de quase nove para pouco mais de três por cento ao mês. Essa dinâmica de cortes e ajustes deve impulsionar ainda mais a economia e atrair a ocupação de espaços dos consumidores em suas demandas por mais produtos, serviços e qualidade de vida. Em ondas de realismo e otimismo, espero que os movimentos de melhoria caminhem na direção de mais investimento em educação e cultura, pilares básicos e fundamentais para que os brasileiros usufruam de forma consciente desse círculo virtuoso que se apresenta e que finalmente trará dias melhores para todos.

quarta-feira, 28 de março de 2012

BIA REIS – UMA MEMÓRIA MUSICAL

Foi com imenso pesar que soube da morte da jornalista e radialista Bia Reis, há pouco mais de uma semana. Embora não a conhecesse pessoalmente, sua voz calma e serena era-me familiar e prazerosa, eis que todos os domingos, invariavelmente, às onze horas, eu acompanhava o programa ‘Memória Musical’, que ela produzia e apresentava desde 1990 e manteve de forma brilhante e competente nesses vinte e dois anos. Para quem acabou de chegar ao planeta cultura musical e nunca ouviu falar do programa, a proposta era entrevistar grandes artistas e colher deles revelações sobre as músicas que marcaram suas vidas. Domingo passado, dia 25 de março, seus colegas da FM Nacional e integrantes da equipe que produzia o programa fizeram uma homenagem surpreendente ao lembrar as músicas que marcaram a vida dela. Foi uma edição muito bonita, elegante, sem extremismos, com textos e depoimentos impecáveis, emoção na medida certa e apresentado pela ótima jornalista Marli Arboleia. Parabéns a todos da rádio, pela justa, merecida e sincera homenagem. Desde menino sempre gostei de rádio. Considero a mídia mais completa e abrangente, pois talvez seja a única na qual pode-se executar qualquer atividade enquanto ouve-se música ou notícias: correndo, pedalando, trabalhando, vendo tv, dirigindo, de olhos fechados, nenhum outro veículo de comunicação possibilita essa versatilidade de contato com o ouvinte. Há sete anos escrevi-lhe um email, elogiando-a e ao programa. Disse-lhe da minha admiração pelo formato e pela produção inteligente, da elegância e respeito com que ela recebia e apresentava seus convidados, demonstrando profundo conhecimento pelo trabalho deles. Disse-lhe, ainda, que considerava ‘Memória Musical’ o melhor programa musical entre todos os que eu já tinha ouvido, inclusive entre os diversos programas das grandes redes americanas, nos quase três anos em que morei na terra do Tio Sam. Registrei que, especialmente, os programas com Egberto Gismonti, Lô Borges e Dori Caymmi tinham sido os campeões para mim e sugeri que ela lançasse cds com coletâneas dos inúmeros depoimentos registrados. Dias depois, imaginem minha alegria, quando ela me respondeu dizendo que tinha ficado muito feliz ao ler meu depoimento e que se emocionou bastante com meus elogios, que lera várias vezes minha mensagem antes de me responder. Como o ‘Memória Musical’ tinha ótima audiência e fazia muito sucesso, em 2004 ela lançou o ‘Projeto Brasília’, aos sábados, entrevistando e dando oportunidade a cantores e compositores da cidade. Dentre as muitas qualidades, ela tinha uma em especial: sabia ouvir, deixava o convidado falar e introduzia considerações pertinentes e rápidas. Parece óbvio, mas isso é raro, tanto em rádios quanto na televisão, poucos jornalistas têm essa perspicácia e sensibilidade em conceder o espaço de forma respeitosa às idéias e novidades trazidas pelos convidados. A melhor exceção trata-se do jornalista Roberto D’Avila com sua Conexão, o melhor talk show da TV brasileira. Em Brasília, outro programa excelente em formato, conteúdo e estilo de apresentação é o ‘Então, foi assim?’ do jornalista e produtor Ruy Godinho, também oferecido pela FM Nacional nas tarde de sábado, quando o compositor fala sobre o processo de criação musical. Voltando à Bia Reis, a memória musical e afetiva que ela semeou ficará por muitos anos em nossos corações e mentes e, certamente, terá deixado influências para que discípulos e admiradores ‘toquem’ o projeto da melhor forma. Ao deixar o plano piloto e completar esse ciclo, imagino outros planos em que ela terá oportunidade de conhecer e entrevistar gênios e talentos que também nos deixaram saudosos e com ótimas lembranças. Bia Reis, parabéns, saudades, a música agradece o seu talento e dedicação.

domingo, 18 de março de 2012

DA SÉRIE: COISAS QUE ME AZUCRINAM – PARTE 2 – A FILA

Essa, com certeza, você já viu e teve aquela reação meio raiva, meio graça, meio espanto. Situação: FILA DE CINEMA. Entediado com o reality show de cada dia que, apesar de versátil, cultural e profundo, às vezes cansa, daí o sujeito vai ao cinema e leva mulher, sogra, cunhada, filhos e os amiguinhos que foram passar o fim de semana. Sabe aquele programão em família, domingo no shopping, várias salas de cinema, lançamento blockbuster, energia exaltada, o leitor visualizou a cena. Muito bem. Nosso amigo posiciona, estrategicamente, um representante em cada uma das filas. Para quê? Lógico, se dar bem, ganhar tempo, levar vantagem em tudo, lei de Gerson, certo? Esse hábito ridículo é de uma cretinice sem tamanho, para mim é de uma mediocridade e burrice estupendas. Há uma linha divisória de comportamentos éticos difíceis de serem tipificados claramente, que guardam relevantes situações e que constituem motivo de atenção das pessoas sensatas e educadas. Estou falando de lixo jogado pela janela do carro, uso do celular em locais fechados, a espera elegante de que todos saiam antes de se entrar no elevador, e por aí vai, mas esses temas serão abordados oportunamente. Voltando à cômica cena, o senhor cérebro vai pagar para todos, os ingressos serão comprados em única vez, mas cada um vai avançando enquanto conversam, dão piscadinhas, mandam beijos, os mais distantes enviam torpedos informando que a fila deles está mais ligeira, ficam se monitorando em sintonia e atualizando o status da missão. Trata-se de operação delicada, importante, que exige concentração, mas, ao mesmo tempo, uma performance que transmita naturalidade e harmonia, praticamente uma evolução de escola de samba parada em frente aos jurados, fazendo bonito pra ficar bem na fita. Qualquer pessoa com o mínimo de inteligência sabe que, estatisticamente, filas andam praticamente juntas, nos bancos, no trânsito, no supermercado e, até para solteiros desesperados, a fila anda. Por essa máxima, evidente que os espertinhos chegarão juntos até à faixa amarela do caixa e ouvirão, ao mesmo tempo, a tão esperada senha libertadora daquele suplício: o famoso ‘próximo da fila’. Aí vem a melhor parte. Num passe de mágica, simetricamente, dirigem-se todos para a fila do provedor financeiro que irá compensar o esforço concentrado da comunidade com o tão esperado ingresso. Alegria geral, os incautos se abraçam, riem e, cientes da estratégia bem executada, preparam-se para a próxima etapa: a fila da pipoca.

sexta-feira, 16 de março de 2012

DA SÉRIE: COISAS QUE ME AZUCRINAM – PARTE 1 - A GRAMA

Fico indignado quando vejo uma placa de: NÃO PISE NA GRAMA. Conto até dez, pois dá vontade de pisar é na placa. Explico: quer coisa mais natural pra se pisar do que grama? Grama foi feita pra ser pisada. Pisar em grama é bom demais da conta. Ela existe pra isso. Se não pisada sua existência carece de sentido, não se justifica. Detalhe: não estou falando dessas gramas especiais japonesas, cheias de frescura, frágeis, que não aguentam chuva, frio ou trotes de filhotes de galgo. Falo das gramíneas, divulgadas pelas revistas agropecuárias especializadas, que constituem o mais importante grupo de plantas daninhas herbáceas: grama-batatais, capim-canela, capim-oferecido, rabo-de-burro, amargoso, pé-de-galinha, grama-de-burro, sapé e capim-navalhão, entre outras. São resistentes e ótimas de se pisar. Mas aí, vem o fiscal todo importante e manda pregar a maldita placa. Ninguém pisa, trata de desviar, crime inafiançável, cadeia pros pisadores de grama. Eu posso com isso? Fico imaginando um sujeito desses num clube de golfe, sofrendo ao ver aquela imensidão de grama bonita, aparadinha, em desníveis planejados estrategicamente e sendo pisada por todo mundo, levando bolada, tacos de ferro arrancando tufos sem piedade. O sujeito tem ataque de histeria com rigidez catatônica. Sente-se ema e quer enfiar a cabeça num daqueles buracos. O golfista dá aquela tacada sensacional, ouve-se, em afinado coro, o público bradar a última das vogais e sair, em comitiva, atrás do tigrão-da-floresta de plantão. Nessa maluquice sem fim que virou a vida da gente, no limite do limite, penhasco de um lado e abismo do outro, a melhor coisa a fazer é tirar os sapatos de couro e borracha a nos isolar das raízes, a nos entupir de radicais livres. Livre-se deles. Depois, caminhar, lentamente, descontraidamente, pisando naquela grama gostosa, úmida do orvalho matutino, fria nas noites de inverno das nossas almas inquietas, um merecido mergulho na piscina daquela criança ingênua e franca que habita nossos sonhos e que nos incita a sermos felizes de novo. Em tempo: agora falando sério, não precisa sair chutando placas, mas não deixe de caminhar na grama, valeu?

domingo, 4 de março de 2012

A VEZ DO BRASIL MUDAR A VOZ DO BRASIL

Durante muitos anos o famoso bordão anunciava: ‘em Brasília, dezenove horas’. Depois mudou para: ‘Sete horas em Brasília’. Aí, direto e reto, entra ‘O Guarani’, ópera de Carlos Gomes, adaptada para ritmo de samba, forró, choro, roda de capoeira, bossa nova, moda de viola e até techno! Pronto. Isso dá um desânimo no pacato cidadão, sobretudo quando se está preso no engarrafamento, sem áudio cd, naquela dependência agradável do rádio amigo de quase todas as horas, menos de sete às oito da noite. Transmissão obrigatória em todas as rádios brasileiras, à exceção das mídias via internet e tv por assinatura, ‘A Voz do Brasil’ é um antiviagra, um paralisante crioterápico, um parafuso com a ponta virada pra cima na entrada da porta à espera de quem vai ao banheiro às três e meia da manhã. Ninguém ouve mais esse martírio. Nem motorista de táxi. Nem vigilante de obra, com aquele radinho que tem capa de couro. O sujeito desliga na hora, pois a pilha está cara. Criado em 22 de julho de 1935 por Armando Campos, para popularizar as idéias do amigo Getúlio Vargas, inicialmente chamou-se ‘Programa Nacional’ e era apresentado por Luiz Jatobá. De 1938 a 1962 passou a se chamar ‘A Hora do Brasil’. Por determinação do presidente Médici, a partir de 1971 recebeu o nome de ‘A Voz do Brasil’. Depois o artigo foi retirado e permanece até hoje: 'Voz do Brasil'. Em 1995, entrou para o Guiness Book como o programa de rádio mais antigo do Brasil e é, também, o noticiário mais antigo entre as rádios do Hemisfério Sul. Quem não acredita, pode conferir no wikipedia, que não me deixa mentir sozinho. Apesar da veiculação obrigatória imposta pelo Código Brasileiro de Telecomunicações para todas as rádios brasileiras, algumas delas, da capital paulista e, paradoxalmente, do estado do ditador gaúcho, amparadas por liminares, estão desobrigadas de sua transmissão. Estatisticamente, cidades das regiões norte e nordeste são as que mais ouvem o programa, provavelmente pela falta de informativos diários de política, economia e cultura e da massificação de rádios regionais que priorizam a grade com musicais populares. Entendo que a sociedade precisa se atentar para discutir e excluir resquícios do período da ditadura militar que restaram impregnados no cotidiano brasileiro, entre eles voto e horário político obrigatórios e a manutenção, por parte de órgãos oficiais, da ocupação de espaços estratégicos importantes na mídia. Do ponto de vista prático, único, da comunicação, o programa não se justifica mais, tamanha a rapidez com que as notícias e divulgações oficiais são apresentadas e atualizadas na internet em tempo real e, mesmo, nas redes de televisão por assinatura. Dificilmente haverá situações em que o governo mantenha reservada alguma notícia a ser divulgada, de forma inédita, às sete da noite. Há recentes discussões sobre a obrigatoriedade de transmissão do programa, inclusive com projeto de lei na pauta de votação para os próximos meses. Infelizmente, essa flexibilização considera apenas a possibilidade de alterar o horário de início do programa para as 19, 20 ou 21 horas em rádios particulares não educativas. Rádios de concessão educativa, públicas, legislativas, comunitárias e estatais permaneceriam com a obrigatoriedade normal. Há espaço de alterações pontuais para rádios particulares que desejem transmitir jornada de futebol no horário de 19 às 22 horas, mas com o prévio consentimento de órgãos competentes. Acho que as alterações deveriam ser mais radicais e efetivas. Penso que deveria haver um rodízio semestral entre todas as rádios de uma mesma cidade, por todo o país, de forma que apenas uma delas transmitisse o programa diariamente. Com isso, seria preservado o direito àquele cidadão que desejasse continuar ouvindo o programa e o estado continuaria a divulgar ações e informações pertinentes às várias esferas do executivo, legislativo e judiciário que utilizam o programa. Com a palavra, organismos sociais, representantes das mídias e o povo brasileiro, com sua voz, a voz do Brasil!

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

A SINA DA VACINA QUE ENSINA

Na hora da vacina, a espetada da agulha é traumatizante para crianças e pais; depois é só tranquilidade e benefícios duradouros. Com essa filosofia na cabeça, levei meus filhos ao show do João Bosco, voz e violão, uma releitura de suas músicas mais antigas e sucessos de artistas consagrados. Tiro e queda. Eles detestaram a apresentação, ficaram muito invocados e, se já não gostavam do 'aguirilôba, brigadugenti', agora é que vão querer distância desse tipo de música. Tá de brincadeira, pai? Com caras de o-que-é-que-eu-vim-fazer-aqui?, cintos de segurança afivelados, cada um ligou o seu ipod no primeiro set-list de heavy rock que encontrou e vamos à pizza, entrada de focaccia de alecrim e sal grosso, que ninguém é de ferro. Para mim foi surpresa nenhuma, tudo certo como dois e dois são cinco, diria o rei; ou melhor, tudo sob controle, diria o comandante do Titanic. O show foi sensacional. João tocou Agnus Sei, Caça à Raposa, Incompatibilidade de Gênios, Escadas da Penha, Bala com bala, todas do começo da carreira e deixou as mais populares pro final: Papel Machê, Quando o Amor Acontece, Ametista e O Bêbado e a Equilibrista. Considerando as idades deles e relevando a corujice do pai, já possuem relativa cultura musical e muita afinidade com instrumentos. 'Só não serão músicos, profissionais ou amadores, se não quiserem', carimbou o tio Carlos, há algum tempo. Voltando ao concerto, Bruno, dez anos, começou todo animadinho, na metade do show estava esticado, com as pernas em cima dos meus joelhos e, ao final, praticamente deitado no carpete. Rafael, mais velho, parecia ter assistido a uma ópera completa com cinco horas, de tão cansado e desanimado. Tudo compensou quando, na saída do teatro, ele mandou duas observações ultra pertinentes: 'não entendi nada das letras' e 'ele usa uns acordes bem diferentes, não é, pai?' Yes! Give me the five! Estamos falando de letras do Aldir Blanc, com a complexa estética do sincretismo religioso e a romântica malandragem suburbana carioca. Para um garoto de treze anos, a simples identificação e estranheza dessa literatura musical é sinal de que está tudo bem; não entender, então, é o máximo da inteligência. So far, so good. E o comentário sobre os acordes diferentes? Estamos falando de nonas, décimas terceiras e diminutos, com a dinâmica de interpretação do estilo-joão-bosco de tocar violão. De tão feliz, liberei duas latinhas de guaraná para cada um durante a pizza, porque normalmente é uma só. Sempre ouvi mpb, blues, jazz, soul music americana e rock ingês clássico. Bem ou mal eles sempre estiveram expostos a esse tipo de música e, nos últimos anos, passei a ouvir rock mais pesado, por influência deles. Em menos de um ano vimos Guns & Roses, Green Day e Ringo Star, entre outros. Procuro ouvir um pouco de tudo, de Vivaldi a Restart, sem preconceito ou predisposição negativa, afinal há que se ter conhecimento e convicção pra elogiar ou esculhambar. Há três tipos de música: a boa, a ruim e a do Clube da Esquina, que não é boa nem ruim, é fundamental. A experiência de ver João Bosco ao vivo foi interessante e importante, a vacina da qualidade musical foi inoculada e renderá frutos positivos. Assim é a vida. Assim é o ‘mundo, mundo, vasto mundo’. Quantos ensinamentos nos foram passados por nossos pais e amigos e, à época, não fizemos a leitura equilibrada e justa de sua importância? Tem nada não. O importante é que a emoção sobreviva.