segunda-feira, 27 de maio de 2013

TARDE DE SÁBADO


Assim que o carro diminuiu a velocidade e lhes cedeu passagem, elas atravessaram e lançaram discretos sorrisos de agradecimento ao casal, que se beijava e as cumprimentava, de volta, em rítmica sincronia facial. A tarde quente de outono derramava preguiça, alegria e cumplicidade, sentimentos de prazer indescritível e inerentes às viagens de direito e de fato. A calçada estreita e desnivelada dificultava a caminhada mas as mantinha próximas, como sempre foram. De mãos dadas, agora iam em direção ao ateliê do artesão indicado e que prometera recuperar o precioso anel, que soltara a esmeralda ao cair no piso cimentado da sala de costura. Ansiosa, Neuza contava os minutos para ver a peça reparada, herança da avó materna a que teve direito pelos poucos minutos de vida à frente de Norma, irmã dileta e companheira de vida em comum. Embora saudáveis, vistosas e independentes, a sorte no amor não as agraciara até então. Movidas ansiosamente pelos instintos maternais, cederam ao insistente aconselhamento da prima. Então, viajaram de surpresa com o propósito de conhecer e agradecer à bendita jovem que lhes prometera entregar o filho, que nasceria em seis semanas. Sem saber da visita, Glória viajara para a capital, em busca dos medicamentos caros e raros, distribuídos sem custo, para aliviar os males da bursite que a afligia nas frias noites da pequena cidade natal. Como o ateliê estava fechado, resolveram fazer um lanche no café da praça. Pediram torta de maçã com cobertura de canela, acompanhada de café espresso. Enquanto conversavam, reconheceram o casal do carro sentado ao fundo da cafeteria. Trocaram breve aceno de cabeça e notaram que havia coincidência na escolha do pedido. Cozinheiras de mão cheia, ficaram impressionadas com a textura da torta, recomendada pela prima há bastante tempo. Impossível não notar, também, o carinho com que os dois se tratavam. 'Aposto que estão em lua de mel', Norma falou ao ouvido da irmã, que sorria e concordava com a cabeça. Há muito precisavam mudar os afazeres rotineiros e se distrair um pouco. A viagem de última hora, sem planejamento, havia sido uma ótima decisão, mesmo não conseguindo fazer tudo o que pretendiam. Pediram a conta, saíram e resolveram ligar para a prima, que lamentou não encontrá-las e as aconselhou a não visitar ainda a futura mãe biológica. Havia questões a serem conversadas pessoalmente. Sugeriu que esperassem um pouco para irem juntas e que contivessem a ansiedade, pois tudo aconteceria no ritmo natural das coisas. Como o ateliê continuava fechado, caminharam tranquilas, de mãos dadas, olhando as casinhas uniformes com janelas grandes em pintura escura e nova. A tarde caía e anunciava a noite fria de lua cheia, enquanto o ônibus deixava a estação. Daquele ponto em diante, tudo ficava por conta dos aromas dos jantares e das conversas nas calçadas que inundavam de emoção os lares daquela cidade do interior.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

MONTANHAS-RUSSAS

Manutenção. Era a palavra chave. Eram da manutenção e podiam andar nas montanhas-russas sem bilhetes, sem filas, quando e quantas vezes quisessem. Valendo-se de argumentações relacionadas a questões de segurança ou parametrização de novas tecnologias podiam interromper passeios, pedir que usuários saíssem, tomar os assentos e se divertirem, quebrando recordes de voltas e malabarismos diários . Eram muitas e diferentes e perigosas e surpreendentes aquelas máquinas de iludir e brincar com o medo e de aflorar as emoções. Algumas, antigas, de madeira branca, estalavam e rangiam na subida, não eram muito altas e a velocidade não os assustava, mas o passeio demorava, o vento lambia seus rostos e os levava a lugares imaginários, onde eram felizes e o mal não se instalava. Davam-se as mãos, olhavam-se e riam do sobe e desce, do frio na barriga, do pânico e do prazer, desde o fim até o começo de tudo aquilo que podiam repetir e corrigir e desfrutar. Mas havia outras, novas, curtas e rápidas, feitas de material leve e resistente, que traziam tanto medo quanto sedução e o lançar-se de imediato era inevitável, sem questionamentos prévios e sem conhecimentos de causa e efeito. Tudo em nome do novo, do intenso, em direção ao futuro, à luz no fim do túnel que dava para o infinito. Em meio a tanta velocidade e mudanças de rota, experimentavam sensações extremas e viciantes, daí o fôlego faltava e as reações eram imprevisíveis. Não havia como voltar aos cartesianos lugares de segurança e às armadilhas da imobilidade. Gostavam das rotas de abismos e despenhadeiros do azul do céu a misturar-se ao verde das copas das árvores e ao marrom do chão. No começo, assustavam-se com as próprias reações de que tudo se perderia em meio ao caos e às desconstruções de seus altares invioláveis de segurança. Pesava certa sensação de inércia motivada por tristeza de abandonos e destratos insistentes de um passado recente. Mas quando o carro desacelarava e a estação aparecia, entendiam que o mergulho fôra seguro e importante, que as sensações novas incorporavam-se aos seus cadernos de viagens e já faziam parte de suas histórias imponderáveis de manhãs seguintes. Durante os mergulhos inesperados e intensos, por vezes os dois se assustavam e achavam que não conseguiriam segurar a onda, mas a cada vez que superavam obstáculos e corrigiam rotas sentiam-se mais fortalecidos, confiantes e a felicidade oxigenava seus pulmões, enchia suas mentes, brilhava em seus olhos e inundava-lhes os corações. Reservados, guardavam esses intensos momentos de felicidade para si. Nada havia a esconder, tampouco a divulgar ou dividir à revelia, aos quatro ventos. Tudo no ritmo natural das coisas. Sabiam que, arma quente, a felicidade vem e vai e fica e sai como as estações, como as folhas, como o que reluz e se apaga. Assim, ao final do dia, iam para suas casas, deitavam e ficavam repassando em câmera lenta os detalhes de tudo aquilo que acontecera, antes que se diluíssem e se apagassem de suas consciências. Depois, exaustos, felizes e já com saudade do que viria no dia seguinte, dormiam e sonhavam com lugares imaginários que eram a própria imitação de suas realidades. Eram da manutenção e podiam andar nas montanhas-russas quando e quantas vezes quisessem.

sexta-feira, 29 de março de 2013

A CHEGADA DO AMOR

Quando o amor apresentar-se no meio da madrugada,
dê-lhe atenção, cuide para que não escorra pelos dedos,
ofereça-lhe tempo, disponibilize-se, respire e o mereça,
guarde na caixa antiga de si mesmo as oportunas reservas,
os mais longínquos projetos de viagens, as melhores intenções.

Abstenha-se de dar-lhe ordens embaladas em papéis de sugestões,
seja-lhe audição para que se desmereça, deixe que desmorone,
que a tudo dificulte e assuste, eis que anseia lançar-se em mar revolto,
nada há de comum, conservador ou previsível nesse momento,
trate, portanto, de esvaziar-se e cuide de aprender tudo de novo.

Saiba que é permitido experimentar e sentir, mas não revelar,
o amor não quer ouvir, só precisa ser amado e surpreendido,
não o sufoque com cobranças, programações e compromissos,
deixe-o livre para que não lhe brote o pânico da não retribuição,
do desencanto e do sofrimento que sutilmente lhe ronda a alma.

O amor tem urgência diária de carinho, criatividade, humor e respeito,
tudo acrescido a doses precisas de ironia no jogo emocional da sedução,
daí, o não apontará para o seguir em frente e o sim a possíveis abismos,
quando o amor sentir-se confiante, confortável e pronto para instalar-se,
só então as tonalidades cinzas e negras cederão lugar ao vermelho.

quinta-feira, 21 de março de 2013

AUTOESTIMA X EGO

Altos e baixos. Subindo e descendo. Assim é o termômetro da vida, o eletrocardiograma que nos impulsiona e nos traz de volta, o tobogã dos parques temáticos que habitam nossa existência. Estamos sempre a questionar coisas e momentos que não se explicam, sem lógica, situações que acontecem de forma rápida e circunstancial. Ao acharmos que estamos no embarque de um trem a caminho de uma nova trilha, o fim se apresenta, nos decepciona, nos enche de tristeza e de inseguranças. Deparamo-nos com tantas situações complexas e singulares que espantam nossa mente e nosso coração, trazendo-nos angústia e sofrimento. Foram tantos os momentos de necessidade de recomposição mental e espiritual, verdadeiros labirintos de testes e provações, estrada íngrime com abismos e grutas escuras, que precisei entender e diferenciar autoestima de ego para acalmar minha alma e seguir em frente. Com frequência, confundimos essas sensações. Achamo-nos sozinhos, abandonados, ficamos sem referências, confusos. Autoestima é acreditarmos em nós mesmos, deixarmos a criança pura e boa que existe dentro de nós falar mais alto, sabermos que somos éticos, justos, bons e solidários. Não importa o que pensam de nós ou que aparentemente não sejamos competentes para demonstrar o nosso valor. O que conta é o nosso respirar, nossa emoção, nossos instintos naturais, nosso anjo da guarda a nos guiar pela floresta escura com tranquilidade e confiança. Ego é outra coisa, é a parte ruim, é a ansiedade, o medo, a fraqueza, o desequilíbrio. Ego é a busca de reconhecimento o tempo todo, querer ser elogiado, contentar-se com superficialidades que nos envaidecem e não nos engrandecem. Acho curioso e, às vezes engraçado, ouvir pessoas dizendo que receberam ou realizaram algo que 'fez bem para o ego delas', 'isso inflou meu ego', repetem, equivocadas. A mídia dedica um espaço enormemente ridículo às mediocridades de celebridades com suas imunidades e paredões que dividem o nada do nada. Grande parte dos órgãos de comunicação dita os conceitos, os modismos de forma irresponsável, mirando-se num espelho três por quatro de seu descompromisso e alienação para difundir uma imagem distorcida, despropositada de qualquer intenção cultural. Humildade, agradecimento, gentileza, tranquilidade são pontes que nos ajudam a fortalecer a autoestima. O ego nos confunde, nos limita, nos enfraquece, nos deprime e nos cega. O ego diz 'muito obrigado e faça o favor'. A autoestima diz 'muito agradecido e pode dar-me o prazer?'. A diferença é gritante. Por uma porta entram obrigações, favores, débitos, pendências. Por outra saem agradecimentos, prazeres, leveza, naturalidade. Como amante da língua portuguesa, adoro a palavra autoestima, composta pelas cinco vogais, que se entrelaçam e convivem com as consoantes para explicar quase tudo desse mundo mundo vasto mundo, que o poeta de Itabira falou.

domingo, 10 de março de 2013

TEMPO DE FALAR SOBRE O TEMPO – 38.45

Há muito queria escrever esta crônica sobre o tempo. Pacientemente, esperei o momento certo, fiquei ali sentado, dando um tempo, quando fui contemplado com o sinal de sua presença. Revelou-se de forma inesperada, sutil, marcante. Registro formal preciso, dizia-me que tudo daria certo e na hora certa, que necessitaria exatamente de tempo, para pensar, fazer e melhorar. Tudo mudou desde então. Foi-se o período sabático de reciclagens, prenúncio de novos tempos, novo ciclo, a roda da fortuna a brindar-me em círculo virtuoso. O conceito de tempo é tão delicado, relativo e particular. O que para uns é muito rápido, para outros é insuportável de se aguardar. A palavra tempo tem origem no latim. Ela é derivada de tempus e temporis, que significam a divisão da duração em instante, segundo, minuto, hora, dia, mês, ano, etc. Os latinos usavam aevum para designar a maior duração, o tempo. A palavra idade, por exemplo, surgiu de aetatis, uma derivação de aevum. Tema recorrente na música, literatura, cinema e no cotidiano, claro e inegável que há tempo para tudo. Há várias passagens bíblicas que falam sobre o tempo, entre elas o Livro dos Eclesiastes 3: ‘Tudo tem o seu tempo determinado e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer e de morrer; tempo de plantar e de arrancar o que se plantou; tempo de derrubar e de edificar; tempo de chorar e de rir; tempo de prantear e de dançar’. Um dos maiores clássicos da literatura brasileira, ‘O Tempo e o Vento’, de Érico Veríssimo, é uma trilogia épica que remonta ao passado histórico do Rio Grande do Sul dos séculos XVIII a XX, focaliza as disputas de terra e poder e é dividido em O Continente, O Retrato e O Arquipélago, chegando até à ditadura Vargas. ‘O tempo não para’, cantava o poeta Cazuza, que foi ao inferno, conheceu os Jardins do Éden e voltou. Esse, que é um de seus maiores sucessos, foi composto por ele, Arnaldo Brandão e pelo dramaturgo americano Howard Ashmann, quando parte da mídia já o dava como morto. Senso comum ouvir pessoas reclamando que não têm tempo para nada, que seus dias deveriam ter pelo menos trinta horas e queixando-se de que, a cada ano, o tempo está passando mais rápido. Há o ‘Tempo Rei’ de Gilberto Gil, transformando as velhas formas do viver e a ‘Oração ao tempo’ de Caetano que, sutilmente o compara ao amor paterno: ‘és um senhor tão bonito quanto a cara do meu filho’. Uma de minhas favoritas é ‘Resposta ao Tempo’, de Cristóvão Bastos e Aldir Blanc na magnífica voz de Nana Caymmi, com suas batidas na porta da frente. Os práticos de plantão abusam da máxima ‘tempo é dinheiro’ como formato de verdade universal. Às vezes o dinheiro prolonga o tempo, mas não o compra ou controla. A propósito, partindo do conceito de que a vida imita a arte, o cineasta Andrew Niccol dirigiu e lançou em 2011 ‘O preço do amanhã’, com Amanda Seyfried e Justin Timberlake. No roteiro ambientado em futuro próximo, as pessoas nascem com um relógio integrado ao corpo, que controla o tempo restante de vida. Aos vinte e cinco anos, ganham um ano de bônus e, para viver mais, terão que comprar horas adicionais. Nessa sociedade, os ricos e poderosos conseguem ganhar décadas de uma só vez, podendo até se tornar imortais. Os outros têm de pedir esmolas, pegar emprestado ou roubar mais horas para chegar vivo até o final do dia. Ficção, previsão ou predição? Na comédia romântica de 1993, ‘Feitiço do tempo’, o diretor Harold Ramis aborda o tema de forma leve e traz a ideia de como podemos aproveitar o tempo e as oportunidades a cada dia. Contracenando com a linda Andie MacDowell, Bill Murray, repórter de televisão que faz previsões de meteorologia, vai a uma pequena cidade preparar matéria sobre a chegada do inverno. Pretendendo ir embora o quanto antes, inexplicavelmente, ele fica preso no tempo e é condenado a repetir os mesmos eventos do dia anterior. Ganhador de cinco Oscars em 2012, ‘A invenção de Hugo Cabret’ é uma pérola para os amantes da sala escura. O genial diretor Martin Scorsese homenageia Georges Méliès,considerado o inaugurador da narrativa cinematográfica, pioneiro da ilusão e dos efeitos especiais, já no século XIX. Baseado no romance homônimo de ficção histórica do americano Brian Selznick, de 2007, no princípio o filme centra-se em Hugo, magistralmente interpretado por Asa Butterfield, órfão que, nos anos trinta, mora clandestinamente numa estação de trem parisiense. Ele acerta grandes relógios e furta para sobreviver, sempre fugindo do inspetor que nunca o alcança porque o aparelho que usa na perna o impede de correr. Hugo é pego por um velhinho que toca uma loja de brinquedos na estação e que se apodera do seu maior tesouro, um caderno herdado de seu pai relojoeiro, com as instruções para reparar um antigo autômato em forma de menino. Inseguros e infelizes, casais em crise resolvem dar um tempo, que é uma pausa, um interromper do tempo conjunto. Americanos usam a expressão ‘give me a break’ para afastar alguém de forma abrupta: dá um tempo! Nos ringues, o gongo do tempo de final do assalto interrompe o massacre que resultaria em iminente risco de morte. Na ânsia de ouvir uma boa notícia, famílias se contentam com a imprevisibilidade médica e científica de que só o tempo dirá sobre o estado e a evolução do quadro do paciente. Ao final de noventa minutos de jogo, técnicos, jogadores e torcida culpam e massacram juízes por ter-lhes furtado trinta preciosos segundos de tempo extra que, acreditam, seriam suficientes para ganhar a partida. O tempo corrige quase tudo, as decepções amorosas, as decisões inconsequentes, os equívocos financeiros, o ódio e as injusticas, o tempo leva e traz amarguras, o tempo não tem pressa, está à nossa disposição e não está nem aí para nós.