segunda-feira, 22 de abril de 2013
MONTANHAS-RUSSAS
Manutenção. Era a palavra chave. Eram da manutenção e podiam andar nas montanhas-russas sem bilhetes, sem filas, quando e quantas vezes quisessem. Valendo-se de argumentações relacionadas a questões de segurança ou parametrização de novas tecnologias podiam interromper passeios, pedir que usuários saíssem, tomar os assentos e se divertirem, quebrando recordes de voltas e malabarismos diários . Eram muitas e diferentes e perigosas e surpreendentes aquelas máquinas de iludir e brincar com o medo e de aflorar as emoções. Algumas, antigas, de madeira branca, estalavam e rangiam na subida, não eram muito altas e a velocidade não os assustava, mas o passeio demorava, o vento lambia seus rostos e os levava a lugares imaginários, onde eram felizes e o mal não se instalava. Davam-se as mãos, olhavam-se e riam do sobe e desce, do frio na barriga, do pânico e do prazer, desde o fim até o começo de tudo aquilo que podiam repetir e corrigir e desfrutar. Mas havia outras, novas, curtas e rápidas, feitas de material leve e resistente, que traziam tanto medo quanto sedução e o lançar-se de imediato era inevitável, sem questionamentos prévios e sem conhecimentos de causa e efeito. Tudo em nome do novo, do intenso, em direção ao futuro, à luz no fim do túnel que dava para o infinito. Em meio a tanta velocidade e mudanças de rota, experimentavam sensações extremas e viciantes, daí o fôlego faltava e as reações eram imprevisíveis. Não havia como voltar aos cartesianos lugares de segurança e às armadilhas da imobilidade. Gostavam das rotas de abismos e despenhadeiros do azul do céu a misturar-se ao verde das copas das árvores e ao marrom do chão. No começo, assustavam-se com as próprias reações de que tudo se perderia em meio ao caos e às desconstruções de seus altares invioláveis de segurança. Pesava certa sensação de inércia motivada por tristeza de abandonos e destratos insistentes de um passado recente. Mas quando o carro desacelarava e a estação aparecia, entendiam que o mergulho fôra seguro e importante, que as sensações novas incorporavam-se aos seus cadernos de viagens e já faziam parte de suas histórias imponderáveis de manhãs seguintes. Durante os mergulhos inesperados e intensos, por vezes os dois se assustavam e achavam que não conseguiriam segurar a onda, mas a cada vez que superavam obstáculos e corrigiam rotas sentiam-se mais fortalecidos, confiantes e a felicidade oxigenava seus pulmões, enchia suas mentes, brilhava em seus olhos e inundava-lhes os corações. Reservados, guardavam esses intensos momentos de felicidade para si. Nada havia a esconder, tampouco a divulgar ou dividir à revelia, aos quatro ventos. Tudo no ritmo natural das coisas. Sabiam que, arma quente, a felicidade vem e vai e fica e sai como as estações, como as folhas, como o que reluz e se apaga. Assim, ao final do dia, iam para suas casas, deitavam e ficavam repassando em câmera lenta os detalhes de tudo aquilo que acontecera, antes que se diluíssem e se apagassem de suas consciências. Depois, exaustos, felizes e já com saudade do que viria no dia seguinte, dormiam e sonhavam com lugares imaginários que eram a própria imitação de suas realidades. Eram da manutenção e podiam andar nas montanhas-russas quando e quantas vezes quisessem.
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