domingo, 10 de março de 2013

TEMPO DE FALAR SOBRE O TEMPO – 38.45

Há muito queria escrever esta crônica sobre o tempo. Pacientemente, esperei o momento certo, fiquei ali sentado, dando um tempo, quando fui contemplado com o sinal de sua presença. Revelou-se de forma inesperada, sutil, marcante. Registro formal preciso, dizia-me que tudo daria certo e na hora certa, que necessitaria exatamente de tempo, para pensar, fazer e melhorar. Tudo mudou desde então. Foi-se o período sabático de reciclagens, prenúncio de novos tempos, novo ciclo, a roda da fortuna a brindar-me em círculo virtuoso. O conceito de tempo é tão delicado, relativo e particular. O que para uns é muito rápido, para outros é insuportável de se aguardar. A palavra tempo tem origem no latim. Ela é derivada de tempus e temporis, que significam a divisão da duração em instante, segundo, minuto, hora, dia, mês, ano, etc. Os latinos usavam aevum para designar a maior duração, o tempo. A palavra idade, por exemplo, surgiu de aetatis, uma derivação de aevum. Tema recorrente na música, literatura, cinema e no cotidiano, claro e inegável que há tempo para tudo. Há várias passagens bíblicas que falam sobre o tempo, entre elas o Livro dos Eclesiastes 3: ‘Tudo tem o seu tempo determinado e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer e de morrer; tempo de plantar e de arrancar o que se plantou; tempo de derrubar e de edificar; tempo de chorar e de rir; tempo de prantear e de dançar’. Um dos maiores clássicos da literatura brasileira, ‘O Tempo e o Vento’, de Érico Veríssimo, é uma trilogia épica que remonta ao passado histórico do Rio Grande do Sul dos séculos XVIII a XX, focaliza as disputas de terra e poder e é dividido em O Continente, O Retrato e O Arquipélago, chegando até à ditadura Vargas. ‘O tempo não para’, cantava o poeta Cazuza, que foi ao inferno, conheceu os Jardins do Éden e voltou. Esse, que é um de seus maiores sucessos, foi composto por ele, Arnaldo Brandão e pelo dramaturgo americano Howard Ashmann, quando parte da mídia já o dava como morto. Senso comum ouvir pessoas reclamando que não têm tempo para nada, que seus dias deveriam ter pelo menos trinta horas e queixando-se de que, a cada ano, o tempo está passando mais rápido. Há o ‘Tempo Rei’ de Gilberto Gil, transformando as velhas formas do viver e a ‘Oração ao tempo’ de Caetano que, sutilmente o compara ao amor paterno: ‘és um senhor tão bonito quanto a cara do meu filho’. Uma de minhas favoritas é ‘Resposta ao Tempo’, de Cristóvão Bastos e Aldir Blanc na magnífica voz de Nana Caymmi, com suas batidas na porta da frente. Os práticos de plantão abusam da máxima ‘tempo é dinheiro’ como formato de verdade universal. Às vezes o dinheiro prolonga o tempo, mas não o compra ou controla. A propósito, partindo do conceito de que a vida imita a arte, o cineasta Andrew Niccol dirigiu e lançou em 2011 ‘O preço do amanhã’, com Amanda Seyfried e Justin Timberlake. No roteiro ambientado em futuro próximo, as pessoas nascem com um relógio integrado ao corpo, que controla o tempo restante de vida. Aos vinte e cinco anos, ganham um ano de bônus e, para viver mais, terão que comprar horas adicionais. Nessa sociedade, os ricos e poderosos conseguem ganhar décadas de uma só vez, podendo até se tornar imortais. Os outros têm de pedir esmolas, pegar emprestado ou roubar mais horas para chegar vivo até o final do dia. Ficção, previsão ou predição? Na comédia romântica de 1993, ‘Feitiço do tempo’, o diretor Harold Ramis aborda o tema de forma leve e traz a ideia de como podemos aproveitar o tempo e as oportunidades a cada dia. Contracenando com a linda Andie MacDowell, Bill Murray, repórter de televisão que faz previsões de meteorologia, vai a uma pequena cidade preparar matéria sobre a chegada do inverno. Pretendendo ir embora o quanto antes, inexplicavelmente, ele fica preso no tempo e é condenado a repetir os mesmos eventos do dia anterior. Ganhador de cinco Oscars em 2012, ‘A invenção de Hugo Cabret’ é uma pérola para os amantes da sala escura. O genial diretor Martin Scorsese homenageia Georges Méliès,considerado o inaugurador da narrativa cinematográfica, pioneiro da ilusão e dos efeitos especiais, já no século XIX. Baseado no romance homônimo de ficção histórica do americano Brian Selznick, de 2007, no princípio o filme centra-se em Hugo, magistralmente interpretado por Asa Butterfield, órfão que, nos anos trinta, mora clandestinamente numa estação de trem parisiense. Ele acerta grandes relógios e furta para sobreviver, sempre fugindo do inspetor que nunca o alcança porque o aparelho que usa na perna o impede de correr. Hugo é pego por um velhinho que toca uma loja de brinquedos na estação e que se apodera do seu maior tesouro, um caderno herdado de seu pai relojoeiro, com as instruções para reparar um antigo autômato em forma de menino. Inseguros e infelizes, casais em crise resolvem dar um tempo, que é uma pausa, um interromper do tempo conjunto. Americanos usam a expressão ‘give me a break’ para afastar alguém de forma abrupta: dá um tempo! Nos ringues, o gongo do tempo de final do assalto interrompe o massacre que resultaria em iminente risco de morte. Na ânsia de ouvir uma boa notícia, famílias se contentam com a imprevisibilidade médica e científica de que só o tempo dirá sobre o estado e a evolução do quadro do paciente. Ao final de noventa minutos de jogo, técnicos, jogadores e torcida culpam e massacram juízes por ter-lhes furtado trinta preciosos segundos de tempo extra que, acreditam, seriam suficientes para ganhar a partida. O tempo corrige quase tudo, as decepções amorosas, as decisões inconsequentes, os equívocos financeiros, o ódio e as injusticas, o tempo leva e traz amarguras, o tempo não tem pressa, está à nossa disposição e não está nem aí para nós.

4 comentários:

  1. Isso que é um verdadeiro três em um da Phillips: reflexão nas linhas, música e cinema. Nada como a entrega de alma para resgatar a inspiração, não é? Pois desejo-lhe o melhor que a espera do tempo possa contemplá-lo. Grande abraço. Mitzi.

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  2. Muito bom! Realmente o tempo é o senhor de tudo.
    Lembrei-me de uma das frases de "O Tempo", de Mario Quintana:
    "Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
    A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará."
    Abs. Isamir

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  3. Ui, volto depois, pq ás 7:43 hs da manhã não consigo ler tanta coisa. Ah, falando em tempo, ontem daqui da janela lateral (não é a do quarto), tirei umas fotos do céu e da chuva depois de uma tempestade. Enviei para mamãe e não sei se ela colocará no blog. bj e até mais

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  4. Nossa,Marcinho,queria eu ser contemplada com um sinal deste,(ou melhor é mais uma enciclopédia que sinal)que memória é esta primo,belas citações,mesmo sendo em letras de músicas,palavras jogadas num livro,experiências vividas,ficções talvez,mas vc é um iluminado.He...o tempo não espera,não diz tudo,não mostra quase nada,vamos aproveitar enquanto ele não para,sorte sempre pra vc,saudades,bjs.
    Ha,avisa a gente qd vc postar suas crôniacas,ok,bye.

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