quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
A MOÇA DA BICICLETA
Ela adorava as manhãs de sábado. Esperava ansiosamente que chegassem logo as manhãs de sábado. Pegava sua bicicleta e saía, feliz, pelos vilarejos, pelos campos, passava por rios, sempre alegre. Ia visitar os enfermos e necessitados, doentes crônicos ou aqueles que tivessem passado por um pequeno acidente qualquer. Era um anjo que andava de bicicleta. Todos a cumprimentavam e ela acenava, sem diminuir o ritmo das pedaladas, precisava fazer muitas visitas. Era uma reabilitadora. Adorava fazer isso, ajudar pessoas a reaver seus movimentos, voltar à rotina diária, recuperar a auto-estima e tocar o barco da vida. Era uma reabilitadora de almas. Sentia tamanho prazer em seu ofício, acreditava que todos mereciam uma segunda chance e tomava para si as dores, as dificuldades, toda espécie de deficiências. Não havia limitação ou impossibilidade para ela em sua missão, tudo podia sempre melhorar, nada havia que a desanimasse ou que a fizesse desistir do seu trabalho. Era uma reabilitadora de corpos, de almas e de mentes. Na adolescência, acostumara a cuidar de sua mãe com massagens, compressas e conversas. Sabia contar estórias. Gostava disso. Ela as inventava enquanto deslizava as mãos, de forma cadenciada e suave. Suas mãos pequenas e macias percorriam os corpos, os músculos, nervos e ossos preguiçosos sucumbiam ao seu toque e respondiam de forma surpreendente. Criava uma estória para cada paciente, velhos, crianças, a todos dedicava um tema. Ao final dos encontros, prendia a estória no varal da imaginação de cada um e retomava do ponto exato, a cada sábado, a cada visita. Era uma reabilitadora e todos mereciam uma segunda chance. Sonhava conhecer o mar, viajar e ficar deitada no convés de uma embarcação olhando a lua e as estrelas, naquela imensidão sem fim, ouvindo o barulho das ondas e sentindo o vento forte em seu rosto. No fundo de seu coração, sentia que esse sonho nunca chegaria, que nunca sairia daquele lugar, que tanto amava e onde crescera. Sabia dosar sonhos, queria contar estórias, podia ajudar pessoas. Sempre haveria manhãs de sábado. Pegava sua bicicleta e saía, feliz.
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Marcinho, que lindo muita sensibilidade, sutileza e delicadeza...A moça da bicicleta sai costurando almas, lindo, lindo, muito lindo. Parabéns.
ResponderExcluirEngraçado...este é seu? Tem uma "pegada" diferente. Muito lindo tbm.
ResponderExcluirbj
pois é, sensibilidade e estilo em uma bela crônica que pode ser dedicada ao belo trabalho da Sylvia e Sil. valeu, mano!
ResponderExcluirbeijos em todos,
Deus t abençoe . Eu queria tbm ter uma " bicicleta" desta, pra poder me levar pelo menos um sabado até qualquer necessitado que seja .Bjs e continue nos inspirando . .
ResponderExcluirLindo,esta crônica é de deixar a gente com vergonha,pois vivo dizendo que queria ser voluntaria,mas nunca sei no que posso ajudar,e ai vc mostra que só de estar ao lado de quem precisa é o que vale,parabéns,bjs
ResponderExcluirLinda crônica , Paulo ! Vc conseguiu retratar bem as emoções das pessoas solidárias e carinhosas ; e que bom que elas existem em meio à tanta correria nesse mundo de hoje !!! Linda homenagem !
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