sexta-feira, 4 de março de 2011

DIAS DE DIVA E DIVÃ

Bateu a porta do taxi. Parado em frente ao prédio, confirmou o endereço enquanto olhava os arredores para se ambientar com tudo aquilo. Passou pela portaria e preferiu subir pelas escadas. Há muito não confiava em nada que fosse sustentado por cabos. Chegou ao quinto andar, caminhou até o fim do corredor, abriu a porta da sala e entrou. O sensor denunciou-lhe a presença. Minutos depois ela apareceu, estendeu-lhe a mão, cumprimento firme e carinhoso, um beijo no rosto. Olhos fechados, deixou que o perfume o conduzisse de volta no tempo. Sinestesia absoluta, reconhecia aquele aroma. Alta, bonita, olhos verdes, definitivamente eram verdes. Ela o ajudou a tirar o paletó, conduziu-o até o sofá, pediu que aguardasse um pouco e saiu. Afrouxando a gravata, olhava os objetos, quadros e livros, tudo em sintonia com a luz indireta que deixava o ambiente muito agradável. Entretanto, por mais que procurasse, nada havia ali que lhe fosse familiar. Precisava, desesperadamente, ouvir daquela mulher tudo ou qualquer coisa que resgatasse a memória de sua amada, que o deixara há quase um ano. Acidente de carro. Cansaço. Sono ao volante. Capotamento. Morte instantânea. Vácuo. Remexendo fotos e documentos descobrira o local onde ela estivera duas tardes por semana durante dois anos. Sentia-se curioso e inseguro do que poderia ouvir daquela estranha, confidente e detentora de segredos e confissões da pessoa mais importante de sua vida. Tinha a sensação de que já não a conhecia mais. No processo de desconstrução de sua imagem, começara a fechar e abrir compartimentos como forma de defesa. A cânula aspirou, sem dó nem coerência, gordura junto com sangue, tecidos, músculos, nervos, restaram carne, ossos e um inexplicável instinto de sobrevivência. Agora precisava recorrer a fotos para se lembrar de seu rosto. Luto e luta para se recompor e voltar a viver levaram de sua mente e de seu coração sentimentos bons e ruins. O gosto era de que, mesmo intensa a alma, nem tudo valera a pena. Aceitou um cálice de porto. Começou a falar e perguntar, de forma desconexa e desconfortante, tudo que lhe vinha à mente. Explosão passada, veio o silêncio. Só então ela começou a falar, de forma segura e pausada. Olhos fechados, concentrado e tranquilo, ouviu o que a incomodava, o que sentia, de como pretendia deixá-lo embora ainda o amasse, de como guardava com ternura as longas noites de confidências, do vinho, da música e de como lamentava não cumprir o plano de ficarem sempre juntos. Quantas vezes o emudecimento se fez mais forte do que a vontade de abraçá-la, de reiterar que ainda a queria e o quanto sentia a sua falta, mesmo tendo-a ao lado. Agora nada mais importava, gavetas se fechavam, janelas guardavam o vento frio e forte do lado de fora. Aos poucos, enquanto a voz dela ia ficando distante, seus ouvidos se recusavam a receber mais informações e sua mente foi ficando calma, uma certa paz outrora distante aconteceu. Desceu os cinco andares, passou pela portaria, esperou o sinal abrir, atravessou a rua e decidiu caminhar um pouco. Quase nada fazia mais sentido. Naquele momento precisava apenas caminhar.

2 comentários:

  1. Paulo, invasão domiciliar!!!!
    Escuta, não é a altura, nem o peso, nem os músculos que tornam uma pessoa grande. É a sua sensibilidade sem tamanho.Clarice

    ResponderExcluir
  2. Eu li este na semana passada.... precisei te tempoooo para entender... ainda continuo precisando... volto depois, gurarda meu lugar aí!

    ResponderExcluir