segunda-feira, 9 de maio de 2011

PROJETO CULTURAL PENSAR BRASÍLIA

UM ENSAIO SOBRE IDEIAS E AÇÕES A SEREM IMPLEMENTADAS NA CAPITAL


Brasília é o grande centro das atenções políticas, concentra embaixadas e organismos internacionais, tem o maior nível per capita do país, com localização centralizada e estratégica, grande parte da população tem formação educacional superior, viaja ao exterior com freqüência, possui nível cultural destacado, demonstra interesse e tem acesso a eventos e produções culturais de modo geral.

Entretanto, essa massa populacional concentrada, politizada, privilegiada tem carência de mais produções locais, com organização, infraestrutura e segurança. Com frequência, o público brasiliense se desloca para outros estados para se informar, prestigiar e assistir shows internacionais, eventos esportivos, entretenimento ou fazer turismo nacional e internacional.

Artistas consagrados costumam mencionar em coletivas de imprensa a importância de se apresentarem na capital, sobretudo em função da qualificação intelectual do público, informado, exigente e participativo. Além do público distinto, aqui são formados músicos, atores, dançarinos e esportistas que se destacam pela qualidade, originalidade e vanguarda. Aqui se estuda muito, treina-se muito, a falta de praia e a facilidade de deslocamento contribuem para essa base na formação.

Dada à diversidade cultural da população, que veio de outros centros do país e do mundo para trabalhar, estudar, representar grupos financeiros ou montar negócios, além dos aqui nascidos, que optaram por permanecer na cidade e desenvolver seu lado empreendedor, não necessariamente ligado ao setor público, a cidade cresce na área de serviços e eventos criados para esse público.

Apesar do muito que já foi desenvolvido e produzido, ainda há espaço para crescimento, profissionalização, há que se criar uma cultura de consumo que permita aos artistas ficar aqui, perto de suas famílias e de seu espaço de estudo, treino e aprimoramento. A idéia é chamar a atenção do público de outros centros para que se desloquem para a capital, para que consumam cultura, serviços e produtos locais, ganhando espaço na mídia em geral e atraindo cada vez mais pessoas, grupos e investidores.

Essa esperança de que tudo aconteça intensamente é posta contra a parede, quando vemos o descaso com que são tratados alguns centros formadores de talentos, a precariedade das instalações, a falta de manutenção, o desconforto com que professores, técnicos e alunos são obrigados a passar. É incompreensível como espaços que já formaram e projetaram talentos geniais, artistas e esportistas destacados no exterior, verdadeiros expoentes e, no entanto, esses locais estão sendo destruídos pela falta de uma política cultural e educacional inteligente, competente e compatível com os valores que aqui se encontram. Algumas ações envolvem trabalhos integrados nas áreas de educação, cultura, turismo e esportes, ou seja, todos órgãos voltados para o bem estar mental, físico e cultural dos cidadãos. Exemplos:


ESCOLA DE MÚSICA DE BRASÍLIA

Trata-se de um verdadeiro centro de excelência em ensino de música, formação de músicos, bandas e orquestras. Quantos talentos ali formados se destacam como músicos, professores e líderes formadores de opinião na área musical e cultural, além de representar um excelente mercado de trabalho. O Curso de Verão daquela instituição atrai personalidades, músicos e alunos de várias partes do país e do mundo. Tudo isso se aplica apenas às pessoas, ao patrimônio humano, porque as instalações são extremamente precárias, as salas são apertadas, sem tratamento acústico, aparelhos de ar condicionado e ventiladores quebrados, banheiros sem condições mínimas de uso. A despeito de toda essa falta de estrutura física e desrespeito, a comunidade de professores, alunos e pais continua a freqüentar o espaço, criando e revelando talentos a cada semestre. Por tudo que já produziu e representa, a Escola de Música de Brasília merece e precisa de um projeto de reforma, o que resultará em melhores condições de ensino e será um estímulo à continuidade do excelente trabalho ali desenvolvido.


TEATRO NACIONAL

Um dos melhores teatros do país, possui ótimo palco, excelente acústica, espaço que possibilita apresentações de música, teatro, dança e performances de qualquer natureza, mas está em péssimo estado de conservação. As três salas: Villa-Lobos, com 1.300 lugares, Martins Pena, com 500 lugares e Cláudio Santoro, com 80 lugares para concertos de câmara estão abandonadas. Os camarins estão destruídos, há infiltrações, instalações elétricas precárias que, próximas a cortinas de tecido e madeira, representam riscos de incêndio e acidentes. Músicos, atores, dançarinos, empresários, produtores pagam caro e enfrentam burocracia para ter acesso ao espaço, o público fica mal instalado, os banheiros estão praticamente interditados, não há cafeteria, bombonière, bistrô ou restaurante para que artistas e público possam se encontrar e confratenizar. As únicas reformas são feitas na parte exterior do prédio, de forma a dar uma impressão apresentável ao local, mas quem ali frequenta sabe das péssimas condições do teatro. A meu ver, há necessidade de interrupção no funcionamento e reforma em todo o espaço, com gestão profissional, inclusive no que concerne à segurança e à venda de ingressos, de forma a se evitar a ação de atravessadores e cambistas.


CINE BRASÍLIA

Quem reside na cidade e gosta de cinema já se acostumou à realidade do Cine Brasília, paradoxal, eu diria, no que se refere à sua ocupação. Durante o ano todo o cinema fica praticamente abandonado, a audiência é baixíssima, os filmes se repetem frequentemente e ficam em cartaz várias semanas, sem qualquer ação de marketing ou gestão comercial que atraia a população. Apesar de ser um local com boa acústica e ótimo espaço físico, as instalações são precárias, cadeiras rasgadas e quebradas, carpetes que nunca foram trocados desde a inauguração, infiltrações, equipamentos obsoletos e sem manutenção, um retrato de total abandono. De forma surreal e como um passe de mágica, na última semana do mês de novembro acontece o Festival de Cinema, o mais antigo e importante evento cinematográfico do país e que atrai excelente público durante toda a semana, com lançamentos, premières, palestras, discussões. O local e os convites são concorridíssimos, demonstrando o potencial cultural e comercial a ser explorado nessa área. Para que o festival aconteça, a cada ano são feitas maquiagens, como pequenos ajustes, pinturas e reparos nos banheiros. O espaço precisa ser revitalizado de forma integral e planejada, para que seja utilizado o ano todo, sobretudo porque é muito bem localizado e possui um ótimo estacionamento.


COMPLEXO SALA FUNARTE

O complexo Sala Funarte tem ótima localização, mas é pouco utilizado e valorizado. Seria interessante uma revitalização no local, transformando o espaço num verdadeiro pólo cultural e de entretenimento, uma espécie de Corredor Cultural, que iria da Torre de TV até o Centro de Convenções. A construção da nova sede do Clube do Choro e da Escola Raphael Rabello é muito bem vinda, mas há necessidade de reformas nas Salas Cássia Eller e Plínio Marcos, abertura do Planetário, instalação de salas de cinema, espaços para exposição e aulas de dança, oficinas de teatro infantil, cafés culturais, bares com música ao vivo e estacionamento compatível com o número de usuários. A experiência poderia servir como balão de ensaio para o espaço múltiplo ser replicado em cidades satélites, gerando emprego e levando cultura e arte à população em geral.


TURISMO

Enfatizando análise já abordada no início deste ensaio, aspectos como localização privilegiada, característica populacional, vocação para instalação de indústrias e serviços não poluentes, vasta rede hoteleira e excelentes restaurantes são itens que credenciam nossa capital a se tornar um grande pólo de Turismo e Lazer, a exemplo do que acontece em Las Vegas. Atualmente, aqui acontecem alguns poucos eventos, mas, de forma organizada e sistematizada, a cidade pode e deve receber eventos o ano inteiro, como congressos, shows, feiras, concursos, festivais, exposições de carros, moda, couro, franquias, móveis, jóias, ou seja, é uma vasta gama de setores a serem escolhidos e representados. Os eventos certamente atrairiam turistas e investidores e poderiam acontecer nos finais de semana, quando existe um deslocamento de políticos e seu staff para os respectivos estados de origem, de modo que essa lacuna seria preenchida e explorada comercial e culturalmente através desses eventos.

Essas idéias, traçadas nesse ensaio numa visão macro, representam nichos de atuação cultural e desenvolvimentista, que podem e devem ser exploradas e detalhadas de forma profissional, planejada, estratégica e que, bem implementadas, certamente contribuirão para o crescimento da cidade, criando novas oportunidades de emprego, projetando uma imagem positiva da capital, preparando-a para a Copa do Mundo de 2014 e inserindo-a, definitivamente, num círculo virtuoso de destaque no país e no mundo.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

DE MÉDICOS E LOUCOS

Sabe aquele antigo ditado: de médico, bipolar e louco todo mundo tem um pouco, não sabe? Ok, fiz uma pequena adaptação, pois os tempos são outros e tem gente dando boa noite no início da tarde, outros parando o carro na faixa de pedestre como recomendado, mas matando o coitado de susto, já que deveriam parar antes da faixa, tem cozinheiro confundindo cheiro verde com desodorante do hulk, tem control-alt-del aí pra dar com pau e, como já dizia mano caetano, de perto ninguém é normal. Voltemos ao plantão médico. Atire o primeiro desfibrilador quem não tem um amigo, parente ou chegado que saiba tudo de medicina, de remédios e de receitas caseiras para todo e qualquer tipo de enfermidade. Aposto que o atento leitor está rindo e lembrando-se de alguns entendidos ou situações do gênero, não é mesmo? Isso é um costume, uma tradição, um vírus, permitam-me o trocadilho, que é transmitido e pega na prática, zero de teoria, essa, quase sempre, passa longe. Antigamente, na carência de médicos graduados que não queriam ir para cidades do interior, a tarefa era ocupada por farmacêuticos experientes, respeitados, que atendiam, diagnosticavam e prescreviam medicamentos na maior tranqüilidade e segurança. Nem cobravam consulta, estava tudo embutido no preço do remédio. Lilico diria: tempo bom, não volta mais, saudade desses tempos iguais! No vácuo: tempo bom, da goiabada cascão em caixa, do compacto simples com duas pérolas e nada mais, dos maiôs brancos brincando com nossa imaginação, do padeiro na bicicleta de casa em casa vendendo roscas com cobertura de côco. Foco, meu camarada, voltemos ao plantão médico! O sujeito vai à consulta, fala tudo, demonstra conhecimento de causa graças ao doutor google, zera todas as dúvidas. Pronto, passa a régua! Pedidos de exames debaixo do braço, vai confirmar com um segundo médico e com o terceiro. Bingo! Falaram a mesma coisa, meno male. Ele chega em casa ou no trabalho e, inocente útil ou língua grande, comenta sobre a via crucis das consultas e a bateria de testes. Como quem não está muito interessado, o doutor nosso de cada dia da cadeira ao lado pede para dar uma olhada, põe os óculos de leitura, fica sério e, hipócrates dos hipócritas, manda na maior cara de pau: isso aqui não está certo!!! está faltando coisa... mas ele não pediu aquele outro... não sei não, heim!!!! A vontade que dá é dizer: você não sabe, mas o médico sabe!!! Antes de colocar aquele jaleco, o sujeito estudou uns doze anos, perdeu noites em claro nas emergências cuidando de gente que caiu do quinto andar, levou facada em briga de bar, participou de juntas médicas que discutem os casos antes de diagnosticar, mas o nosso amigo ou amiga tem opinião própria, receita florais, xaropes, pílulas, genéricos, só faltam carimbo e bloquinho personalizado!!! Já vi entendidos questionando ecografias: desculpe, mas na minha ignorância(???) acho que esse gineco (olha a intimidade) se enganou quanto ao sexo do bebê e, olhando bem, pra mim são dois e não apenas um bebê!!! Está rindo? Pois olha a cena: entrada do colégio, crianças entregues, calçada de emergência, ficam aquelas mães trocando figurinhas, uma espécie de congresso local de médicas amadoras, um zero oitocentos disque cobaia alheia infantil, qualquer nota, bossa nova, tarja multicolorida, quem dá mais? Em tempo: rápido, alguém disque 192, que esse sujeito está passando mal...