UM ENSAIO SOBRE IDEIAS E AÇÕES A SEREM IMPLEMENTADAS NA CAPITAL
Brasília é o grande centro das atenções políticas, concentra embaixadas e organismos internacionais, tem o maior nível per capita do país, com localização centralizada e estratégica, grande parte da população tem formação educacional superior, viaja ao exterior com freqüência, possui nível cultural destacado, demonstra interesse e tem acesso a eventos e produções culturais de modo geral.
Entretanto, essa massa populacional concentrada, politizada, privilegiada tem carência de mais produções locais, com organização, infraestrutura e segurança. Com frequência, o público brasiliense se desloca para outros estados para se informar, prestigiar e assistir shows internacionais, eventos esportivos, entretenimento ou fazer turismo nacional e internacional.
Artistas consagrados costumam mencionar em coletivas de imprensa a importância de se apresentarem na capital, sobretudo em função da qualificação intelectual do público, informado, exigente e participativo. Além do público distinto, aqui são formados músicos, atores, dançarinos e esportistas que se destacam pela qualidade, originalidade e vanguarda. Aqui se estuda muito, treina-se muito, a falta de praia e a facilidade de deslocamento contribuem para essa base na formação.
Dada à diversidade cultural da população, que veio de outros centros do país e do mundo para trabalhar, estudar, representar grupos financeiros ou montar negócios, além dos aqui nascidos, que optaram por permanecer na cidade e desenvolver seu lado empreendedor, não necessariamente ligado ao setor público, a cidade cresce na área de serviços e eventos criados para esse público.
Apesar do muito que já foi desenvolvido e produzido, ainda há espaço para crescimento, profissionalização, há que se criar uma cultura de consumo que permita aos artistas ficar aqui, perto de suas famílias e de seu espaço de estudo, treino e aprimoramento. A idéia é chamar a atenção do público de outros centros para que se desloquem para a capital, para que consumam cultura, serviços e produtos locais, ganhando espaço na mídia em geral e atraindo cada vez mais pessoas, grupos e investidores.
Essa esperança de que tudo aconteça intensamente é posta contra a parede, quando vemos o descaso com que são tratados alguns centros formadores de talentos, a precariedade das instalações, a falta de manutenção, o desconforto com que professores, técnicos e alunos são obrigados a passar. É incompreensível como espaços que já formaram e projetaram talentos geniais, artistas e esportistas destacados no exterior, verdadeiros expoentes e, no entanto, esses locais estão sendo destruídos pela falta de uma política cultural e educacional inteligente, competente e compatível com os valores que aqui se encontram. Algumas ações envolvem trabalhos integrados nas áreas de educação, cultura, turismo e esportes, ou seja, todos órgãos voltados para o bem estar mental, físico e cultural dos cidadãos. Exemplos:
ESCOLA DE MÚSICA DE BRASÍLIA
Trata-se de um verdadeiro centro de excelência em ensino de música, formação de músicos, bandas e orquestras. Quantos talentos ali formados se destacam como músicos, professores e líderes formadores de opinião na área musical e cultural, além de representar um excelente mercado de trabalho. O Curso de Verão daquela instituição atrai personalidades, músicos e alunos de várias partes do país e do mundo. Tudo isso se aplica apenas às pessoas, ao patrimônio humano, porque as instalações são extremamente precárias, as salas são apertadas, sem tratamento acústico, aparelhos de ar condicionado e ventiladores quebrados, banheiros sem condições mínimas de uso. A despeito de toda essa falta de estrutura física e desrespeito, a comunidade de professores, alunos e pais continua a freqüentar o espaço, criando e revelando talentos a cada semestre. Por tudo que já produziu e representa, a Escola de Música de Brasília merece e precisa de um projeto de reforma, o que resultará em melhores condições de ensino e será um estímulo à continuidade do excelente trabalho ali desenvolvido.
TEATRO NACIONAL
Um dos melhores teatros do país, possui ótimo palco, excelente acústica, espaço que possibilita apresentações de música, teatro, dança e performances de qualquer natureza, mas está em péssimo estado de conservação. As três salas: Villa-Lobos, com 1.300 lugares, Martins Pena, com 500 lugares e Cláudio Santoro, com 80 lugares para concertos de câmara estão abandonadas. Os camarins estão destruídos, há infiltrações, instalações elétricas precárias que, próximas a cortinas de tecido e madeira, representam riscos de incêndio e acidentes. Músicos, atores, dançarinos, empresários, produtores pagam caro e enfrentam burocracia para ter acesso ao espaço, o público fica mal instalado, os banheiros estão praticamente interditados, não há cafeteria, bombonière, bistrô ou restaurante para que artistas e público possam se encontrar e confratenizar. As únicas reformas são feitas na parte exterior do prédio, de forma a dar uma impressão apresentável ao local, mas quem ali frequenta sabe das péssimas condições do teatro. A meu ver, há necessidade de interrupção no funcionamento e reforma em todo o espaço, com gestão profissional, inclusive no que concerne à segurança e à venda de ingressos, de forma a se evitar a ação de atravessadores e cambistas.
CINE BRASÍLIA
Quem reside na cidade e gosta de cinema já se acostumou à realidade do Cine Brasília, paradoxal, eu diria, no que se refere à sua ocupação. Durante o ano todo o cinema fica praticamente abandonado, a audiência é baixíssima, os filmes se repetem frequentemente e ficam em cartaz várias semanas, sem qualquer ação de marketing ou gestão comercial que atraia a população. Apesar de ser um local com boa acústica e ótimo espaço físico, as instalações são precárias, cadeiras rasgadas e quebradas, carpetes que nunca foram trocados desde a inauguração, infiltrações, equipamentos obsoletos e sem manutenção, um retrato de total abandono. De forma surreal e como um passe de mágica, na última semana do mês de novembro acontece o Festival de Cinema, o mais antigo e importante evento cinematográfico do país e que atrai excelente público durante toda a semana, com lançamentos, premières, palestras, discussões. O local e os convites são concorridíssimos, demonstrando o potencial cultural e comercial a ser explorado nessa área. Para que o festival aconteça, a cada ano são feitas maquiagens, como pequenos ajustes, pinturas e reparos nos banheiros. O espaço precisa ser revitalizado de forma integral e planejada, para que seja utilizado o ano todo, sobretudo porque é muito bem localizado e possui um ótimo estacionamento.
COMPLEXO SALA FUNARTE
O complexo Sala Funarte tem ótima localização, mas é pouco utilizado e valorizado. Seria interessante uma revitalização no local, transformando o espaço num verdadeiro pólo cultural e de entretenimento, uma espécie de Corredor Cultural, que iria da Torre de TV até o Centro de Convenções. A construção da nova sede do Clube do Choro e da Escola Raphael Rabello é muito bem vinda, mas há necessidade de reformas nas Salas Cássia Eller e Plínio Marcos, abertura do Planetário, instalação de salas de cinema, espaços para exposição e aulas de dança, oficinas de teatro infantil, cafés culturais, bares com música ao vivo e estacionamento compatível com o número de usuários. A experiência poderia servir como balão de ensaio para o espaço múltiplo ser replicado em cidades satélites, gerando emprego e levando cultura e arte à população em geral.
TURISMO
Enfatizando análise já abordada no início deste ensaio, aspectos como localização privilegiada, característica populacional, vocação para instalação de indústrias e serviços não poluentes, vasta rede hoteleira e excelentes restaurantes são itens que credenciam nossa capital a se tornar um grande pólo de Turismo e Lazer, a exemplo do que acontece em Las Vegas. Atualmente, aqui acontecem alguns poucos eventos, mas, de forma organizada e sistematizada, a cidade pode e deve receber eventos o ano inteiro, como congressos, shows, feiras, concursos, festivais, exposições de carros, moda, couro, franquias, móveis, jóias, ou seja, é uma vasta gama de setores a serem escolhidos e representados. Os eventos certamente atrairiam turistas e investidores e poderiam acontecer nos finais de semana, quando existe um deslocamento de políticos e seu staff para os respectivos estados de origem, de modo que essa lacuna seria preenchida e explorada comercial e culturalmente através desses eventos.
Essas idéias, traçadas nesse ensaio numa visão macro, representam nichos de atuação cultural e desenvolvimentista, que podem e devem ser exploradas e detalhadas de forma profissional, planejada, estratégica e que, bem implementadas, certamente contribuirão para o crescimento da cidade, criando novas oportunidades de emprego, projetando uma imagem positiva da capital, preparando-a para a Copa do Mundo de 2014 e inserindo-a, definitivamente, num círculo virtuoso de destaque no país e no mundo.
Oi Marcin!!! O desabafo esta sensacional...
ResponderExcluirA questão cultural e artística é tão desvalorizada, e porque não dizer, maltratada. É realmente uma pena, eu sinto muito pelos já artistas e pelos que estão por se manifestar artistas. Eu fico muito triste com tudo isso. A arte, burocraticamente falando, é mais uma imagem carente de sentido que divulga um certo prestígio social e econômico, e menos um meio de conhecimento indispensável para o homem contemplar o mundo. Se a obra de arte é expressão de uma sociedade, testemunho de um tempo, de um estágio de conhecimento, renunciar à sua inteligibilidade é renunciar à História.
A política, por sua vez, apropriou-se da cultura e fez dela um verniz para animar ou dar um polimento ao discurso político. A arte perdeu sua inocência, ela agora é objeto do mercado, do Estado e de outras instituições que desconhecem seus mecanismos de produção e sua História. Se os partidos políticos que falam de cultura em seus programas de campanha querem fazer alguma coisa pela cultura, não deveriam fazer coisa alguma, mas, sim, devolver aos intelectuais, aos artistas, a quem trabalha diretamente com a cultura, o poder de decisão e o comando do processo cultural. É preciso devolver à arte seu território perdido.
Que tristeza estas constatações!
ResponderExcluirMas bom relembrar os nomes como sala Funarte, Cine Brasília, Teatro Nacional... ô minha adolescência... durante anos fui de uma a outro e de outro a uma, assistindo a shows e filmes. Era bom.
E eu ainda penso que o $$$ gasto para copa do mundo seria bem melhor empregado em outras obras permanentes, como nestes prédios.
bj
Muito bem colocado , Paulo !
ResponderExcluirHá 6 meses atrás revisitei a Escola de Música e fiquei muito triste com o estado em que a encontrei . Abandono total .... mato alto , uma pena ! Mesmo sabendo que o nível do ensino , a qualidade dos professores e a fama da Escola são muito altos .
Embora vivendo há mais de 20 anos em São Paulo , sofro muito vendo minha cidade do coração maltratada desse jeito !
Vamos botar a bone no trombone gente !!!!