segunda-feira, 4 de julho de 2011

O TRAMPOLIM DA ALMA

Com o passar dos anos, começam a ficar frequentes aqueles momentos em que retomamos situações de nossas vidas, flash backs involuntários de nós mesmos, depósitos emocionais de comportamentos questionáveis, registros capciosos de poeira em baixo de nossos tapetes. Tem jeito não, eles insistem em montar acampamento e mostrar presença em cada vacilada de nossa concentração, no ponto morto do sinal de trânsito, no aconchego da fronha limpa e macia, na mudança da série nos aparelhos da academia, no abraço carinhoso dos filhos que sujam de chocolate a camiseta recém saída da lavanderia. Como evitar, resistir ou relevar? Atire o primeiro aparelho touchscreen, sempre disponível e nos disponibilizando a tudo e a todos, aquele que não passou por experimentações da natureza! Em meio ao nada da vida atribulada, nas requisições de atenção à mediocridade urgente, escondido entre toda aquela papelada a ser lida e assinada, eis que eles se apresentam, faceiros, em câmera lenta, folgados, acomodados e confortáveis no ar condicionado de nossos infernos astrais. Como evitar, resistir ou relevar? Quantas oportunidades perdidas para, no momento certo e pessoas em questão, desfilar o repertório completo de indelicadezas, desopilar incontestáveis argumentações em ordem crescente numérica, desencadear um arrazoado de motivos que se utilizem de vasto e complexo vocabulário da fina flor do lácio inculta e bela. Longe disso, quantas confissões gastas com ouvintes equivocados, tantas verdades reveladas em situações inadequadas, um sem número de declarações amorosas arquivadas sem direito a recursos, inúmeros discursos ensaiados com direito a suporte de iluminação, figurino e música, mas que foram mal representados e, por consequência, mal interpretados, tiros nos pés em pelica de cromo alemão nos sapateados criativos dos musicais de nossos sonhos e da nossa imaginação? Vida que segue, sala aconchegante com dimer de iluminação indireta, ogivas perfeitas varrendo mondrians milimetricamente pendurados em parafusos com buchas, brisa do mar que invade a cobertura e balança delicadamente a orquídea negra de nossa emoção, set list de orquestras com melodias preferidas de nossos bailes de formatura, tudo a serviço e gasto de modo equivocado com pessoas erradas, ingênuas, insensíveis. Como evitar, resistir ou relevar? E se, no lugar da confusa e criativa verborragia lusitana, tivéssemos simplesmente dito verdades cruas, revelando formas simples e diretas, abraços e apertos de mãos estendidos ao romance com direito a taças de vinho branco gelado, morangos maduros e Bill Evans nos convidando a dançar de rosto colado? O ministério da paciência adverte: gente lesa gera falta de gentileza!

3 comentários:

  1. Momento de reflexão!!!. Simplicidade + verdade = FELICIDADE. Gostei muito. Beijusssssss......ENE.

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  2. Muito bom,nem precisa comentario,como sempre vc fala tudo,parabens,bjs saudades.ANE

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  3. Hein? Eu sou a lesa, pq não entendi?kkkk Mas sou gentil..hahaha.. Marcinho, acho q ainda estou devagar no meu retorno aos blogs... Devo eu voltar ao meu canto? Devo eu ler mais umas 3 vezes? Ó vida! Eis a questão.
    bjs

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