Produzir uma relação de cinco músicas populares brasileiras letradas é muito difícil. Para cada uma escolhida outras mais se apresentam e começam a nos torturar e a nos lembrar os momentos de nossas vidas em que elas aconteceram e nos marcaram. Muito mais que notas e acordes embalando palavras e poemas, música é tudo aquilo que nos alegrou, nos massacrou, nos acompanhou, nos fez crescer e transcender. Fiquem os leitores à vontade para discordar e sugerir outras de suas preferências e, estejam certos, caso eu decida refazer essa relação, outras cinco canções diferentes serão escolhidas, tamanha é a quantidade de obras primas que compõem nossa música popular brasileira. Elas estão em ordem alfabética e não há destaque ou preferência. Essas músicas me conhecem!
ÁGUAS DE MARÇO – Tom Jobim
O conjunto da obra jobiniana é extremamente rico, criativo e particular, sobretudo em texturas harmônicas e pela capacidade de produzir melodias simples e geniais. Fazer o simples com qualidade é muito difícil, tarefa para poucos. Aqui, Tom usa uma letra cadenciada que trata do meio ambiente para falar do cotidiano com muita sabedoria e propriedade, tudo conduzido por uma linha melódica em moto contínuo, que envolve o ouvinte numa trama rítmica incomum, causando estranheza e conforto ao mesmo tempo.
AS APARÊNCIAS ENGANAM – Tunai - Sérgio Natureza
Última música, lado B, do LP ‘Essa Mulher’, de Elis Regina, gravado em 1979. A letra é uma pérola e faz um paralelo entre mudanças de estações e fases dos relacionamentos amorosos, inverno e verão, amor e ódio. Para mim é a melhor música de Tunai. Ele escreveu uma melodia complexa e elegante, que vai permeando harmonicamente a letra, com sensibilidade e criatividade. O arranjo de Camargo Mariano brinda e veste a voz de sua mulher, num momento difícil de suas vidas, em que se iniciavam os desacordes e desacordos da separação.
CHEGA DE SAUDADE – Tom Jobim – Vinícius de Moraes
Emblemática, essa música é considerada por muitos como um marco, o início da bossa nova. Gravada pela primeira vez por Elizeth Cardoso no LP ‘Canção do Amor Demais’, de 1958, imortalizou-se na voz de João Gilberto. Começa em tom menor falando de saudade e tristeza, mas quando o poeta muda o clima da letra na segunda parte e aborda esperança e alegria, Jobim altera a melodia para tom maior, mudança sutil que evidencia a genialidade da dupla.
CHORO BANDIDO – Edu Lobo – Chico Buarque
Chico tem habilidade literária e concisão estética para contar uma estória complexa e torná-la popular numa letra de música. Edu Lobo criou um estilo de tocar violão e compor melodias sofisticadas e agradáveis. Depois do samba canção, jovem guarda e tropicália, ele mescla a base harmônica da bossa nova a influências rítmicas pernambucanas e letras com temática social para iniciar um estilo que viria a se chamar música popular brasileira. A sinergia na união dessa dupla de gênios já produziu músicas memoráveis, mas classifico ‘Choro Bandido’ como o melhor trabalho deles até aqui.
EU E A BRISA – Johnny Alf
Essa obra prima é um clássico e foi composta em 1965 por Johnny Alf, codinome de Alfredo José da Silva, músico, letrista e compositor excepcional, que criou um estilo vanguardista de cantar e tocar piano, influenciou muita gente e nunca teve o devido reconhecimento, nem do público nem da mídia. Morreu pobre e esquecido aos 80 anos e não deixou discípulo à altura que dê sequência à sua escola melódica esteticamente perfeita e criativa. De sofisticada linha harmônica, é daquelas músicas únicas, que não se parecem com nada que se tenha ouvido.
Grande lista e muito bem elaborada , Paulo ! Realmente são 5 pérolas da nossa MPB e que retratam muito bem a riqueza de nossa música tão respeitada pelo resto do mundo !
ResponderExcluiresse adora uma lista, mas sabe como ninguém justificá-las. como permitiu sugestões, registro "A Moça do Sonho", também da sublime dupla Chico-Edu. abraço, mano,
ResponderExcluira "simplicidade densa" do Tom é o que ele traz de melhor pra música brasileira. gosto muito de "águas de março" por conta disso. tem elementos sutis na música que encantam, como as duas notinhas que marcam a música inteira, e são o canto da matita perê. como bom passarinheiro, Tom sabia admirar as coisas simples da vida, trazendo essa beleza para a música que fazia.
ResponderExcluir(vou aproveitar o espaço pra divulgar também o link da revista NIL, onde escrevi uma matéria sobre mulheres no palco do DF hehehe http://www.nilrevista.com/hotsites/edicao2nil.html )
beijos! mayra
Uma lista realmente de peso, apesar de considerar o trabalho de listar apenas 5 músicas algo árduo e, de certa forma, pessoal...
ResponderExcluirO universo de excelentes títulos é imenso.
Mas o "quinteto" é fabuloso.
Respaldo, também a escolha.
Sucesso, sempre!
Petrônio Salgado.
Sujiro colocar 20 ou 30 músicas para serem escolhidas as 5 melhores do blog. Ou a melhor do Chico;Caetano; Gilberto Gil; Edu Lobo; João Bosco; etc.... e depois como uma copa: 8ª de finais; quartas; semi-final; final.
ResponderExcluirUma lista é sempre um desafio,porque acaba sempre refletindo nossas representações pessoais...principalmente quando se trata de música. Nossas vidas são embaladas por trilhas sonoras, como você bem colocou, que carregam grande porção de memórias afetivas. Para mim, dentre as cinco, Choro Bandido, me toca particularmente. No You Tube encontramos uma apresentação antológica de Tom, Chico e Edu cantando essa maravilha... Bjs
ResponderExcluirpois aí está o link para a apresentação citada pela amiga Nancy:
ResponderExcluirhttp://www.youtube.com/watch?v=hQ7GZK60BDY
e para quem quiser conhecer A Moça do Sonho:
http://www.youtube.com/watch?v=XVDPoFWlKzk
As aparências enganam... eu AMO essa música! Já cantei em alguns shows. A letra é perfeita! Adoro e concordo! Um abraço!!
ResponderExcluirAna Reis
Realmente inquestionável a escolha das cinco como pérolas da cultura musical brasileira. Pérolas estas que deram continuidade a verdadeiras obras primas de nomes do passado que escreveram a hitória da musica nacional. Carlos Gomes, Vila Lobos, Chiquinha Gonzaga, João Pernambucano, Noel Rosa, Ismael Silva, João de Barro (Braguinha)e tantos outros. Assim para enaltecer e manter nossa memória musical deste passado tão rico, gostaria de citar a música ROSA de Alfredo da Rocha Viana Filho, o Pinxiguinho.
ResponderExcluirE não dá para esquecer do Gonzagão, compositor, cantor, tocador de zabumba e acordeom... Grande divulgador da cultura nordestina.
ResponderExcluirObrigado Nancy, citar nomes é sempre um risco pois nos expomos a equívocos como este.
ResponderExcluirLuiz Gonzaga não pode ficar fora de nenhuma citação quando se trata de história da MPB.