quarta-feira, 28 de setembro de 2011
DAS MINAS, DO MINÉRIO, DOS MINEIROS
Agora estamos descendo as escadas do pequeno sobrado, em movimento circular que, aos poucos, deixa para trás a claridade vinda dos vitrais de nossa casa. Chegamos à calçada e o frio é intenso. As japonas de lã nos cobrem a parte de cima dos corpos, mas o frio mineral que atravessa nossas calças curtas nos maltrata e desanima. São seis horas da manhã e seguimos nosso trajeto, meu irmão e eu. Estamos a caminho do colégio. Caminhamos em silêncio, passos curtos e rápidos. A estreita calçada nos aproxima e o sopro gelado que sai de nossas bocas, vira fumaça em movimentos divertidos, e isso quebra a dura e cotidiana jornada. Deliciosos aromas de café atravessam as imensas e ainda fechadas janelas de madeira dos casarões. De dentro, saem sussurros, conversas, risadas e raspar de gargantas. O barulho do movimento compassado de vassouras é interrompido para nos dar passagem e nos desejar bom dia. Estamos na parte baixa da cidade de Congonhas do Campo. Caminhamos para o colégio e não podemos nos atrasar. Atravessamos a ponte e iniciamos a longa subida. Nossas pernas curtas enfrentam as ruas íngrimes, pavimentadas com enormes pedras disformes, escorregadias e cheias de vida. Séculos de história e de mistério nos espreitam e nos conduzem. Por ali, cruzaram bispos e beatas em procissão, desfilaram romeiros e rameiras, passaram cruzes esmagando ombros de pecadores e de pescadores de almas. Essas ruas que guardam, em silêncio, conspirações e torturas, promessas e penitências, caminhos de fé e de festa. A subida ritmada e intensa aumenta nossa pulsação e deixa nossos corpos quentes e suados. Agora o frio úmido e a névoa já não castigam nossas pernas descobertas. Nosso regime no seminário é o semi-internato. Longe de ser uma pena, é mais uma comodidade: ficamos o dia todo, lá tudo fazemos e voltamos no início da noite, para dormirmos em casa. Não é bom nem ruim, simplesmente é assim. Depois de longa caminhada, avistamos a Igreja de Bom Jesus de Matosinhos, com os profetas de Aleijadinho, feitos em pedra-sabão, maravilhosas obras de arte admiradas e visitadas por viajantes de todo o mundo, o ano todo: Abdias, Amós, Baruc, Daniel, Ezequiel, Habacuc, Isaías, Jeremias, Joel, Jonas, Naum e Oséias. Ao lado, o Jardim dos Passos, pequenas capelas com estátuas de madeira em tamanho natural, representando os caminhos da morte e ressurreição de Cristo. Simbologia e beleza, arte e encantamento, tudo ao ar livre, ao nosso dispor, diariamente. Tudo é complexo, infinito e ritualístico. A dificuldade da subida, o desafio, a aceitação do cotidiano e o movimento cadenciado, crescente, em transcendência, tudo convida à fé e aos mistérios do mundo. Lá de cima, ao lado da igreja e da casa paroquial, avistamos toda a cidade, incrustada no vale, tudo marrom, tudo minério, tudo riqueza, tudo multinacional, tudo exportação, tudo exploração. Nossos olhares curiosos e inocentes olham mas não veem, veem mas não definem, definem mas não compreendem. Tudo mistério e fé. Agora estamos de volta. Pegando um gancho no poeta gauche: ‘hoje, Congonhas é apenas um retrato na parede, mas já não dói’.
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Quando vi o título do post, me lembrei desta música ( http://www.youtube.com/watch?v=FfG1EUzphBM&feature=related ). Apesar de sertanejo não ser meu estilo de música, esta é beeem Minas! bj
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