sexta-feira, 16 de setembro de 2011
A NOITE EM QUE ADÉLIA ABRIU-ME PORTAS
Quando soube que Adélia Prado leria seus poemas e conversaria com a plateia, não pensei duas vezes. Tomei o rumo do CCBB, sem ingresso, sabedor de que o local estaria lotado. Por costume, fico ali, sentado, quieto, como quem não quer nada, ouvindo a turma descer o malho na dificuldade de se conseguir assistir aos eventos de lá, da falta de organização e coisa e tal. Depois, falantes, saem agrupados, dividindo a raiva que predomina, desativando os alarmes dos carros e já combinando a pizza deles de cada noite. Aí fica mais fácil, contagem regressiva: entre oito a dez minutos após o fechamento da porta do teatro, vem o sujeito da bilheteria distribuindo dez convites extras. Bingo. Quem se deu bem mais uma vez? Eu mesmo, que não sou besta! A ocasião não podia ser mais propícia. Há um mês, publiquei aqui no blog um texto em homenagem aos oitenta anos de papai, chamado ‘Em nome do pai e dos filhos’. Gostei tanto de ter escrito e registrado aquelas palavras, que resolvi deixar-me um espaço para reciclagem espiritual, reordenar detalhes em minha vida e fazer desse vácuo na produção um divisor de águas passadas que moveram e continuam movendo moinhos de minha imaginação. Repito, nada mais propício. Adélia é de Divinópolis, cidade que marcou minha vida. Aos quinze anos, comecei a trabalhar no Banco do Brasil de lá, na primeira contratação de quatro menores aprendizes. Um dos meus chefes era o marido de Adélia, José de Freitas, sujeito simpático e prestativo. Eles se casaram no ano em que nasci, outra feliz coincidência. A inteligência simplificada de Adélia, aliada a uma naturalidade incomum travestida de humor, a todos comove e convida ao desnudar de nossas complicações e desnecessidades. Ela conta passagens de sua vida, desfia um rosário de causos sobre o rigor da religiosidade mineira, do roxo nas roupas, da incorporação do sofrimento obrigatório em nome de tradições incompreensíveis e explica a presença forte dos códigos da fé cristã em sua obra. Em tobogã psicológico, a plateia emudece e ri e concorda com a cabeça e relaxa e se vê representada na fala da poetisa. Uma delícia, a forma como a autora de ‘Dona Doida’ fala dos mineiros e das mineirices, de que o povo de lá, quando não é doido é sistemático, maneira simpática de se referir à neurose barroca impregnada em quem ali foi talhado. Com delicadeza e propriedade, ela fala do afeto, de como a arte, e a literatura em especial, pode não servir para nada, absolutamente nada, se a pessoa não olhar para dentro de si mesma e não enxergar o mote artístico esculpido e impregnado em cada um de nós. Aborda, ainda, chamamento à reflexão, ao entendimento das questões metafísicas inerentes à nossa condição emocional, diante do sofrimento e das complexidades da vida. Dito e visto dessa forma, tudo fica mais belo, mais palatável, mais aceitável, mais humano. Afinal, se uma pessoa como Adélia, culta e simples, interiorana e filósofa, cristã praticante que inclui foda-se em um de seus poemas, ainda sofre e se descabela assim, como não havemos de padecer em nossos infernos dantescos diários, em calvários profundos a que nos metemos por tantos erros, à pregação na cruz pela qual nos vitimamos em nossos paradoxos de modernidade? A emoção paira no ar da aconchegante sala, quando um grupo de escolares do Recanto das Emas sobe ao palco para homenagear a escritora. Declamaram, de cor e salteado, obras da poetisa, estudados e discutidos em sala de aula. Envaidecida e feliz, Adélia manteve em seu colo, até o fim do evento, rosas que recebeu dos alunos fundamentais, termo tão apropriado para definir a presença deles, ali, ao lado dela. Depois, surpresa com o largo conhecimento de sua obra pelos ouvintes, atendeu aos pedidos para que lesse poemas, por eles indicados. Lágrimas traiçoeiras não a deixaram chegar ao final de alguns, outros, delicadamente, declinou-se de ler, pela intensidade dramática contida em suas feituras. Não fiquei para a sessão de autógrafos. A secura do planalto recomendava uma ducha morna, frutas diversas e uma taça de tinto, que chega ao final, assim como este texto. Fica o registro prático literário, produto das portas extraordinárias que, oportunamente, foram-me abertas por Adélia. Coincidência feliz, Adélia é o mesmo nome da bisavó materna dos meus filhos, pessoa que respeito, admiro e lamento não ter convivido mais. Agora, resta-me deitar, descansar e, com sorte, meu anjo protetor virá me beijar e me fazer dormir.
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Apareceu o "margarido"!!!!
ResponderExcluirA SERENATA (Adélia Prado)
ResponderExcluirUma noite de lua pálida e gerânios
ele virá com boca e mãos incríveis
tocar flauta no jardim.
Estou no começo do meu desespero
e só vejo dois caminhos:
ou viro doida ou santa.
Eu que rejeito e exprobo
O que não for natural como sangue e veias
descubro que estou chorando todo dia,
os cabelos entristecidos,
a pele assaltada de indecisão.
Quando ele vier, porque é certo que vem,
de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?
A lua, os gerânios e ele serão os mesmos
só a mulher entre as coisas envelhece.
De que modo vou abrir a janela, se não for doida?
Como a fecharei, se não for santa?
Mesmo não tendo , infelizmente , a prática da poesia dos grandes escritores , pude me deleitar com sua descrição desse momento , que pareceu ser tão mágico !
ResponderExcluirE aproveite a inspiração pra continuar a nos brindar com novos contos , paródias e crônicas .
Beijão,
Tonho
A Porta ESTREITA (Adélia Prado)
ResponderExcluirDeus, tem compaixão desta cidade
e de mim, que andei em suas ruas
secretamente dizendo-me:
sou o poeta deste povo.
Que cansaço é viver!
Um mosquito cantor rodeia minha cabeça:
decide-te à santidade.
Me desgostam os turistas.
Só existe um lugar, a picada do sofrimento,
e ela é perfeita.
Não me dôo mais por quem nunca viu o mar.
Minha mãe perdoou meu pai,
Meu pai perdoou a mim:
estes oceanos, sim.
Querido Primo, como sempre vc nos encanta c/tanta sabedoria,beleza e sensibilidade em que é fantástica e profunda nos homens que a possuem.
ResponderExcluirBjs
Andréa.
NEUROLINGUÍSTICA (Adélia Prado)
ResponderExcluirQuando ele me disse
ô linda,
pareces uma rainha,
fui ao cúmice do ápice
mas segurei meu desmaio.
Aos sessenta anos de idade,
vinte de casta viuvez,
quero estar acordada,
caso ele fale outra vez.