sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
NA TAL ÉPOCA DO NATAL
'I am dreaming of a white christmas, just like the ones i used to know…’, esse é o começo do tema ‘White Christmas’ escrito por Irving Berlin, musical de grande sucesso na broadway e imortalizado na voz suave de Bing Crosby. É uma das minhas músicas favoritas de natal, provavelmente a que mais gosto. Como não temos esse natal branco, com neve por todo lado, charmoso e emocionante, sempre que a ouço penso estar num cenário apropriado, onde papai noel se sinta confortável naquela roupa vermelha, quente e de botas, já que por aqui estamos em pleno verão, quarenta graus, praias e o bom velhinho fica melhor de bermuda, regata, havaianas, boné, barba aparada e com uma cervejinha gelada, que ninguém é de ferro. Amigos leitores, não caiam da cadeira ou fiquem chateados e surpresos, mas eu não gosto de natal, não é minha época favorita, não me sinto bem, fico meio estressado e deprimido com tanto alvoroço de compras, tumultos, preparações de festas, lista de presentes, ceias e bebidas em excesso. Pronto! Falei! Corro o risco de ser chamado de chato, sem graça, insensível, mas agora que falei me sinto melhor, pode parecer politicamente incorreto, mas acho que há algumas pessoas que pensam da mesma forma e não se sentem à vontade em declarar isso. É muita confusão, estacionamentos lotados, shoppings cheios, detesto shoppings e ainda mais cheios, gosto é de comércio de rua. Compras feitas às pressas, sem tempo para escolher algo que tenha a ver com a pessoa, preços altos, estoques baixos, quanto mais se compra mais se lembra de que falta alguém e isso vira um efeito pororoca, que deixa muita gente preocupada se tem que dar presente porque acha que vai ganhar presente e por aí vai. Perde-se a espontaneidade, a tranqüilidade de dar ou receber uma lembrança na calma, a emoção fica contida, dividida, assim como a surpresa de receber um presente surpresa. Mas há que se esforçar e manter a tradição em nome das crianças, sobretudo as pequenas, que aproveitam o clima e o mistério da festa. Tenho ótimas recordações de nossos natais. Ao contrário de hoje, ganhávamos poucos presentes, mas eram caros e sempre surpresa: o primeiro autorama, jogos, brinquedos com controle remoto, máquina fotográfica, rádios, nosso papai e mamãe noel de plantão eram criativos e sempre nos surpreendiam. Os presentes só deveriam ser abertos na manhã de vinte e cinco, mas acordávamos de madrugada e, em silêncio, extasiados e felizes íamos abrindo e montando os brinquedos e jogos até amanhecer. Depois as crianças iam todas para a rua se exibir e se divertir com seus presentes, até a hora do almoço em família. Corta! É a deixa do diretor para curiosidades natalinas. Observador crítico e cronista de plantão, sempre me diverti com as comemorações de trabalho...Os almoços nas churrascarias, as trocas de presentes, que beleza!!!! Os amigos ocultos que viravam inimigos declarados, oportunidades imperdíveis para brincadeiras, surpresas e cotoveladas à vontade. E tome criatividade nos presentes: as caixas de ferramentas que ficavam no porta-malas e nunca eram usadas, os kits de beleza...os pós barba...os perfumes...o quê dizer dos perfumes??? quem ficava no lucro era a empregada, feliz da vida! Funcionários mais simples querendo impressionar o chefe com aquela garrafa de vinho, denominação chatô ressaquê, os licores de origem duvidosa, quanta alegria e tragédia juntas numa mesma festa! Uma vez ganhei uma camisa chinesa creme brilhosa, de um mal gosto inacreditável! Sorriso amarelo de agradecimento, tentava, desesperadamente, guardar aquela merda na caixa, na vã esperança de que poucos vissem aquilo e evitar o famoso: prova, prova, aí o mico seria completo. E tinha a parte dois no dia seguinte, que era descobrir quem tinha sido mais sacaneado e completar a fatura alugando o coitado a semana toda. Detalhe, imaginem a embalagem que envolvia o sofisticado produto têxtil em referência! Como desgraça pouca é bobagem, esbarrei no fumante ao lado e o distinto deixou cair uma brasa na camisa. Meus amigos, a camisa era tão vagabunda, um tecido sintético da pior qualidade que pegou fogo e se autoflagelou em dez segundos! Incrível! Acho que devia ser usada por aqueles homens bomba ou colocadas em reféns na faixa de gaza. A etiqueta com instruções de lavagem tinha um aviso de segurança: uso não recomendado em países tropicais, a fricção com o calor do corpo pode produzir faíscas e causar acidentes!!! Momentos engraçados de amizade e carinho, confraternizações que ficaram em nossas lembranças, o espírito do natal sempre prevalece, afinal, como diz a música: seja rico, seja pobre, o velhinho sempre vem. Feliz Natal!!!
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
O DIA EM QUE TIRIRICA CHOROU
Antes que o leitor pense que este texto se dedica a piadas e esculhambações ao deputado Tiririca, informo que isso não acontecerá. O título da crônica pega emprestada parte do nome que o psicoterapeuta e professor da Universidade de Stanford, Irvin Yalom, escolheu para o seu romance de estreia: ‘Quando Nietzsche chorou’, combinando personagens reais e ficção, ótimo livro e que até virou filme. O que tem a ver o suposto choro do filósofo alemão com as lágrimas do comediante Tiririca, logo ele que faz todo mundo chorar de rir e a muitos alegra com suave e inocente performance circense? Quando e onde será que se encontram filosofia e comédia, cultura e ignorância, consciência e manipulação, fartura e necessidade, poder e opressão? Em que esquina do mundo, em que espaço acadêmico, em qual mesa de bar esses opostos marcaram encontro? Corta. Dois momentos: dias atrás, meu caçula gargalhava de forma contagiante e, querendo dividir comigo aquele momento, mostrou-me um vídeo no youtube com uma musiquinha do Tiririca em que ele ia preso e brincava com os colegas de cela. O jeito dele cantar era hilário, adorei! Naquele mesmo dia os jornais mostravam, em destaque, a primeira visita do deputado Tiririca ao Congresso Nacional para conhecer as instalações, fazer contato com funcionários, enfim, começar a se ambientar com as atribuições e responsabilidades parlamentares que o aguardam nos próximos quatro anos. Bem vestido, terno e gravata, cabelo aparado, centro das atenções por onde passava, causou o maior tumulto e deu trabalho à polícia legislativa da casa. Na alegre confusão, assediado e empurrado, pisaram-lhe o pé e perdeu um dos sapatos, comprados, certamente, em tamanho bem maior do que o seu número normal, a partir de hábito adquirido em anos de preparação visual condizente com o espetáculo que o aguardava. Agora terá que se acostumar a outras estratégias e sua vida mudará bastante. Ironia do destino, analfabeto funcional que mal consegue escrever, ler e entender conceitos básicos da linguagem formal, orientado a dizer a que veio e demonstrar preocupação com a liturgia do cargo, Tiririca informou que está estudando a Constituição Federal e sua intenção será melhorar as condições de vida dos artistas, ciganos e animais, não necessariamente nessa ordem. Será o representante de mais de um milhão, trezentos e cinqüenta mil paulistas, votos de amigos, admiradores, debochados, descrentes, sarcásticos e críticos da imagem que está colada à maioria dos políticos. Fico imaginando quem serão seus assessores, conselheiros e seu staff de gabinete? Da noite para o dia passará a receber salário e vantagens com as quais jamais sonhou em seus melhores contos de fada. Quantos familiares, amigos e admiradores o procuração em busca de emprego, empréstimos e doações? Quantos empresários se apresentarão como padrinhos artísticos, credores de contas atrasadas, marqueteiros e seus planos mirabolantes para elaborar projetos com destinação de verba para divertimentos, para o circo e chanchadas? Quantos cobrarão o espaço político oferecido na campanha e lhe mostrarão o colo que lhe é reservado para o exercício da política ventríloca? Como serão as piadas e brincadeiras no cafezinho, os copos furados que sujarão suas roupas novas, quantos tapinhas nas costas serão usados para colarem bilhetes de ‘chute meu traseiro’, quanto tempo perderá o nobre deputado procurando envelopes redondos para cartas circulares? Lembro-me do que aconteceu com Juruna, Moacir Franco, Agnaldo Timóteo, Clodovil, entre tantos outros. Iludidos com promessas e espaço fácil na mídia, acharam que conseguiriam se impor e usar a popularidade para combater o sistema por dentro, mas as casas legislativas e o poder não são para amadores! Há que se jogar o jogo dos profissionais, com dados e baralhos próprios, regras escusas, ética e respeito são valores depositados em cofres cujos segredos e combinações não existem. Tiririca primeiro perdeu o sapato, em seguida perderá autonomia na condução de sua vida, perderá os verdadeiros amigos, perderá o sossego, a alegria, a inocência e então verá que não conhece e não se sente humano no circo em foi colocado. Mineiro desconfiado, quisera eu estar enganado porque, no fundo, gostaria que Tiririca fosse feliz e mantivesse a criança que tem dentro de si, mas temo estar escrevendo a crônica de uma lágrima anunciada!
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
ALÔ AMIGO, PREPARE-SE PARA SER TORTURADO
Você está sentado tranquilo, tomando aquele expresso cremoso bem tirado e uma cena meio insólita lhe chama a atenção: do outro lado da rua um sujeito bem vestido fala sozinho, gesticula, leva as mãos à cabeça, anda, pára, olha para o chão, faz rodopios com o corpo enquanto ensaia uma espécie de mímica com o braço. Não, caro leitor, não há necessidade de chamar o segurança ou encomendar camisa de força, pois ele está apenas falando com alguém e usa um fone de ouvido. Antigamente, falar sozinho era coisa de maluco, agora é normal. Sinal fechado, no carro ao lado o desequilibrado grita, dá socos no volante e pelo visual não parece ser um fã tentando decorar a última música do Sepultura. Ele está é brigando com alguém no viva voz e tudo indica que alguém não vai ficar vivo quando chegar em casa. Comunicação global, entenda-se piração geral. A tecnologia disponível também pode ser de grande utilidade para algumas situações: quando estou parado no sinal, finjo que estou falando ao telefone pra me livrar de pedintes, vendedores, entregadores de folders e malabaristas do sinal vermelho. Parece cruel, mas é muita gente desconhecida e existe o aspecto segurança. Assim, vidros fechados e simulando o uso do celular, eles passam direto e vão pra outros carros. Conheço mais gente que usa essa estratégia. Algumas pessoas perderam a noção da realidade e de como incomodam os outros. Fila do banco, o sujeito franzino conversa tranquilamente com alguém, fala mansa, numa boa. Quando toca o celular, ele atende e começa a falar numa altura totalmente incompatível com o padrão vocal que ele usava há poucos segundos. Será que ele considera a hipótese da transmissão de voz não estar ideal e acha que, gritando, o sujeito do outro lado pode ouví-lo, mesmo que a ligação caia? Nesse caso, deveria pedir um desconto na operadora pelo empenho físico gasto em prol do diálogo. As pessoas conversam sem a menor cerimônia, assuntos pessoais, sigilosos, nada fica secreto, uma espécie de wikileaks ambulante, chega a ser grotesco. No escurinho do cinema ou do teatro, a garota abre o celular pra enviar o torpedo e parece que a companhia elétrica acabou de instalar um poste no local. Até lembra passagem bíblica: no terceiro dia, fez-se a luz... Pronto, o diretor contrata o melhor nome no mercado de fotografia pra cinema ou investe uma grana no projeto de iluminação da peça e a luluzinha fica ali, na segunda fila, com aquele farol de milha voltado para o resto dos idiotas, que tentam manter a concentração, mas é uma luta inglória. Tenho uma prima de Beagá que acorda cedo pra caramba e não consegue dormir mais, porque a prefeitura resolveu trocar o asfalto da rua dela em plena madrugada. É caminhão dando ré com buzina de segurança, gente que resolve namorar no skype às duas da matina, moedinha que cai no andar de cima e fica pipocando uma eternidade na cerâmica, parece uma chuva de metal pesado. Raciocina comigo, quem fica usando moedinha de madrugada? Qual é a lógica? O infeliz contrata serviço sexual e pede que a garota leve um cofrinho, pois vai pagar com moedinhas? Eu mereço... mas é como diz o outro: pior é na guerra, em que se morre e não se enterra.
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
PROGRAMA T.O.S.S.E. - O INCOMODADO QUE SE RETIRE
Senhoras e senhores, boa noite! A produção agradece a presença de todos e informa que é proibido fumar, consumir bebidas, comidas e fotografar ou filmar o espetáculo. Por favor, desliguem os celulares e tenham todos uma boa diversão. Nesse momento a sala fica escura, silêncio total, clima perfeito de emoção, um certo suspense no ar e o que temos a seguir ??? Vem a primeira tosse. O segundo aproveita e tosse também. Agora um pigarro (isso deve ser mistura de pinga com cigarro), garganta arranhando e tome tosse!!! Em poucos segundos, um clima de recepção silenciosa e respeitosa aos atores vira uma sinfonia de grunhidos, rugidos, manifestações guturais, um verdadeiro cenário de guerra pneumônica, tuberculótica, resfriática, fica uma merda!!! Fala sério, estou exagerando? Estou não! É uma tristeza! Quem me conhece e está comigo nessa hora já sabe: eu fico muito puto! Em meu momento paraíso, os teatros deveriam, obrigatoriamente e sob pena de fechamento, ter um dispositivo automático preventivo para situações da natureza, de forma que o assento e o cidadão em questão seriam sugados para um calabouço e lá ficariam em silêncio absoluto numa espécie de quarentena cultural. Na minha modesta e isenta opinião, o problema desses infelizes é que não conseguem ficar concentrados para ouvir a beleza do silêncio e a pureza do som das pausas que um espaço tratado acusticamente nos oferece. O nojento tem que tossir, virar-se para o lado, alongar e estalar o pescoço, arrumar a cueca, abrir o mentex ou uma garrafa de água com gás! Olha, pensando bem, quarentena é pouco, essa gente deveria é ficar num ambiente fechado com caixas acústicas potentes de som e de retorno por todo o lado com tosses amplificadas, rangidos de portas, espirros e flatulências pra aprender o que significa alugar o ouvido alheio. Em meu momento compreensão, os teatros poderiam adotar alternativa interessante também: ao comprar o ingresso o sujeito receberia um kit-respeito-ao-próximo que incluiria cápsulas de gengibre, spray de menta, anti-inflamatório em pastilhas, cartela com duas sessões de inalação de soro fisiológico no posto de saúde mais próximo e consulta pré-agendada em clínica conveniada ao teatro com otorrino experiente em patologias da espécie e profundo conhecedor de música clássica. Pronto, com isso metade dos chatos seriam curados e a outra metade iria desistir desse processo preparatório, que eu chamaria de Programa TOSSE: iniciais de Todo Otário Será Sugado Exemplarmente. Agora relaxem e aproveitem que o espetáculo vai começar!
domingo, 12 de dezembro de 2010
VOVÔ VIU O OVO
No princípio era o ovo e a terra ficou oval,
o ovo pensou: estou frito, cozido e mal pago,
meio sem sal, mexido, virou omelete,
duro por fora mas mole por dentro,
ouviu que ovo unido jamais seria comido.
Viu que vovô tinha dois lados: um interior, caipira,
pequeno, gema escura, às claras, mais pra canavial,
simples, se ouve entende. Outro, de granja, esbanja
a todos diz gema, novo uma ova, mais pra caviar,
ignorante, óbvio, se vai ouvir sai eu não ovo.
Se é pro bem do povo diga ao ovo que fico com tudo,
ovo de serpente pede pra sair, cascadura, duro de roer,
nascimento, tentáculos do polvo, se o ovo der ré eu resolvo,
deslocado, o ovo é descolado, volta pro óvulo.
o ovo pensou: estou frito, cozido e mal pago,
meio sem sal, mexido, virou omelete,
duro por fora mas mole por dentro,
ouviu que ovo unido jamais seria comido.
Viu que vovô tinha dois lados: um interior, caipira,
pequeno, gema escura, às claras, mais pra canavial,
simples, se ouve entende. Outro, de granja, esbanja
a todos diz gema, novo uma ova, mais pra caviar,
ignorante, óbvio, se vai ouvir sai eu não ovo.
Se é pro bem do povo diga ao ovo que fico com tudo,
ovo de serpente pede pra sair, cascadura, duro de roer,
nascimento, tentáculos do polvo, se o ovo der ré eu resolvo,
deslocado, o ovo é descolado, volta pro óvulo.
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
A AMPULHETA
Família: substantivo feminino, usado para designar a união de pai, mãe, filhos, irmãos, sobrinhos, todas as pessoas do mesmo sangue; grupo de seres ou coisas que apresentam características comuns: família espiritual; os descendentes de um indivíduo, a linhagem, a estirpe; santa família, quadro que representa a Virgem Maria, São José e o Menino Jesus. Busquei ajuda com o mestre Aurélio, pai dos inteligentes e essas são algumas das muitas definições para o termo. Outra definição mais popular e titânica: família, família, papai, mamãe, titia, cachorro, gato e galinha, janta junto todo dia, nunca perde essa mania! Eu acho que família é uma palavra musical: tem um fá, um mi e termina com lia, apelido de mamãe e que adorava música. Quando queremos mostrar conhecimento e segurança dizemos: isso me é familiar. Quando precisamos ficar à vontade e tranquilos dizemos: preciso me familiarizar com isso. Viram? Família é o máximo. Não escolhemos a família da qual viemos e não importa se de forma biológica ou por adoção, mas temos o livre arbítrio de escolher ficar ou não com ela. Uma prima querida me encomendou esse registro, que dedico, em forma de poema, a todos os meus amados familiares, que são minhas raízes, meu conforto, minha referência, minha motivação e meu orgulho!
quem sugere, quem surge, quem se insurge, quem fere, quem confere, quem prefere, quem profere,
quem prova, quem reprova, quem gosta, quem aposta, quem briga, quem liga, quem se desliga,
quem sua, quem surta, quem surra, quem sussurra, quem censura, quem censura a censura,
quem lê, quem deleta, quem diz na lata, quem manda, quem demanda, quem dez mandamentos,
quem aprende, quem apreende, quem prende o riso, quem é preciso, quem muito riso pouco siso,
quem afeta, quem desafeta, quem vê a fresta, quem manifesta, quem vai à festa, quem detesta,
quem tem, quem retém, quem se abstém, quem tem abs, usa e abusa de freadas bruscas e seguras,
quem comemora bem, quem come e mora bem, quem peita, quem respeita, quem faz desfeita,
quem escreveu não leu e o pau comeu, quem tirou de letra, quem sorri, quem só ri, quem sorry,
quem confia, quem se fia, quem enfia, quem se filia, quem fez, quem fazia, quem se faz ilha,
quem sou, quem assinou, quem sinalizou, quem muitos são chamados, quem todos escolhidos,
quem caçou, quem caçoou, quem cansou, quem castrou, quem casou, mudou e não convidou,
quem separa, quem repara, quem resta, quem apara as arestas, quem cata o que resta,
quem pita, quem apita, quem dá pista, quem dá piti, quem dá pitaco, quem dá espetáculo,
quem mente, quem mente rara, quem veta, quem vota, quem revolta, quem volta, quem voltaire,
quem vinha, quem água e vinho, quem dessa água não beberei, quem tempestade em copo d'água,
quem brincou, quem brigou, quem abrigou, quem obrigou, quem corou, quem coroou, quem decorou,
quem crê, quem dita, quem credita, quem acredita, quem lê, quem é leitor, quem eleitor,
quem mora, quem namora, quem na moral, quem na morada, quem namorada, quem é amada,
quem é maria vai com as outras, quem é calmaria, quem é cau, quem é maria, quem amaria,
quem cede, quem tem sede de ver cidades, quem é diversidade, quem tem diversas idades,
homens de boa vontade, em verdade vos digo, tenham a bondade de deitar, rolar, beijar e cuidar!
quem sugere, quem surge, quem se insurge, quem fere, quem confere, quem prefere, quem profere,
quem prova, quem reprova, quem gosta, quem aposta, quem briga, quem liga, quem se desliga,
quem sua, quem surta, quem surra, quem sussurra, quem censura, quem censura a censura,
quem lê, quem deleta, quem diz na lata, quem manda, quem demanda, quem dez mandamentos,
quem aprende, quem apreende, quem prende o riso, quem é preciso, quem muito riso pouco siso,
quem afeta, quem desafeta, quem vê a fresta, quem manifesta, quem vai à festa, quem detesta,
quem tem, quem retém, quem se abstém, quem tem abs, usa e abusa de freadas bruscas e seguras,
quem comemora bem, quem come e mora bem, quem peita, quem respeita, quem faz desfeita,
quem escreveu não leu e o pau comeu, quem tirou de letra, quem sorri, quem só ri, quem sorry,
quem confia, quem se fia, quem enfia, quem se filia, quem fez, quem fazia, quem se faz ilha,
quem sou, quem assinou, quem sinalizou, quem muitos são chamados, quem todos escolhidos,
quem caçou, quem caçoou, quem cansou, quem castrou, quem casou, mudou e não convidou,
quem separa, quem repara, quem resta, quem apara as arestas, quem cata o que resta,
quem pita, quem apita, quem dá pista, quem dá piti, quem dá pitaco, quem dá espetáculo,
quem mente, quem mente rara, quem veta, quem vota, quem revolta, quem volta, quem voltaire,
quem vinha, quem água e vinho, quem dessa água não beberei, quem tempestade em copo d'água,
quem brincou, quem brigou, quem abrigou, quem obrigou, quem corou, quem coroou, quem decorou,
quem crê, quem dita, quem credita, quem acredita, quem lê, quem é leitor, quem eleitor,
quem mora, quem namora, quem na moral, quem na morada, quem namorada, quem é amada,
quem é maria vai com as outras, quem é calmaria, quem é cau, quem é maria, quem amaria,
quem cede, quem tem sede de ver cidades, quem é diversidade, quem tem diversas idades,
homens de boa vontade, em verdade vos digo, tenham a bondade de deitar, rolar, beijar e cuidar!
SHOW DA BRUXA SÓ PRA BAIXINHOS
'Almoço aos domingos, a velha farra, todos vão inventando novos segredos, fica a ausência branca e marrom e a tristeza milenar, mas os meninos voltaram a brincar, como se ainda sentissem o seu olhar'. Eis um trecho da canção "Diana" escrita por Fernando Brant para uma cachorrinha dele e musicada por Toninho Horta. As brincadeiras das crianças eram boas durante o dia mas, quando iam pra cama, ficava difícil pegar no sono, impressionadas com algumas estorinhas, verdadeiras pérolas do gênero como traumatizar mentes inocentes. Nos supermercados, as crianças choravam quando viam aquela maçã grande e vermelha, que a madrasta usou pra aplicar um boa noite Cinderela na Branca de Neve. Assustadas, escondiam-se atrás das saias das mães, pedindo que comprassem pêras ou iogurtes da turma da Mônica. Também, essa estorinha é pra lá de cabeluda! Invejosa com a beleza alheia e não satisfeita com as aplicações de botox e muito menos com a sinceridade do espelho, a malvada contratou os serviços de um caçador, que deveria dar um corretivo na jovem. O pagamento seria efetuado mediante comprovante da execução. Escolada, foi bem clara: não me venha com essa de dar um sumiço na garota do fantástico usando rottweilers não, queridinho... hello!!!! Tem que botar o coraçãozinho dela aqui na mão da mamãe, ou nada feito! Mas a coisa saiu diferente. Impressionado com os atributos da beldade um-sete-um rodrigueana, bonitinha mas ordinária, o meliante aceitou a propina dela, deu um teco num veado que tentava intermediar a negociação e levou o coração da bicha pra madrasta. É script pra deixar o Zé do Caixão constrangido! Como roteiristas, os Irmãos Grimm estão mais para gremlins. O resto da estória todo mundo sabe: ela ficou na maior boa vida com os sete anões, micro empresários do setor de mineração, apaixonados e a tudo dispostos para o bem da rainha dos baixinhos. A exceção era o Dunga, que só pensava em futebol. Mudando o assunto, vou dissecar algumas musiquinhas com mensagens subliminares sutis, mas que dizem muito. Tema aquático: a canoa virou, deixá-la virar, por causa do fulano que não soube remar. Com certeza ninguém tinha curso de arrais amador e esqueceram os coletes salva vidas. Mas aí vem o problema: se eu fosse um peixinho e soubesse nadar, tirava o fulano de tal do fundo do mar... ora, peixe que não sabe nadar? Dá um tempo... peixe que não nada não está com nada. Não justifica a sua existência, não se qualifica pra continuar desfrutando as belezas do fundo do mar. Dançou. Vai virar degustação de tubarão ou entrar pra estatística de performance do anzol de Titoninho. Uma com temática militar: marcha soldado, cabeça de papel, se não marchar direito vai preso no quartel. Gente, a população acuada, à mercê do narcotráfico ou de ações de grupos terroristas e deixam a segurança a cargo de um bando de cabeças de papel, que não conseguem superar um esquerda, direita e vice versa? É preocupante! E tem mais: o quartel pegou fogo, a polícia deu sinal, acode, acode, acode a bandeira nacional! Tudo bem, é um símbolo patriótico super relevante, mas e os explosivos, o paiol de pólvora, não seriam prioridade? Isso vai dar merda, causar uma comoção local na comunidade e até interromper os bailes funk! Parece implicância minha, mas são quesitos de segurança fundamentais, sem falar nos traficantes que aproveitam o tumulto pra levar fuzis, munição e gatorates estocados. Enquanto isso, os bacanas salvando e dobrando a bandeira? Eu posso com isso? Mas, atenção pais: tirem as crianças da sala que agora vêm algumas com temática sexual: fui no tororó beber água, não achei, achei linda morena que no tororó deixei. Gente, tororó era o nome de uma sauna masculina e Rick Martin estava com muita sede. Por mais que a recepcionista fosse uma morena de dar água na boca, beber saliva não matava a sede e a futura capa da playboy não fazia a cabeça do rapaz, tanto é que ele a deixou lá! Pinóquio bem que poderia ser incluído nessa estorinha. Já imaginaram o garoto cara de pau nessa sauna, com uma porção de bofes contando mentiras pra ver o nariz dele crescendo, a moçada bronzeada batendo na madeira três vezes e ainda pedindo mais? Tem a do pau no gato! A gente canta e não se toca, mas vamos retomar a verdade dos fatos, companheiros: acompanhem a narração, em primeira pessoa, pois trata-se de sexo sadomasoquista, com direito a voyeurismo - no caso a dona xica -, que gosta de observar a turma se divertindo: atirei o pau no gato, mas o gato não morreu, dona xica admirou-se com o berro que o gato deu! Faz sentido ou não? E tem mais: tutu marambá, não venha mais cá, que o pai do menino te manda matar! Resumindo: mãe é mãe, sempre compreensiva e, na tentativa de evitar que o marido descarregue o três oitão em Turíbio, ou tutu, como é mais conhecido, passa uma mensagem cifrada via twitter para que ele não tente se encontrar com seu filho depois da aula de balé. Está tudo aí, bem claro. Não adianta fazer vista grossa, pois a criançada entende e fica traumatizada. Pra finalizar esse tema, pesado, diga-se, temos os escravos de jó, que jogavam caxangá, uma competição sexual, estilo maratona orgástica em que vários guerreiros tiram, botam e deixam ficar! A coisa vai esquentando e eles se empolgam na evolução artística: guerreiros com guerreiros fazem zigue, zigue, zá! Chega. Vamos mudar o tema e fechar com uma estória romântica, cheia de momentos de angústia e sofrimento, como deve ser, mas com final feliz: é a do príncipe sapo, nojentinha mas interessante. Recapitulando: uma das sete filhas do rei, esportista, gostava de treinar perto do lago. Concentrada em se preparar para mais uma competição, ao tentar um strike, deixou a bola de boliche cair no fundo do lago. Um sapo estava ali por perto, sem ter o que fazer, apenas sapeando o jogo da moça e se ofereceu pra pegar a bola. Tadinho, mergulhou, se esforçou pra caramba, quase morreu com o peso da bola, mas a força do amor é enorme e a tudo supera. Marketeiro, o sapo tinha uma boa rede de contatos na lagoa. Acionada, a turma se virou, saltitou pra valer e isso o ajudou a resgatar a bola. Ponto para o sapo. A moça ficou emocionada e perguntou como poderia recompensá-lo. Meio jururu, o sapo contou que era um príncipe lindo, mas que tinha sido vítima de uma bruxa malvada que lhe aplicara um corretivo pra ficar esperto e deixar de bancar o Justin Bieber. Arrependido, ele confessou que realmente se achava, mas que aquilo era passado e caso a moça lhe desse um beijo cinematográfico, daqueles de língua, o feitiço poderia ser desfeito, com chances reais de noventa por cento, variando em dois pontos percentuais pra cima ou pra baixo. Entediada naquele reino, onde nada acontecia, sem psp, internet ou sky, a moça topou o desafio, mas se esqueceu do aparelho ortodôntico fixo na arcada superior e, durante o beijo, o sapo ficou preso. Ela, chiando barbaridade e ele, coaxando de dor, foram conduzidos e atendidos no hospital mais perto, conveniado do sus, onde, passados três séculos, esperam a chegada do anestesista ou cirurgião para resolver o caso. Moral da estória: a patricinha não gostava de beijar os garotos do reino com medo de pegar sapinho e acaba numa gelada dessas! Agora, leitor amigo, proponho um teste de memória. como foram várias estórias, sugiro que pegue uma prancheta à la Joel Santana, tente se lembrar o nome e a sequência correta delas. Depois releia o texto e vá ticando o que estiver certo.
QUANDO O SOL DA MANHÃ VEM NOS DIZER
Brasília. Outubro. Primavera. Fim da seca. Chuva fraca. Tardes longas. Noites frescas. Adoro tomar café da manhã ao ar livre, sobretudo nesta época do ano. Falo do café completo, com direito a dois ovos caipira quentes tomados na casca com aquela colherzinha mínima, de prata, pouco sal, vida longa. Sem desmerecer a capital de todos nós, bom mesmo seria um petit déjeuner na cidade luz. Bistrozinho com cadeiras verdes na calçada, jornal virgem, baguete com camembert, uvas brancas, copo de bordeaux e peurrier, que ninguém é de ferro. Corta. Voltei pro centro do planalto vazio, como se fosse em qualquer lugar. E o melhor lugar do mundo é aqui, e agora. Salada de frutas, queijo minas, pão de queijo bem assadinho por fora e derretendo por dentro. Sabor Minas. Saber ser mineiro. Café preto, passado no coador com água fervente já previamente açucarada. Yes! Give me the five. Óculos escuros. Boa companhia. Fragrância de Lacroix. Delicados panos. Altos planos. Sol gentil, a nuca agradece. Perfeição. Falei cedo demais... Moço, compra um pano de prato pra me ajudar! Olha, leva cinco pelo preço de três. Proponho ficar com um só, tenho poucos pratos, mas não rola o negócio. A moça não vende separado. Não entendo isso, mas também não entendo mistérios que vêm dos ministérios. Nada pode nem vai estragar o meu dia. Dinheiro trocado, panos de prato em cima da mesa pra afastar a concorrência. Olhos que se voltam para o livro do Scliar. Bolo de milho. Geléia de damasco. Prazer total. Melhor que aquilo! Viro o rosto para o sol brindar minha pele lisa bumbum de bebê, barba feita há pouco. E aí doutor, vai um devedezinho? Chegou o pirata, e não é Johnny Depp. Chefia, tá na mão o Tropa de Elite três. Tropa de Elite três, pergunto??? Sim e com direito a making off da entrevista exclusiva do Wagner Love! Parei... Então que tal um cd com inéditas do Michael Jackson? Irmão, é preciso coragem ! Deixa pra lá... Foco no que interessa. A salada de frutas tem fatias generosas de manga aden. Amo todas as frutas, mas manga é a minha favorita. Formatei um teste pra checar a intensidade de uma amizade verdadeira entre amigos ou parceiros: alguém pede uma salada de folhas verdes que vem com fatia única de manga madura, amarelíssima, sexy, por cima de tudo, num verde amarelo pendão da esperança, símbolo augusto da paz. Com ar blazê você diz que gosta de manga e pergunta se pode comer a fatia... é agora!!! Se a pessoa concordar e oferecer o pedaço, automaticamente faça promessas de amor, se ofereça pra quitar o saldo devedor da ferrari ou ser fiador na cobertura da Vieira Souto, porque essa pessoa é do bem, e você vai ficar no bem bom com ela. Bilac do cerrado, 'ora direis ouvir estrelas'. Corta outra vez. Retomando. A fumaça inebriante do café preto servido naquela xícara branca impecável me faz viajar no tempo, na cadência bonita da Maria Fumaça indo de São João a Tiradentes, sem pressa, sem preço, sem prazo. Mas o que seria da perfeição da vida sem as interrupções que insistem em nos trazer à realidade? Pois é, o aroma do café vai se misturando ao patchouli do incenso que a japonesinha sorridente oferece. Ela vem toda de branco, tatuagem de golfinho na panturrilha esquerda e band aid do Bob Sponja no tornozelo direito. Você nem gosta de incenso, aliás, você detesta se intoxicar com aquilo, mas a vendedora é a versão inversa da Yoko, leia-se o sonho não acabou! Resumindo: os incensos ficam ao lado dos panos de prato e viva a economia informal. O prazer do desdejum continua, olhares carinhosos, bolo de chocolate dividido, agora com um espresso curto e encorpado. Um vento suave acariciando nossos rostos, o sol a nos dizer bom dia. Foi-se o tempo de silêncio e solidão. A vida insiste.
O HOMEM E SEU ESPELHO
O homem na frente do espelho. O quê ele vê? O quê quer e consegue ver? Olheiras que saltam aos olhos, cabelos amassados, grisalhos, dentes amarelados, barba descuidada, rugas e semblante cansado? Mais um dia em sua vida? Ele se vê radiante, pele lisa, cabelos penteados, frescor e sedução, harmonia facial, olhos que sorriem? Sua vida com um dia a mais? Saberá esse homem enxergar oportunidades à sua frente, as prováveis vitórias que o futuro lhe reserva, a mágica transformação da teoria em prática? De alguma forma conseguirá valorizar os ganhos e as conquistas passadas, a experiência adquirida ou aquilo tudo não conta, nada mais foi que obrigação? Esse homem consegue ser gentil consigo próprio, costuma se perdoar, pode brindar-se com mais uma oportunidade? O homem fica ali, pensativo, sereno, ereto, contemplativo. Ao desviar os olhos milimetricamente para os lados vê que o espelho lhe mostra o que há atrás de si. Aos poucos, vem-lhe a sensação de que tudo está a contemplá-lo. Também, tudo atrás dele está a mirar-se no espelho. Perspectivas. Sistemas. Sínteses. Hipóteses. Esse espelho que tudo revela, que a tudo assiste impassível e, desafiador, pode, quebrado, resumir e interromper existências. Saberá esse homem conviver com as possibilidades, com as incoerências e com os desafios? Misteriosamente, tudo a esse homem parece novo e apresenta-se com o frescor da primeira vez, da descoberta, da insegurança e do abondono. Dualisticamente, tudo lhe é repetição, convicção, representação precedida de ensaio, fastio, o não novo. O homem e seu espelho. Saberá esse homem escolher a vestimenta adequada para os eventos que o dia lhe apresenta ou, alienação, calor e desleixo o farão sair nu diante de transeuntes incrédulos, risíveis comentários, desvios de olhares, os espelhos das ruas revelarão a esse homem a sua nudez? Conseguirá esse homem valer-se da crianca que habita suas inquietudes, saberá valorizar e preservar as riquezas naturais a seu dispor, terá sensibilidade para conviver com a sabedoria do sexo oposto a trazer-lhe diariamente seu lado feminino, posto que veio e é metade homem metade mulher? Ao deparar-se com os desconhecidos enigmas diários será esse homem refém de suas armadilhas, vampiro a sugar-lhe a sua própria energia, sereia a iludir-se e arremeter-se contra os rochedos, samurai a desferir-se o golpe sutil em sua honra, jagunço a espreitar-se na encruzilhada para dividir-lhe a garganta ao meio? Ou, lanterna mágica em punho adentrará a floresta de si mesmo com confiança e desprendimento de quem se sabe caçador e caça? Acaso será o carteiro de sua própria sorte a entregar-lhe a missiva tão esperada, saberá desviar-se do Maquiavel de si mesmo a empurrar-lhe no despenhadeiro do egoísmo? O espelho questiona o que o homem reflete.
PÕE NA CONTA DA CAROCHINHA
'Eu, sozinho, menino entre mangueiras, lia a história de Robson Crusoé, comprida história que não acaba mais'. Este é um pequeno trecho do poema "Infância" do mestre Drummond, que por tantas vezes me fez viajar pelo planeta Minas. Mas nem tudo era céu de brigadeiro. Eu ficava atento e invocado com algumas estórias e músicas infantis que nos eram apresentadas e acho que muita criança acabou deixando uma grana na terapia, anos mais tarde. Alguns casos nem Freud explica. Por exemplo, o leitor já reparou a crueldade daquele estorinha de João e Maria, irmãos abandonados pelo pai no meio da floresta, por falta de condições financeiras para o sustento básico da família? Faminto mas perspicaz, o garoto sacava que ia virar sem teto e deixava pedacinhos de pão pelo caminho pra poder voltar pra casa. Ora, não seria mais fácil dividir o pão com a irmã e procurar alguma comida extra ali por perto? Será que não dava pra fazer uma hortinha simples pra subsistência, subir num pé de côco ou dar uma tijolada num coelhinho que estivesse de bobeira? O pior é que os passarinhos comiam o pão e os dois se perdiam. O pai nunca tentou uma inscrição no bolsa família ou no programa minha casa, minha dívida? Lembra daquela quadrinha tão graciosa: batatinha quando nasce se esparrama pelo chão, mamãezinha quando dorme põe a mão no coração? É claro que a mãe desenvolve um quadro cardíaco, com tanto desperdício de batata e ainda tinha que arrumar aquela bagunça toda! E as músicas pra embalar o soninho do nenen? Boi da cara preta, pega essa criança que tem medo de careta! Pô, qualquer criança tem medo de careta! E quando o menino está quase pegando no sono a figura chega bem pertinho, faz a maior careta e ainda o ameaça com o boi negão? Fala sério! Tem aquela outra com motivação incendiária: cai, cai balão aqui na minha mão, não vou lá, não vou lá, tenho medo de apanhar! Qualquer idiota sabe que soltar balão é crime! Se cai na mão é queimadura de terceiro grau e se provoca incêndio o sujeito vai apanhar mesmo, da comunidade ou dos bombeiros, que ficam arriscando a vida por causa de um mané! Lembra daquela: se essa rua fosse minha, eu mandava ladrilhar com pedrinhas de brilhante para o meu amor passar! Usar brilhantes na pavimentação de rua é coisa séria! Tudo bem, mas só se for propriedade privada. Nesse caso, o Eike Batista gasta a grana dele como achar melhor, mas se for rua pública, é de se questionar se foi obedecida a lei de responsabilidade fiscal e se houve licitação para a obra em questão. Agora, se executada pelo Maluf, o esperto guardaria o dinheiro dos brilhantes e mandaria buscar o material em Cristalina pra enganar todo mundo. Outra estória cabeluda, mas de menina charmosa com seu chapeuzinho vermelho: a menina ia sozinha pela estrada afora levar doces para a vovozinha. Inocente, ela cantava: a estrada é longa, o caminho é deserto e o lobo mau caminho aqui por perto! Que mãe é essa que manda a própria filha se enveredar numa zona rural de risco, inclusive com lobos ferozes à espreita, ao invés de chamar um delivery de alguma confeitaria local? Essa estória é inacreditável! A rigor, o certo seria a velhinha fazer os doces, chamar um taxi e aproveitar para visitar a família e levar a guloseima, ou caso estivesse com problemas de locomoção, mandar via sedex dez, que a netinha receberia os doces rapidinho! Eu sei, o leitor está pensando: mas aí o lobo não ia comer ninguém! Ora, aproveita pra rangar a patroa, que está na idade da loba e ainda contribui pra preservar a linhagem pura da espécie! Agora, uma musiquinha que sempre me deixou triste é aquela que mostra a violência infantil a que era submetido o pobre do sambalelê! Lembram? Sambalelê estava doente, com a cabeça quebrada e ainda diziam que ele precisava era de uma boa palmada! Tudo bem, gente, criança às vezes tira a gente do sério, faz traquinagens, mas o estatuto da criança e do adolescente tem que ser observado. Imagina a cena: a mãe chega ao hospital, vai até a uti conversar com o médico, que a informa que Sambalelê passou por uma cirurgia cerebral delicada, mas que está bem e que precisa de muito carinho. Insensível, a mãe questiona a autoridade médica e diz que Sambalelê não precisa de carinho, o que ele precisa é de uma boa palmada! Sou capaz de imaginar o nascimento de Sambalelê, que vem ao mundo de parto normal, todo roxo, inchado e caladinho, tranquilo, sem emitir qualquer som. Experiente, o obstetra inicia os procedimentos médicos de limpeza, colírio de prata nos olhinhos e desobstrução com a sonda nasográstrica, mas a mãe se levanta da maca e, insensível como ela só, pergunta ao médico: doutor, o senhor não está esquecendo nada não? Ele está precisando é de uma boa palmada...
DOIS CHATOS INCOMODAM MUITO MAIS
Muito legal a repercussão da crônica sobre os chatos. Recebi considerações interessantes, depoimentos, sugestões, enfim, como eu disse, socialmente o chato é uma figura importante e insubstituível. Merece, portanto, reconhecimento por serviços prestados e, democrático como só, está em toda parte. A qualquer momento ele aparece cutucando o seu ombro e perguntando se você quer comprar um picapau. Daí o mote: chatos de todo o mundo, uní-vos! (de preferência num lugar só, pra gente dar um cacete na turma toda). Uma leitora amiga pediu-me que falasse de sua sogra, uma figuraça que, personificação da pedicure, vive pegando no pé dela. Mas sogra é um capítulo à parte. Algumas bem à parte, quase fora do mapa, lá no meio do oceano, de preferência se afogando. Conheço alguns caras que carregam a foto da sogra na carteira e os motivos são vários: média com a patroa, fetiche, espantar mal olhado ou despertar compaixão alheia. Em breve dedicarei umas mal traçadas linhas às sogras. Toca o boréu: fico reparando o cumprimento de alguns sujeitos chatos que se abraçam de forma efusiva, demorada e permanecem dando-se tapinhas, sorrindo e com os olhos fechados. Três chances: são aqueles tipos podecrê, bacaninhas, apreciadores de livros de auto-ajuda ou acabaram de comer pastéis e procuram limpar as mãos engorduradas na roupa do outro ou são lobistas checando se há microfones e gravadores escondidos que possam comprometê-los. O que dizer daqueles namorados que ficam esfregando as costas da amada em demorados movimentos lentos e circulares? Parece quererem atingir o âmago, o interior da moça, em nome do verdadeiro amor, mas correm o risco de deixá-la toda enrolada feito rocambole ou de desatarrachar as costas da coitada e acabar sem namorada. Em shows, o chato fica insistentemente pedindo músicas antigas quando o artista quer divulgar o trabalho novo. Na maior intimidade faz perguntas, piadinhas, quer aparecer de qualquer jeito. Agora, o maior dos erros que o chato pode cometer num show, o que mais irrita e desconcentra o artista, sobretudo em performances intimistas quando a sensibilidade é posta à serviço da melodia, é quando o chato começa a assoviar a música e fica ali derramando aquela virtuose labial sob os olhares de ódio do João Gilberto da vez. Esse mico conta pontos negativos em dobro no dia do juízo final. Tem namorada chata que fica lambendo a orelha do amado de forma irritante, nada obstante o infeliz tê-la advertido de que irá conectar o seu punho direito no queixo esquerdo dela, caso aquilo continue. Como é chata mas não é maluca, ela interrompe aquela tortura mas começa a espremer cravos no rosto do lindinho. Aquilo é tão irritante que o sujeito fica lamentando que o carro não seja conversível pois teria instalado assento ejetável no banco da passageira. O chato vai ao shopping e, convenhamos, chato e shopping têm tudo a ver, entra na boutique mais cara e badalada, aborda aquela atendente loura sensual e louca pra cumprir a cota de vendas do dia, mas ele, em vez de comprar logo uma cueca e sair batido, fica perguntando qual foi o marceneiro que fez o balcão, quer saber se o lugar tem alarme, pede água, café e, claro, vai ao banheiro e volta reclamando que o papel acabou. O cara abusa, pede pra ser chato e entra na fila cinco vezes. Na recepção do casamento, inconveniente, o chato quer fazer discurso lembrando os bons tempos em que o noivo mandava tudo o que tinha direito. Com isso, deixa a noiva na maior saia justa, ou melhor, saia rodada bordada e pisada, porque o chato abraça a noiva, estraga o penteado torre eiffel, pisa na barra do vestido e, na maior das intimidades, fica dando três beijinhos prá casar! Voltando aos tempos do descobrimento, a história registra que o maior chato que se tem conhecimento foi Cabral. O cara tomava todas, deixava a Maria a ver navios e queria porque queria descobrir o caminho das índias, de preferência índias solteiras e nuas. Tripulação reunida, estoque de rum até o talo, gps comprado na feira do Paraguai, nosso descobridor se envereda por mares nunca dantes navegados e, lógico, erra feio o caminho e vem bater aqui na terrinha, tirar o sossego dos índios e introduzir o know-how de esculhambação produzido na matriz. Na primeira abordagem, Cabral, cheio de gracinhas, castiga o português castiço pra cima do nosso amigo funai parte um: prezado silvícola, és capaz de dizer-me se estou a chegar nas índias? O cara pintada logo saca que a tranquilidade tinha acabado e que aquilo podia virar o maior programa de índio. Por falar em programa, muito coisa se explica nessa linha histórica, pois as iniciais do nobre Pedro Álvares Cabral foram, anos mais tarde, utilizadas no pacote viagra de aceleração do crescimento do produto interno bruto. Voltando ao que interessa, nosso Peri mandou em tupi guarani saidaqui que o portuga desse meia volta e ficasse esperto porque as únicas índias que ele conhecia estavam a socar o pilão em sua oca, ô pá! Insistente, o chato do Cabral pediu que o índio fosse com ele na embarcação pra mostrar o caminho. Nervoso, o índio argumentou que seria melhor Cabral procurar orientação no google ou no dabliu dabliu dabliu vai ver se estou na esquina ponto com. Cabral foi embora mas, ruim de roda e de vela, errou o caminho de novo ao pegar a tesourinha errada e meses depois estava de volta ao tourist office local, com a mesma conversinha mole querendo saber das índias. O índio, puto da vita, chamou o resto da tribo e todos com seus apitos e cartões vermelhos, pelados, de costas pro Brasil mas de frente para o mar, mandaram Cabral mais cedo pro chuveiro. O resto da história cada um sabe onde vai dar...
UM CHATO INCOMODA MUITA GENTE
Todo mundo tem qualidades e defeitos. Com um mínimo de paciência podemos encontrar talentos e habilidades físicas, sensoriais, psicológicas e de coordenação motora em qualquer um. Hoje vou centrar a minha análise num ser importante na sociedade e que é, quase sempre, pouco apreciado: vou falar do chato! Antes que o leitor pule da cadeira ou pare de ler, peço um pouquinho de atenção, pois ao longo do texto poderei demonstrar como o chato serve de parâmetro para estabelecermos limites de comportamento, como é insubstituível e tem mil e uma utilidades, uma espécie de bombril social. Um chato é facilmente identificável. Ele se assume chato com orgulho e ponto final, não fica tentando disfarçar. Quer ver? Megassena acumulada, fila enorme na loteria, você pega o jornal para se distrair e logo sente aquele bafo no cangote. Incomodado, você muda de posição, mas ele estica o pescoço e pergunta: o jornal é de hoje? É! É de hoje! (como se alguém lesse jornal do dia anterior). Isso foi uma isca, o seu erro foi responder, pois ele manda uma série de perguntas: aí está falando se vai chover? Essa seca está horrível, você não acha? E as pesquisas? Você sabe se o Brasil perdeu ontem? Nesse caso, o melhor a fazer é abandonar imediatamente o local, esqueçer o jogo e a conta, deixar barato. Outra: o casal chega de lua de mel, concentrado unicamente no aumento da densidade populacional do planeta e o chato fica ligando pra saber se as fotos da viagem ficaram boas e se pode ir lá pra bater um papo! E no cinema? O chato vai com a turma e não compra pipoca, com a desculpa de que acabou de almoçar e que pipoca dá gases, mas no meio do filme ele começa a filar um pouquinho de cada um, enquanto fica chutando a cadeira da frente, alheio aos olhares de ódio do bombadão anfetaminado que estala lentamente o pescoço enquanto vai ficando verde. O chato não está nem aí! Mesmo se apanhar é lucro, está apenas cumprindo o seu objetivo, a sua missão na terra. Qualquer socialite ou promotora de eventos sabe que em lista de convidados para uma festa tem que, obrigatoriamente, incluir, pelos menos, uns três chatos, mas daqueles chatos famosos! Eles são escalados como responsáveis por separar aquelas rodinhas só de mulheres ou do pessoal do trabalho, que vão se formando e tiram a interação de novas amizades e o brilho da festa. A organizadora, cruela, pega o chato pelo braço e o leva para o meio da rodinha, que se desfaz em menos de cinco segundos. Viram a função social positiva do chato? Na rua, o chato faz questão de falar com o pedinte. Ele quer saber a que horas o sujeito chega ali, se é um bom ponto pra pedir donativos e, depois de encher o saco do cara de tanto perguntar, ele resolve dar uma nota de cinco reais, mas pede o troco em moedas de cinquenta. No fundo, além de azucrinar o coitado ele quer é trocar dinheiro. Muitas vezes, a chatura se manifesta já na infância, sinta o clima : o casal, consumido pela atenção total com os filhos, sem tempo nem pra conversar, louco pra transar, se tranca no quarto e tenta se concentrar, mas os anjinhos começam a bater na porta. Como os pais não abrem, eles se transformam em chatinhos borracha, passam por debaixo da porta e cortam o clima. Tem o chato que mora sozinho e foge de casa! Na televisão todo mundo conhece o chato-mor da comunicação: bem amigos, estamos falando de Galvão Bueno (agora fui fundo...) o cara não deixa ninguém falar ou acrescentar nada à sabedoria que ele derrama pelo microfone. Ele pergunta, responde, critica, rebate a crítica e os convidados ficam assistindo àquela comédia bufa que é um programa ou transmissão daquele chato. Não se contentando com sua chatura, ele ainda nos brinda com seus dois filhos chatos: o Cacá e o Popó... nessa levada, os netos serão pipi, xixi, cocô, etc! Vejam essa que aconteceu comigo: eu morava num condomínio onde alguns chatos costumavam se reunir à beira da piscina. Garoto esperto, vinte e cinco anos de sundown, eu já descia com o headphone que, pra bom entendedor significa: eu não estou a fim de papo! Mas o mundo é cruel! Vem o chato, estaciona-se à minha frente atrapalhando o sol e começa a gesticular com os dedos, de forma irritante. Pensei: se eu tirar o fone esse chato vai me alugar duas horas. Mas a experiência, como dizia Pedro Nava, é um trem com os faróis iluminando o passado, nada serve para o presente ou futuro. Então, leitor amigo, nesse momento, eu caí na isca do chato e comecei a gesticular também, como a dizer que não estava nem aí pra nada, que fizesse a gentileza de me favorecer com a sua ausência, mas ele continuava com os gestos e a coisa ficou intensa e desconexa. Lá pelas tantas eu percebi que, sem querer, de alguma forma eu estava me comunicando numa espécie de linguagem manual! Tratava-se de um chato surdo-mudo. Ato contínuo, saí correndo de forma desesperada em direção à saída do condomínio, tomei o rumo da praia, mas, quando olhei pra trás, vi que o chato corria na minha direção. Em ótima forma aeróbica, apertei o ritmo e me mandei pelo calçadão, mas o chato cada vez mais chegava perto e me alcançava. O leitor astuto já sacou a outra isca: caí nas garras de um chato surdo-mudo-maratonista! Depois de quinze minutos de perseguição, sentindo que aquilo estava ficando sem controle, simulei um mal estar súbito, sentei num banco e fingi que estava passando mal! O chato continuou correndo e passou por mim, mas, pro meu desespero, voltou e começou a me ajudar, com os gestos e procedimentos de primeiros socorros! Pensei: caramba, tanta gente no mundo e caí nas mãos de um chato surdo-mudo-maratonista e enfermeiro. Cartada final: truco, ladrão de galinha! Para me livrar daquela situação surreal só com uma tirada ainda mais surrealista: fechei os olhos, pousei a cabeça no banco e me fingi de morto. Afinal, àquela altura eu tinha que arriscar, mas, fundo do poço, lei de murph, devo ter caído na cilada do chato surdo-mudo-maratonista-enfermeiro e coveiro...
UM TOQUE SOBRE O STRESS GERAL
Ainda naquela cruzada contra os atrasos e descasos. Você deve evitar o stress para ter uma melhor qualidade de vida! Quem nunca ouviu esse nobre conselho de algum médico, psicólogo ou entendido de plantão? O engraçado é que o sujeito que pretende lhe enfiar essa baboseira goela abaixo é o mesmo que o deixou esperando noventa minutos feito um idiota, nada obstante estar agendado há vinte dias, ter chegado rigorosamente no horário e, no fundo, não se sentir estressado. Você, na verdade, está é muito puto de perder o seu tempo, de ser desrespeitado e de contentar-se em ser apenas mais uma senha. A parte positiva disso tudo é o brain storm, o descarrego, por assim dizer, do que lhe incomoda. Enquanto espera, você exerce o seu lado criativo, maquiavélico, fica arquitetanto o que poderia fazer ou dizer àquele indivíduo quando ele estiver à sua frente. Dessa vez você vai botar pra quebrar, vai dizer que é um absurdo sem tamanho, que ele precisa ter mais respeito e que precisa, entre outras coisas, melhorar a letra e que só entrou para dizer-lhe que, definitivamente, aquela é a última vez que você aparece por lá! Todos sabemos que, na prática, nada disso acontece! Diante da figura, ficamos levíssimos e elegantes, eis que nosso lado gentil e bem humorado entra em ação e já o estamos cumprimentando e agradecendo-lhe a regalia de encontrar um meio de nos receber em meio àquele tumulto e àquela dureza que deve ser a vida dele. Agora, algumas situações são muito hilárias. Fila de padaria, sete da noite, o sujeito com a maior pressa do mundo e aquela velhinha pedindo que o rapaz corte o peito de peru light bem fininho, recomendando que tire a casca e três fatias que ficaram a mais, querendo provar todos os patês e saber em detalhes os ingredientes de cadas um deles. Também tem aquele aposentado nervoso, apressado, exigindo rapidez pois tem que ir pra casa e ficar sentado esperando a hora de ter que sair para comprar mais alguma coisa. O contrário, também, bem que pode acontecer, diria o Gil. Dia desses, chegando em casa, caio numa blitz enorme. Seco e sóbrio, como o clima do planalto central, permaneci tranquilo, liguei o som e fiquei observando que, curiosamente, os condutores entravam em seus carros às gargalhadas. Quando chegou minha vez, captei a razão da cena glauberiana: tratava-se de um guardinha do detran com toc! Preocupado em preservar a saúde do bêbado alheio, a obsessão com a limpeza não o convencia que usar pontas descartáveis seria suficiente. Ele as esterilizava com álcool antes do sujeito soprar. Resultado: em cem por cento dos casos o índice de embriaguez era altíssimo. Sua autoridade mandava todos voltarem para os carros e aguardarem a chegada do reforço policial para conduzir mais de cinquenta pessoas presas, todas, segundo ele, de porre e sem a menor condição de dirigir. Detalhe: inclua-se nesse clã de irresponsáveis uma kombi com cinco freiras que choravam e rezavam ao santo protetor da condução defensiva para que se "tocasse" e mandasse uma luz para aquele transtornado. Também dois casais de nerds, com o carro entupido de livros e que voltavam da balada literária na biblioteca, limpavam as lentes fundos de garrafa, de suco, indignados e aflitos por perderem a carteira provisória. Sobrou também para os velhinhos de terno e gravata borboleta que saíam da sala de convenções embebidos e embevecidos com a maravilhosa ópera, mas não teve jeito! Aos costumes, rabiscava o guardinha em sua prancheta assepticamente limpa e alvo das reclamações e gozações ao cumprir a lei. Por falar em lei, a imprensa e o detran usam o termo lei seca indevidamente. Na verdade, lei seca é a situação em que é probida a distribuição e venda de bebida alcoólica em bares, restaurantes e supermercados, como já aconteceu no passado. O que temos é o cumprimento rigoroso de se observar a proibição de condução de veículos após a ingestão de determinada quantidade de álcool. Muito correto e prudente, diga-se de passagem: o passado condena. Isso me faz lembrar aquela rotina de conferir a presença e posição do carro na garagem após tantas noitadas de prazer, com batidas de limão e o som de B.B.King tocando sem parar! Por incrível que pareça, o dito cujo sempre estava estacionado impecavelmente, graças ao anjo da guarda, motorista nota mil, que toda segunda entrava com o pedido de aposentaria precoce, esse sim estressado e mal pago. No mais, é seguir a filosofia do flanelinha: desliga e deixa solto, meu patrão!
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
É PAU, É PEDRA, É O FIM DO CARINHO
Não quero generalizar, mas o ser humano tem costume de ver as coisas e de se posicionar a partir de suas próprias experiências e da sua formação cultural. Estamos agora acompanhando essa questão polêmica, mais uma, vinda do Irã, que condenou e decidiu matar Sakineh Ashtiani, iraniana que, segunda consta, depois de viúva, resolveu aproveitar a vida e pegar alguém pra transar. Mas o que não pegou bem foi a forma como o governo local viu a questão, uma ofensa, um pecado, mais que isso, um crime. Resultado: culpada, condenada à morte, cumpra-se, segue a fila! Algumas coisas eu não consigo entender. Primeiro, condenar uma viúva por adultério é brincadeira, condenar à morte é inacreditável, morte por apedrejamento em praça pública aí os caras estão de sacanagem! Volto ao começo, é uma análise a partir de nossa visão ocidental, mas tudo tem limite, e o dela resolveram que é na pedrada, e fim de papo, aliás esse papo está pra lá de Teerã! Informaram que ela já levou noventa e nove chibatadas, imagino que deva ser a título de aquecimento. Outra coisa que eu não entendo: por que não deram logo cem chibatadas, que é um número redondo? O carrasco chega, dá noventa e nove chibatadas no sujeito e vai embora. A pobre coitada fica lá, jogada, sofrendo e esperando que voltem pra dar mais uma e arredondar a fatura. O caso sensibilizou o mundo todo e o presidente Lula entrou no circuito pra tentar salvar a moça, respaldado no bom relacionamento que mantem com o ditador, baixinho com cara de maluco, mas perigoso e que gosta de terno, mas nunca usa gravata, outra coisa que também não entendo. Mais uma vez, o Lula está vendido na história, pois a moça não é dissidente nem terrorista, não pode, portanto, receber asilo político. A questão está sendo tratada de forma pessoal, nosso presidente ficou com pena e decidiu ajudá-la, mas oficialmente os governos ficam fora, é uma questão particular, o Itamarati nem entrou no circuito. Apesar de muito criticado, tenho uma simpatia pelo chanceler Celso Amorim, até o cumprimentei uma vez na saída do cinema na Academia de Tênis. Simpático, educado e tem, como eu, paixão por cinema, estudou e começou a carreira como cineasta antes de entrar no meio diplomático. Agora, se essa moda de apedrejar mulheres que dão uma escapulida chega ao nosso país, acho vai faltar pedra, sério! Vai aumentar o número de implosões e escavações para renovar o estoque e a coisa ganha uma proporção e notoriedade que já conhecemos. Vai aparecer gaiato querendo jogar pedra com paradinha, com fintas e pedraladas (foi mal), com barreira, com efeito, pedrada olímpica, e por aí vai. Brincadeiras à parte, espero que o caso acabe de forma civilizada, que a iraniana seja solta e que olhemos para o nosso próprio umbigo e reflitamos sobre as pedradas, tiros e descasos com que a população brasileira menos esclarecida e favorecida é tratada, principalpamente nesse momento em que as eleições estão chegando.
ESPERA NA SALA DE ESPERA
Sala de espera de consultório médico, confortável mas lotada, atendentes simpáticas mas tudo atrasado, revistas novas mas pacientes impacientes, falando alto e reclamando de tudo! O leitor já captou o clima, aliás, pra desfrutar dessa experiência enriquecedora bastam duas coisas: estar vivo e ter um plano de saúde. Felizmente, posso me gabar de estar bem na fita e colher os frutos de ter me preservado, nada obstante as rodadas irresponsáveis de campari com água tônica na adolescência que, parece, não molestaram a região hepática. Na coluna do prejuízo só o quesito oftalmológico. Tenho vários problemas: astigmatismo, ceratocone, estrabismo, fotofobia, hipermetropia, miopia, coloquei em ordem alfabética pra facilitar, com todos os ismos e pias. Na linguagem comercial eu diria que estou mais pra venda à prazo do que à vista, se me permitem o trocadilho. Freguês antigo e esperto, vinte anos de sundown, só marco o primeiro ou o último horário com meu oculista e chego sempre atrasado, pois já sei que vou levar um chá de espera daqueles. Também o cara é bom e confio cegamente nele, embora o advérbio não seja apropriado para o caso. Se ele disser que pular do vigésimo andar é uma boa, eu pulo, de paraquedas, mas pulo. Na média, consigo ler umas cem páginas de algum livro que sempre levo comigo, apesar das irritantes interrupções daquela maquininha de senha e da menina que fica passando e pingando pimenta nos olhos dos outros, que pra ela é refresco. Tento me concentrar na trama literária, mas há sempre um sujeito que puxa assunto sobre política ou futebol e, apesar dos sinais claros de que não estou a fim de papo, balançando a cabeça discretamente, sorrindo com o canto da boca, murmurando concordâncias monossilábicas secas e evitando contato visual direto, ele desconhece os sinais e dana falação sem dó nem piedade. Leitura prejudicada, nem tudo está perdido, pois logo chamam o nome da figura, que me favorece com a sua ausência ao ser conduzido pra outra sala. Na dúvida, coloco um jornal ou uma blusa na cadeira ao lado e ganho algum tempo de privacidade. Ledo engano, logo vem aquela velhinha recém operada de catarata, simpática mas super acima do peso e conduzida pelo filho, empresário do setor de construção que procura compensar o tempo perdido na escolta da mãe, pisando nos pés dos incomodados e orientando os empregados ao celular com aquela voz de barítono em irritante sotaque gauchês. O sábio leitor já sacou onde eles vão assentar e o drama dessa vez é mais sério e duradouro! Garoto esperto, peço licença, finjo que vou ao banheiro e encontro lugar no outro lado da sala, no fundo, um silêncio compensador e onde está sentada uma paciente bem vestida, literalmente um colírio para os olhos, que me dispara um sorriso angelical enquanto me aponta um lugar vazio ao seu lado. Deus existe, penso comigo, enquanto torço para dessa vez não ser chamado logo. Identificação rápida, papo animado, tudo perfeito, mas, minha sorte muda radicalmente quando sinto alguém chutando minha cadeira, de forma contínua e irritante. Disfarço e finjo que está tudo bem, mas a tortura aumenta. Olho pra trás e vejo um garotinho com cara de delinquente juvenil e seu game, headphone e uma bota imensa. Flahsback radical, aquela bota me lembra outra, ortopédica, branca, usada pelo Léo, um primo todo podecrer. Alguns leitores devem se lembrar da bota. Quem hoje o conhece, simpático, um sujeito tranquilo e confiável não imagina que por trás dessa linha zen, havia uma criança que chutava tudo e todos que se aproximavam dele. Cenário: Léo, seu cabelo está tão bonito! E ele mandava um chute na canela do elogiador! Léo, cuidado onde pisa! E ele, bom de mira, usava aquela bota ortopédica branca tamanho ggg para detonar a canela do sujeito! Os primos andavam todos de caneleira, não por amor ao futebol, mas para se proteger. Mas o mundo dá volta e hoje ele é especializado em cuidar dos pés alheios! Almodóvar perde longe! Corta tudo e volta para a sala de espera, eu me preparo para dar um peteleco no garotinho, mas a sorridente secretária do médico me chama e põe fim ao suplício.
UM CONTO DE FADAS - JOSÉ E MARIA
Você vai ser meu cavalinho! E no segundo dia sou eu! Era assim que a coisa meiga era recebida na rodoviária de Dores de Campos pelos sobrinhos metralhas. Tolinha que era, achava que ia ter férias tranquilas e curtir a dindinha Lia, nossa saudosa mamãe. Quando penso naquele tempo, sinceramente, fico sensibilizado e acho que isso vai contar muitos pontos negativos no dia do juízo final. A coluna dela até hoje sofre as consequências das cavalgadas pela casa, e o que dizer então dos pobres dos joelhos se arrastando pelos tacos cheios de farpas! Tenho que fazer um méa culpa, ela devia ser canonizada, era boazinha demais da conta, gente boa dum tanto! Isso sem contar as acusações de corpo mole e reclamações sem sentido que levava de mamãe, na primeira simulação de que a gente estava pegando pesado. Pensando bem, não vai ter purgatório, vamos direto pro inferno, fazer companhia ao Michael Jackson, Sadam, Idi Amim Dada e outras espécimes desse naipe. O melhor é que ela se divertia com qualquer coisa, ria de tudo, tiros em cavalos nos faroestes, fratura exposta, sermão de padre nas missas de domingo, tudo era festa. Alegre desse jeito, novinha, de fora, carinha de anjo, naturalmente, era muito paquerada e assediada por todos os solteiros cultos e milionários da cidade! Num desses passeios, um pretendente, tímido e cuidadoso, respeitosamente caminhava no mesmo sentido dela, um em cada calçada, separados apenas pela rua, mas tudo bem, isso é detalhe. Ele queria muito saber o nome dela, mas ela declinava em revelar a sua graça e insistia que ele deveria dizer seu nome primeiro. Ah, não, fala você! Eu só falo se você falar! E por aí, vai, essa sem graceza que fica até constrangedor para este narrador tecer comentários sobre patética estratégia de abordagem num relacionamento, por mais que se considere a época recatada, as supervisões e recomendações da madrinha e a bobeira dos personagens em questão, mas fazer o quê? Lá pelas tantas, ela decide revelar a profunda criatividade dos progenitores, mas alerta, antes, que era um nome simples e sem graça! Fala logo a porra do nome, pensava o meigo e recatado varão. Meu nome é Maria José, agora fala o seu, fala, fala! E ele, revela, orgulhoso: José Maria, às suas ordens!
O LANCHINHO BÁSICO DE VOVÓ ZEZÉ
Imagine a cena: sala de tv na casa de Zezé, eu num canto, Maurinho no outro e vovó Zezé no meio, com os bolsos cheios de guloseimas, biscoitos, balas, tipo kit sobrevivência para encarar o programa completo do Silvio Santos no domingo sem ter que ir à cozinha, sacou? Ela não queria fazer barulho ao pegar alguma coisa no bolso pra não ter que dividir com ninguém (também sempre tinha alguém pra filar alguma coisa dela), e Maurinho me lembrava no Terraço, nesse dia com a Silvana, que ela tinha uma técnica especial. Era uma virada de cabeça pra determinada direção como que para desviar a atenção e mudar o foco dos curiosos, enquanto a mão boba ia procurando qualquer coisa comestível nos bolsos, e os casacos dela, estrategicamente, tinham muitos bolsos. Bom, assim que encontrava alguma coisa, jujuba, biscoito polvilho, drops, bala toefel, ela fechava a mão e ficava quieta, olhando firmemente em direção à tv, pra ganhar tempo e executar a segunda etapa do plano engana-trouxa-filão-de-bala. Detalhe, a gente acompanhava tudo com a maior seriedade e dando o maior gás àquela embromação toda ( isso no teatro se chama escada, alguém tem que levantar a bola para a atriz principal desempenhar o seu papel). Ela, na maior seriedade, olhava de soslaio, pra ver se pintava uma canja pra botar qualquer coisa na boca, mas a gente não aliviava a barra dela e ficava aquela tensão no ar! Então, ela partia para a execução da segunda parte do plano, que era descascar a bala ou quebrar um pedaço do biscoito de forma que não ficasse engastaiado na corega (maldade!) e ia descascando bem lentamente, só que, carente de acuidade auditiva, ela não sacava que todo mundo ouvia o barulho do plástico ou da peta se quebrando. Mais alguns minutos de imobilidade total, a tensão no ar continua e ela partia para a terceira e última parte do plano, que era levar a sustança à boca. Quando o objeto atingia o alvo, ela começava a simular uma tosse ou pigarro e, rapidamente, mandava pra dentro, crente que tinha enganado a malandragem esbaldada no entorno e se acabando de rir. Isso, convenhamos, no dia do juízo final, vai contar ponto negativo pra caramba, viu Maurinho? Depois de tanto esforço e aquela mistura de coisa doce, salgada, grudenta, em calda, etc, batia aquela sede e ela ia pegar a famosa gasosa, que era uma garrafinha gelada de água tônica verde escura, que ela adorava. Gente, a despeito dessa modalidade de tortura psicológica, na qual seríamos facilmente enquadrados no atual código de defesa do idoso, a gente gostava muito dela! Que saudade de vovó Zezé!
MAIS DUAS DOS PORTUGUESES
Final de longas férias pela Europa, quarenta e cinco dias de carro pelo interior e capitais de seis países, desfrutando do melhor do velho mundo, Flávia e eu fechamos o roteiro na terrinha de nossos antepassados, onde tudo começou e se explica, aquele clima, a comida, os vinhos, o sotaque, o fado! Estamos em Lisboa, início dos anos noventa, ô pá! Vocês sabem, os portugueses gostam realmente da gente, são alegres, perguntam e contam sempre de um parente que aqui está, que somos isso e aquiloutro, mas, esperto pra caramba, trinta e nove anos de sundown, sei que aquilo tudo é cascata, os patrícios querem mesmo é que a gente se exploda e vão tentar ganhar o terceiro jogo custe o que custaire! Mas vamos deixar o assunto copa pra outra vez, porque na época tínhamos acabado de engolir três do Paolo Rossi, ao som de Volare e Cantare, e tome mortadela! Recursos financeiros esgotados, resolvemos aceitar os préstimos do simpático senhor que nos abordara na estação de trem, dirigindo um furgão e oferecendo-nos uma barganha, íamos ficar em sua pequena, mas limpa e honesta pousada. Beleza, Deus é português e está nos ajudando, pensamos com nossas abotoaduras. No trajeto, ele nos mostrava os pontos turísticos, enquanto dirigia e falava ao mesmo tempo em seu telemóvel. Mais tarde, tolinhos, descobrimos que ele combinava com a patroa Maria, pra se viraire e acordaire o pobre do angolano que ocupava nossa suíte presidencial. Na recepção, estranhamos a demora na arrumação dos aposentos, mas fomos distraídos daquele um-sete-um com tremosos e um cálice do porto, nem tudo estava perdido! Liberada, a acomodação não era tão ruim, tirante aquele forte aroma de oraveja multiuso! Fazia muito frio e ao lavar o rosto notei que havia duas torneiras, uma com água pelando e a outra geladézima. Detalhe, sem misturador, ou seja, sistema independente de tortura aos ótários brasilairos! Qual o quê, garoto esperto de Corinto, peguei a manha rapidinho: abria as duas torneiras e resolvia o problema com rápidos e cadenciados movimentos para os lados, de forma que a água ia se misturando e ficava numa temperatura bacana. Contado assim, parece fácil, mas pra fazer a barba dá um trabalho danado de coordenação e, é claro, eu começava o movimento sempre com a água fria, que eu não sou besta. Descansados, fomos aos passeios e compras no shopping Amoreiras, já estávamos sentindo falta de um cineminha. Bilheteria vazia, atendente simpática e devorando as terminações dos tempos verbais e o que mais se apresentava na língua de Camões. Pedi duas entradas e ela me informou que o sistema, informatizado, escolhia, automaticamente, os melhores lugares do cinema por ordem de compra. Olha isso gente, pensei, é tecnologia de ponta, os caras estão com tudo e não estão prosa e verso, e a gente fazendo piadinhas sem graça deles, metendo o pau por tras dos portugas, que coisa mais desnecessária e sem sentido! Enfim, dava tempo pruns pasteizinhos de belém, quindins de iaiá e essas maravilhas feitas com ovos, sem contar o queijo da serra derretendo no pão quentinho. Ai meu Jizuiscristinhu, pensava, quando voltar o eixão vai ser pequeno para as minhas corridas. Chegada a hora, cheio de sacolas, entramos, cinema vazio, encontramos nossos lugares: bingo, as cadeiras ficavam exatamente no meio da sala, no centro do mundo, tecnologia portuguesa a serviço da cultura. Beleza! Só que daí a pouco vem um casal e encontra os segundos melhores lugares escolhidos, automaticamente, pelo sistema e, a pergunta que não quer calar: onde ficavam? Isso, exatamente o que estão pensando: imediatamente ao nosso lado direito! Tem nada não, colocamos as sacolas nas cadeiras à esquerda e o astral continuava alto, todos sorrindo amigavelmente. Então, aconteceu o que, no fundo, o meu lado mais otimista dizia que não ia acontecer: não deu outra, novo casal descobriu os-terceiros-melhores-lugares-escolhidos-automaticamente-pelo-sistema-português-de-definição-de-lugares: do nosso lado esquerdo! Caramba, os caras são burros demais, pensei, enquanto acomodávamos as sacolas nos colos e nos pés! Putaquilpariu, num estou acreditando que isso está acontecendo! O cinema enorme, vazio e aquele bando de idiotas apertados se acotovelando, com casacos de inverno, sacolas e guarda chuvas. Começa a sessão e o filme, olha o nome do filme: 'A morte fica-vos tão bem', uma comédia nonsense com Merryl Streep, Bruce Willis e Goldie Hawn e a gente num mal humor daqueles! No meio do filme as luzes se acendem e o anúncio: intervalo! Saímos para uma esticada de pernas e falei que não voltava para aquele lugar nem se o Fernando em pessoa me pedisse! Quinze minutos depois, escolhemos outros lugares e para nossa surpresa o lanterninha, bom, você imagina a roupa do lanterninha português a nos pedir que voltássemos aos nossos lugares, pois tinham sido escolhidos automaticamente pelo sistema! Já relaxados e morrendo de rir, voltamos aos lugares e curtimos o resto do filme, que mais parecia uma piada de português do que qualquer outra coisa.
ROCK´S LANCHES - AMO MUITO TUDO ISSO
Quem está na cidade desde o começo deve se lembrar das lanchonetes que fizeram sucesso e foram points de encontros de amigos, paqueras e aquele rango básico no fim de noite. Tempinho bom, grana curta, mas os sandubas eram baratos e os hormônios estavam a mil, a gente mandava bem! Tinha o Goods, o Foods, o Trucs e o que fez mais sucesso foi o Chaplin na galeria do antigo Karin da 110 sul. O que poucos se lembram é que houve uma lanchonete na 205 sul que marcou a história gastronômica da cidade e deixou uma legião de sem-lanches esfomeados à deriva. Isso é culpa da mídia e sua memória fraca, que ainda não divulgava as vejinhas e roteiros do melhor da cidade e ainda não rolavam os concursos e competições de pratos, tira gostos e sanduíches. Mas o Jornal dos Costa está aí, firme e forte, para corrigir essa injustiça e rememorar o primeiro, único e incomparável ROCK´S LANCHES !!! (música, maestro... só de falar no nome me vem à mente a cena do Stallone subindo escadas e o tema ao fundo, tchan-ranran, tchan-ranran...). À frente do negócio nossa coisa meiga, essa empreendedora experiente do fast-food que circulava com desenvoltura no circuito taguá-plano e seu fiel escudeiro, nosso Tibeto, de quem esse falador que vos locuta é grande fã, pois sempre se destacou na família pela tranquilidade e simplicidade. O cara não se abala e não sai do sério por qualquer coisa não, ele é nosso chapa quente, daí a cm ter-lhe confiado, entre outras funções, a missão de chapeiro-mor, o mágico das caçarolas, o manda ver no alho, óleo e sal à gosto. Essa dupla sacava tudo, ali não tinha esse negócio de confundir cheiro verde com perfume do hulk, nem couvert com traseiro verde de francês. com isso, o negócio estava bombando, literalmente. a sensação do cardápio e campeão dos pedidos era o X-Corinto, sanduba mais que completo. Na moral, Tibeto ia botando queijo, presunto, ovo, criativo e rápido na espátula, ele ia pegando o que aparecia, bombril, perfex, esponja, o que pudesse ajudar no visual colorido e no gosto indefinido. Com fórmula desconhecida e sempre diferente, o X-Corinto saía direto, era uma média de três a quatro a cada quarenta dias, por aí. o sanduba era sustança pura, caía como uma bomba no estômago, era tão grande e completo que tinha fila de motorista comprando e levando pra viagem. Detalhe, eles pediam para partir em pedaços pequenos pois iam dividir entre dez a doze peões de obra. O sucesso chamou a atenção do pessoal do Mc Donald's, que já pensava em entrar na América do Sul e mandava espiões se fingindo de clientes no Rock's, para copiar o modelo de gestão empresarial, as variedades do cardápio, a logística de controle de estoque. Por falar em estoque, além da parte operacional, Tibeto coordenava os colaboradores técnicos do subsolo que adicionavam água no catchup, pois o produto era muito concentrado. Alguns clientes mais exigentes comentavam que estava muito fraquinho, que parecia mercúrio cromo, mas há controvérsias. Também o pessoal do Giraffas já estava de olho no esquema do Rock's para formatar as planilhas de franchising e expansão da rede em nível nacional. É malandro, o Rock's não era fraco não! Mas nem tudo era maravilha, havia alguns percalços, como a legião de baratas que insistia em furtar bisnagas, aquilo era uma maravilha, os bebuns do bar ao lado, o Chico´s bar, viam aquela fila de mostardas, maioneses e catchups saindo da lanchonete e atravessando a rua e já sabiam que era hora de parar de beber. Há quem acredite que a faixa de pedestres foi criada naquela época, para proteger as pobres das baratinhas, mas acho que isso é folclore! Amo muito tudo isso...
FÉRIAS FRUSTRADAS - OU DÁ OU DESCE . . .
Vira e mexe a criançada reclama da falta de conforto dos carros de hoje, isso no trajeto casa-escola! Dia desses estava me lembrando das nossas viagens de Dores de Campos a Brasília, mil e quinhentos km, de fusca, sem som, sem ar, verdadeiros safaris, rali perde longe! Papai trabalhava o dia todo, chegava em casa e a gente saía de viagem à noite, direto, sem descanso! Eu achava que a odisséia acontecia daquela forma porque ele não tinha férias e precisava nos levar e voltar no mesmo fim de semana. Cara, eu fiquei sabendo anos depois que o compreensível propósito era de se evitar o aquecimento e bolhas dos pneus, marca firestouro. O estado dos pisantes era tão esquisito que se passasse em cima de guimba de cigarro eles furavam. Dá pra acreditar que mamãe ia na frente com o caçuça Tonho no colo, atrás os três santinhos, almofadas, cobertores, as malas no capô e, pasmem, outra mala, perto dos irmãos metralha: quem era? Ora, nossa querida, tranquila, discreta coisa meiga! Aquilo não era viagem, era uma saga, uma lida de proporções inimagináveis! Era uma zona, todo mundo falava ao mesmo tempo, tinha comida, lata com farofa de frango, pão de queijo, brincadeiras, brigas, muitas brigas! De vez em quando mamãe botava o braço pra trás e começava a dar tapas e beliscões à revelia (rimou) em quem pegasse era bem feito, estava valendo, tinha algum motivo. Papai, concentrado na estrada e nas possibilidades de mandar uma banguela pra economizar gasolina, todo zen, parecia que estava alheio ao ambiente hostil que reinava na parte de trás do possante. Era a faixa de gaza, o apocalipse, o purgatório! Ele sempre foi de falar pouco e olhar firme para nós! O olhar dizia tudo, não precisava falar nada, a gente sabia que tinha pisado na bola e tentava ficar comportado, mas esperar controle de quatro delinquentes juvenis era pedir demais. Nos poucos segundos em que havia silêncio e calma, alguém sempre dava uma cotovelada em alguém, que revidava e a coisa seguia na mais completa desorganização. Papai sempre dizia que tínhamos dois ouvidos e dois olhos e apenas uma boca, para escutar muito, observar muito e falar pouco. A lição já sabíamos de cor, só nos restava aprender! Dú e Maurinho batiam na pobre da tia sem piedade, ela chorava, reclamava e pedia ajuda pra dindinha, mas mamãe brigava com ela e dizia que ela era muito chorona e que nós só queríamos aproveitar a oportunidade e brincar com ela! Lá pelas tantas, papai, vendo que a intervenção materna não gerava resultados positivos, de saco cheio, falou que se aquela zona continuasse ele ia mandar alguém descer! Rárárá, nos ríamos e repetíamos, cuidado que ele vai mandar a gente descer, rárárá! Pois bem, quando o clima chegou no limite, ele parou o carro no acostamento, abriu a porta e mandou os dois mais velhos descerem! Queissupai, descer aqui? É, aqui mesmo, eu avisei várias vezes, agora é pra descer! Mamãe conhecia a fera e sabia que a coisa era séria, segurava a onda pra não tirar a razão dele, mas olhava-o firme na vaga esperança de que a coisa não fosse rolar, mas rolou! Carro duas portas, banco dobrado quase sufocando mamãe, dedo em riste, não teve jeito, descemos Dú e eu, sem graça, despreparados e sem ter visto aquele filme! Pois bem, ele entrou no carro, acelerou o motor que saiu engasgando, ele tinha mania de arrancar de segunda, nunca entendi isso. Andou um pouco e parou depois da curva pra acompanhar nosso sofrimento. Mamãe descompensou e disse que ele era um maluco, irresponsável, que não precisava daquilo, que podíamos ser atropelados, mas ele ficou firme. Enquanto isso, os dois manés se olhavam com cara de bunda e pensavam no que poderia ser feito. Justiça seja feita, nós sempre estávamos juntos pra tudo, pras coisas boas e pras merdas também. Sem dinheiro nem pra pegar um ônibus, o jeito era pedir uma carona, pois caminhar até Brasíla estava difícil! Papai, ainda de saco cheio, só que que agora com as esculhambações de mamãe, voltou, parou na nossa frente e falou que podíamos entrar, não carecia de recomendações extras, estávamos do tamanho de um prego. Resumo da ópera, nos oitocentos quilômetros restantes foi um silêncio assustador pois, a essa altura, Maurinho, Tonho e Coisa Meiga também ficaram na deles, com medo de serem jogados pela janela com o fusca em movimento.
MINHA CASA, MINHA VIDA - OLHA O MST AÍ, GENTE ...
Sempre que recebemos um convite para algum evento social, duas coisas nos chamam a atenção: quem serão os anfitriões e onde será o encontro, pois daí podemos pensar em vestuário, horários, cardápio, ambiente, enfim, como nos portarmos e o que se pode esperar da festa. No evento da última sexta, que comemorou o aniversário do simpático tio Ciro e o reencontro da família Costa, a primeira questão era barbada, unanimidade - Paulo e Zezé recebendo são o máximo da educação, da descontração e da alegria; já para o segundo item nem tanto, na verdade, poucos conheciam o local do evento, ou melhor, o tamanho do lugar e dos perigos de se aventurar naquela imensidão em forma de casa. Permitam-me, pois, discorrer sobre as características do espaço, pois o lugar é grande, vocês não têm noção do que estou falando. Vocês acham que conheceram a casa ficando ali naqueles mil metros quadrados que eles reservaram para a gente dançar e se divertir? Meus amigos, fiquei sabendo que os empregados ficam traumatizados quando têm que subir para limpar os cômodos. Eles se desorientam, ficam dias perdidos, sem comida, sem saber o rumo a tomar, naquele labirinto logo vem a labirintite, sim, porque pobre adora labirintite, já viram? Uma diarista não levou a sério os relatos de outros desorientados e se mandou degraus acima, rápida, limpando, lavando, encerando, mas, decorridos doze dias alguém deu falta dela e organizou-se uma comitiva de busca, com lanternas, bússola, cachorros, gps e a coitada foi resgatada dias depois, desidratada, com ataque de histeria e rigidez catatônica, tentando pular pela janela, mas não conseguia abrir a tramela, que nunca tinha sido utilizada. Para se ter idéia, o xará Paulo já tentou várias vezes pintar a casa, mas a tarefa é inglória. Ele chama o profissional e pede um orçamento, prazo e lista de material. O sujeito pega o binóculo e começa a inspecionar as paredes, diz que vai deslocar todo o pessoal dele para tentar fazer o serviço em oito meses. Paulo pega o carnê para pagamento da mão de obra e compra o material estimado. O probleminha é que o maldito sempre erra o cálculo e acaba pedindo mais tinta. Nosso anfitrião vai à Polar tintas, com p de põe tinta nisso, mas o material utilizado sempre sai de linha e a coisa recomeça do zero. Com isso, a solução foi adotar o método mondrian, que permite combinação exótica de cores e que agrada a todos. Em frente à casa deles mora o digníssimo, ilustríssimo ministro chefe do stf que, político nato, escolheu a casa estrategicamente para, em caso de conflitos com outros poderes, pedir asilo a Zezé e se refugiar na área verde, até que a situação esteja sob controle. Para terminar, dizem que, nas raras vezes em que se desentendem, Paulo avisa à sua amada que irá dormir em quarto separado, pega o travesseiro, entra no carro, dirige alguns quilômetros e vai descansar na outra ponta da casinha pequenina, onde o amor deles nasceu...
AS PROPRIEDADES DA H2O X 110 VOLTS
Os Costalmeida tiveram a oportunidade de morar em lindas e pequenas cidades das Minas Gerais, de onde adquirimos sensibilidade e respeito com a natureza e um carinho especial com aquele jeito tranquilo do interior. Isso é raro hoje em dia, pois nossas crianças são obrigadas a entrar no esquemão dos grandes centros, com horários, compromissos e o eterno "entra rapidinho e põe o cinto que estamos atrasados...". De todas as casas, confortáveis e diferentes, a de Pará de Minas foi a mais legal, pois havia um quintal onde jogávamos bola e, ao lado, um pequeno pomar, com pocans enormes, ovos caipira, laranja lima e um pé de jabuticaba imenso, onde ficávamos tardes inteiras a saborear o doce prazer da vida. Eu sempre digo que éramos felizes e sabíamos disso. Tonho, o caçula, tinha uns seis pra sete anos, caladinho, mas curioso, criativo e sempre na tentativa de bater os recordes de coisas erradas dos três irmãos mais velhos. Ok, ele vai, matreiro, de soslaio até o nosso quarto, pega o abajour, tira a lâmpada e, inteligência rara, coloca uma moeda no lugar da lâmpada.... Meus queridos, o menino tomou um choque daqueles de tremer o quarteirão! Corremos para o quarto e ele estava em transe, olhando para o infinito e além! Com os cabelos em pé, parecia que tinha feito uma escova regressiva, sacou? Foram necessários três ou quatro cortes no barbeiro da esquina, à la Príncipe Danilo para corrigir o estrago, isso porque o sr. sabe tudo queria raspar tudo, mas perdeu duas máquinas quebradas na recuperação do ocorrido. Volta a cena: nervosa, mamãe buscou alguma coisa líquida, ele bebeu e foi voltando, aos poucos e, sorrindo com cara de bocomoco, repetia: "água boa, água boa....". Dú e Maurinho, irmãos mais velhos, juram, de pés juntos, que o copo estava cheio de leite, mas isso é conversa pra outra história...
SER OU NÃO SER... EIS A QUESTÃO...
Aí a diretoria do Pio XII, tradicional colégio da capital, resolveu participar das comemorações da semana santa. Estamos em Brasília, no final dos anos setenta. Após exaustivos encontros, decidiu-se encenar uma peça teatral e a escolha do ator seria pela indicação dos melhores alunos da entidade. Claro, Maurinho foi um dos primeiros nomes lembrados, pelo invejável currículo e desempenho nas provas que o colocavam sempre entre os primeiros setecentos melhores alunos,ficava sempre ali no setecentos e um, dois e até mesmo abaixo disso, quando deixava de ver muita sessão da tarde e metia bronca nos cadernos. Talento promissor, mas ainda sem muita experiência, foi escalado para representar um imperador que tinha poucas falas, na realidade uma única fala, porém a mais importante de todas, quando os plebeus esperavam o veredito definitivo e ele mandava: "Crucifiquem-no". Pronto, o homem tinha a chave do cofre, o martelo do tribunal, o apito do juiz no final da copa do mundo, ou seja, o cidadão estava lascado. Ok, mãos à obra para compor o personagem e decorar a fala... confiscamos o único lençol branco de casal que papai tinha e pegamos as cordas das cortinas do bom e velho apartamento 307 do bloco I da 405 sul (poente...). O ator se concentrava e caminhava pelo corredor despencando crucifiquem-no e crucifiquem-no em todo o mundo, a semana toda, mas a coisa estava ficando intensa... Dia da apresentação, palco montado ao lado da catedral, na esplanada dos ministérios, clima dramático, concentração total, público em catarse e chega a hora da fala mais importante da representação e nosso ator manda brasa sem piedade: CRUFICIQUEM-NO!!!Para encurtar a estória, a única saída que o arcebispo encontrou para dispersar a multidão, errante, furiosa e que ameaçava invadir o palco foi cancelar o restante das comemorações da semana santa.
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