sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
DOIS CHATOS INCOMODAM MUITO MAIS
Muito legal a repercussão da crônica sobre os chatos. Recebi considerações interessantes, depoimentos, sugestões, enfim, como eu disse, socialmente o chato é uma figura importante e insubstituível. Merece, portanto, reconhecimento por serviços prestados e, democrático como só, está em toda parte. A qualquer momento ele aparece cutucando o seu ombro e perguntando se você quer comprar um picapau. Daí o mote: chatos de todo o mundo, uní-vos! (de preferência num lugar só, pra gente dar um cacete na turma toda). Uma leitora amiga pediu-me que falasse de sua sogra, uma figuraça que, personificação da pedicure, vive pegando no pé dela. Mas sogra é um capítulo à parte. Algumas bem à parte, quase fora do mapa, lá no meio do oceano, de preferência se afogando. Conheço alguns caras que carregam a foto da sogra na carteira e os motivos são vários: média com a patroa, fetiche, espantar mal olhado ou despertar compaixão alheia. Em breve dedicarei umas mal traçadas linhas às sogras. Toca o boréu: fico reparando o cumprimento de alguns sujeitos chatos que se abraçam de forma efusiva, demorada e permanecem dando-se tapinhas, sorrindo e com os olhos fechados. Três chances: são aqueles tipos podecrê, bacaninhas, apreciadores de livros de auto-ajuda ou acabaram de comer pastéis e procuram limpar as mãos engorduradas na roupa do outro ou são lobistas checando se há microfones e gravadores escondidos que possam comprometê-los. O que dizer daqueles namorados que ficam esfregando as costas da amada em demorados movimentos lentos e circulares? Parece quererem atingir o âmago, o interior da moça, em nome do verdadeiro amor, mas correm o risco de deixá-la toda enrolada feito rocambole ou de desatarrachar as costas da coitada e acabar sem namorada. Em shows, o chato fica insistentemente pedindo músicas antigas quando o artista quer divulgar o trabalho novo. Na maior intimidade faz perguntas, piadinhas, quer aparecer de qualquer jeito. Agora, o maior dos erros que o chato pode cometer num show, o que mais irrita e desconcentra o artista, sobretudo em performances intimistas quando a sensibilidade é posta à serviço da melodia, é quando o chato começa a assoviar a música e fica ali derramando aquela virtuose labial sob os olhares de ódio do João Gilberto da vez. Esse mico conta pontos negativos em dobro no dia do juízo final. Tem namorada chata que fica lambendo a orelha do amado de forma irritante, nada obstante o infeliz tê-la advertido de que irá conectar o seu punho direito no queixo esquerdo dela, caso aquilo continue. Como é chata mas não é maluca, ela interrompe aquela tortura mas começa a espremer cravos no rosto do lindinho. Aquilo é tão irritante que o sujeito fica lamentando que o carro não seja conversível pois teria instalado assento ejetável no banco da passageira. O chato vai ao shopping e, convenhamos, chato e shopping têm tudo a ver, entra na boutique mais cara e badalada, aborda aquela atendente loura sensual e louca pra cumprir a cota de vendas do dia, mas ele, em vez de comprar logo uma cueca e sair batido, fica perguntando qual foi o marceneiro que fez o balcão, quer saber se o lugar tem alarme, pede água, café e, claro, vai ao banheiro e volta reclamando que o papel acabou. O cara abusa, pede pra ser chato e entra na fila cinco vezes. Na recepção do casamento, inconveniente, o chato quer fazer discurso lembrando os bons tempos em que o noivo mandava tudo o que tinha direito. Com isso, deixa a noiva na maior saia justa, ou melhor, saia rodada bordada e pisada, porque o chato abraça a noiva, estraga o penteado torre eiffel, pisa na barra do vestido e, na maior das intimidades, fica dando três beijinhos prá casar! Voltando aos tempos do descobrimento, a história registra que o maior chato que se tem conhecimento foi Cabral. O cara tomava todas, deixava a Maria a ver navios e queria porque queria descobrir o caminho das índias, de preferência índias solteiras e nuas. Tripulação reunida, estoque de rum até o talo, gps comprado na feira do Paraguai, nosso descobridor se envereda por mares nunca dantes navegados e, lógico, erra feio o caminho e vem bater aqui na terrinha, tirar o sossego dos índios e introduzir o know-how de esculhambação produzido na matriz. Na primeira abordagem, Cabral, cheio de gracinhas, castiga o português castiço pra cima do nosso amigo funai parte um: prezado silvícola, és capaz de dizer-me se estou a chegar nas índias? O cara pintada logo saca que a tranquilidade tinha acabado e que aquilo podia virar o maior programa de índio. Por falar em programa, muito coisa se explica nessa linha histórica, pois as iniciais do nobre Pedro Álvares Cabral foram, anos mais tarde, utilizadas no pacote viagra de aceleração do crescimento do produto interno bruto. Voltando ao que interessa, nosso Peri mandou em tupi guarani saidaqui que o portuga desse meia volta e ficasse esperto porque as únicas índias que ele conhecia estavam a socar o pilão em sua oca, ô pá! Insistente, o chato do Cabral pediu que o índio fosse com ele na embarcação pra mostrar o caminho. Nervoso, o índio argumentou que seria melhor Cabral procurar orientação no google ou no dabliu dabliu dabliu vai ver se estou na esquina ponto com. Cabral foi embora mas, ruim de roda e de vela, errou o caminho de novo ao pegar a tesourinha errada e meses depois estava de volta ao tourist office local, com a mesma conversinha mole querendo saber das índias. O índio, puto da vita, chamou o resto da tribo e todos com seus apitos e cartões vermelhos, pelados, de costas pro Brasil mas de frente para o mar, mandaram Cabral mais cedo pro chuveiro. O resto da história cada um sabe onde vai dar...
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Acho que passei neste teste do chato, não me lembro de fazer nadinha assim, mesmo com a memória de férias KKKKk.... beijussssss ENE.
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