sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

PÕE NA CONTA DA CAROCHINHA

'Eu, sozinho, menino entre mangueiras, lia a história de Robson Crusoé, comprida história que não acaba mais'. Este é um pequeno trecho do poema "Infância" do mestre Drummond, que por tantas vezes me fez viajar pelo planeta Minas. Mas nem tudo era céu de brigadeiro. Eu ficava atento e invocado com algumas estórias e músicas infantis que nos eram apresentadas e acho que muita criança acabou deixando uma grana na terapia, anos mais tarde. Alguns casos nem Freud explica. Por exemplo, o leitor já reparou a crueldade daquele estorinha de João e Maria, irmãos abandonados pelo pai no meio da floresta, por falta de condições financeiras para o sustento básico da família? Faminto mas perspicaz, o garoto sacava que ia virar sem teto e deixava pedacinhos de pão pelo caminho pra poder voltar pra casa. Ora, não seria mais fácil dividir o pão com a irmã e procurar alguma comida extra ali por perto? Será que não dava pra fazer uma hortinha simples pra subsistência, subir num pé de côco ou dar uma tijolada num coelhinho que estivesse de bobeira? O pior é que os passarinhos comiam o pão e os dois se perdiam. O pai nunca tentou uma inscrição no bolsa família ou no programa minha casa, minha dívida? Lembra daquela quadrinha tão graciosa: batatinha quando nasce se esparrama pelo chão, mamãezinha quando dorme põe a mão no coração? É claro que a mãe desenvolve um quadro cardíaco, com tanto desperdício de batata e ainda tinha que arrumar aquela bagunça toda! E as músicas pra embalar o soninho do nenen? Boi da cara preta, pega essa criança que tem medo de careta! Pô, qualquer criança tem medo de careta! E quando o menino está quase pegando no sono a figura chega bem pertinho, faz a maior careta e ainda o ameaça com o boi negão? Fala sério! Tem aquela outra com motivação incendiária: cai, cai balão aqui na minha mão, não vou lá, não vou lá, tenho medo de apanhar! Qualquer idiota sabe que soltar balão é crime! Se cai na mão é queimadura de terceiro grau e se provoca incêndio o sujeito vai apanhar mesmo, da comunidade ou dos bombeiros, que ficam arriscando a vida por causa de um mané! Lembra daquela: se essa rua fosse minha, eu mandava ladrilhar com pedrinhas de brilhante para o meu amor passar! Usar brilhantes na pavimentação de rua é coisa séria! Tudo bem, mas só se for propriedade privada. Nesse caso, o Eike Batista gasta a grana dele como achar melhor, mas se for rua pública, é de se questionar se foi obedecida a lei de responsabilidade fiscal e se houve licitação para a obra em questão. Agora, se executada pelo Maluf, o esperto guardaria o dinheiro dos brilhantes e mandaria buscar o material em Cristalina pra enganar todo mundo. Outra estória cabeluda, mas de menina charmosa com seu chapeuzinho vermelho: a menina ia sozinha pela estrada afora levar doces para a vovozinha. Inocente, ela cantava: a estrada é longa, o caminho é deserto e o lobo mau caminho aqui por perto! Que mãe é essa que manda a própria filha se enveredar numa zona rural de risco, inclusive com lobos ferozes à espreita, ao invés de chamar um delivery de alguma confeitaria local? Essa estória é inacreditável! A rigor, o certo seria a velhinha fazer os doces, chamar um taxi e aproveitar para visitar a família e levar a guloseima, ou caso estivesse com problemas de locomoção, mandar via sedex dez, que a netinha receberia os doces rapidinho! Eu sei, o leitor está pensando: mas aí o lobo não ia comer ninguém! Ora, aproveita pra rangar a patroa, que está na idade da loba e ainda contribui pra preservar a linhagem pura da espécie! Agora, uma musiquinha que sempre me deixou triste é aquela que mostra a violência infantil a que era submetido o pobre do sambalelê! Lembram? Sambalelê estava doente, com a cabeça quebrada e ainda diziam que ele precisava era de uma boa palmada! Tudo bem, gente, criança às vezes tira a gente do sério, faz traquinagens, mas o estatuto da criança e do adolescente tem que ser observado. Imagina a cena: a mãe chega ao hospital, vai até a uti conversar com o médico, que a informa que Sambalelê passou por uma cirurgia cerebral delicada, mas que está bem e que precisa de muito carinho. Insensível, a mãe questiona a autoridade médica e diz que Sambalelê não precisa de carinho, o que ele precisa é de uma boa palmada! Sou capaz de imaginar o nascimento de Sambalelê, que vem ao mundo de parto normal, todo roxo, inchado e caladinho, tranquilo, sem emitir qualquer som. Experiente, o obstetra inicia os procedimentos médicos de limpeza, colírio de prata nos olhinhos e desobstrução com a sonda nasográstrica, mas a mãe se levanta da maca e, insensível como ela só, pergunta ao médico: doutor, o senhor não está esquecendo nada não? Ele está precisando é de uma boa palmada...

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