quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

MAIS DUAS DOS PORTUGUESES

Final de longas férias pela Europa, quarenta e cinco dias de carro pelo interior e capitais de seis países, desfrutando do melhor do velho mundo, Flávia e eu fechamos o roteiro na terrinha de nossos antepassados, onde tudo começou e se explica, aquele clima, a comida, os vinhos, o sotaque, o fado! Estamos em Lisboa, início dos anos noventa, ô pá! Vocês sabem, os portugueses gostam realmente da gente, são alegres, perguntam e contam sempre de um parente que aqui está, que somos isso e aquiloutro, mas, esperto pra caramba, trinta e nove anos de sundown, sei que aquilo tudo é cascata, os patrícios querem mesmo é que a gente se exploda e vão tentar ganhar o terceiro jogo custe o que custaire! Mas vamos deixar o assunto copa pra outra vez, porque na época tínhamos acabado de engolir três do Paolo Rossi, ao som de Volare e Cantare, e tome mortadela! Recursos financeiros esgotados, resolvemos aceitar os préstimos do simpático senhor que nos abordara na estação de trem, dirigindo um furgão e oferecendo-nos uma barganha, íamos ficar em sua pequena, mas limpa e honesta pousada. Beleza, Deus é português e está nos ajudando, pensamos com nossas abotoaduras. No trajeto, ele nos mostrava os pontos turísticos, enquanto dirigia e falava ao mesmo tempo em seu telemóvel. Mais tarde, tolinhos, descobrimos que ele combinava com a patroa Maria, pra se viraire e acordaire o pobre do angolano que ocupava nossa suíte presidencial. Na recepção, estranhamos a demora na arrumação dos aposentos, mas fomos distraídos daquele um-sete-um com tremosos e um cálice do porto, nem tudo estava perdido! Liberada, a acomodação não era tão ruim, tirante aquele forte aroma de oraveja multiuso! Fazia muito frio e ao lavar o rosto notei que havia duas torneiras, uma com água pelando e a outra geladézima. Detalhe, sem misturador, ou seja, sistema independente de tortura aos ótários brasilairos! Qual o quê, garoto esperto de Corinto, peguei a manha rapidinho: abria as duas torneiras e resolvia o problema com rápidos e cadenciados movimentos para os lados, de forma que a água ia se misturando e ficava numa temperatura bacana. Contado assim, parece fácil, mas pra fazer a barba dá um trabalho danado de coordenação e, é claro, eu começava o movimento sempre com a água fria, que eu não sou besta. Descansados, fomos aos passeios e compras no shopping Amoreiras, já estávamos sentindo falta de um cineminha. Bilheteria vazia, atendente simpática e devorando as terminações dos tempos verbais e o que mais se apresentava na língua de Camões. Pedi duas entradas e ela me informou que o sistema, informatizado, escolhia, automaticamente, os melhores lugares do cinema por ordem de compra. Olha isso gente, pensei, é tecnologia de ponta, os caras estão com tudo e não estão prosa e verso, e a gente fazendo piadinhas sem graça deles, metendo o pau por tras dos portugas, que coisa mais desnecessária e sem sentido! Enfim, dava tempo pruns pasteizinhos de belém, quindins de iaiá e essas maravilhas feitas com ovos, sem contar o queijo da serra derretendo no pão quentinho. Ai meu Jizuiscristinhu, pensava, quando voltar o eixão vai ser pequeno para as minhas corridas. Chegada a hora, cheio de sacolas, entramos, cinema vazio, encontramos nossos lugares: bingo, as cadeiras ficavam exatamente no meio da sala, no centro do mundo, tecnologia portuguesa a serviço da cultura. Beleza! Só que daí a pouco vem um casal e encontra os segundos melhores lugares escolhidos, automaticamente, pelo sistema e, a pergunta que não quer calar: onde ficavam? Isso, exatamente o que estão pensando: imediatamente ao nosso lado direito! Tem nada não, colocamos as sacolas nas cadeiras à esquerda e o astral continuava alto, todos sorrindo amigavelmente. Então, aconteceu o que, no fundo, o meu lado mais otimista dizia que não ia acontecer: não deu outra, novo casal descobriu os-terceiros-melhores-lugares-escolhidos-automaticamente-pelo-sistema-português-de-definição-de-lugares: do nosso lado esquerdo! Caramba, os caras são burros demais, pensei, enquanto acomodávamos as sacolas nos colos e nos pés! Putaquilpariu, num estou acreditando que isso está acontecendo! O cinema enorme, vazio e aquele bando de idiotas apertados se acotovelando, com casacos de inverno, sacolas e guarda chuvas. Começa a sessão e o filme, olha o nome do filme: 'A morte fica-vos tão bem', uma comédia nonsense com Merryl Streep, Bruce Willis e Goldie Hawn e a gente num mal humor daqueles! No meio do filme as luzes se acendem e o anúncio: intervalo! Saímos para uma esticada de pernas e falei que não voltava para aquele lugar nem se o Fernando em pessoa me pedisse! Quinze minutos depois, escolhemos outros lugares e para nossa surpresa o lanterninha, bom, você imagina a roupa do lanterninha português a nos pedir que voltássemos aos nossos lugares, pois tinham sido escolhidos automaticamente pelo sistema! Já relaxados e morrendo de rir, voltamos aos lugares e curtimos o resto do filme, que mais parecia uma piada de português do que qualquer outra coisa.

2 comentários:

  1. Muito bom!!!! Ainda bem, que eu não tive tempo de pegar um cineminha kkkkkk...... Beijussss...ENE.

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  2. Eu tinha me esquecido desta estória, ou melhor dizer, história....kkkk boa demais!

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