quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

ESPERA NA SALA DE ESPERA

Sala de espera de consultório médico, confortável mas lotada, atendentes simpáticas mas tudo atrasado, revistas novas mas pacientes impacientes, falando alto e reclamando de tudo! O leitor já captou o clima, aliás, pra desfrutar dessa experiência enriquecedora bastam duas coisas: estar vivo e ter um plano de saúde. Felizmente, posso me gabar de estar bem na fita e colher os frutos de ter me preservado, nada obstante as rodadas irresponsáveis de campari com água tônica na adolescência que, parece, não molestaram a região hepática. Na coluna do prejuízo só o quesito oftalmológico. Tenho vários problemas: astigmatismo, ceratocone, estrabismo, fotofobia, hipermetropia, miopia, coloquei em ordem alfabética pra facilitar, com todos os ismos e pias. Na linguagem comercial eu diria que estou mais pra venda à prazo do que à vista, se me permitem o trocadilho. Freguês antigo e esperto, vinte anos de sundown, só marco o primeiro ou o último horário com meu oculista e chego sempre atrasado, pois já sei que vou levar um chá de espera daqueles. Também o cara é bom e confio cegamente nele, embora o advérbio não seja apropriado para o caso. Se ele disser que pular do vigésimo andar é uma boa, eu pulo, de paraquedas, mas pulo. Na média, consigo ler umas cem páginas de algum livro que sempre levo comigo, apesar das irritantes interrupções daquela maquininha de senha e da menina que fica passando e pingando pimenta nos olhos dos outros, que pra ela é refresco. Tento me concentrar na trama literária, mas há sempre um sujeito que puxa assunto sobre política ou futebol e, apesar dos sinais claros de que não estou a fim de papo, balançando a cabeça discretamente, sorrindo com o canto da boca, murmurando concordâncias monossilábicas secas e evitando contato visual direto, ele desconhece os sinais e dana falação sem dó nem piedade. Leitura prejudicada, nem tudo está perdido, pois logo chamam o nome da figura, que me favorece com a sua ausência ao ser conduzido pra outra sala. Na dúvida, coloco um jornal ou uma blusa na cadeira ao lado e ganho algum tempo de privacidade. Ledo engano, logo vem aquela velhinha recém operada de catarata, simpática mas super acima do peso e conduzida pelo filho, empresário do setor de construção que procura compensar o tempo perdido na escolta da mãe, pisando nos pés dos incomodados e orientando os empregados ao celular com aquela voz de barítono em irritante sotaque gauchês. O sábio leitor já sacou onde eles vão assentar e o drama dessa vez é mais sério e duradouro! Garoto esperto, peço licença, finjo que vou ao banheiro e encontro lugar no outro lado da sala, no fundo, um silêncio compensador e onde está sentada uma paciente bem vestida, literalmente um colírio para os olhos, que me dispara um sorriso angelical enquanto me aponta um lugar vazio ao seu lado. Deus existe, penso comigo, enquanto torço para dessa vez não ser chamado logo. Identificação rápida, papo animado, tudo perfeito, mas, minha sorte muda radicalmente quando sinto alguém chutando minha cadeira, de forma contínua e irritante. Disfarço e finjo que está tudo bem, mas a tortura aumenta. Olho pra trás e vejo um garotinho com cara de delinquente juvenil e seu game, headphone e uma bota imensa. Flahsback radical, aquela bota me lembra outra, ortopédica, branca, usada pelo Léo, um primo todo podecrer. Alguns leitores devem se lembrar da bota. Quem hoje o conhece, simpático, um sujeito tranquilo e confiável não imagina que por trás dessa linha zen, havia uma criança que chutava tudo e todos que se aproximavam dele. Cenário: Léo, seu cabelo está tão bonito! E ele mandava um chute na canela do elogiador! Léo, cuidado onde pisa! E ele, bom de mira, usava aquela bota ortopédica branca tamanho ggg para detonar a canela do sujeito! Os primos andavam todos de caneleira, não por amor ao futebol, mas para se proteger. Mas o mundo dá volta e hoje ele é especializado em cuidar dos pés alheios! Almodóvar perde longe! Corta tudo e volta para a sala de espera, eu me preparo para dar um peteleco no garotinho, mas a sorridente secretária do médico me chama e põe fim ao suplício.

Um comentário:

  1. Bom demais da conta. Você não quer prosa, mas da conta de tudo que acontece no local, né? ¨Nelson Rubens¨. Beijussssssssss...ENE.

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