quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

FÉRIAS FRUSTRADAS - OU DÁ OU DESCE . . .

Vira e mexe a criançada reclama da falta de conforto dos carros de hoje, isso no trajeto casa-escola! Dia desses estava me lembrando das nossas viagens de Dores de Campos a Brasília, mil e quinhentos km, de fusca, sem som, sem ar, verdadeiros safaris, rali perde longe! Papai trabalhava o dia todo, chegava em casa e a gente saía de viagem à noite, direto, sem descanso! Eu achava que a odisséia acontecia daquela forma porque ele não tinha férias e precisava nos levar e voltar no mesmo fim de semana. Cara, eu fiquei sabendo anos depois que o compreensível propósito era de se evitar o aquecimento e bolhas dos pneus, marca firestouro. O estado dos pisantes era tão esquisito que se passasse em cima de guimba de cigarro eles furavam. Dá pra acreditar que mamãe ia na frente com o caçuça Tonho no colo, atrás os três santinhos, almofadas, cobertores, as malas no capô e, pasmem, outra mala, perto dos irmãos metralha: quem era? Ora, nossa querida, tranquila, discreta coisa meiga! Aquilo não era viagem, era uma saga, uma lida de proporções inimagináveis! Era uma zona, todo mundo falava ao mesmo tempo, tinha comida, lata com farofa de frango, pão de queijo, brincadeiras, brigas, muitas brigas! De vez em quando mamãe botava o braço pra trás e começava a dar tapas e beliscões à revelia (rimou) em quem pegasse era bem feito, estava valendo, tinha algum motivo. Papai, concentrado na estrada e nas possibilidades de mandar uma banguela pra economizar gasolina, todo zen, parecia que estava alheio ao ambiente hostil que reinava na parte de trás do possante. Era a faixa de gaza, o apocalipse, o purgatório! Ele sempre foi de falar pouco e olhar firme para nós! O olhar dizia tudo, não precisava falar nada, a gente sabia que tinha pisado na bola e tentava ficar comportado, mas esperar controle de quatro delinquentes juvenis era pedir demais. Nos poucos segundos em que havia silêncio e calma, alguém sempre dava uma cotovelada em alguém, que revidava e a coisa seguia na mais completa desorganização. Papai sempre dizia que tínhamos dois ouvidos e dois olhos e apenas uma boca, para escutar muito, observar muito e falar pouco. A lição já sabíamos de cor, só nos restava aprender! Dú e Maurinho batiam na pobre da tia sem piedade, ela chorava, reclamava e pedia ajuda pra dindinha, mas mamãe brigava com ela e dizia que ela era muito chorona e que nós só queríamos aproveitar a oportunidade e brincar com ela! Lá pelas tantas, papai, vendo que a intervenção materna não gerava resultados positivos, de saco cheio, falou que se aquela zona continuasse ele ia mandar alguém descer! Rárárá, nos ríamos e repetíamos, cuidado que ele vai mandar a gente descer, rárárá! Pois bem, quando o clima chegou no limite, ele parou o carro no acostamento, abriu a porta e mandou os dois mais velhos descerem! Queissupai, descer aqui? É, aqui mesmo, eu avisei várias vezes, agora é pra descer! Mamãe conhecia a fera e sabia que a coisa era séria, segurava a onda pra não tirar a razão dele, mas olhava-o firme na vaga esperança de que a coisa não fosse rolar, mas rolou! Carro duas portas, banco dobrado quase sufocando mamãe, dedo em riste, não teve jeito, descemos Dú e eu, sem graça, despreparados e sem ter visto aquele filme! Pois bem, ele entrou no carro, acelerou o motor que saiu engasgando, ele tinha mania de arrancar de segunda, nunca entendi isso. Andou um pouco e parou depois da curva pra acompanhar nosso sofrimento. Mamãe descompensou e disse que ele era um maluco, irresponsável, que não precisava daquilo, que podíamos ser atropelados, mas ele ficou firme. Enquanto isso, os dois manés se olhavam com cara de bunda e pensavam no que poderia ser feito. Justiça seja feita, nós sempre estávamos juntos pra tudo, pras coisas boas e pras merdas também. Sem dinheiro nem pra pegar um ônibus, o jeito era pedir uma carona, pois caminhar até Brasíla estava difícil! Papai, ainda de saco cheio, só que que agora com as esculhambações de mamãe, voltou, parou na nossa frente e falou que podíamos entrar, não carecia de recomendações extras, estávamos do tamanho de um prego. Resumo da ópera, nos oitocentos quilômetros restantes foi um silêncio assustador pois, a essa altura, Maurinho, Tonho e Coisa Meiga também ficaram na deles, com medo de serem jogados pela janela com o fusca em movimento.

Um comentário:

  1. Me lembro bem deste episódio. Confesso que na época adorei, pois vocês judiavam bastante de nós nas férias, hahaha. Beijussssss..... ENE.

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