sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O DIA EM QUE TIRIRICA CHOROU

Antes que o leitor pense que este texto se dedica a piadas e esculhambações ao deputado Tiririca, informo que isso não acontecerá. O título da crônica pega emprestada parte do nome que o psicoterapeuta e professor da Universidade de Stanford, Irvin Yalom, escolheu para o seu romance de estreia: ‘Quando Nietzsche chorou’, combinando personagens reais e ficção, ótimo livro e que até virou filme. O que tem a ver o suposto choro do filósofo alemão com as lágrimas do comediante Tiririca, logo ele que faz todo mundo chorar de rir e a muitos alegra com suave e inocente performance circense? Quando e onde será que se encontram filosofia e comédia, cultura e ignorância, consciência e manipulação, fartura e necessidade, poder e opressão? Em que esquina do mundo, em que espaço acadêmico, em qual mesa de bar esses opostos marcaram encontro? Corta. Dois momentos: dias atrás, meu caçula gargalhava de forma contagiante e, querendo dividir comigo aquele momento, mostrou-me um vídeo no youtube com uma musiquinha do Tiririca em que ele ia preso e brincava com os colegas de cela. O jeito dele cantar era hilário, adorei! Naquele mesmo dia os jornais mostravam, em destaque, a primeira visita do deputado Tiririca ao Congresso Nacional para conhecer as instalações, fazer contato com funcionários, enfim, começar a se ambientar com as atribuições e responsabilidades parlamentares que o aguardam nos próximos quatro anos. Bem vestido, terno e gravata, cabelo aparado, centro das atenções por onde passava, causou o maior tumulto e deu trabalho à polícia legislativa da casa. Na alegre confusão, assediado e empurrado, pisaram-lhe o pé e perdeu um dos sapatos, comprados, certamente, em tamanho bem maior do que o seu número normal, a partir de hábito adquirido em anos de preparação visual condizente com o espetáculo que o aguardava. Agora terá que se acostumar a outras estratégias e sua vida mudará bastante. Ironia do destino, analfabeto funcional que mal consegue escrever, ler e entender conceitos básicos da linguagem formal, orientado a dizer a que veio e demonstrar preocupação com a liturgia do cargo, Tiririca informou que está estudando a Constituição Federal e sua intenção será melhorar as condições de vida dos artistas, ciganos e animais, não necessariamente nessa ordem. Será o representante de mais de um milhão, trezentos e cinqüenta mil paulistas, votos de amigos, admiradores, debochados, descrentes, sarcásticos e críticos da imagem que está colada à maioria dos políticos. Fico imaginando quem serão seus assessores, conselheiros e seu staff de gabinete? Da noite para o dia passará a receber salário e vantagens com as quais jamais sonhou em seus melhores contos de fada. Quantos familiares, amigos e admiradores o procuração em busca de emprego, empréstimos e doações? Quantos empresários se apresentarão como padrinhos artísticos, credores de contas atrasadas, marqueteiros e seus planos mirabolantes para elaborar projetos com destinação de verba para divertimentos, para o circo e chanchadas? Quantos cobrarão o espaço político oferecido na campanha e lhe mostrarão o colo que lhe é reservado para o exercício da política ventríloca? Como serão as piadas e brincadeiras no cafezinho, os copos furados que sujarão suas roupas novas, quantos tapinhas nas costas serão usados para colarem bilhetes de ‘chute meu traseiro’, quanto tempo perderá o nobre deputado procurando envelopes redondos para cartas circulares? Lembro-me do que aconteceu com Juruna, Moacir Franco, Agnaldo Timóteo, Clodovil, entre tantos outros. Iludidos com promessas e espaço fácil na mídia, acharam que conseguiriam se impor e usar a popularidade para combater o sistema por dentro, mas as casas legislativas e o poder não são para amadores! Há que se jogar o jogo dos profissionais, com dados e baralhos próprios, regras escusas, ética e respeito são valores depositados em cofres cujos segredos e combinações não existem. Tiririca primeiro perdeu o sapato, em seguida perderá autonomia na condução de sua vida, perderá os verdadeiros amigos, perderá o sossego, a alegria, a inocência e então verá que não conhece e não se sente humano no circo em foi colocado. Mineiro desconfiado, quisera eu estar enganado porque, no fundo, gostaria que Tiririca fosse feliz e mantivesse a criança que tem dentro de si, mas temo estar escrevendo a crônica de uma lágrima anunciada!

5 comentários:

  1. È triste ,mas é verdade meu querido .Parabéns mais uma vez por coisa tão bem escrita. bjs e Deus t abençoe. CM

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  2. putz... vou ali fazer um café, pegar um pãozinho com manteiga e sentar para ler direito... guarda meu lugar, volto já!

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  3. É.... aceita um café para esquentar os ânimos?
    Eu tbm quero acreditar que vc errou feio!!!
    bj

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  4. Que lindo!!
    Parabéns!!!
    ROSANE E JOUBER

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  5. Marcinho,falou tudo,concordo plenamente.As pessoas deveriam melhorar em sua própria carreira.Acho que deveriam exirgir mais dos candidatos que representam um pais,deveriam pelo menos estar a altura pra exercer um cargo de tanta responsabilidade.Parabéns,bjs

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