sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

QUANDO O SOL DA MANHÃ VEM NOS DIZER

Brasília. Outubro. Primavera. Fim da seca. Chuva fraca. Tardes longas. Noites frescas. Adoro tomar café da manhã ao ar livre, sobretudo nesta época do ano. Falo do café completo, com direito a dois ovos caipira quentes tomados na casca com aquela colherzinha mínima, de prata, pouco sal, vida longa. Sem desmerecer a capital de todos nós, bom mesmo seria um petit déjeuner na cidade luz. Bistrozinho com cadeiras verdes na calçada, jornal virgem, baguete com camembert, uvas brancas, copo de bordeaux e peurrier, que ninguém é de ferro. Corta. Voltei pro centro do planalto vazio, como se fosse em qualquer lugar. E o melhor lugar do mundo é aqui, e agora. Salada de frutas, queijo minas, pão de queijo bem assadinho por fora e derretendo por dentro. Sabor Minas. Saber ser mineiro. Café preto, passado no coador com água fervente já previamente açucarada. Yes! Give me the five. Óculos escuros. Boa companhia. Fragrância de Lacroix. Delicados panos. Altos planos. Sol gentil, a nuca agradece. Perfeição. Falei cedo demais... Moço, compra um pano de prato pra me ajudar! Olha, leva cinco pelo preço de três. Proponho ficar com um só, tenho poucos pratos, mas não rola o negócio. A moça não vende separado. Não entendo isso, mas também não entendo mistérios que vêm dos ministérios. Nada pode nem vai estragar o meu dia. Dinheiro trocado, panos de prato em cima da mesa pra afastar a concorrência. Olhos que se voltam para o livro do Scliar. Bolo de milho. Geléia de damasco. Prazer total. Melhor que aquilo! Viro o rosto para o sol brindar minha pele lisa bumbum de bebê, barba feita há pouco. E aí doutor, vai um devedezinho? Chegou o pirata, e não é Johnny Depp. Chefia, tá na mão o Tropa de Elite três. Tropa de Elite três, pergunto??? Sim e com direito a making off da entrevista exclusiva do Wagner Love! Parei... Então que tal um cd com inéditas do Michael Jackson? Irmão, é preciso coragem ! Deixa pra lá... Foco no que interessa. A salada de frutas tem fatias generosas de manga aden. Amo todas as frutas, mas manga é a minha favorita. Formatei um teste pra checar a intensidade de uma amizade verdadeira entre amigos ou parceiros: alguém pede uma salada de folhas verdes que vem com fatia única de manga madura, amarelíssima, sexy, por cima de tudo, num verde amarelo pendão da esperança, símbolo augusto da paz. Com ar blazê você diz que gosta de manga e pergunta se pode comer a fatia... é agora!!! Se a pessoa concordar e oferecer o pedaço, automaticamente faça promessas de amor, se ofereça pra quitar o saldo devedor da ferrari ou ser fiador na cobertura da Vieira Souto, porque essa pessoa é do bem, e você vai ficar no bem bom com ela. Bilac do cerrado, 'ora direis ouvir estrelas'. Corta outra vez. Retomando. A fumaça inebriante do café preto servido naquela xícara branca impecável me faz viajar no tempo, na cadência bonita da Maria Fumaça indo de São João a Tiradentes, sem pressa, sem preço, sem prazo. Mas o que seria da perfeição da vida sem as interrupções que insistem em nos trazer à realidade? Pois é, o aroma do café vai se misturando ao patchouli do incenso que a japonesinha sorridente oferece. Ela vem toda de branco, tatuagem de golfinho na panturrilha esquerda e band aid do Bob Sponja no tornozelo direito. Você nem gosta de incenso, aliás, você detesta se intoxicar com aquilo, mas a vendedora é a versão inversa da Yoko, leia-se o sonho não acabou! Resumindo: os incensos ficam ao lado dos panos de prato e viva a economia informal. O prazer do desdejum continua, olhares carinhosos, bolo de chocolate dividido, agora com um espresso curto e encorpado. Um vento suave acariciando nossos rostos, o sol a nos dizer bom dia. Foi-se o tempo de silêncio e solidão. A vida insiste.

Um comentário:

  1. Tão elegante que beira o esnobismo( de aprender cada vez mais e desfrutar tanto do chic quanto do simples). Maravilhoso! Beijusssss....ENE

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