sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
UM CHATO INCOMODA MUITA GENTE
Todo mundo tem qualidades e defeitos. Com um mínimo de paciência podemos encontrar talentos e habilidades físicas, sensoriais, psicológicas e de coordenação motora em qualquer um. Hoje vou centrar a minha análise num ser importante na sociedade e que é, quase sempre, pouco apreciado: vou falar do chato! Antes que o leitor pule da cadeira ou pare de ler, peço um pouquinho de atenção, pois ao longo do texto poderei demonstrar como o chato serve de parâmetro para estabelecermos limites de comportamento, como é insubstituível e tem mil e uma utilidades, uma espécie de bombril social. Um chato é facilmente identificável. Ele se assume chato com orgulho e ponto final, não fica tentando disfarçar. Quer ver? Megassena acumulada, fila enorme na loteria, você pega o jornal para se distrair e logo sente aquele bafo no cangote. Incomodado, você muda de posição, mas ele estica o pescoço e pergunta: o jornal é de hoje? É! É de hoje! (como se alguém lesse jornal do dia anterior). Isso foi uma isca, o seu erro foi responder, pois ele manda uma série de perguntas: aí está falando se vai chover? Essa seca está horrível, você não acha? E as pesquisas? Você sabe se o Brasil perdeu ontem? Nesse caso, o melhor a fazer é abandonar imediatamente o local, esqueçer o jogo e a conta, deixar barato. Outra: o casal chega de lua de mel, concentrado unicamente no aumento da densidade populacional do planeta e o chato fica ligando pra saber se as fotos da viagem ficaram boas e se pode ir lá pra bater um papo! E no cinema? O chato vai com a turma e não compra pipoca, com a desculpa de que acabou de almoçar e que pipoca dá gases, mas no meio do filme ele começa a filar um pouquinho de cada um, enquanto fica chutando a cadeira da frente, alheio aos olhares de ódio do bombadão anfetaminado que estala lentamente o pescoço enquanto vai ficando verde. O chato não está nem aí! Mesmo se apanhar é lucro, está apenas cumprindo o seu objetivo, a sua missão na terra. Qualquer socialite ou promotora de eventos sabe que em lista de convidados para uma festa tem que, obrigatoriamente, incluir, pelos menos, uns três chatos, mas daqueles chatos famosos! Eles são escalados como responsáveis por separar aquelas rodinhas só de mulheres ou do pessoal do trabalho, que vão se formando e tiram a interação de novas amizades e o brilho da festa. A organizadora, cruela, pega o chato pelo braço e o leva para o meio da rodinha, que se desfaz em menos de cinco segundos. Viram a função social positiva do chato? Na rua, o chato faz questão de falar com o pedinte. Ele quer saber a que horas o sujeito chega ali, se é um bom ponto pra pedir donativos e, depois de encher o saco do cara de tanto perguntar, ele resolve dar uma nota de cinco reais, mas pede o troco em moedas de cinquenta. No fundo, além de azucrinar o coitado ele quer é trocar dinheiro. Muitas vezes, a chatura se manifesta já na infância, sinta o clima : o casal, consumido pela atenção total com os filhos, sem tempo nem pra conversar, louco pra transar, se tranca no quarto e tenta se concentrar, mas os anjinhos começam a bater na porta. Como os pais não abrem, eles se transformam em chatinhos borracha, passam por debaixo da porta e cortam o clima. Tem o chato que mora sozinho e foge de casa! Na televisão todo mundo conhece o chato-mor da comunicação: bem amigos, estamos falando de Galvão Bueno (agora fui fundo...) o cara não deixa ninguém falar ou acrescentar nada à sabedoria que ele derrama pelo microfone. Ele pergunta, responde, critica, rebate a crítica e os convidados ficam assistindo àquela comédia bufa que é um programa ou transmissão daquele chato. Não se contentando com sua chatura, ele ainda nos brinda com seus dois filhos chatos: o Cacá e o Popó... nessa levada, os netos serão pipi, xixi, cocô, etc! Vejam essa que aconteceu comigo: eu morava num condomínio onde alguns chatos costumavam se reunir à beira da piscina. Garoto esperto, vinte e cinco anos de sundown, eu já descia com o headphone que, pra bom entendedor significa: eu não estou a fim de papo! Mas o mundo é cruel! Vem o chato, estaciona-se à minha frente atrapalhando o sol e começa a gesticular com os dedos, de forma irritante. Pensei: se eu tirar o fone esse chato vai me alugar duas horas. Mas a experiência, como dizia Pedro Nava, é um trem com os faróis iluminando o passado, nada serve para o presente ou futuro. Então, leitor amigo, nesse momento, eu caí na isca do chato e comecei a gesticular também, como a dizer que não estava nem aí pra nada, que fizesse a gentileza de me favorecer com a sua ausência, mas ele continuava com os gestos e a coisa ficou intensa e desconexa. Lá pelas tantas eu percebi que, sem querer, de alguma forma eu estava me comunicando numa espécie de linguagem manual! Tratava-se de um chato surdo-mudo. Ato contínuo, saí correndo de forma desesperada em direção à saída do condomínio, tomei o rumo da praia, mas, quando olhei pra trás, vi que o chato corria na minha direção. Em ótima forma aeróbica, apertei o ritmo e me mandei pelo calçadão, mas o chato cada vez mais chegava perto e me alcançava. O leitor astuto já sacou a outra isca: caí nas garras de um chato surdo-mudo-maratonista! Depois de quinze minutos de perseguição, sentindo que aquilo estava ficando sem controle, simulei um mal estar súbito, sentei num banco e fingi que estava passando mal! O chato continuou correndo e passou por mim, mas, pro meu desespero, voltou e começou a me ajudar, com os gestos e procedimentos de primeiros socorros! Pensei: caramba, tanta gente no mundo e caí nas mãos de um chato surdo-mudo-maratonista e enfermeiro. Cartada final: truco, ladrão de galinha! Para me livrar daquela situação surreal só com uma tirada ainda mais surrealista: fechei os olhos, pousei a cabeça no banco e me fingi de morto. Afinal, àquela altura eu tinha que arriscar, mas, fundo do poço, lei de murph, devo ter caído na cilada do chato surdo-mudo-maratonista-enfermeiro e coveiro...
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Bombril social é muito bom. Beijussss...ENE.
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