sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

UM TOQUE SOBRE O STRESS GERAL

Ainda naquela cruzada contra os atrasos e descasos. Você deve evitar o stress para ter uma melhor qualidade de vida! Quem nunca ouviu esse nobre conselho de algum médico, psicólogo ou entendido de plantão? O engraçado é que o sujeito que pretende lhe enfiar essa baboseira goela abaixo é o mesmo que o deixou esperando noventa minutos feito um idiota, nada obstante estar agendado há vinte dias, ter chegado rigorosamente no horário e, no fundo, não se sentir estressado. Você, na verdade, está é muito puto de perder o seu tempo, de ser desrespeitado e de contentar-se em ser apenas mais uma senha. A parte positiva disso tudo é o brain storm, o descarrego, por assim dizer, do que lhe incomoda. Enquanto espera, você exerce o seu lado criativo, maquiavélico, fica arquitetanto o que poderia fazer ou dizer àquele indivíduo quando ele estiver à sua frente. Dessa vez você vai botar pra quebrar, vai dizer que é um absurdo sem tamanho, que ele precisa ter mais respeito e que precisa, entre outras coisas, melhorar a letra e que só entrou para dizer-lhe que, definitivamente, aquela é a última vez que você aparece por lá! Todos sabemos que, na prática, nada disso acontece! Diante da figura, ficamos levíssimos e elegantes, eis que nosso lado gentil e bem humorado entra em ação e já o estamos cumprimentando e agradecendo-lhe a regalia de encontrar um meio de nos receber em meio àquele tumulto e àquela dureza que deve ser a vida dele. Agora, algumas situações são muito hilárias. Fila de padaria, sete da noite, o sujeito com a maior pressa do mundo e aquela velhinha pedindo que o rapaz corte o peito de peru light bem fininho, recomendando que tire a casca e três fatias que ficaram a mais, querendo provar todos os patês e saber em detalhes os ingredientes de cadas um deles. Também tem aquele aposentado nervoso, apressado, exigindo rapidez pois tem que ir pra casa e ficar sentado esperando a hora de ter que sair para comprar mais alguma coisa. O contrário, também, bem que pode acontecer, diria o Gil. Dia desses, chegando em casa, caio numa blitz enorme. Seco e sóbrio, como o clima do planalto central, permaneci tranquilo, liguei o som e fiquei observando que, curiosamente, os condutores entravam em seus carros às gargalhadas. Quando chegou minha vez, captei a razão da cena glauberiana: tratava-se de um guardinha do detran com toc! Preocupado em preservar a saúde do bêbado alheio, a obsessão com a limpeza não o convencia que usar pontas descartáveis seria suficiente. Ele as esterilizava com álcool antes do sujeito soprar. Resultado: em cem por cento dos casos o índice de embriaguez era altíssimo. Sua autoridade mandava todos voltarem para os carros e aguardarem a chegada do reforço policial para conduzir mais de cinquenta pessoas presas, todas, segundo ele, de porre e sem a menor condição de dirigir. Detalhe: inclua-se nesse clã de irresponsáveis uma kombi com cinco freiras que choravam e rezavam ao santo protetor da condução defensiva para que se "tocasse" e mandasse uma luz para aquele transtornado. Também dois casais de nerds, com o carro entupido de livros e que voltavam da balada literária na biblioteca, limpavam as lentes fundos de garrafa, de suco, indignados e aflitos por perderem a carteira provisória. Sobrou também para os velhinhos de terno e gravata borboleta que saíam da sala de convenções embebidos e embevecidos com a maravilhosa ópera, mas não teve jeito! Aos costumes, rabiscava o guardinha em sua prancheta assepticamente limpa e alvo das reclamações e gozações ao cumprir a lei. Por falar em lei, a imprensa e o detran usam o termo lei seca indevidamente. Na verdade, lei seca é a situação em que é probida a distribuição e venda de bebida alcoólica em bares, restaurantes e supermercados, como já aconteceu no passado. O que temos é o cumprimento rigoroso de se observar a proibição de condução de veículos após a ingestão de determinada quantidade de álcool. Muito correto e prudente, diga-se de passagem: o passado condena. Isso me faz lembrar aquela rotina de conferir a presença e posição do carro na garagem após tantas noitadas de prazer, com batidas de limão e o som de B.B.King tocando sem parar! Por incrível que pareça, o dito cujo sempre estava estacionado impecavelmente, graças ao anjo da guarda, motorista nota mil, que toda segunda entrava com o pedido de aposentaria precoce, esse sim estressado e mal pago. No mais, é seguir a filosofia do flanelinha: desliga e deixa solto, meu patrão!

Um comentário:

  1. Um guardinha assim, era tudo que eu queria, uma excelente desculpa. Beijussssssss....ENE.

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