Amigos leitores e eleitores, cumprindo a promessa, essa é a quarta e última lista, que completa o rol das minhas vinte canções brasileiras favoritas (pelo menos nesse momento da minha vida, eis que, provavelmente daqui a um tempo elas mudem, por duas razões: a mpb é muito rica em quantidade e qualidade e eu sou uma metamorfose ambulante, como diria o meu xará Paul Rabbit, que já chamou o Raul muitas vezes, para criar e descarregar diversas coisas!) Ok, a partir de hoje, conto com a sua participação, votando em três canções que mais gostar dentre as que comentei. Independentemente das posições de preferências nas votações individuais, cada uma delas receberá um ponto e, ao final, as mais citadas levarão o título de 1°, 2° e 3° lugares nas três músicas do blog PALAVRAS GERAES. Abaixo, antes da apresentação comentada das cinco últimas, vem a relação completa das vinte. Caso não tenham lido ou queiram reler meus comentários sobre todas as canções, rolem a tela e encontrarão as outras três relações. Isso dito, viva São Benedito, boa leitura e hasta la vista!
Ah, ia me esquecendo: cada pessoa poderá escolher apenas três músicas e é bom que se apressem, pois a votação se encerrará assim que atingir um milhão de votos!!!
A MOÇA DO SONHO – Edu Lobo – Chico Buarque
ÁGUAS DE MARÇO – Tom Jobim
AS APARÊNCIAS ENGANAM – Tunai - Sérgio Natureza
AS CANÇÕES QUE VOCÊ FEZ PARA MIM – Roberto Carlos - Erasmo Carlos
COMEÇARIA TUDO OUTRA VEZ – Gonzaguinha
CAIS – Milton Nascimento – Ronaldo Bastos
CHEGA DE SAUDADE – Tom Jobim – Vinícius de Moraes
CHORO BANDIDO – Edu Lobo – Chico Buarque
DEPOIS DOS TEMPORAIS – Ivan Lins – Vitor Martins
ESSA MULHER – Joyce – Ana Terra
ESTÁCIO HOLLY ESTÁCIO – Luiz Melodia
EU E A BRISA – Johnny Alf
LIGIA – Tom Jobim
O MUNDO É UM MOINHO - Cartola
OCEANO – Djavan
PARA VER AS MENINAS – Paulinho da Viola
QUANDO O AMOR ACONTECE – João Bosco – Abel Silva
ROSA – Pixinguinha – Otávio de Sousa
SAMPA – Caetano Veloso
SOL DE PRIMAVERA – Beto Guedes – Ronaldo Bastos
AS CANÇÕES QUE VOCÊ FEZ PRA MIM – Roberto Carlos - Erasmo Carlos
Não há como negar: as canções do Rei embalaram momentos importantes em minha vida. Os primeiros encontros, férias de verão, festas, comemorações e por aí vai. Segundinho, seu filho, tem um programa na Nativa FM, às 5 da matina, com o nome dessa música, onde revela passagens interessantes e toca os maiores sucessos da consagrada carreira do pai. Admirador e conhecedor profundo do Rei, às vezes surpreendem-me algumas canções dele que ouço com mais atenção ou com arranjos diferentes dos originais. Alcançar ou fazer sucesso é relativamente fácil, mas manter-se no topo durante cinco décadas é para poucos. Roberto é um ícone, uma referência. Grande parte dos artistas, independentemente de estilo ou idade, admite influências dele. Caso algum produtor resolva, será possível lançar uma caixa com mais de cem gravações de suas músicas feitas por outros artistas. Além das baladas românticas, importante registrar, também, a qualidade das músicas escritas apenas pelo Erasmo, onde a influência do rock clássico é latente, aliás o Tremendão está super em forma. Há um mês atrás, assisti à uma apresentação dele com uma banda incrível na Fundição Progresso, na Lapa, ao lado do Maurinho, meu amigo de fé e irmão camarada. E tem mais, o rei sabe o que faz, por mais que o critiquem, ele já disse: ‘não vou mudar, esse caso não tem solução.’ Afinal: são muitas emoções!!!
ESSA MULHER – Joyce – Ana Terra
Conheço inúmeras e fantásticas canções na mpb em homenagem às mulheres mas, para mim,‘Essa mulher’ é a número 1. Lançada de forma inédita no excelente lp ‘Elis, essa mulher’, de 1979, foi gravada pela autora Joyce no ano seguinte, no disco ‘Feminina’. São duas gravações excepcionais, a primeira mais densa, emocional, com o piano fender de César Camargo e a orquestra brincando com a voz de Elis na segunda parte. Mais técnica e purista, a versão de Joyce é igualmente linda, pois ela faz um contracanto na linha de guitarra base em cima da proposta de voz e violão na abertura da música que é muito sutil, depois a música cresce com o arranjo de cordas. A letra de Ana Terra é um poema, um passeio pela complexidade que é a cabeça de uma mulher dona de casa e dona do mundo, simples e sofisticada ao mesmo tempo e que ‘acha tudo natural’.
ESTÁCIO HOLLY ESTÁCIO – Luiz Melodia
O nome desse artista já diz tudo! Gosto muito do estilo-Melodia de compor. Entendo que ele criou uma grife muito própria e autêntica de escrever canções, nada parecida com qualquer outra escola ou tendência. Exemplo disso é a canção ‘Ébano’, que o projetou nacionalmente, no Festival Abertura da Rede Globo, em 1973, mesmo ano em que lançou o lp ‘Pérola Negra’, aliás, uma beleza de nome para um disco. Destaco, ainda, ‘Fadas’, em parceria com Renato Piau e ‘Magrelinha’, que misturam influências de samba, jazz, mpb, maxixe e estilos regionais ricos e interessantes. Luiz Melodia rompeu as fronteiras do morro de São Carlos, onde nasceu, e se tornou um artista-cidadão do mundo, pela forma de cantar, de compor e se comportar. 'Estácio Holly Estácio' é de uma elegância espetacular, sutileza na harmonia e letra, uma homenagem às suas origens e uma vestimenta moderna ao samba carioca. Sempre muito bem acompanhado de ótimos músicos, no começo da carreira, Melodia morou um tempo em Brasília, onde se apresentava em casas noturnas, como o Odara, bar muito legal onde tive a oportunidade de ouvir “muita gente boa que pôs o pé na profissão de tocar um instrumento e de cantar, não se importando se quem pagou quis ouvir, foi assim”.
O MUNDO É UM MOINHO – Cartola
Quanto mais ouço as músicas de Cartola, mais fico impressionado como pode um senhor que, aos 66 anos, gravou o primeiro de seus quatro discos e, tendo concluído apenas o estudo primário, escrevia letras rebuscadas com tamanha sofisticação e estilo. Isso é próprio dos grandes compositores, sobretudo os que escrevem samba de enredo a partir de determinado tema histórico ou em homenagem a alguma personalidade. ‘As rosas não falam’, ‘Acontece’, ‘Basta de clamares inocência’ e ‘O Sol nascerá’ também figuram entre as grandes composições populares de todos os tempos. Não vou abordar as supostas linhas de explicação para quem ou em que condições essa música teria sido escrita, pois ela é tão extraordinária melodicamente que supera qualquer vertente analítica e, insisto, desnecessária. Gosto muito das versões de Beth Carvalho, clássica e a de Cazuza, captada em seu último cd, emocionado e delirando de febre. Seu Agenor ganhou o apelido de Cartola pelo chapéu que usava para se proteger do cimento, quando pedreiro, entre tantas outras profissões que teve. Sérgio Porto o descobriu e o revelou em 1956, quando era lavador de carros em Ipanema, sempre simpático e alegre. Na gravação original de Cartola para essa obra, a primeira parte é cantada à capella, apenas com um violão guia bem ao fundo e dá pra ouvir os sons que vazam quando ele se mexe, respira e arranha a garganta. Que sensibilidade do produtor ao manter essa tomada original, sem edição ou cortes, pois o regional entra na segunda parte e proporciona um clima de pureza e elegância.
SAMPA – Caetano Veloso
Caetano é um artista extraordinário e sua obra se destaca pela complexidade temática, pela extensão em estilos e pela audácia nas abordagens estéticas de sua música. Coerente com a proposta a que se submeteu de não fazer concessões, transitou com competência pelos festivais, misturou baião com bossa nova, criou a tropicália e manteve o frescor de sua carreira sempre acompanhado por músicos novos e criativos. ‘Sampa’ é uma declaração de amor à modernidade do concreto, um registro de protesto à fumaça e ao povo oprimido nas ruas, do garoto do interior que se intriga e que descobre o paradoxo do moderno e do rústico. A estranheza de quem encarou frente a frente a cidade e chamou de mal gosto o que viu cai por terra quando cruza a Ipiranga com São João e o coração fala mais alto. São Paulo recebeu justas homenagens de Paulo Vanzolini, Adoniran Barbosa, Eduardo Gudin, Demônios da Garoa e Ultraje a Rigor, mas ‘Sampa’ é um capítulo à parte na história musical da cena paulistana.
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
ACHADOS E PERDIDOS
A coisa funciona mais ou menos assim: uma campainha do sensor imaginário denuncia nossa presença na sala que, por ter um enorme espelho ao fundo, passa a impressão de ser maior do que realmente é. A cabeça gira vagarosamente e o olhar sai varrendo um monte de objetos estranhos, uma parafernália de coisas que nunca usamos, superficialidades feitas de plástico, isopor ou madeira de baixa qualidade, pequenas engenhocas mal acabadas para passar o tempo e desafiar-nos a imaginação. Acabamos de entrar num ambiente sagrado, complexo, desconfortável: é o achados e perdidos de nós mesmos. O que será que deixaram para trás e restou impregnado em nós? Como identificar essas criaturas esquisitas que esqueceram tantas coisas dentro da gente e não se importaram em vir buscar? Também há muitos itens que levaram e eram importantes para nós, mas se esqueceram de devolver, pedaços que nos foram tirados sem o nosso consentimento e, não raro, sem o nosso conhecimento e damos como perdidos. Paradoxal constatar que ficamos anos sem sentir falta dessas partes que nos foram tiradas no meio da madrugada, às sete da noite durante o jantar ou no alto da montanha de neve, antes que a aula experimental de esqui terminasse. Muitas foram arrancadas de forma abrupta, sem preliminares, sem anestésicos ou considerações plausíveis e são responsáveis pelos nossos desequilíbrios emocionais e frustrações sentimentais. Na construção desse lego colorido, divertido e curioso que é a nossa personalidade e que define nossos destinos, certamente essas peças fizeram falta, o quebra cabeças nunca ficou completo. Há coisas com as quais convivemos diariamente, tentamos catalogar para manter um mínimo de organização, mas já não sabemos a quem pertencem, se nos foram dadas ou se as tiramos à força de alguém. Carregamos algumas tralhas e até sabemos quem são os donos, mas nos recusamos a devolver ou reembolsar algum valor equivalente, mesmo que seja para desencargo de consciência. Alguns pertences foram levados ainda na caixa, com o código de barras, nome, telefone, rg e cep, ainda sem uso, nem deu para notar que eram importantes e que nos fariam falta. Embora egoísta, o lado positivo disso tudo é que passamos a usar ou nos adaptamos a itens ou estruturas sólidas que mudarão nossos comportamentos e nos transformarão em pessoas do bem. De certa forma, nossa ética quer acreditar que os fins justificam os meios. A partir de uma coisa que não nos pertencia, que nunca compraríamos e que certamente fará falta a alguém, realizamos nossas trajetórias de sucesso, corrigimos rotas, ajustamos componentes psicológicos inerentes ao nosso mundo e aos nossos interesses. Dito e escrito assim, parece confuso e pomposo, mas trata-se de apropriação indébita de qualidades alheias. Nessa brincadeira maquiavélica, intencionalmente ou não, são levadas confiança, autoestima, generosidade, amorosidade e alegria. E, mundo cruel, para compensar o que nos foi tirado, pegamos de outras pessoas em situações diversas e a trama emocional se perpetua de forma engenhosa, feito teia de aranha, feito formigas construindo seus complexos labirintos subterrâneos, feito abelhas produzindo seus favos de mel em coletividade, com hierarquia, método, engenho e arte. O melhor a fazer? Chorar sob um cobertor? Tirar os sapatos e caminhar sobre brasas? Rir de si mesmo e mergulhar no lago gelado de águas passadas? Nada disso. Simplesmente apague a luz desse quarto de achados e perdidos, tranque a porta a sete chaves, uma para cada dia da semana que virá.
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
PERGUNTAS QUE NÃO QUEREM CALAR
O que vale realmente no mundo são as perguntas, não as respostas. Mas crescemos ouvindo que precisamos encontrar saídas, ter respostas, buscar explicações e soluções para tudo, para todos, para todos os problemas. Professores saudosos preparavam suas aulas, na maior boa vontade, carinhosa e cuidadosamente, sempre no intuito de ajudar-nos a encontrar respostas. Sou-lhes grato por tudo, mas lamento dizer: isso não importava e não importa. Tenho melhores lembranças dos poucos que me ajudaram a formular perguntas, a questionar. Perguntas abrem cabeças, respostas relaxam, perguntas provocam, respostas congelam, perguntas são adrenalina, respostas são naftalina, perguntas são taças de sorvete de pistache no meio da tarde, respostas são canecas de chocolate quente antes de dormir. Ao perguntarmos, ainda que involuntariamente, estamos questionando, enfrentando, encarando. Ao respondermos, estamos definindo, delimitando, enquadrando. A pergunta incomoda, a resposta acomoda, a pergunta insiste, a resposta decide, a pergunta revoluciona, a resposta rotula. A resposta precisa da pergunta, não existe sem ela. A pergunta tem vida própria, ela se basta, abaixa-se, levanta-se e vai embora, não está nem aí, só quer perguntar, não quer saber. Ela acorda com os primeiros raios de sol, veste qualquer roupa legal que encontra, desce as escadas e vai trabalhar, numa boa. A resposta põe despertador, fica duas horas escolhendo e combinando roupas, espera o elevador subir e chega atrasada aos encontros, deixa todos esperando. Meias respostas, respostas prontas, respostas mal criadas, pessoas respondonas, chatos têm respostas para tudo. Neuróticos precisam achar saídas, necessitam preencher relatórios, completar lacunas, responder tudo. Criaturas de um mundo bom e natural, crianças, no afã de tudo descobrir, perguntam o tempo todo. Mal acabamos de raciocinar e elas já mandam outra pergunta. Não estão preocupadas ou concentradas em ouvir e compreender as respostas. Ranzinzas de nossas próprias armadilhas, achamos que elas estão nos testando, nos provocando, mas não é nada disso. Ao perguntar, conversam em voz alta consigo mesmas, brincam de aprender, radiantes com o turbilhão de emoções, de novidades e de curiosidades que entram pelas janelas e portas abertas de suas inocências e de seus descompromissos. Em ambientes de democracia, a liberdade de imprensa e de pensamento questiona e lança discussões, provoca espaços de discernimento, de desconstruções, de refazimentos e dessarmações. Ao ar livre, numa manhã de sábado, a pergunta propõe um tênis de mesa de nossa inteligência e de nossas emoções. Já em espaços e momentos ditatoriais são oferecidas respostas, roteiros e planos sequenciais estabelecidos que não devem ser questionados, racionalizados ou refeitos. Quanto menos perguntas, melhor! Estrategicamente, estudantes, questionadores, lideranças e pensadores são convidados a se retirar dos palcos onde exercem o ofício de lançar perguntas, idéias maquiavélicas de suas comédias divinas, eis que a convivência de questões diversas e descontroladas são desconfortáveis e desestruturantes. Amantes perguntam-se o tempo todo: você me ama? foi bom para você? quer casar comigo? quer ouvir uma coisa? Bocas perguntam, olhos indagam, mãos interrogam e os ouvidos se fecham em respeitoso contemplar de enebriantes momentos mágicos que asfixiam. Corpos que levitam, suores que inundam, batimentos que extrapolam, retinas que se dilatam, tudo pela emoção das perguntas. Beijos calam respostas equivocadas, favorecem os momentos com silêncio e contemplação. De um lado a pergunta entra como fantasia, por outro a resposta sai feito realidade.
domingo, 9 de outubro de 2011
TERCEIRA LISTA – 5 MÚSICAS POPULARES BRASILEIRAS
Amigos leitores, depois de um longo e nem tão tenebroso inverno assim - viva a primavera e viva a tiavera -, estou de volta com minha série de canções favoritas. Vocês se lembram, fiquei de produzir quatro listas e, ao final, os leitores poderão escolher, dentre as vinte músicas, quais serão as três melhores do blog. Abaixo, as dez primeiras concorrentes. Hoje teremos mais cinco. Boa leitura!
ÁGUAS DE MARÇO – Tom Jobim
AS APARÊNCIAS ENGANAM – Tunai - Sérgio Natureza
CHEGA DE SAUDADE – Tom Jobim – Vinícius de Moraes
CHORO BANDIDO – Edu Lobo – Chico Buarque
EU E A BRISA – Johnny Alf
A MOÇA DO SONHO – Edu Lobo - Chico Buarque
CAIS – Milton Nascimento – Ronaldo Bastos
PARA VER AS MENINAS – Paulinho da Viola
QUANDO O AMOR ACONTECE – João Bosco – Abel Silva
ROSA – Pixinguinha – Otávio de Sousa
COMEÇARIA TUDO OUTRA VEZ – Gonzaguinha
Gonzaguinha começou a aparecer no cenário musical no final dos anos sessenta, através dos festivais. Nessa época, juntou-se a Aldir Blanc, Paulo Emílio e Ivan Lins para fundar o MAU-Movimento Artístico Universitário. Produziram um extenso repertório com temática de protesto, que serviu de base para o Programa Som Livre Exportação, da TV Globo. Irônico e agressivo, ficou taxado de ‘cantor rancor’ e ‘poeta maldito’ no meio musical e na mídia. No começo dos anos oitenta, mudou essa imagem com uma série de canções românticas, que foram gravadas pelas principais cantoras, Elis, Simone e Maria Betânia. Apesar de ter morrido muito jovem, aos 45 anos, num acidente de carro, deixou um grande repertório de músicas fortes e dramáticas. ‘Começaria tudo outra vez’ é uma de suas melhores canções e está entre as grandes da mpb. Ele gostava de compor sozinho e fazia questão de trabalhar com músicos excepcionais, que o ajudaram a desenvolver arranjos coletivos e produzir trabalhos muito marcantes.
DEPOIS DOS TEMPORAIS – Ivan Lins – Vitor Martins
Em se tratando de Ivan Lins, não há meio termo: é amado ou odiado com todas as forças. Sinceramente, acho que ele não tem o devido reconhecimento aqui. O trabalho dele no mercado americano é extremamente valorizado, foi gravado por Sarah Vaughan, George Benson e pelo produtor Quince Jones, entre vários outros. Vitor Martins escreveu essa letra forte e maravilhosa quando Ivan estava se separando de Lucinha Lins, sua primeira mulher. As citações de paralelos entre a relação amorosa do casal e as tormentas do mar, sua profundidade, sua beleza, sua calmaria mostram a habilidade do letrista e a intimidade de quem conviveu com eles durante tanto tempo. O arranjo que Gilson Peranzzetta escreveu é magnífico, com as cordas em crescente e o solo de Márcio Montarroyos é um capítulo à parte, ele que foi considerado um dos cinco melhores trompetistas de todos os tempos pela Downbeat.
LIGIA – Tom Jobim
Dentre as inúmeras pérolas que o Tom compôs, escrevendo letra e melodia, essa se destaca. Lígia é uma declaração de amor à mulher, sobretudo à mulher carioca. Ele passeia pelo Rio, falando de costumes, do chopp, da caminhada de Copacabana até o Leblon, tudo dito de forma surpreendente. Ele usa inversões de sentido, cria uma espécie de figura de linguagem que tudo diz às avessas e com fina ironia. Assim, ele canta: ‘eu nunca quis tê-la ao meu lado num fim de semana, num chopp gelado...e quando eu me apaixonei não passou de ilusão, nem seu nome eu guardei”. É um tentar convencer-se de que tudo não aconteceu ou de que não deveria ter acontecido, mas escrito por alguém que dominava as nuances da língua portuguesa, assim como o fazia com as combinações harmônicas. Gosto muito do final, com mais uma figura de comparação e contradição: ‘seus olhos morenos me metem mais medo que um raio de sol’. Há várias gravações desta música, com Chico Buarque, Gal Costa, Elis Regina e muitas instrumentais, dentre elas uma versão com Stan Getz, que gosto muito.
OCEANO – Djavan
Escrita em 1989, essa é uma das melhores canções de Djavan. Ele é uma matriz musical, tem um estilo muito próprio de compor. Criou uma maneira peculiar de produzir músicas românticas com um toque de sofisticação e baladas pop com refinamento harmônico. Escreve letras meio confusas, algumas aparentemente sem nexo, mas as leio como uma literatura revestida de charme especial. Inicialmente, Oceano foi uma tentativa de compor uma música em espanhol, numa levada flamenca, mas ficou engavetada durante um tempo. Por insistência da filha, resgatou a idéia, compôs um belo poema (“assim que o dia amanheceu lá no mar alto da paixão... cadê você, que solidão, esquecera de mim”), num português literalmente mais que perfeito e convidou Paco de Lucia para fazer um solo inesquecível na segunda parte da música, um colorido todo especial e que resgatou a ideia inicial com influência moura.
SOL DE PRIMAVERA – Beto Guedes – Ronaldo Bastos
Essa linda música dá nome ao terceiro disco de Beto Guedes, de 1980. Aliás, os três primeiros discos individuais dele são os melhores de sua carreira: A Página do Relâmpago Elétrico, Amor de Índio e Sol de Primavera. Junto com o pessoal do Clube da Esquina, influenciado pelos Beatles, nessa época ele produziu trabalhos magníficos, lindas harmonias para letras delicadas e profundas. Aqui, Ronaldo Bastos escreveu uma obra de arte e falou por toda uma geração que saía do período de regime militar: ‘já choramos muito, muitos se perderam no caminho, mesmo assim não custa inventar uma nova canção que venha nos trazer sol de primavera’ e termina com um ‘achado literário’ que é de uma profundidade e sabedoria imensas: ‘a lição sabemos de cor, só nos resta aprender’. O arranjo de Wagner Tiso valorizou demais a canção, numa linha erudita com cordas e flauta transversal que mostram bem a importância que o pianista, maestro e líder do Som Imaginário teve na produção musical dos mineiros.
ÁGUAS DE MARÇO – Tom Jobim
AS APARÊNCIAS ENGANAM – Tunai - Sérgio Natureza
CHEGA DE SAUDADE – Tom Jobim – Vinícius de Moraes
CHORO BANDIDO – Edu Lobo – Chico Buarque
EU E A BRISA – Johnny Alf
A MOÇA DO SONHO – Edu Lobo - Chico Buarque
CAIS – Milton Nascimento – Ronaldo Bastos
PARA VER AS MENINAS – Paulinho da Viola
QUANDO O AMOR ACONTECE – João Bosco – Abel Silva
ROSA – Pixinguinha – Otávio de Sousa
COMEÇARIA TUDO OUTRA VEZ – Gonzaguinha
Gonzaguinha começou a aparecer no cenário musical no final dos anos sessenta, através dos festivais. Nessa época, juntou-se a Aldir Blanc, Paulo Emílio e Ivan Lins para fundar o MAU-Movimento Artístico Universitário. Produziram um extenso repertório com temática de protesto, que serviu de base para o Programa Som Livre Exportação, da TV Globo. Irônico e agressivo, ficou taxado de ‘cantor rancor’ e ‘poeta maldito’ no meio musical e na mídia. No começo dos anos oitenta, mudou essa imagem com uma série de canções românticas, que foram gravadas pelas principais cantoras, Elis, Simone e Maria Betânia. Apesar de ter morrido muito jovem, aos 45 anos, num acidente de carro, deixou um grande repertório de músicas fortes e dramáticas. ‘Começaria tudo outra vez’ é uma de suas melhores canções e está entre as grandes da mpb. Ele gostava de compor sozinho e fazia questão de trabalhar com músicos excepcionais, que o ajudaram a desenvolver arranjos coletivos e produzir trabalhos muito marcantes.
DEPOIS DOS TEMPORAIS – Ivan Lins – Vitor Martins
Em se tratando de Ivan Lins, não há meio termo: é amado ou odiado com todas as forças. Sinceramente, acho que ele não tem o devido reconhecimento aqui. O trabalho dele no mercado americano é extremamente valorizado, foi gravado por Sarah Vaughan, George Benson e pelo produtor Quince Jones, entre vários outros. Vitor Martins escreveu essa letra forte e maravilhosa quando Ivan estava se separando de Lucinha Lins, sua primeira mulher. As citações de paralelos entre a relação amorosa do casal e as tormentas do mar, sua profundidade, sua beleza, sua calmaria mostram a habilidade do letrista e a intimidade de quem conviveu com eles durante tanto tempo. O arranjo que Gilson Peranzzetta escreveu é magnífico, com as cordas em crescente e o solo de Márcio Montarroyos é um capítulo à parte, ele que foi considerado um dos cinco melhores trompetistas de todos os tempos pela Downbeat.
LIGIA – Tom Jobim
Dentre as inúmeras pérolas que o Tom compôs, escrevendo letra e melodia, essa se destaca. Lígia é uma declaração de amor à mulher, sobretudo à mulher carioca. Ele passeia pelo Rio, falando de costumes, do chopp, da caminhada de Copacabana até o Leblon, tudo dito de forma surpreendente. Ele usa inversões de sentido, cria uma espécie de figura de linguagem que tudo diz às avessas e com fina ironia. Assim, ele canta: ‘eu nunca quis tê-la ao meu lado num fim de semana, num chopp gelado...e quando eu me apaixonei não passou de ilusão, nem seu nome eu guardei”. É um tentar convencer-se de que tudo não aconteceu ou de que não deveria ter acontecido, mas escrito por alguém que dominava as nuances da língua portuguesa, assim como o fazia com as combinações harmônicas. Gosto muito do final, com mais uma figura de comparação e contradição: ‘seus olhos morenos me metem mais medo que um raio de sol’. Há várias gravações desta música, com Chico Buarque, Gal Costa, Elis Regina e muitas instrumentais, dentre elas uma versão com Stan Getz, que gosto muito.
OCEANO – Djavan
Escrita em 1989, essa é uma das melhores canções de Djavan. Ele é uma matriz musical, tem um estilo muito próprio de compor. Criou uma maneira peculiar de produzir músicas românticas com um toque de sofisticação e baladas pop com refinamento harmônico. Escreve letras meio confusas, algumas aparentemente sem nexo, mas as leio como uma literatura revestida de charme especial. Inicialmente, Oceano foi uma tentativa de compor uma música em espanhol, numa levada flamenca, mas ficou engavetada durante um tempo. Por insistência da filha, resgatou a idéia, compôs um belo poema (“assim que o dia amanheceu lá no mar alto da paixão... cadê você, que solidão, esquecera de mim”), num português literalmente mais que perfeito e convidou Paco de Lucia para fazer um solo inesquecível na segunda parte da música, um colorido todo especial e que resgatou a ideia inicial com influência moura.
SOL DE PRIMAVERA – Beto Guedes – Ronaldo Bastos
Essa linda música dá nome ao terceiro disco de Beto Guedes, de 1980. Aliás, os três primeiros discos individuais dele são os melhores de sua carreira: A Página do Relâmpago Elétrico, Amor de Índio e Sol de Primavera. Junto com o pessoal do Clube da Esquina, influenciado pelos Beatles, nessa época ele produziu trabalhos magníficos, lindas harmonias para letras delicadas e profundas. Aqui, Ronaldo Bastos escreveu uma obra de arte e falou por toda uma geração que saía do período de regime militar: ‘já choramos muito, muitos se perderam no caminho, mesmo assim não custa inventar uma nova canção que venha nos trazer sol de primavera’ e termina com um ‘achado literário’ que é de uma profundidade e sabedoria imensas: ‘a lição sabemos de cor, só nos resta aprender’. O arranjo de Wagner Tiso valorizou demais a canção, numa linha erudita com cordas e flauta transversal que mostram bem a importância que o pianista, maestro e líder do Som Imaginário teve na produção musical dos mineiros.
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
DAS MINAS, DO MINÉRIO, DOS MINEIROS
Agora estamos descendo as escadas do pequeno sobrado, em movimento circular que, aos poucos, deixa para trás a claridade vinda dos vitrais de nossa casa. Chegamos à calçada e o frio é intenso. As japonas de lã nos cobrem a parte de cima dos corpos, mas o frio mineral que atravessa nossas calças curtas nos maltrata e desanima. São seis horas da manhã e seguimos nosso trajeto, meu irmão e eu. Estamos a caminho do colégio. Caminhamos em silêncio, passos curtos e rápidos. A estreita calçada nos aproxima e o sopro gelado que sai de nossas bocas, vira fumaça em movimentos divertidos, e isso quebra a dura e cotidiana jornada. Deliciosos aromas de café atravessam as imensas e ainda fechadas janelas de madeira dos casarões. De dentro, saem sussurros, conversas, risadas e raspar de gargantas. O barulho do movimento compassado de vassouras é interrompido para nos dar passagem e nos desejar bom dia. Estamos na parte baixa da cidade de Congonhas do Campo. Caminhamos para o colégio e não podemos nos atrasar. Atravessamos a ponte e iniciamos a longa subida. Nossas pernas curtas enfrentam as ruas íngrimes, pavimentadas com enormes pedras disformes, escorregadias e cheias de vida. Séculos de história e de mistério nos espreitam e nos conduzem. Por ali, cruzaram bispos e beatas em procissão, desfilaram romeiros e rameiras, passaram cruzes esmagando ombros de pecadores e de pescadores de almas. Essas ruas que guardam, em silêncio, conspirações e torturas, promessas e penitências, caminhos de fé e de festa. A subida ritmada e intensa aumenta nossa pulsação e deixa nossos corpos quentes e suados. Agora o frio úmido e a névoa já não castigam nossas pernas descobertas. Nosso regime no seminário é o semi-internato. Longe de ser uma pena, é mais uma comodidade: ficamos o dia todo, lá tudo fazemos e voltamos no início da noite, para dormirmos em casa. Não é bom nem ruim, simplesmente é assim. Depois de longa caminhada, avistamos a Igreja de Bom Jesus de Matosinhos, com os profetas de Aleijadinho, feitos em pedra-sabão, maravilhosas obras de arte admiradas e visitadas por viajantes de todo o mundo, o ano todo: Abdias, Amós, Baruc, Daniel, Ezequiel, Habacuc, Isaías, Jeremias, Joel, Jonas, Naum e Oséias. Ao lado, o Jardim dos Passos, pequenas capelas com estátuas de madeira em tamanho natural, representando os caminhos da morte e ressurreição de Cristo. Simbologia e beleza, arte e encantamento, tudo ao ar livre, ao nosso dispor, diariamente. Tudo é complexo, infinito e ritualístico. A dificuldade da subida, o desafio, a aceitação do cotidiano e o movimento cadenciado, crescente, em transcendência, tudo convida à fé e aos mistérios do mundo. Lá de cima, ao lado da igreja e da casa paroquial, avistamos toda a cidade, incrustada no vale, tudo marrom, tudo minério, tudo riqueza, tudo multinacional, tudo exportação, tudo exploração. Nossos olhares curiosos e inocentes olham mas não veem, veem mas não definem, definem mas não compreendem. Tudo mistério e fé. Agora estamos de volta. Pegando um gancho no poeta gauche: ‘hoje, Congonhas é apenas um retrato na parede, mas já não dói’.
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
A NOITE EM QUE ADÉLIA ABRIU-ME PORTAS
Quando soube que Adélia Prado leria seus poemas e conversaria com a plateia, não pensei duas vezes. Tomei o rumo do CCBB, sem ingresso, sabedor de que o local estaria lotado. Por costume, fico ali, sentado, quieto, como quem não quer nada, ouvindo a turma descer o malho na dificuldade de se conseguir assistir aos eventos de lá, da falta de organização e coisa e tal. Depois, falantes, saem agrupados, dividindo a raiva que predomina, desativando os alarmes dos carros e já combinando a pizza deles de cada noite. Aí fica mais fácil, contagem regressiva: entre oito a dez minutos após o fechamento da porta do teatro, vem o sujeito da bilheteria distribuindo dez convites extras. Bingo. Quem se deu bem mais uma vez? Eu mesmo, que não sou besta! A ocasião não podia ser mais propícia. Há um mês, publiquei aqui no blog um texto em homenagem aos oitenta anos de papai, chamado ‘Em nome do pai e dos filhos’. Gostei tanto de ter escrito e registrado aquelas palavras, que resolvi deixar-me um espaço para reciclagem espiritual, reordenar detalhes em minha vida e fazer desse vácuo na produção um divisor de águas passadas que moveram e continuam movendo moinhos de minha imaginação. Repito, nada mais propício. Adélia é de Divinópolis, cidade que marcou minha vida. Aos quinze anos, comecei a trabalhar no Banco do Brasil de lá, na primeira contratação de quatro menores aprendizes. Um dos meus chefes era o marido de Adélia, José de Freitas, sujeito simpático e prestativo. Eles se casaram no ano em que nasci, outra feliz coincidência. A inteligência simplificada de Adélia, aliada a uma naturalidade incomum travestida de humor, a todos comove e convida ao desnudar de nossas complicações e desnecessidades. Ela conta passagens de sua vida, desfia um rosário de causos sobre o rigor da religiosidade mineira, do roxo nas roupas, da incorporação do sofrimento obrigatório em nome de tradições incompreensíveis e explica a presença forte dos códigos da fé cristã em sua obra. Em tobogã psicológico, a plateia emudece e ri e concorda com a cabeça e relaxa e se vê representada na fala da poetisa. Uma delícia, a forma como a autora de ‘Dona Doida’ fala dos mineiros e das mineirices, de que o povo de lá, quando não é doido é sistemático, maneira simpática de se referir à neurose barroca impregnada em quem ali foi talhado. Com delicadeza e propriedade, ela fala do afeto, de como a arte, e a literatura em especial, pode não servir para nada, absolutamente nada, se a pessoa não olhar para dentro de si mesma e não enxergar o mote artístico esculpido e impregnado em cada um de nós. Aborda, ainda, chamamento à reflexão, ao entendimento das questões metafísicas inerentes à nossa condição emocional, diante do sofrimento e das complexidades da vida. Dito e visto dessa forma, tudo fica mais belo, mais palatável, mais aceitável, mais humano. Afinal, se uma pessoa como Adélia, culta e simples, interiorana e filósofa, cristã praticante que inclui foda-se em um de seus poemas, ainda sofre e se descabela assim, como não havemos de padecer em nossos infernos dantescos diários, em calvários profundos a que nos metemos por tantos erros, à pregação na cruz pela qual nos vitimamos em nossos paradoxos de modernidade? A emoção paira no ar da aconchegante sala, quando um grupo de escolares do Recanto das Emas sobe ao palco para homenagear a escritora. Declamaram, de cor e salteado, obras da poetisa, estudados e discutidos em sala de aula. Envaidecida e feliz, Adélia manteve em seu colo, até o fim do evento, rosas que recebeu dos alunos fundamentais, termo tão apropriado para definir a presença deles, ali, ao lado dela. Depois, surpresa com o largo conhecimento de sua obra pelos ouvintes, atendeu aos pedidos para que lesse poemas, por eles indicados. Lágrimas traiçoeiras não a deixaram chegar ao final de alguns, outros, delicadamente, declinou-se de ler, pela intensidade dramática contida em suas feituras. Não fiquei para a sessão de autógrafos. A secura do planalto recomendava uma ducha morna, frutas diversas e uma taça de tinto, que chega ao final, assim como este texto. Fica o registro prático literário, produto das portas extraordinárias que, oportunamente, foram-me abertas por Adélia. Coincidência feliz, Adélia é o mesmo nome da bisavó materna dos meus filhos, pessoa que respeito, admiro e lamento não ter convivido mais. Agora, resta-me deitar, descansar e, com sorte, meu anjo protetor virá me beijar e me fazer dormir.
sábado, 13 de agosto de 2011
EM NOME DO PAI E DOS FILHOS
Pai, que felicidade acompanhar a chegada de seus oitenta anos e ver como o senhor cuidou tão bem do seu corpo e de sua cabeça, como respeitou as mudanças naturais da vida e como tem aproveitado, sabiamente, tudo o que se apresenta, de forma equilibrada e saudável. Não bastasse isso, encanta-me constatar como tem cuidado tão bem de todos nós. Tenho pensado em tantos momentos felizes que já passamos, das bagunças e risadas em nossas viagens, da riqueza e criatividade dos improvisos, das chegadas e partidas por tantas cidades, tudo sempre foi tão único, tão profundo e tão verdadeiro.
Quando as dificuldades apareciam e tudo ensaiava ruir, acostumamos a nos recolher, compreender, aceitar, levantar a cabeça, buscar as boas novas, recomeçar, valorizar e aproveitar cada oportunidade para evoluir e transcender. Esse crescer tão diferente e tão cheio de situações inesperadas nos lapidou e nos preparou para as coisas da vida, pois a vida é arte da mudança, é adaptação, é o pão novo de cada dia. Assim, quando mamãe precisou visitar outros planos, o senhor foi pai, foi mãe, foi amigo, foi honesto ao dizer que não sabia exatamente o que iria acontecer, foi atencioso, foi sincero, foi presente, tornou-se o espelho nosso do que produzimos e o reflexo de tudo isso aqui está, aqui estamos, aqui estaremos, juntos e felizes.
A escola da vida lhe forjou na arte da solidariedade, da educação, da gentileza, da humildade, ensinou-lhe a abrir mão de muitas coisas aparentemente boas e fáceis em prol de oportunidades para os que estavam à sua volta, de interromper seus estudos pelas dificuldades financeiras e o senhor foi aluno e diretor de sua própria escola, criou lógica, equações e métodos pessoais, reinventou-se e, mesmo quando muitos diziam não, o senhor foi sábio e coerente ao respeitar suas intuições, seu código próprio de conduta, virou-se nos trinta, ou melhor, continua virando-se muito bem nos oitenta.
Recordo-me, também, de algumas passagens que compramos para viagens equivocadas, canoas furadas, estradas sem saída, mas o senhor estava sempre lá, maquinista a nos esperar nas estações do mundo com braços e sorrisos abertos, farol a iluminar os caminhos de nossas embarcações, cais e porto seguro de nossos destinos, respeitando nossas curiosidades e necessidades de aventuras e descobertas, tudo de forma razoável, sem cobranças exageradas, sem discursos teóricos incoerentes, simplesmente oferecendo-nos carinho, atenção e exemplos positivos.
Fico imaginando como, às vezes, deve ser difícil ver e aceitar tanta mediocridade, ostentação, falta de ética, um deslumbre de superficialidades e atitudes que são diametralmente opostas à sua personalidade, às coisas que acredita e que valoriza. Tenho guardado os valores que o senhor sempre nos passou de serenidade, dignidade, atenção e respeito ao próximo, às crianças, idosos e animais. Recorro ao poeta Vinícius de Moraes para fechar esse registro em forma de homenagem: existiria verdade, verdade que ninguém vê, se todos fossem no mundo iguais a você! Em nome dos irmãos e de toda a família, obrigado por tudo, desejamos-lhe muitos anos de saúde, paz, alegria e que Deus o proteja. Amamos você!
Quando as dificuldades apareciam e tudo ensaiava ruir, acostumamos a nos recolher, compreender, aceitar, levantar a cabeça, buscar as boas novas, recomeçar, valorizar e aproveitar cada oportunidade para evoluir e transcender. Esse crescer tão diferente e tão cheio de situações inesperadas nos lapidou e nos preparou para as coisas da vida, pois a vida é arte da mudança, é adaptação, é o pão novo de cada dia. Assim, quando mamãe precisou visitar outros planos, o senhor foi pai, foi mãe, foi amigo, foi honesto ao dizer que não sabia exatamente o que iria acontecer, foi atencioso, foi sincero, foi presente, tornou-se o espelho nosso do que produzimos e o reflexo de tudo isso aqui está, aqui estamos, aqui estaremos, juntos e felizes.
A escola da vida lhe forjou na arte da solidariedade, da educação, da gentileza, da humildade, ensinou-lhe a abrir mão de muitas coisas aparentemente boas e fáceis em prol de oportunidades para os que estavam à sua volta, de interromper seus estudos pelas dificuldades financeiras e o senhor foi aluno e diretor de sua própria escola, criou lógica, equações e métodos pessoais, reinventou-se e, mesmo quando muitos diziam não, o senhor foi sábio e coerente ao respeitar suas intuições, seu código próprio de conduta, virou-se nos trinta, ou melhor, continua virando-se muito bem nos oitenta.
Recordo-me, também, de algumas passagens que compramos para viagens equivocadas, canoas furadas, estradas sem saída, mas o senhor estava sempre lá, maquinista a nos esperar nas estações do mundo com braços e sorrisos abertos, farol a iluminar os caminhos de nossas embarcações, cais e porto seguro de nossos destinos, respeitando nossas curiosidades e necessidades de aventuras e descobertas, tudo de forma razoável, sem cobranças exageradas, sem discursos teóricos incoerentes, simplesmente oferecendo-nos carinho, atenção e exemplos positivos.
Fico imaginando como, às vezes, deve ser difícil ver e aceitar tanta mediocridade, ostentação, falta de ética, um deslumbre de superficialidades e atitudes que são diametralmente opostas à sua personalidade, às coisas que acredita e que valoriza. Tenho guardado os valores que o senhor sempre nos passou de serenidade, dignidade, atenção e respeito ao próximo, às crianças, idosos e animais. Recorro ao poeta Vinícius de Moraes para fechar esse registro em forma de homenagem: existiria verdade, verdade que ninguém vê, se todos fossem no mundo iguais a você! Em nome dos irmãos e de toda a família, obrigado por tudo, desejamos-lhe muitos anos de saúde, paz, alegria e que Deus o proteja. Amamos você!
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
SEGUNDA LISTA – 5 MÚSICAS POPULARES BRASILEIRAS
Já que deu ibope e como amante da democrática MPB, matarei dois coelhos com uma caixa d’água só: incluirei as músicas pedidas pelo Carlão batera, meu guru para assuntos de mpb, do Maurinho cordas de aço (está fazendo falta nos ensaios) e aceitarei a sugestão do prezado Renatão, líder da super banda ‘Cadillac Mineiro’, a mais famosa desse lado do Mississipi. Com isso, farei mais três listas de canções favoritas e, ao final, os leitores poderão votar dentre as vinte concorrentes e eleger as três melhores músicas do blog, estamos combinados? Só peço um pouco de paciência, afinal, com tantos músicos, artistas e leitores entendidos, a responsabilidade é grande e agora aumentaram as oitavas, mas tentarei contemplar representantes dos diversos segmentos da mpb contemporânea. Então, vamos lá e, como diria o sumido ‘manuvéio’, toca o boréu!!!
A MOÇA DO SONHO – Edu lobo - Chico Buarque
Para mim, nos quesitos qualidade e excelência musical, há três vertentes que se destacam: Estados Unidos com o jazz, Cuba com a salsa e Brasil com a mpb. Que letrista teria a coragem e bagagem para começar uma música com a frase: ‘Súbito me encantou a moça em contraluz’? Essa canção é uma viagem, deve ser ouvida em reflexivo silêncio e quando se está em paz, de preferência com uma taça de tinto seco. A melodia é rica, tranquila e equilibrada: muito prazer, sou Edu Lobo, ele diria! Recomendo a versão feita ao vivo no Mistura Fina, para o dvd VENTO BRAVO, com Cristóvão Bastos ao piano, Jorge Helder no contrabaixo e Rafael Barata na bateria. Fico imaginando essa música interpretada pela pianista Diana Krall, de certo seria um sucesso mundial. Mais uma taça de tinto e bons sonhos!
CAIS – Milton Nascimento – Ronaldo Bastos
Como bom mineiro, costumo dizer que existem três tipos de música: a ruim, a boa e a do Clube da Esquina! Milton e sua trupe criaram um estilo de fazer e tocar um determinado tipo de canção, cuja sonoridade mistura mpb, jazz e latinidade, que cresceu e ganhou notoriedade internacional, a ponto dos críticos americanos criarem uma modalidade para premiar essas criações: world music. CAIS é do lp Clube da Esquina 1, álbum duplo lançado em 1972, obra rara com uma série de preciosidades de Milton, Ronaldo Bastos, Fernando Brant, Lô e Márcio Borges. Essa primeira fase deles é a que mais gosto, meio experimental, criações em grupo feitas até dentro do estúdio e a voz do Bituca, linda e límpida como um diamante fino a penetrar e conduzir nossas emoções pelas esquinas do mundo. A letra de Ronaldo Bastos é misteriosa, criativa e o arranjo do maestro Wagner Tiso conduz a música num clima barroco bastante especial.
PARA VER AS MENINAS – Paulinho da Viola
Samba é um dos estilos mais ricos e marcantes da mpb, mas sou meio radical quanto ao que se produz atualmente nessa área. Respeito e admiro os sambas feitos até a entrada em cena de Paulinho da Viola. Depois dele a coisa degringolou ladeira abaixo. Ele tem inúmeros clássicos, é um mestre e fabrica seus próprios instrumentos. PARA VER AS MENINAS é uma pérola, melodia e letra perfeitas. A sensibilidade, segurança e tranquilidade de Paulinho o colocam num lugar muito especial no cenário cultural brasileiro. Gosto muito da interpretação de Marisa Monte, com o cavaquinho sutil de Mauro Diniz, filho de Monarco da Portela, dando cadência, estilo e classe às pausas contidas nesse samba.
QUANDO O AMOR ACONTECE – João Bosco – Abel Silva
João Bosco é uma matriz. Ele é único, criou o seu próprio estilo de cantar e tocar violão. Esteja sozinho ou com uma grande banda, sua batida produz uma usina de sons que vão do flamenco aos tambores africanos, do choro ao fado, do samba canção às texturas eruditas. Tem uma extensa folha de serviços prestados à mpb, musicando obras de excelentes letristas que se tornaram clássicos, sobretudo na primeira fase, com Aldir Blanc. Essa canção é muito marcante, Abel Silva escreveu um texto lindo falando de amor e que emociona pela forma como João utiliza a onomatopéia dos artifícios vocais em sintonia com a dinâmica crescente do arranjo orquestrado.
ROSA – Pixinguinha – Otávio de Sousa
Essa pérola é um clássico da música popular brasileira, composta em 1917 e imortalizada através de gravações extraordinárias do seresteiro Silvio Caldas e de Orlando Silva, ‘o cantor das multidões’. Gosto muito, também, da gravação de Marisa Monte no disco MAIS, de 1998, delicada e sutil, com arranjo minimalista executado pelo tecladista japonês Ruyichi Sakamoto. Ficou elegante e moderna, mas manteve o rigor da melodia e o andamento original de valsa. A letra é um tratado perfeito de como se deve, formalmente, elogiar uma mulher, deixando-a envaidecida e, literalmente, nas nuvens.
A MOÇA DO SONHO – Edu lobo - Chico Buarque
Para mim, nos quesitos qualidade e excelência musical, há três vertentes que se destacam: Estados Unidos com o jazz, Cuba com a salsa e Brasil com a mpb. Que letrista teria a coragem e bagagem para começar uma música com a frase: ‘Súbito me encantou a moça em contraluz’? Essa canção é uma viagem, deve ser ouvida em reflexivo silêncio e quando se está em paz, de preferência com uma taça de tinto seco. A melodia é rica, tranquila e equilibrada: muito prazer, sou Edu Lobo, ele diria! Recomendo a versão feita ao vivo no Mistura Fina, para o dvd VENTO BRAVO, com Cristóvão Bastos ao piano, Jorge Helder no contrabaixo e Rafael Barata na bateria. Fico imaginando essa música interpretada pela pianista Diana Krall, de certo seria um sucesso mundial. Mais uma taça de tinto e bons sonhos!
CAIS – Milton Nascimento – Ronaldo Bastos
Como bom mineiro, costumo dizer que existem três tipos de música: a ruim, a boa e a do Clube da Esquina! Milton e sua trupe criaram um estilo de fazer e tocar um determinado tipo de canção, cuja sonoridade mistura mpb, jazz e latinidade, que cresceu e ganhou notoriedade internacional, a ponto dos críticos americanos criarem uma modalidade para premiar essas criações: world music. CAIS é do lp Clube da Esquina 1, álbum duplo lançado em 1972, obra rara com uma série de preciosidades de Milton, Ronaldo Bastos, Fernando Brant, Lô e Márcio Borges. Essa primeira fase deles é a que mais gosto, meio experimental, criações em grupo feitas até dentro do estúdio e a voz do Bituca, linda e límpida como um diamante fino a penetrar e conduzir nossas emoções pelas esquinas do mundo. A letra de Ronaldo Bastos é misteriosa, criativa e o arranjo do maestro Wagner Tiso conduz a música num clima barroco bastante especial.
PARA VER AS MENINAS – Paulinho da Viola
Samba é um dos estilos mais ricos e marcantes da mpb, mas sou meio radical quanto ao que se produz atualmente nessa área. Respeito e admiro os sambas feitos até a entrada em cena de Paulinho da Viola. Depois dele a coisa degringolou ladeira abaixo. Ele tem inúmeros clássicos, é um mestre e fabrica seus próprios instrumentos. PARA VER AS MENINAS é uma pérola, melodia e letra perfeitas. A sensibilidade, segurança e tranquilidade de Paulinho o colocam num lugar muito especial no cenário cultural brasileiro. Gosto muito da interpretação de Marisa Monte, com o cavaquinho sutil de Mauro Diniz, filho de Monarco da Portela, dando cadência, estilo e classe às pausas contidas nesse samba.
QUANDO O AMOR ACONTECE – João Bosco – Abel Silva
João Bosco é uma matriz. Ele é único, criou o seu próprio estilo de cantar e tocar violão. Esteja sozinho ou com uma grande banda, sua batida produz uma usina de sons que vão do flamenco aos tambores africanos, do choro ao fado, do samba canção às texturas eruditas. Tem uma extensa folha de serviços prestados à mpb, musicando obras de excelentes letristas que se tornaram clássicos, sobretudo na primeira fase, com Aldir Blanc. Essa canção é muito marcante, Abel Silva escreveu um texto lindo falando de amor e que emociona pela forma como João utiliza a onomatopéia dos artifícios vocais em sintonia com a dinâmica crescente do arranjo orquestrado.
ROSA – Pixinguinha – Otávio de Sousa
Essa pérola é um clássico da música popular brasileira, composta em 1917 e imortalizada através de gravações extraordinárias do seresteiro Silvio Caldas e de Orlando Silva, ‘o cantor das multidões’. Gosto muito, também, da gravação de Marisa Monte no disco MAIS, de 1998, delicada e sutil, com arranjo minimalista executado pelo tecladista japonês Ruyichi Sakamoto. Ficou elegante e moderna, mas manteve o rigor da melodia e o andamento original de valsa. A letra é um tratado perfeito de como se deve, formalmente, elogiar uma mulher, deixando-a envaidecida e, literalmente, nas nuvens.
quinta-feira, 4 de agosto de 2011
CINCO MÚSICAS POPULARES BRASILEIRAS
Produzir uma relação de cinco músicas populares brasileiras letradas é muito difícil. Para cada uma escolhida outras mais se apresentam e começam a nos torturar e a nos lembrar os momentos de nossas vidas em que elas aconteceram e nos marcaram. Muito mais que notas e acordes embalando palavras e poemas, música é tudo aquilo que nos alegrou, nos massacrou, nos acompanhou, nos fez crescer e transcender. Fiquem os leitores à vontade para discordar e sugerir outras de suas preferências e, estejam certos, caso eu decida refazer essa relação, outras cinco canções diferentes serão escolhidas, tamanha é a quantidade de obras primas que compõem nossa música popular brasileira. Elas estão em ordem alfabética e não há destaque ou preferência. Essas músicas me conhecem!
ÁGUAS DE MARÇO – Tom Jobim
O conjunto da obra jobiniana é extremamente rico, criativo e particular, sobretudo em texturas harmônicas e pela capacidade de produzir melodias simples e geniais. Fazer o simples com qualidade é muito difícil, tarefa para poucos. Aqui, Tom usa uma letra cadenciada que trata do meio ambiente para falar do cotidiano com muita sabedoria e propriedade, tudo conduzido por uma linha melódica em moto contínuo, que envolve o ouvinte numa trama rítmica incomum, causando estranheza e conforto ao mesmo tempo.
AS APARÊNCIAS ENGANAM – Tunai - Sérgio Natureza
Última música, lado B, do LP ‘Essa Mulher’, de Elis Regina, gravado em 1979. A letra é uma pérola e faz um paralelo entre mudanças de estações e fases dos relacionamentos amorosos, inverno e verão, amor e ódio. Para mim é a melhor música de Tunai. Ele escreveu uma melodia complexa e elegante, que vai permeando harmonicamente a letra, com sensibilidade e criatividade. O arranjo de Camargo Mariano brinda e veste a voz de sua mulher, num momento difícil de suas vidas, em que se iniciavam os desacordes e desacordos da separação.
CHEGA DE SAUDADE – Tom Jobim – Vinícius de Moraes
Emblemática, essa música é considerada por muitos como um marco, o início da bossa nova. Gravada pela primeira vez por Elizeth Cardoso no LP ‘Canção do Amor Demais’, de 1958, imortalizou-se na voz de João Gilberto. Começa em tom menor falando de saudade e tristeza, mas quando o poeta muda o clima da letra na segunda parte e aborda esperança e alegria, Jobim altera a melodia para tom maior, mudança sutil que evidencia a genialidade da dupla.
CHORO BANDIDO – Edu Lobo – Chico Buarque
Chico tem habilidade literária e concisão estética para contar uma estória complexa e torná-la popular numa letra de música. Edu Lobo criou um estilo de tocar violão e compor melodias sofisticadas e agradáveis. Depois do samba canção, jovem guarda e tropicália, ele mescla a base harmônica da bossa nova a influências rítmicas pernambucanas e letras com temática social para iniciar um estilo que viria a se chamar música popular brasileira. A sinergia na união dessa dupla de gênios já produziu músicas memoráveis, mas classifico ‘Choro Bandido’ como o melhor trabalho deles até aqui.
EU E A BRISA – Johnny Alf
Essa obra prima é um clássico e foi composta em 1965 por Johnny Alf, codinome de Alfredo José da Silva, músico, letrista e compositor excepcional, que criou um estilo vanguardista de cantar e tocar piano, influenciou muita gente e nunca teve o devido reconhecimento, nem do público nem da mídia. Morreu pobre e esquecido aos 80 anos e não deixou discípulo à altura que dê sequência à sua escola melódica esteticamente perfeita e criativa. De sofisticada linha harmônica, é daquelas músicas únicas, que não se parecem com nada que se tenha ouvido.
ÁGUAS DE MARÇO – Tom Jobim
O conjunto da obra jobiniana é extremamente rico, criativo e particular, sobretudo em texturas harmônicas e pela capacidade de produzir melodias simples e geniais. Fazer o simples com qualidade é muito difícil, tarefa para poucos. Aqui, Tom usa uma letra cadenciada que trata do meio ambiente para falar do cotidiano com muita sabedoria e propriedade, tudo conduzido por uma linha melódica em moto contínuo, que envolve o ouvinte numa trama rítmica incomum, causando estranheza e conforto ao mesmo tempo.
AS APARÊNCIAS ENGANAM – Tunai - Sérgio Natureza
Última música, lado B, do LP ‘Essa Mulher’, de Elis Regina, gravado em 1979. A letra é uma pérola e faz um paralelo entre mudanças de estações e fases dos relacionamentos amorosos, inverno e verão, amor e ódio. Para mim é a melhor música de Tunai. Ele escreveu uma melodia complexa e elegante, que vai permeando harmonicamente a letra, com sensibilidade e criatividade. O arranjo de Camargo Mariano brinda e veste a voz de sua mulher, num momento difícil de suas vidas, em que se iniciavam os desacordes e desacordos da separação.
CHEGA DE SAUDADE – Tom Jobim – Vinícius de Moraes
Emblemática, essa música é considerada por muitos como um marco, o início da bossa nova. Gravada pela primeira vez por Elizeth Cardoso no LP ‘Canção do Amor Demais’, de 1958, imortalizou-se na voz de João Gilberto. Começa em tom menor falando de saudade e tristeza, mas quando o poeta muda o clima da letra na segunda parte e aborda esperança e alegria, Jobim altera a melodia para tom maior, mudança sutil que evidencia a genialidade da dupla.
CHORO BANDIDO – Edu Lobo – Chico Buarque
Chico tem habilidade literária e concisão estética para contar uma estória complexa e torná-la popular numa letra de música. Edu Lobo criou um estilo de tocar violão e compor melodias sofisticadas e agradáveis. Depois do samba canção, jovem guarda e tropicália, ele mescla a base harmônica da bossa nova a influências rítmicas pernambucanas e letras com temática social para iniciar um estilo que viria a se chamar música popular brasileira. A sinergia na união dessa dupla de gênios já produziu músicas memoráveis, mas classifico ‘Choro Bandido’ como o melhor trabalho deles até aqui.
EU E A BRISA – Johnny Alf
Essa obra prima é um clássico e foi composta em 1965 por Johnny Alf, codinome de Alfredo José da Silva, músico, letrista e compositor excepcional, que criou um estilo vanguardista de cantar e tocar piano, influenciou muita gente e nunca teve o devido reconhecimento, nem do público nem da mídia. Morreu pobre e esquecido aos 80 anos e não deixou discípulo à altura que dê sequência à sua escola melódica esteticamente perfeita e criativa. De sofisticada linha harmônica, é daquelas músicas únicas, que não se parecem com nada que se tenha ouvido.
quarta-feira, 27 de julho de 2011
AMY, A CANTORA QUE NÃO CONHECEREMOS
As manchetes se repetiram à exaustão: Amy Winehouse é encontrada morta por overdose em sua casa, o que já era esperado pela imprensa e fãs. A prematura saída de cena da cantora britânica adiciona-se à estatística de outros artistas excêntricos, também vitimados pelas drogas aos vinte e sete anos: Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison, Brian Jones e Kurt Cobain. Os poucos shows e imagens disponíveis na curta carreira mostram-na, invariavelmente, bebendo e colocando o copo no chão em pleno palco, tropeçando nos fios, equilibrando-se no pedestal do microfone, esquecendo as letras ou criando confusões em tribunais e hotéis. Meu lado conservador pensa que é um absurdo inaceitável uma personalidade, de qualquer segmento, apresentar-se em público sem o mínimo de condições físicas, mentais ou psicológicas. Isso é falta de respeito para com a platéia, seja o evento pago ou gratuito, e depõe negativamente contra a pessoa em foco. Amy precisava de ajuda constante, não tinha condições de ficar sozinha e só deveria voltar a se apresentar quando estivesse física e emocionalmente equilibrada. Maior de idade, rica e famosa, recusou a intervenção do pai, que tentou várias vezes interná-la para reabilitação, mas ela disse e escreveu: no, no, no! É uma pena! Eu admirava muito o potencial de sua voz, seu estilo de cantar, sua irreverência estética trash e sua sinceridade em admitir e explorar questões pessoais nas letras que escrevia. Harmonicamente, suas canções eram simples, mas extremamente criativas já que, baseadas em informações e características jazzísticas, eram uma releitura do rhythm and blues, música negra americana que exige balanço, invenção rítmica, andamentos quebrados e voz rouca, elementos musicais típicos dos artistas da Motown Records nos anos setenta e incompatíveis com uma cantora inglesa, branca, pequena e de aparência frágil. Por isso, eu evitava as imagens depreciativas mostradas nos dvds ou clips e optava por degustar seu imenso potencial vocálico imaginando-a negra, ao ouvir seus dois únicos cds, Frank (2003), ótimo como primeiro trabalho e Back to Black (2006), uma obra prima que recebeu cinco grammies. Hábito que cultivo com frequência, prefiro analisar e apreciar cantores e cantoras em cds, pois, em se tratando de música, o som da palavra vale mais que mil imagens. Fico imaginando o que seria de sua voz e de sua carreira caso ela conseguisse se livrar dos efeitos do álcool e das drogas! Se, em curto espaço de tempo e com as cordas vocálicas tão agredidas ela produziu um excelente trabalho, ouso inferir que ela se tornaria a melhor cantora viva desta primeira metade do século. Alguns críticos citam Janelle Monáe, Dionne Bromfield e Adele como suas sucessoras. Sinceramente, pelo que produziram até aqui, acho que nenhuma delas chega perto do talento de Amy. Tive a oportunidade de ver e ouvir Etta James no House of Blues de Los Angeles, a dez metros de distância, essa sim, uma cantora extraordinária e que ainda se apresenta aos setenta e três anos, mas que também teve sua carreira e performance comprometidas pelas drogas. Para compensar o vácuo musical que Amy deixou, vazaram informações de que há registro de material inédito que ela teria gravado e que renderiam três ou quatro cds. Ótima notícia, diante de tanta mediocridade que tem sido lançada, sobretudo vinda do mercado norte-americano e travestida sob o rótulo de música pop. Minha música favorita dela é 'Love is a losing game'.
quinta-feira, 14 de julho de 2011
BOLETIM DE OCORRÊNCIA NADA CONVENCIONAL
De acordo com o relato das testemunhas arroladas neste documento, o casal de namorados chegou ao restaurante do hotel e foi conduzido à mesa reservada para comemoração dos seis meses de intensa relação amorosa; disseram que escolheram vinho tinto da região de bordeaux safra 2004, água san pellegrino, escargots gratinados à provençal e torradas com manteiga de ervas como entrada; que brindaram e começaram a rememorar o dia em que se conheceram naquela agradável tarde de outono na capital parisiense; que, devido ao efeito do vinho, sucedeu-lhes descontrolado tesão(sic) e que os mesmos começaram a se beijar, inicialmente de forma discreta e romântica, mas que o desejo foi-lhes tomando o juízo, de forma que os beijos iniciais deram lugar a amassos(sic), mãos desgovernadas que percorriam-lhes os corpos mutuamente; que, a despeito das discretas solicitações do maître para que evitassem inusitada cena que causava burburinhos e frisson(sic) nos demais clientes, o casal se instalou debaixo da mesa, enquanto peças de suas roupas eram arremessadas ao léu, inclusive soutien de renda na cor prateada que causou a queda do suporte metálico utilizado pelo garçom para manusear o maçarico enquanto preparava o crème brûlée na mesa ao lado; que a faísca do citado equipamento atingiu a toalha branca de linho, o que teria ocasionado um pequeno incêndio, causando tumulto e histeria generalizada nos comensais; que, nada obstante os diversos baldes de gelo utilizados para debelar as chamas e que inundaram o tapete, o jovem casal permanecia debaixo da mesa dando prosseguimento à jornada sexual a que se submeteram, diante dos olhares atônitos e incrédulos da pequena multidão que se pusera a observar a inusitada e grotesca cena. Fato seguinte, o casal relatou que deixou o tumultuado local por falta de condições mínimas de concentração e dirigiu-se ao hall do hotel com a intenção de dar prosseguimento à saga amorosa em suíte previamente reservada na cobertura, com hidromassagem e vista panorâmica da cidade; que adentraram o elevador e que a porta do mesmo ficou emperrada tendo em vista que parte do vestido da depoente, na cor branca, ficou preso na porta e que, pressentindo a situação de perigo que se anunciava quando o elevador começou a mover-se, o cavalheiro retirou um pé de sapato na cor preta e o colocou no canto inferior esquerdo da porta, enquanto puxava o tecido do vestido e apertava aleatoriamente vários botões no console digitalizado do equipamento; que o elevador travou a tempo de acontecer uma tragédia, mas que a mulher ficara numa posição extremamente desconfortável, considerando que ainda não fora possível soltar o vestido acima descrito; que o sistema de alarme disparara emitindo som extremamente alto e que tornava inaudível a tentativa de comunicação feita através de aparelho celular; que, após quinze minutos aproximadamente, conseguiu finalmente remover o tecido e o pé de sapato, o que liberou o fechamento da porta, mas que ocasionou movimento abrupto do elevador, e que este percorreu doze andares em queda livre, deixando os ocupantes bastante tensos e preocupados, assim como a equipe de emergência, que adotou providências de isolamento de curiosos que se dirigiam ao local, mas que o corpo técnico a tudo assistia sem condições de atuação positiva no sentido de solução do problema; que, finalmente, o elevador efetuou parada na altura da sobreloja, evitando, com isso, a colisão do mesmo com o chão; que a perícia efetuada em seguida não encontrou motivação técnica plausível para o estacionamento relativamente suave do elevador e que caberiam duas linhas de explicação para o ocorrido: extrema sorte dos ocupantes e/ou ação de evento sobrenatural que culminou com o encerramento do caso sem vítimas ou maior gravidade. Nada mais tendo a declarar, o casal e testemunhas foram liberados, levando consigo cópia deste boletim de ocorrência.
terça-feira, 12 de julho de 2011
GILBERTO GIL + ZÉLIA DUNCAN = VERSATILIDADE
Gilberto Passos Gil Moreira, baiano, 69 anos e Zélia Cristina Duncan Gonçalves Moreira, carioca, 47 anos. Além do último sobrenome, o que teriam em comum esses dois artistas brasileiros? Ok, são cantores, músicos e compositores. Muito mais que isso, no que se refere a talento, eles representam o que há de mais versátil, completo e moderno na música contemporânea brasileira e, de certa forma, universal, pois ambos cantam também em inglês e suas performances cênicas não têm fronteiras estéticas. Verdadeiros curingas, eles conseguem se sair extremamente bem em shows ao ar livre, em espaços fechados - salas intimistas ou grandes teatros – em entrevistas e programas de televisão, em cds e dvds gravados em estúdios ou direto dos shows, ou seja, mídias e espaços distintos. Eles jogam nas onze. Em se considerando as várias categorias que envolvem o trabalho artístico musical, acho difícil encontrar nomes alternativos que sejam tão competentes e versáteis quanto eles. A seguir, de forma separada, um pouco do que penso sobre cada um desses artistas.
Gil declara influências marcantes de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e João Gilberto. Autodidata, utilizou essa mistura antagônica de valores e criou uma matriz musical que não tem fronteiras ou preconceitos. Nela tudo cabe em dinâmica e criatividade. Daí vieram mesclagens culturais em suas relações com artistas do mundo do reggae, do pop, ícones da bossa nova, sambistas, gente do funk e nos ritmos baianos, como o afoxé. Criou a Tropicália, movimento musical e cultural importante e produziu, em sequência, trilogia de lps fantásticos: Refazenda (75-rural), Refavela (77-urbano) e Realce (79-mundial). Gravou 57 álbuns e ganhou 8 grammys, entre milhares de participações em trabalhos de outros artistas, festivais internacionais e trilhas para cinema. Perfeccionista e talentoso, consegue fazer um cd de puro rock e deixar os punks e metaleiros de plantão impressionados. O mesmo desempenho se aplica para forrós ou sambas tradicionais, harmonias bossanovistas ou em músicas intimistas melodicamente ricas que retratam seu mundo e suas relações pessoais. Como letrista, destaca-se em seu trabalho a preocupação com temas sociais, humanistas e ambientais, frutos de sua origem interiorana e suas raízes africanas. A exemplo dos grandes vinhos tintos, Gil tem uma energia que se mostra cada vez mais consistente e surpreendente.
Zélia nasceu em Niterói, mas dos seis aos dezesseis anos morou em Brasília, onde virou cantora e desenvolveu estilo próprio em performances nas noites da capital. Lembro-me de vê-la se apresentando no Amigos e Bar Bom Demais, espaços alternativos daqueles anos oitenta. Na época, impressionou-me a rara textura de timbre médio que hoje flutua seguro em extenso registro vocálico e que lhe dá suporte para ótimos e variados desempenhos musicais. Ela é uma artista completa. Musicalmente, de forma simultânea, consegue ser novidade e vanguarda, clássica e conservadora. Em 2001 lançou o seu melhor cd, Sortimento, ótimo repertório com algumas parcerias inéditas e regravações consistentes. Sua carreira se divide antes e depois dessa produção, que mostra sua versatilidade e lhe proporciona uma espécie de blindagem contra rótulos ou segmentação de estilo. Em curto espaço de tempo gravou outra obra prima com releituras de obras consagradas da mpb - Eu me transformo em outras-2004 -, e substituiu ninguém menos que Rita Lee nos concertos que marcaram a volta dos Mutantes em Londres, Estados Unidos e Brasil, em 2006 e 07. A exemplo de Gil, ela canta samba, reggae, rock e música brasileira, com competência e originalidade. Tem condições de produzir um cd só de blues, de jazz ou de choro com a mesma propriedade, o que lhe abre portas para uma carreira internacional de sucesso que, espero, aconteça brevemente.
Gil declara influências marcantes de Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e João Gilberto. Autodidata, utilizou essa mistura antagônica de valores e criou uma matriz musical que não tem fronteiras ou preconceitos. Nela tudo cabe em dinâmica e criatividade. Daí vieram mesclagens culturais em suas relações com artistas do mundo do reggae, do pop, ícones da bossa nova, sambistas, gente do funk e nos ritmos baianos, como o afoxé. Criou a Tropicália, movimento musical e cultural importante e produziu, em sequência, trilogia de lps fantásticos: Refazenda (75-rural), Refavela (77-urbano) e Realce (79-mundial). Gravou 57 álbuns e ganhou 8 grammys, entre milhares de participações em trabalhos de outros artistas, festivais internacionais e trilhas para cinema. Perfeccionista e talentoso, consegue fazer um cd de puro rock e deixar os punks e metaleiros de plantão impressionados. O mesmo desempenho se aplica para forrós ou sambas tradicionais, harmonias bossanovistas ou em músicas intimistas melodicamente ricas que retratam seu mundo e suas relações pessoais. Como letrista, destaca-se em seu trabalho a preocupação com temas sociais, humanistas e ambientais, frutos de sua origem interiorana e suas raízes africanas. A exemplo dos grandes vinhos tintos, Gil tem uma energia que se mostra cada vez mais consistente e surpreendente.
Zélia nasceu em Niterói, mas dos seis aos dezesseis anos morou em Brasília, onde virou cantora e desenvolveu estilo próprio em performances nas noites da capital. Lembro-me de vê-la se apresentando no Amigos e Bar Bom Demais, espaços alternativos daqueles anos oitenta. Na época, impressionou-me a rara textura de timbre médio que hoje flutua seguro em extenso registro vocálico e que lhe dá suporte para ótimos e variados desempenhos musicais. Ela é uma artista completa. Musicalmente, de forma simultânea, consegue ser novidade e vanguarda, clássica e conservadora. Em 2001 lançou o seu melhor cd, Sortimento, ótimo repertório com algumas parcerias inéditas e regravações consistentes. Sua carreira se divide antes e depois dessa produção, que mostra sua versatilidade e lhe proporciona uma espécie de blindagem contra rótulos ou segmentação de estilo. Em curto espaço de tempo gravou outra obra prima com releituras de obras consagradas da mpb - Eu me transformo em outras-2004 -, e substituiu ninguém menos que Rita Lee nos concertos que marcaram a volta dos Mutantes em Londres, Estados Unidos e Brasil, em 2006 e 07. A exemplo de Gil, ela canta samba, reggae, rock e música brasileira, com competência e originalidade. Tem condições de produzir um cd só de blues, de jazz ou de choro com a mesma propriedade, o que lhe abre portas para uma carreira internacional de sucesso que, espero, aconteça brevemente.
segunda-feira, 4 de julho de 2011
O TRAMPOLIM DA ALMA
Com o passar dos anos, começam a ficar frequentes aqueles momentos em que retomamos situações de nossas vidas, flash backs involuntários de nós mesmos, depósitos emocionais de comportamentos questionáveis, registros capciosos de poeira em baixo de nossos tapetes. Tem jeito não, eles insistem em montar acampamento e mostrar presença em cada vacilada de nossa concentração, no ponto morto do sinal de trânsito, no aconchego da fronha limpa e macia, na mudança da série nos aparelhos da academia, no abraço carinhoso dos filhos que sujam de chocolate a camiseta recém saída da lavanderia. Como evitar, resistir ou relevar? Atire o primeiro aparelho touchscreen, sempre disponível e nos disponibilizando a tudo e a todos, aquele que não passou por experimentações da natureza! Em meio ao nada da vida atribulada, nas requisições de atenção à mediocridade urgente, escondido entre toda aquela papelada a ser lida e assinada, eis que eles se apresentam, faceiros, em câmera lenta, folgados, acomodados e confortáveis no ar condicionado de nossos infernos astrais. Como evitar, resistir ou relevar? Quantas oportunidades perdidas para, no momento certo e pessoas em questão, desfilar o repertório completo de indelicadezas, desopilar incontestáveis argumentações em ordem crescente numérica, desencadear um arrazoado de motivos que se utilizem de vasto e complexo vocabulário da fina flor do lácio inculta e bela. Longe disso, quantas confissões gastas com ouvintes equivocados, tantas verdades reveladas em situações inadequadas, um sem número de declarações amorosas arquivadas sem direito a recursos, inúmeros discursos ensaiados com direito a suporte de iluminação, figurino e música, mas que foram mal representados e, por consequência, mal interpretados, tiros nos pés em pelica de cromo alemão nos sapateados criativos dos musicais de nossos sonhos e da nossa imaginação? Vida que segue, sala aconchegante com dimer de iluminação indireta, ogivas perfeitas varrendo mondrians milimetricamente pendurados em parafusos com buchas, brisa do mar que invade a cobertura e balança delicadamente a orquídea negra de nossa emoção, set list de orquestras com melodias preferidas de nossos bailes de formatura, tudo a serviço e gasto de modo equivocado com pessoas erradas, ingênuas, insensíveis. Como evitar, resistir ou relevar? E se, no lugar da confusa e criativa verborragia lusitana, tivéssemos simplesmente dito verdades cruas, revelando formas simples e diretas, abraços e apertos de mãos estendidos ao romance com direito a taças de vinho branco gelado, morangos maduros e Bill Evans nos convidando a dançar de rosto colado? O ministério da paciência adverte: gente lesa gera falta de gentileza!
quarta-feira, 22 de junho de 2011
O TETO EM RODOPIO
Foi a primeira pessoa que ele viu quando entrou no salão. Em meio à multidão, cores, movimentos, luzes, sons, brindes e gargalhadas, nada mais lhe chamava a atenção, nada lhe parecia novo ou interessante. Simplesmente não conseguia mais tirar os olhos dela. Acompanhava o gesticular de suas mãos como a reger a sinfonia que lhe saía da boca, tentava adivinhar o significado daquelas palavras intercaladas com sorrisos discretos, via o balançar dos cabelos que cobriam parte de seu rosto e que eram ajustados atrás das orelhas com charme e delicadeza. Quando deu por si, estava rindo sozinho e já estabelecia um avançado diálogo imaginário do que seria dito e ouvido. Levou as mãos à altura da boca para disfarçar o estado de alegria natural e nervosismo que o deixava estranhamente confiante e empolgado. Iria acontecer. Tinha que acontecer. Simplesmente adorava momentos como aquele. Ansiava por situações de completo desconhecimento, quando são estabelecidas conexões através de olhares, de gestos e códigos improvisados, conduzidos por ímpetos carnais, rubores faciais, cefaléias sutis, taquicardias controladas, adrenalina pura. Calmamente bebeu o último gole, depositou a taça de conhaque na mesinha ao lado e levantou-se. Distraída, quando percebeu estava com a mão estendida aceitando o convite para dançar. Foram até o meio do salão, olharam-se, encostaram os corpos quebrando a barreira da intimidade e começaram a mover-se em pequenos círculos, ao som de Billie. Falaram de amores passados, de longas noites em quartos de hotéis, de passeios de bicicleta pelo vale do loire, de viagens surpreendentes, de restaurantes inesquecíveis e de caminhadas noturnas nas madrugadas frias. Enquanto falavam e dançavam crescia a impressão sinestésica de que já se conheciam. Agora a orquestra tocava Cole Porter e eles estavam mais próximos e mais ousados. Passado e presente misturando-se, à medida que se revelavam e interagiam. Falaram também de antigos planos frustrados, de desequilíbrios, de viagens perigosas sem fim, de absintos, de pulsos cortados e de andaimes de pontes à mercê de transeuntes que os acudissem de volta à realidade. Intimidade e confiança estabeleciam-se de maneira tão singular e rápida, deixando-os meio inseguros e mais próximos. Àquela altura da vida, sabiam reconhecer e valorizar oportunidades, corações e mentes atraídos por alguma força que os tornara juntos e, de repente, tudo fazia sentido, tudo era convite à entrega, dúvidas e óbices iam ficando para trás. O despertador do destino tocara na mesma hora para os dois. Caso lhes fosse dada a chance de recomeçar, jamais fariam tudo de novo da mesma forma; longe disso, acreditavam que novos erros e novos acertos fossem primordiais para preservar a mística das surpresas e o colorido especial do desconhecido. Deram-se as mãos e saíram em direção à porta principal.
terça-feira, 21 de junho de 2011
ENSAIO: JUVENTUDE – MUDANÇAS x REBELDIA
Juventude: substantivo feminino que se refere ao período da vida entre a infância e a idade adulta. É a fase de contestações, de descobertas e de experimentações. Ao jovem praticamente tudo cabe, nada é impossível, nada é perfeito, tudo pode e deve mudar. Esse é um paradigma que permanece e se sustenta, pois o jovem não tem mais a dependência física e legal da criança e, ao mesmo tempo, sem a experiência e a natural acomodação do adulto, ele se lança de peito aberto questionando o mundo que o cerca, os temas sociais, antropológicos, éticos, teóricos e práticos. Essa euforia contestatória alimentada por hormônios, força física, beleza latente e autoconfiança, com frequência o levam a cometer erros, excessos e confusões, com a consequente taxação de rebeldia. O dramaturgo Nélson Rodrigues dizia, com sua contumaz ironia e sarcasmo: “a juventude é uma mal que passa rápido; se querem um conselho, envelheçam!.” Já Pedro Naves, escritor mineiro, contestava essa abordagem rodriguiana, quando dizia: “a experiência é como uma locomotiva com os faróis voltados para trás, apenas ilumina o passado, de nada lhe serve o que aprendeu, porque o futuro são apenas trevas.” O jovem é, naturalmente, um rebelde. Exatamente por conta dessa coragem de enfrentar questões estabelecidas na sociedade e de propor mudanças sem a preocupação de que tenham o mínimo sentido ou necessidade premente é que ele muitas vezes acerta, ainda que inconscientemente ou sem embasamento técnico que justifique esses acertos. Potencializados à coragem e rebeldia, o jovem traz dentro de si aspectos sensoriais importantes, que são produtos de feelings, insights, sacadas inteligentes, enfim, soluções muitas vezes simples e diretas, que passam despercebidas aos olhos de uma criança e também do adulto. O adulto, por sua vez, ao usar o bom senso e mergulhar no passado, rememorando aquelas suas várias aprontadas, erros e acertos da juventude, certamente terá paciência e lucidez para entender que o jovem apenas precisa de oportunidades, compreensão e afeto. Por estar sempre contestando e propondo mudanças em questões nas quais não tem conhecimento ou experiência, o jovem é taxado de maluco, de irresponsável, de inconsequente, mas essa abordagem adotada por muitos adultos é paradoxal: se o jovem for tímido, introspectivo e inseguro será acusado de acomodado, preguiçoso, sem iniciativa. Ao contrário, quando falante, extrovertido e independente será taxado de rebelde, folgado e perigoso. Com essa perspectiva social e cultural que se apresenta na maioria das vezes, a tendência natural do jovem é procurar ser diferente dos adultos que o cercam e que são responsáveis por sua formação. Ele não quer repetir o modelo que enxerga e contesta nos adultos, longe disso, procura pensar e agir exatamente de forma contrária. O jovem não se conforma com injustiças, ele tem um senso comum de se proteger e aos membros de sua turma contra atos e fatos que vão de encontro às suas crenças e valores. Na história política recente do país, indignados com a corrupção, falta de seriedade e abusos de autoridade, jovens universitários e estudantes do ensino médio, os caras-pintadas, foram às ruas em passeatas e ao Congresso Nacional questionar a permanência do Presidente da República no poder. A eles juntaram-se sindicados de trabalhadores, políticos, membros do clero, empresários, juristas e representantes de vários movimentos, num exemplo de manifestação democrática que acabou no episódio do impeachment de Collor, situação política até então inédita no Brasil. Graças ao ímpeto e ao sentimento contestatório da juventude, virou-se uma página na história brasileira e o que se viu depois disso foi o início de um período de crescimento e estabilidade, que permanece até os dias atuais.
segunda-feira, 20 de junho de 2011
HUIT ZÉRO UN
Sim ou não
apenas diga-me sim ou não
pois, entre essas duas opções, há um mundo
e, acredite, um mundo de atalhos que irá nos engolir.
Yes or not
adiciona-me ou me apague de vez
deixe que eu a veja de perfil, em close, de costas
faça do rosto livro aberto para eu ler, escrever e decorar.
Oui ou non
decifra-me ou me devore por inteiro
nada pela metade, estamos à vontade agora
fique linda e deixe que, eu, paul, faça a nossa música.
Sì o no
transcenda-me ou me surpreenda
nossos corpos agora são lares, evitemos que
detalhes tão pequenos de nós dois fiquem para depois.
apenas diga-me sim ou não
pois, entre essas duas opções, há um mundo
e, acredite, um mundo de atalhos que irá nos engolir.
Yes or not
adiciona-me ou me apague de vez
deixe que eu a veja de perfil, em close, de costas
faça do rosto livro aberto para eu ler, escrever e decorar.
Oui ou non
decifra-me ou me devore por inteiro
nada pela metade, estamos à vontade agora
fique linda e deixe que, eu, paul, faça a nossa música.
Sì o no
transcenda-me ou me surpreenda
nossos corpos agora são lares, evitemos que
detalhes tão pequenos de nós dois fiquem para depois.
quinta-feira, 16 de junho de 2011
CINCO MÚSICAS NACIONAIS COM NOMES DE MULHERES
A música brasileira é extremamente rica e versátil em estilos, vertentes e ritmos. Quanto mais se escuta, mais se aprende e mais se descobre acerca de sua qualidade e criatividade. Aqui destaco, entre muitas composições com nomes de mulheres, cinco das minhas preferidas. Ficaram de fora pérolas como Ligia, Carolina, Maria, Maria, Flora, Conceição, apenas para citar algumas das mais de cem músicas que pesquisei para fechar este trabalho. Imagino que os amigos leitores terão outras indicações e espero que as registrem nos comentários, pois isso é bom para comprovarmos a riqueza de nossa produção musical. Aproveitem!
BEATRIZ - Edu Lobo – Chico Buarque
Edu e Chico já escreveram juntos várias músicas, todas excelentes. A sensibilidade e o conhecimento de harmonia de Edu dão um sentido especial às letras do Chico. Destaco a gravação de Milton Nascimento para a trilha do musical GRANDE CIRCO MÍSTICO, de 1983, que é definitiva! Segundo Leny Andrade, atual grande dama da música brasileira, fica difícil ouvir outra gravação depois que o Bituca carimbou a versão dele para essa obra de arte. Penso que apenas uma cantora conseguiria tal feito, mas, infelizmente, ela nos deixou em 1982 e atendia pelo nome de Elis.
LUIZA – Tom Jobim
Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim é um gênio. Ponto! A qualidade de sua obra pode ser comparada aos grandes compositores e clássicos americanos e, na minha opinião, ao lado de Villa-Lobos e Chico Buarque forma a santa trindade da música brasileira de todos os tempos. Criou a bossa nova e influenciou muitos artistas, com harmonias complexas, sofisticadas e geniais pela simplicidade e originalidade. A letra dessa música é de uma beleza estética impressionante, num envolvente jogo de palavras que acompanha a melodia em crescente e emociona pela forma como ele cria atalhos e encontra saídas harmônicas surpreendentes. Adoro a gravação feita em dueto vocal com Edu Lobo, no disco Tom e Edu, de 1981.
MADALENA – Ivan Lins – Ronaldo Monteiro
Elis Regina consagrou essa música numa gravação espetacular de 1971, ainda jovem, no disco ELA. César Camargo Mariano escreveu um arranjo magnífico que explora de forma competente a extensão vocálica dela, imprimindo um crescente harmônico com balanço, sensibilidade e numa levada rítmica quebrada, diferente do registro original de Ivan Lins. Elis a regravou ao vivo em 1979 no Festival de Jazz de Montreux na Suíça, com uma super banda que incluía Hélio Delmiro (guitarra), Luisão Maia (baixo), Chico Batera (percussão) e Paulinho Braga (bateria).
MARINA – Dorival Caymmi
Um clássico da MPB, samba-canção de 1947, composto e gravado pelo mestre Dorival naquele mesmo ano. Foi registrado por outros excelentes intérpretes, como Nélson Gonçalves e Francisco Alves, mas a versão que fez mais sucesso foi a de Dick Farney, exímio pianista e cantor que possuía um registro vocálico aveludado raro, um artista completo, que se apresentou nos Estados Unidos ao lado de Nat King Cole, David Brubeck e Bill Evans. Marina recebeu inúmeras gravações, entre elas a de Maria Betânia em 1968. Gosto muito da versão pop extremamente original feita por Gilberto Gil, em 1979, no ótimo disco REALCE.
ROSA – Pixinguinha – Otávio de Sousa
Essa pérola é outra obra de arte da música popular brasileira, composta em 1917 e imortalizada através de gravações extraordinárias do seresteiro Silvio Caldas e de Orlando Silva, ‘o cantor das multidões’. Gosto muito, também, da gravação de Marisa Monte no disco MAIS, de 1998, delicada e sutil, com arranjo minimalista executado pelo tecladista japonês Ruyichi Sakamoto. Ficou elegante e moderna, mas manteve o rigor da melodia e o andamento original de valsa. A letra é um tratado perfeito de como se deve, formalmente, elogiar uma mulher, deixando-a envaidecida e, literalmente, nas nuvens.
BEATRIZ - Edu Lobo – Chico Buarque
Edu e Chico já escreveram juntos várias músicas, todas excelentes. A sensibilidade e o conhecimento de harmonia de Edu dão um sentido especial às letras do Chico. Destaco a gravação de Milton Nascimento para a trilha do musical GRANDE CIRCO MÍSTICO, de 1983, que é definitiva! Segundo Leny Andrade, atual grande dama da música brasileira, fica difícil ouvir outra gravação depois que o Bituca carimbou a versão dele para essa obra de arte. Penso que apenas uma cantora conseguiria tal feito, mas, infelizmente, ela nos deixou em 1982 e atendia pelo nome de Elis.
LUIZA – Tom Jobim
Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim é um gênio. Ponto! A qualidade de sua obra pode ser comparada aos grandes compositores e clássicos americanos e, na minha opinião, ao lado de Villa-Lobos e Chico Buarque forma a santa trindade da música brasileira de todos os tempos. Criou a bossa nova e influenciou muitos artistas, com harmonias complexas, sofisticadas e geniais pela simplicidade e originalidade. A letra dessa música é de uma beleza estética impressionante, num envolvente jogo de palavras que acompanha a melodia em crescente e emociona pela forma como ele cria atalhos e encontra saídas harmônicas surpreendentes. Adoro a gravação feita em dueto vocal com Edu Lobo, no disco Tom e Edu, de 1981.
MADALENA – Ivan Lins – Ronaldo Monteiro
Elis Regina consagrou essa música numa gravação espetacular de 1971, ainda jovem, no disco ELA. César Camargo Mariano escreveu um arranjo magnífico que explora de forma competente a extensão vocálica dela, imprimindo um crescente harmônico com balanço, sensibilidade e numa levada rítmica quebrada, diferente do registro original de Ivan Lins. Elis a regravou ao vivo em 1979 no Festival de Jazz de Montreux na Suíça, com uma super banda que incluía Hélio Delmiro (guitarra), Luisão Maia (baixo), Chico Batera (percussão) e Paulinho Braga (bateria).
MARINA – Dorival Caymmi
Um clássico da MPB, samba-canção de 1947, composto e gravado pelo mestre Dorival naquele mesmo ano. Foi registrado por outros excelentes intérpretes, como Nélson Gonçalves e Francisco Alves, mas a versão que fez mais sucesso foi a de Dick Farney, exímio pianista e cantor que possuía um registro vocálico aveludado raro, um artista completo, que se apresentou nos Estados Unidos ao lado de Nat King Cole, David Brubeck e Bill Evans. Marina recebeu inúmeras gravações, entre elas a de Maria Betânia em 1968. Gosto muito da versão pop extremamente original feita por Gilberto Gil, em 1979, no ótimo disco REALCE.
ROSA – Pixinguinha – Otávio de Sousa
Essa pérola é outra obra de arte da música popular brasileira, composta em 1917 e imortalizada através de gravações extraordinárias do seresteiro Silvio Caldas e de Orlando Silva, ‘o cantor das multidões’. Gosto muito, também, da gravação de Marisa Monte no disco MAIS, de 1998, delicada e sutil, com arranjo minimalista executado pelo tecladista japonês Ruyichi Sakamoto. Ficou elegante e moderna, mas manteve o rigor da melodia e o andamento original de valsa. A letra é um tratado perfeito de como se deve, formalmente, elogiar uma mulher, deixando-a envaidecida e, literalmente, nas nuvens.
quarta-feira, 15 de junho de 2011
ESSA TAL FELICIDADE
Lá pelas tantas, quase no final do evento, alguém pergunta se o entrevistado se considerava um homem feliz. Rápido, brincalhão e espirituoso, pela primeira e única vez nas mais de duas horas ele fica sério, trava, pensa, vem aquele branco de alguns segundos e ele responde que se sente feliz quando consegue se levantar na fria madrugada da capital gaúcha para pegar um copo de água e voltar para a cama quente e confortável, sentindo-se corajoso e feliz com o ato. Saiu-se bem o poeta e cronista Fabrício Carpinejar, que falava sobre sua vida e processo criativo, enquanto ouvia alguns trechos de sua obra lidos pela atriz Bidô Galvão, no CCBB. Saia justíssima! Não é fácil definir ou mesmo falar sobre felicidade. Para mim, são aqueles momentos mágicos inesperados com variação de cinco segundos para mais e para menos sem que algo ou alguém lhe interrompa. Felicidade é uma arma quente, ironizava e previa John, antes de ser baleado por um fã, ao voltar para casa. Brincadeira sem graça do destino e das palavras, logo para alguém que pregava paz e tolerância ao dizer que tudo que precisávamos era amor, mas ‘a estrela guia não fez a bala parar’. Felicidade pode acontecer a qualquer momento: na descoberta do nome com letras mínimas na última página da lista de aprovados, no sensor da porta automática do aeroporto que mostra a pessoa querida encoberta pela bagagem, no freio do carro que funciona a tempo do garoto em sua bicicleta atravessar a faixa atrás do preocupado e atento pai, na relação de contemplados para o sonho de ter o seu espaço onde morar, no ansioso rasgar do lacre do envelope na calçada do laboratório, no primeiro choro da criança naquele corredor frio e silencioso, no brinde especial do toque inesperado de um torpedo que afunda porta-aviões na batalha naval da conquista da mulher a ser amada. Tudo isso é felicidade. E é só isso. São momentos. São fragmentos. São extras. Eles acontecem em meio ao caos da loucura diária, chegam por conta e risco do inexplicável, na briga desordenada por posições, no quebracabeças do quebrar a cabeça alheia sem escrúpulos, no cais do porto, na fria madrugada dos desabrigados, nos dez segundos de respiração profunda que evitam o mal, no tempo que se dedica ao próximo sem intenções outras que não a de oferecer atenção e compreensivo silêncio. A grande questão e dádiva cotidiana é saber identificar, saudar e valorizar esses curtos e especiais momentos, esses brindes do universo que conectam almas, que recarregam baterias, que inundam os seres do mais puro oxigênio, que existem para justificar a existência, que não entram no mérito das questões, apenas chegam, se instalam e se vão.
quinta-feira, 9 de junho de 2011
A ARCA DE MANOÉ MENEZES
A seleção brasileira fez dois jogos amistosos preparatórios para a Copa América que será realizada na Argentina agora em julho: contra a Holanda, em Goiânia, placar oXo e contra a Romênia, no Pacaembu, 1x0, gol do Fred, jogo que marcou a despedida oficial do Ronaldo. Confesso que fiquei preocupado com a baixa qualidade técnica e tática do time. Sei não, se vacilar vamos pagar mico! Os poucos bons momentos ficaram por conta dos malabarismos e da criatividade do Neymar, excelente atacante e mergulhador nas horas vagas, destaque para o número de vezes em que ele se joga ao chão, característica negativa que já o deixa marcado pelos juízes. O time estava praticamente completo, faltando apenas a dupla Pato e Ganso. É pouco bicho pra resolver tantos problemas e, se brincar, a vaca vai pro brejo! Pra quem viu as feras do Saldanha, a elegância do Falcão e tantos outros cobras do time canarinho é de ficar com a pulga atrás da orelha, afinal ninguém tem sangue de barata pra aguentar tanta zebra. Em quinze minutos, o Fenômeno teve boas oportunidades de marcar, apesar da rapidez de tartaruga e da forma estilo fora de forma, lá pelas tantas recebeu um toque sutil de Robinho e mandou um pombo sem asa que destruiu a caixa de isopor do garoto do picolé, na arquibancada, setor pqp. Nos bons tempos, ágil feito serpente, ele colocaria a bola onde a coruja dorme e nem um goleiro com olhos de águia e rapidez de lince evitaria o lance, uma pintura, que deixaria a torcida pulando feito cabrito, feliz como pinto no lixo e o técnico adversário com cara de cão chupando manga. Mas isso faz parte de um passado glorioso, agora é tirar o cavalinho da chuva, aproveitar a ótima aposentadoria ao lado dos tubarões especuladores de carreiras alheias, abraçar amigos ursos de plantão e lavar a égua de felicidade. Como diria o narrador oficial: que beleza!!!!
segunda-feira, 9 de maio de 2011
PROJETO CULTURAL PENSAR BRASÍLIA
UM ENSAIO SOBRE IDEIAS E AÇÕES A SEREM IMPLEMENTADAS NA CAPITAL
Brasília é o grande centro das atenções políticas, concentra embaixadas e organismos internacionais, tem o maior nível per capita do país, com localização centralizada e estratégica, grande parte da população tem formação educacional superior, viaja ao exterior com freqüência, possui nível cultural destacado, demonstra interesse e tem acesso a eventos e produções culturais de modo geral.
Entretanto, essa massa populacional concentrada, politizada, privilegiada tem carência de mais produções locais, com organização, infraestrutura e segurança. Com frequência, o público brasiliense se desloca para outros estados para se informar, prestigiar e assistir shows internacionais, eventos esportivos, entretenimento ou fazer turismo nacional e internacional.
Artistas consagrados costumam mencionar em coletivas de imprensa a importância de se apresentarem na capital, sobretudo em função da qualificação intelectual do público, informado, exigente e participativo. Além do público distinto, aqui são formados músicos, atores, dançarinos e esportistas que se destacam pela qualidade, originalidade e vanguarda. Aqui se estuda muito, treina-se muito, a falta de praia e a facilidade de deslocamento contribuem para essa base na formação.
Dada à diversidade cultural da população, que veio de outros centros do país e do mundo para trabalhar, estudar, representar grupos financeiros ou montar negócios, além dos aqui nascidos, que optaram por permanecer na cidade e desenvolver seu lado empreendedor, não necessariamente ligado ao setor público, a cidade cresce na área de serviços e eventos criados para esse público.
Apesar do muito que já foi desenvolvido e produzido, ainda há espaço para crescimento, profissionalização, há que se criar uma cultura de consumo que permita aos artistas ficar aqui, perto de suas famílias e de seu espaço de estudo, treino e aprimoramento. A idéia é chamar a atenção do público de outros centros para que se desloquem para a capital, para que consumam cultura, serviços e produtos locais, ganhando espaço na mídia em geral e atraindo cada vez mais pessoas, grupos e investidores.
Essa esperança de que tudo aconteça intensamente é posta contra a parede, quando vemos o descaso com que são tratados alguns centros formadores de talentos, a precariedade das instalações, a falta de manutenção, o desconforto com que professores, técnicos e alunos são obrigados a passar. É incompreensível como espaços que já formaram e projetaram talentos geniais, artistas e esportistas destacados no exterior, verdadeiros expoentes e, no entanto, esses locais estão sendo destruídos pela falta de uma política cultural e educacional inteligente, competente e compatível com os valores que aqui se encontram. Algumas ações envolvem trabalhos integrados nas áreas de educação, cultura, turismo e esportes, ou seja, todos órgãos voltados para o bem estar mental, físico e cultural dos cidadãos. Exemplos:
ESCOLA DE MÚSICA DE BRASÍLIA
Trata-se de um verdadeiro centro de excelência em ensino de música, formação de músicos, bandas e orquestras. Quantos talentos ali formados se destacam como músicos, professores e líderes formadores de opinião na área musical e cultural, além de representar um excelente mercado de trabalho. O Curso de Verão daquela instituição atrai personalidades, músicos e alunos de várias partes do país e do mundo. Tudo isso se aplica apenas às pessoas, ao patrimônio humano, porque as instalações são extremamente precárias, as salas são apertadas, sem tratamento acústico, aparelhos de ar condicionado e ventiladores quebrados, banheiros sem condições mínimas de uso. A despeito de toda essa falta de estrutura física e desrespeito, a comunidade de professores, alunos e pais continua a freqüentar o espaço, criando e revelando talentos a cada semestre. Por tudo que já produziu e representa, a Escola de Música de Brasília merece e precisa de um projeto de reforma, o que resultará em melhores condições de ensino e será um estímulo à continuidade do excelente trabalho ali desenvolvido.
TEATRO NACIONAL
Um dos melhores teatros do país, possui ótimo palco, excelente acústica, espaço que possibilita apresentações de música, teatro, dança e performances de qualquer natureza, mas está em péssimo estado de conservação. As três salas: Villa-Lobos, com 1.300 lugares, Martins Pena, com 500 lugares e Cláudio Santoro, com 80 lugares para concertos de câmara estão abandonadas. Os camarins estão destruídos, há infiltrações, instalações elétricas precárias que, próximas a cortinas de tecido e madeira, representam riscos de incêndio e acidentes. Músicos, atores, dançarinos, empresários, produtores pagam caro e enfrentam burocracia para ter acesso ao espaço, o público fica mal instalado, os banheiros estão praticamente interditados, não há cafeteria, bombonière, bistrô ou restaurante para que artistas e público possam se encontrar e confratenizar. As únicas reformas são feitas na parte exterior do prédio, de forma a dar uma impressão apresentável ao local, mas quem ali frequenta sabe das péssimas condições do teatro. A meu ver, há necessidade de interrupção no funcionamento e reforma em todo o espaço, com gestão profissional, inclusive no que concerne à segurança e à venda de ingressos, de forma a se evitar a ação de atravessadores e cambistas.
CINE BRASÍLIA
Quem reside na cidade e gosta de cinema já se acostumou à realidade do Cine Brasília, paradoxal, eu diria, no que se refere à sua ocupação. Durante o ano todo o cinema fica praticamente abandonado, a audiência é baixíssima, os filmes se repetem frequentemente e ficam em cartaz várias semanas, sem qualquer ação de marketing ou gestão comercial que atraia a população. Apesar de ser um local com boa acústica e ótimo espaço físico, as instalações são precárias, cadeiras rasgadas e quebradas, carpetes que nunca foram trocados desde a inauguração, infiltrações, equipamentos obsoletos e sem manutenção, um retrato de total abandono. De forma surreal e como um passe de mágica, na última semana do mês de novembro acontece o Festival de Cinema, o mais antigo e importante evento cinematográfico do país e que atrai excelente público durante toda a semana, com lançamentos, premières, palestras, discussões. O local e os convites são concorridíssimos, demonstrando o potencial cultural e comercial a ser explorado nessa área. Para que o festival aconteça, a cada ano são feitas maquiagens, como pequenos ajustes, pinturas e reparos nos banheiros. O espaço precisa ser revitalizado de forma integral e planejada, para que seja utilizado o ano todo, sobretudo porque é muito bem localizado e possui um ótimo estacionamento.
COMPLEXO SALA FUNARTE
O complexo Sala Funarte tem ótima localização, mas é pouco utilizado e valorizado. Seria interessante uma revitalização no local, transformando o espaço num verdadeiro pólo cultural e de entretenimento, uma espécie de Corredor Cultural, que iria da Torre de TV até o Centro de Convenções. A construção da nova sede do Clube do Choro e da Escola Raphael Rabello é muito bem vinda, mas há necessidade de reformas nas Salas Cássia Eller e Plínio Marcos, abertura do Planetário, instalação de salas de cinema, espaços para exposição e aulas de dança, oficinas de teatro infantil, cafés culturais, bares com música ao vivo e estacionamento compatível com o número de usuários. A experiência poderia servir como balão de ensaio para o espaço múltiplo ser replicado em cidades satélites, gerando emprego e levando cultura e arte à população em geral.
TURISMO
Enfatizando análise já abordada no início deste ensaio, aspectos como localização privilegiada, característica populacional, vocação para instalação de indústrias e serviços não poluentes, vasta rede hoteleira e excelentes restaurantes são itens que credenciam nossa capital a se tornar um grande pólo de Turismo e Lazer, a exemplo do que acontece em Las Vegas. Atualmente, aqui acontecem alguns poucos eventos, mas, de forma organizada e sistematizada, a cidade pode e deve receber eventos o ano inteiro, como congressos, shows, feiras, concursos, festivais, exposições de carros, moda, couro, franquias, móveis, jóias, ou seja, é uma vasta gama de setores a serem escolhidos e representados. Os eventos certamente atrairiam turistas e investidores e poderiam acontecer nos finais de semana, quando existe um deslocamento de políticos e seu staff para os respectivos estados de origem, de modo que essa lacuna seria preenchida e explorada comercial e culturalmente através desses eventos.
Essas idéias, traçadas nesse ensaio numa visão macro, representam nichos de atuação cultural e desenvolvimentista, que podem e devem ser exploradas e detalhadas de forma profissional, planejada, estratégica e que, bem implementadas, certamente contribuirão para o crescimento da cidade, criando novas oportunidades de emprego, projetando uma imagem positiva da capital, preparando-a para a Copa do Mundo de 2014 e inserindo-a, definitivamente, num círculo virtuoso de destaque no país e no mundo.
Brasília é o grande centro das atenções políticas, concentra embaixadas e organismos internacionais, tem o maior nível per capita do país, com localização centralizada e estratégica, grande parte da população tem formação educacional superior, viaja ao exterior com freqüência, possui nível cultural destacado, demonstra interesse e tem acesso a eventos e produções culturais de modo geral.
Entretanto, essa massa populacional concentrada, politizada, privilegiada tem carência de mais produções locais, com organização, infraestrutura e segurança. Com frequência, o público brasiliense se desloca para outros estados para se informar, prestigiar e assistir shows internacionais, eventos esportivos, entretenimento ou fazer turismo nacional e internacional.
Artistas consagrados costumam mencionar em coletivas de imprensa a importância de se apresentarem na capital, sobretudo em função da qualificação intelectual do público, informado, exigente e participativo. Além do público distinto, aqui são formados músicos, atores, dançarinos e esportistas que se destacam pela qualidade, originalidade e vanguarda. Aqui se estuda muito, treina-se muito, a falta de praia e a facilidade de deslocamento contribuem para essa base na formação.
Dada à diversidade cultural da população, que veio de outros centros do país e do mundo para trabalhar, estudar, representar grupos financeiros ou montar negócios, além dos aqui nascidos, que optaram por permanecer na cidade e desenvolver seu lado empreendedor, não necessariamente ligado ao setor público, a cidade cresce na área de serviços e eventos criados para esse público.
Apesar do muito que já foi desenvolvido e produzido, ainda há espaço para crescimento, profissionalização, há que se criar uma cultura de consumo que permita aos artistas ficar aqui, perto de suas famílias e de seu espaço de estudo, treino e aprimoramento. A idéia é chamar a atenção do público de outros centros para que se desloquem para a capital, para que consumam cultura, serviços e produtos locais, ganhando espaço na mídia em geral e atraindo cada vez mais pessoas, grupos e investidores.
Essa esperança de que tudo aconteça intensamente é posta contra a parede, quando vemos o descaso com que são tratados alguns centros formadores de talentos, a precariedade das instalações, a falta de manutenção, o desconforto com que professores, técnicos e alunos são obrigados a passar. É incompreensível como espaços que já formaram e projetaram talentos geniais, artistas e esportistas destacados no exterior, verdadeiros expoentes e, no entanto, esses locais estão sendo destruídos pela falta de uma política cultural e educacional inteligente, competente e compatível com os valores que aqui se encontram. Algumas ações envolvem trabalhos integrados nas áreas de educação, cultura, turismo e esportes, ou seja, todos órgãos voltados para o bem estar mental, físico e cultural dos cidadãos. Exemplos:
ESCOLA DE MÚSICA DE BRASÍLIA
Trata-se de um verdadeiro centro de excelência em ensino de música, formação de músicos, bandas e orquestras. Quantos talentos ali formados se destacam como músicos, professores e líderes formadores de opinião na área musical e cultural, além de representar um excelente mercado de trabalho. O Curso de Verão daquela instituição atrai personalidades, músicos e alunos de várias partes do país e do mundo. Tudo isso se aplica apenas às pessoas, ao patrimônio humano, porque as instalações são extremamente precárias, as salas são apertadas, sem tratamento acústico, aparelhos de ar condicionado e ventiladores quebrados, banheiros sem condições mínimas de uso. A despeito de toda essa falta de estrutura física e desrespeito, a comunidade de professores, alunos e pais continua a freqüentar o espaço, criando e revelando talentos a cada semestre. Por tudo que já produziu e representa, a Escola de Música de Brasília merece e precisa de um projeto de reforma, o que resultará em melhores condições de ensino e será um estímulo à continuidade do excelente trabalho ali desenvolvido.
TEATRO NACIONAL
Um dos melhores teatros do país, possui ótimo palco, excelente acústica, espaço que possibilita apresentações de música, teatro, dança e performances de qualquer natureza, mas está em péssimo estado de conservação. As três salas: Villa-Lobos, com 1.300 lugares, Martins Pena, com 500 lugares e Cláudio Santoro, com 80 lugares para concertos de câmara estão abandonadas. Os camarins estão destruídos, há infiltrações, instalações elétricas precárias que, próximas a cortinas de tecido e madeira, representam riscos de incêndio e acidentes. Músicos, atores, dançarinos, empresários, produtores pagam caro e enfrentam burocracia para ter acesso ao espaço, o público fica mal instalado, os banheiros estão praticamente interditados, não há cafeteria, bombonière, bistrô ou restaurante para que artistas e público possam se encontrar e confratenizar. As únicas reformas são feitas na parte exterior do prédio, de forma a dar uma impressão apresentável ao local, mas quem ali frequenta sabe das péssimas condições do teatro. A meu ver, há necessidade de interrupção no funcionamento e reforma em todo o espaço, com gestão profissional, inclusive no que concerne à segurança e à venda de ingressos, de forma a se evitar a ação de atravessadores e cambistas.
CINE BRASÍLIA
Quem reside na cidade e gosta de cinema já se acostumou à realidade do Cine Brasília, paradoxal, eu diria, no que se refere à sua ocupação. Durante o ano todo o cinema fica praticamente abandonado, a audiência é baixíssima, os filmes se repetem frequentemente e ficam em cartaz várias semanas, sem qualquer ação de marketing ou gestão comercial que atraia a população. Apesar de ser um local com boa acústica e ótimo espaço físico, as instalações são precárias, cadeiras rasgadas e quebradas, carpetes que nunca foram trocados desde a inauguração, infiltrações, equipamentos obsoletos e sem manutenção, um retrato de total abandono. De forma surreal e como um passe de mágica, na última semana do mês de novembro acontece o Festival de Cinema, o mais antigo e importante evento cinematográfico do país e que atrai excelente público durante toda a semana, com lançamentos, premières, palestras, discussões. O local e os convites são concorridíssimos, demonstrando o potencial cultural e comercial a ser explorado nessa área. Para que o festival aconteça, a cada ano são feitas maquiagens, como pequenos ajustes, pinturas e reparos nos banheiros. O espaço precisa ser revitalizado de forma integral e planejada, para que seja utilizado o ano todo, sobretudo porque é muito bem localizado e possui um ótimo estacionamento.
COMPLEXO SALA FUNARTE
O complexo Sala Funarte tem ótima localização, mas é pouco utilizado e valorizado. Seria interessante uma revitalização no local, transformando o espaço num verdadeiro pólo cultural e de entretenimento, uma espécie de Corredor Cultural, que iria da Torre de TV até o Centro de Convenções. A construção da nova sede do Clube do Choro e da Escola Raphael Rabello é muito bem vinda, mas há necessidade de reformas nas Salas Cássia Eller e Plínio Marcos, abertura do Planetário, instalação de salas de cinema, espaços para exposição e aulas de dança, oficinas de teatro infantil, cafés culturais, bares com música ao vivo e estacionamento compatível com o número de usuários. A experiência poderia servir como balão de ensaio para o espaço múltiplo ser replicado em cidades satélites, gerando emprego e levando cultura e arte à população em geral.
TURISMO
Enfatizando análise já abordada no início deste ensaio, aspectos como localização privilegiada, característica populacional, vocação para instalação de indústrias e serviços não poluentes, vasta rede hoteleira e excelentes restaurantes são itens que credenciam nossa capital a se tornar um grande pólo de Turismo e Lazer, a exemplo do que acontece em Las Vegas. Atualmente, aqui acontecem alguns poucos eventos, mas, de forma organizada e sistematizada, a cidade pode e deve receber eventos o ano inteiro, como congressos, shows, feiras, concursos, festivais, exposições de carros, moda, couro, franquias, móveis, jóias, ou seja, é uma vasta gama de setores a serem escolhidos e representados. Os eventos certamente atrairiam turistas e investidores e poderiam acontecer nos finais de semana, quando existe um deslocamento de políticos e seu staff para os respectivos estados de origem, de modo que essa lacuna seria preenchida e explorada comercial e culturalmente através desses eventos.
Essas idéias, traçadas nesse ensaio numa visão macro, representam nichos de atuação cultural e desenvolvimentista, que podem e devem ser exploradas e detalhadas de forma profissional, planejada, estratégica e que, bem implementadas, certamente contribuirão para o crescimento da cidade, criando novas oportunidades de emprego, projetando uma imagem positiva da capital, preparando-a para a Copa do Mundo de 2014 e inserindo-a, definitivamente, num círculo virtuoso de destaque no país e no mundo.
segunda-feira, 2 de maio de 2011
DE MÉDICOS E LOUCOS
Sabe aquele antigo ditado: de médico, bipolar e louco todo mundo tem um pouco, não sabe? Ok, fiz uma pequena adaptação, pois os tempos são outros e tem gente dando boa noite no início da tarde, outros parando o carro na faixa de pedestre como recomendado, mas matando o coitado de susto, já que deveriam parar antes da faixa, tem cozinheiro confundindo cheiro verde com desodorante do hulk, tem control-alt-del aí pra dar com pau e, como já dizia mano caetano, de perto ninguém é normal. Voltemos ao plantão médico. Atire o primeiro desfibrilador quem não tem um amigo, parente ou chegado que saiba tudo de medicina, de remédios e de receitas caseiras para todo e qualquer tipo de enfermidade. Aposto que o atento leitor está rindo e lembrando-se de alguns entendidos ou situações do gênero, não é mesmo? Isso é um costume, uma tradição, um vírus, permitam-me o trocadilho, que é transmitido e pega na prática, zero de teoria, essa, quase sempre, passa longe. Antigamente, na carência de médicos graduados que não queriam ir para cidades do interior, a tarefa era ocupada por farmacêuticos experientes, respeitados, que atendiam, diagnosticavam e prescreviam medicamentos na maior tranqüilidade e segurança. Nem cobravam consulta, estava tudo embutido no preço do remédio. Lilico diria: tempo bom, não volta mais, saudade desses tempos iguais! No vácuo: tempo bom, da goiabada cascão em caixa, do compacto simples com duas pérolas e nada mais, dos maiôs brancos brincando com nossa imaginação, do padeiro na bicicleta de casa em casa vendendo roscas com cobertura de côco. Foco, meu camarada, voltemos ao plantão médico! O sujeito vai à consulta, fala tudo, demonstra conhecimento de causa graças ao doutor google, zera todas as dúvidas. Pronto, passa a régua! Pedidos de exames debaixo do braço, vai confirmar com um segundo médico e com o terceiro. Bingo! Falaram a mesma coisa, meno male. Ele chega em casa ou no trabalho e, inocente útil ou língua grande, comenta sobre a via crucis das consultas e a bateria de testes. Como quem não está muito interessado, o doutor nosso de cada dia da cadeira ao lado pede para dar uma olhada, põe os óculos de leitura, fica sério e, hipócrates dos hipócritas, manda na maior cara de pau: isso aqui não está certo!!! está faltando coisa... mas ele não pediu aquele outro... não sei não, heim!!!! A vontade que dá é dizer: você não sabe, mas o médico sabe!!! Antes de colocar aquele jaleco, o sujeito estudou uns doze anos, perdeu noites em claro nas emergências cuidando de gente que caiu do quinto andar, levou facada em briga de bar, participou de juntas médicas que discutem os casos antes de diagnosticar, mas o nosso amigo ou amiga tem opinião própria, receita florais, xaropes, pílulas, genéricos, só faltam carimbo e bloquinho personalizado!!! Já vi entendidos questionando ecografias: desculpe, mas na minha ignorância(???) acho que esse gineco (olha a intimidade) se enganou quanto ao sexo do bebê e, olhando bem, pra mim são dois e não apenas um bebê!!! Está rindo? Pois olha a cena: entrada do colégio, crianças entregues, calçada de emergência, ficam aquelas mães trocando figurinhas, uma espécie de congresso local de médicas amadoras, um zero oitocentos disque cobaia alheia infantil, qualquer nota, bossa nova, tarja multicolorida, quem dá mais? Em tempo: rápido, alguém disque 192, que esse sujeito está passando mal...
domingo, 10 de abril de 2011
CENAS DE FILMES 5 – TORMENTA
WHITE SQUALL – TORMENTA
Diretor: Ridley Scott - 1996
Atores: Jeff Bridges – Caroline Goodall
Hoje recomendo um drama excepcional. Não foi um grande sucesso de bilheteria, mas isso nos states é comum. Com a lista extensa e variada de produções e a disputa de marketing por lançamentos, ótimos filmes ficam sem espaço. O diretor Ridley Scott dispensa comentários: Thelma e Louise, Hannibal, Blade Runner, Alien, Cruzada, só para citar alguns. O enredo aborda trabalho em equipe, hierarquia, motivação, superação, temas fortes e importantes em qualquer atividade. Vamos lá: em 1961, um grupo de adolescentes embarca para uma longa viagem no veleiro "Albatroz", navio-escola comandado pelo severo capitão Christopher Sheldon que, junto com sua mulher Alice, pretende transformar aqueles jovens em homens. No decorrer da viagem, o medo que os alunos sentem pelo capitão é substituído por respeito e admiração, mas uma tragédia poderá colocar esta confiança em risco. Jeff Bridges, como sempre, dá um show de interpretação, dessa vez ao lado da linda atriz inglesa Caroline Goodall, que eu gosto muito. Vinda do teatro, ela tem um estilo de atuação clean, sem afetações, uma presença segura e tranqüila. Atualmente está em cartaz no filme ‘O retrato de Dorian Gray’, baseado no livro de Oscar Wilde. Acredite, por mais de duas horas, ‘Tormenta’ prende a atenção e a respiração do expectador, com muitas cenas de ação, suspense e embate psicológico entre as personagens. Aqui destaco uma passagem especial, quando Alice fica presa num compartimento do navio e o capitão tenta, desesperadamente, retirá-la, pois o local está ficando inundado. Ciente do perigo, mas demonstrando concentração e serenidade, em contraste com o desespero de seu marido, ela o fita num olhar profundo que é meio despedida, meio agradecimento, meio conformação. A câmera vai se aproximando e ‘fecha’ em seus olhos. A fotografia dessa cena é de uma intensidade dramática, uma verdadeira aula de expressão facial, sem texto, sem efeitos, sem grandes mudanças de planos. Talvez não seja um filme fácil de encontrar, mas vale a pena encomendar, esperar e se emocionar, com tudo a que tem direito, pipoca, ar condicionado, edredon e uma companhia sensível ao seu lado, para lhe passar a caixa de lenços descartáveis. Ação!!!
Diretor: Ridley Scott - 1996
Atores: Jeff Bridges – Caroline Goodall
Hoje recomendo um drama excepcional. Não foi um grande sucesso de bilheteria, mas isso nos states é comum. Com a lista extensa e variada de produções e a disputa de marketing por lançamentos, ótimos filmes ficam sem espaço. O diretor Ridley Scott dispensa comentários: Thelma e Louise, Hannibal, Blade Runner, Alien, Cruzada, só para citar alguns. O enredo aborda trabalho em equipe, hierarquia, motivação, superação, temas fortes e importantes em qualquer atividade. Vamos lá: em 1961, um grupo de adolescentes embarca para uma longa viagem no veleiro "Albatroz", navio-escola comandado pelo severo capitão Christopher Sheldon que, junto com sua mulher Alice, pretende transformar aqueles jovens em homens. No decorrer da viagem, o medo que os alunos sentem pelo capitão é substituído por respeito e admiração, mas uma tragédia poderá colocar esta confiança em risco. Jeff Bridges, como sempre, dá um show de interpretação, dessa vez ao lado da linda atriz inglesa Caroline Goodall, que eu gosto muito. Vinda do teatro, ela tem um estilo de atuação clean, sem afetações, uma presença segura e tranqüila. Atualmente está em cartaz no filme ‘O retrato de Dorian Gray’, baseado no livro de Oscar Wilde. Acredite, por mais de duas horas, ‘Tormenta’ prende a atenção e a respiração do expectador, com muitas cenas de ação, suspense e embate psicológico entre as personagens. Aqui destaco uma passagem especial, quando Alice fica presa num compartimento do navio e o capitão tenta, desesperadamente, retirá-la, pois o local está ficando inundado. Ciente do perigo, mas demonstrando concentração e serenidade, em contraste com o desespero de seu marido, ela o fita num olhar profundo que é meio despedida, meio agradecimento, meio conformação. A câmera vai se aproximando e ‘fecha’ em seus olhos. A fotografia dessa cena é de uma intensidade dramática, uma verdadeira aula de expressão facial, sem texto, sem efeitos, sem grandes mudanças de planos. Talvez não seja um filme fácil de encontrar, mas vale a pena encomendar, esperar e se emocionar, com tudo a que tem direito, pipoca, ar condicionado, edredon e uma companhia sensível ao seu lado, para lhe passar a caixa de lenços descartáveis. Ação!!!
quarta-feira, 6 de abril de 2011
CENAS DE FILMES 4 – SUSIE E OS BAKER BOYS
SUSIE E OS BAKER BOYS – THE FABULOUS BAKER BOYS
Diretor: Steven Koves - 1989
Atores: Michelle Pfeiffer – Jeff Bridges
Adoro filmes que usem música de qualidade como enredo e que tenham ótimos atores. Esse é um deles. Frank e Jack Baker são dois irmãos de Seattle que tocam piano juntos em bares, mas suas poucas apresentações estão decadentes e perdendo público. Decidem mudar o formato e incluir uma cantora para participar e dar um up no show. Após testar sem sucesso trinta e sete candidatas, a dupla acaba encontrando Susie Diamond, uma mulher sensual, desbocada e agressiva que acaba se envolvendo com Jack e cria atritos entre os irmãos. Steven Koves surpreende de forma positiva, pois é seu único filme como diretor. Ele é roteirista respeitado em Hollywood e escreveu a série Harry Potter. Técnica impecável, ele utiliza a química natural entre Michelle e Jeff para criar um anticlima entre os personagens, com joguinhos de sedução, egos e competição, o que deixa a trama bem interessante. A primeira convidada para o papel de Susie foi Madonna, que acabou recusando o convite. A direção musical é de Dave Grusin, o segundo pianista preferido de meu pai - o primeiro, claro, é o compositor e produtor José Antônio Almeida. Jeff Bridges aprendeu e realmente tocou todas as músicas no filme. Embora não seja músico, ele tem muita facilidade para representar papéis do gênero, tanto que ganhou o Oscar e o Globo de Ouro em 2009 com o filme Crazy Heart - Coração Louco em que interpreta um músico country. Separei uma cena inesquecível, em que Susie canta de forma altamente sensual o tema Feelings do brasileiro Morris Albert, com um vestido vermelho s.e.n.s.a.c.i.o.n.a.l.!!! Voz pequena, mas bem colocada, ela manda muito bem e, enquanto canta, chega a subir no piano de cauda para surpreender e seduzir Jack. Charmoso e experiente, ele se faz de durão, mas são almas parecidas, artistas talentosos e calejados por relações mal sucedidas e pela difícil rotina na profissão de músicos desconhecidos e sem grandes oportunidades. Outra característica interessante e que torna esse filme especial são os desdobramentos dramáticos que permeiam as vidas das personagens, com humor, romance e drama nas medidas corretas, em cenas que se desenrolam sem obviedades, lugares comuns e sem finais previsíveis, mas isso eu não vou entrar em detalhes, deixarei você descobrir. Espero que goste. Boa diversão.
Diretor: Steven Koves - 1989
Atores: Michelle Pfeiffer – Jeff Bridges
Adoro filmes que usem música de qualidade como enredo e que tenham ótimos atores. Esse é um deles. Frank e Jack Baker são dois irmãos de Seattle que tocam piano juntos em bares, mas suas poucas apresentações estão decadentes e perdendo público. Decidem mudar o formato e incluir uma cantora para participar e dar um up no show. Após testar sem sucesso trinta e sete candidatas, a dupla acaba encontrando Susie Diamond, uma mulher sensual, desbocada e agressiva que acaba se envolvendo com Jack e cria atritos entre os irmãos. Steven Koves surpreende de forma positiva, pois é seu único filme como diretor. Ele é roteirista respeitado em Hollywood e escreveu a série Harry Potter. Técnica impecável, ele utiliza a química natural entre Michelle e Jeff para criar um anticlima entre os personagens, com joguinhos de sedução, egos e competição, o que deixa a trama bem interessante. A primeira convidada para o papel de Susie foi Madonna, que acabou recusando o convite. A direção musical é de Dave Grusin, o segundo pianista preferido de meu pai - o primeiro, claro, é o compositor e produtor José Antônio Almeida. Jeff Bridges aprendeu e realmente tocou todas as músicas no filme. Embora não seja músico, ele tem muita facilidade para representar papéis do gênero, tanto que ganhou o Oscar e o Globo de Ouro em 2009 com o filme Crazy Heart - Coração Louco em que interpreta um músico country. Separei uma cena inesquecível, em que Susie canta de forma altamente sensual o tema Feelings do brasileiro Morris Albert, com um vestido vermelho s.e.n.s.a.c.i.o.n.a.l.!!! Voz pequena, mas bem colocada, ela manda muito bem e, enquanto canta, chega a subir no piano de cauda para surpreender e seduzir Jack. Charmoso e experiente, ele se faz de durão, mas são almas parecidas, artistas talentosos e calejados por relações mal sucedidas e pela difícil rotina na profissão de músicos desconhecidos e sem grandes oportunidades. Outra característica interessante e que torna esse filme especial são os desdobramentos dramáticos que permeiam as vidas das personagens, com humor, romance e drama nas medidas corretas, em cenas que se desenrolam sem obviedades, lugares comuns e sem finais previsíveis, mas isso eu não vou entrar em detalhes, deixarei você descobrir. Espero que goste. Boa diversão.
segunda-feira, 28 de março de 2011
CENAS DE FILMES 3 – QUATRO CASAMENTOS E UM FUNERAL
QUATRO CASAMENTOS E UM FUNERAL – FOUR WEDDINGS AND A FUNERAL
Diretor: Mike Newell – 1994
Atores: Hugh Grant – Andie MacDowell
Como o nome já antecipa, há realmente quatro casamentos nessa excelente comédia romântica, uma de minhas favoritas. Cinema europeu de qualidade, bem diferente do estilo americano de filmar, foi muito premiado, tem roteiro inteligente, ótimo timing de diálogos e piadas sutis, trilha musical incrível com Sting, Elton John, entre outros. Charles, londrino, solteirão, bonito e charmoso, numa das recepções se apaixona por Carrie, americana linda, misteriosa e irreverente. Ela surge de tempos em tempos apenas nos casamentos e o deixa inseguro, transtornado e feito um tímido garotinho sem ação. A química entre o casal é perfeita, aliás, aí está o segredo de uma comédia romântica de sucesso, a escolha e direção dos atores principais; o público tem que se emocionar e ficar torcendo para os dois, independente do que façam e se ficarão juntos ou não. Destaco uma cena hilária: desanimado com os vários desencontros naquela relação indefinida, Charles não resiste aos assédios da fila de pretendentes e resolve se casar. No meio da cerimônia, a americana reaparece sem ser convidada e o deixa todo transtornado, tremendo e andando de um lado para o outro na sacristia. Ritual na ponta da língua, o padre pergunta se há alguém que saiba de algo que possa impedir o casamento. O irmão dele se apresenta para ‘depor’. Detalhe: ele é surdo-mudo. Fala gestual, decidido, começa a esclarecer e convencer Charles de que aquilo tudo é um grande erro, que será infeliz, pois ama outra pessoa. Igreja lotada, clima tenso e formal até o teto, parentes e convidados ouvem, perplexos, o próprio Charles traduzindo a linha de argumentação do irmão e, quando ele finalmente revela que gosta de outra pessoa, o caos se estabelece, a noiva aplica um direto à la anderson silva no rosto do vacilão e se retira, muito pêdavida. Há várias passagens engraçadas nas cerimônias e também aquelas situações surrealistas que acontecem em recepções de casamentos, as gafes, as roupas, os amigos de infância se encontrando e trocando confidências. O leitor deve estar curioso quanto ao funeral do título. Trata-se de uma cena muito bem feita, complexa, com humor, emoção e revelações surpreendentes. Só não entendi porque você ainda está aí, parada, lendo. Trate de levantar e correr para a locadora mais próxima. Obrigado pela atenção e bom divertimento.
Diretor: Mike Newell – 1994
Atores: Hugh Grant – Andie MacDowell
Como o nome já antecipa, há realmente quatro casamentos nessa excelente comédia romântica, uma de minhas favoritas. Cinema europeu de qualidade, bem diferente do estilo americano de filmar, foi muito premiado, tem roteiro inteligente, ótimo timing de diálogos e piadas sutis, trilha musical incrível com Sting, Elton John, entre outros. Charles, londrino, solteirão, bonito e charmoso, numa das recepções se apaixona por Carrie, americana linda, misteriosa e irreverente. Ela surge de tempos em tempos apenas nos casamentos e o deixa inseguro, transtornado e feito um tímido garotinho sem ação. A química entre o casal é perfeita, aliás, aí está o segredo de uma comédia romântica de sucesso, a escolha e direção dos atores principais; o público tem que se emocionar e ficar torcendo para os dois, independente do que façam e se ficarão juntos ou não. Destaco uma cena hilária: desanimado com os vários desencontros naquela relação indefinida, Charles não resiste aos assédios da fila de pretendentes e resolve se casar. No meio da cerimônia, a americana reaparece sem ser convidada e o deixa todo transtornado, tremendo e andando de um lado para o outro na sacristia. Ritual na ponta da língua, o padre pergunta se há alguém que saiba de algo que possa impedir o casamento. O irmão dele se apresenta para ‘depor’. Detalhe: ele é surdo-mudo. Fala gestual, decidido, começa a esclarecer e convencer Charles de que aquilo tudo é um grande erro, que será infeliz, pois ama outra pessoa. Igreja lotada, clima tenso e formal até o teto, parentes e convidados ouvem, perplexos, o próprio Charles traduzindo a linha de argumentação do irmão e, quando ele finalmente revela que gosta de outra pessoa, o caos se estabelece, a noiva aplica um direto à la anderson silva no rosto do vacilão e se retira, muito pêdavida. Há várias passagens engraçadas nas cerimônias e também aquelas situações surrealistas que acontecem em recepções de casamentos, as gafes, as roupas, os amigos de infância se encontrando e trocando confidências. O leitor deve estar curioso quanto ao funeral do título. Trata-se de uma cena muito bem feita, complexa, com humor, emoção e revelações surpreendentes. Só não entendi porque você ainda está aí, parada, lendo. Trate de levantar e correr para a locadora mais próxima. Obrigado pela atenção e bom divertimento.
sexta-feira, 25 de março de 2011
CENAS DE FILMES 2 - AS PONTES DE MADISON
AS PONTES DE MADISON – THE BRIDGES OF MADISON COUNTY
Diretor: Clinton Eastwood – 1995
Atores: Meryl Streep e Clint Eastwood
A caminhonete está parada no semáforo. Robert deixa a seta ligada, indicando que tomará a direção de saída da pequena cidade em Iowa e nunca mais voltará. No carro atrás, ao lado do marido, Francesca, angustiada, entende a mensagem implícita naquele código decisivo e tem poucos segundos para optar entre dois caminhos tortuosos: sair do carro, entrar na caminhonete, abandonar casa, marido, filhos e ir embora com um desconhecido que, em apenas quatro dias, decifrou-lhe um lado impulsivo que ela própria desconhecia, valorizou-a em sua simplicidade, devolveu-lhe energia, trouxe-lhe risos, deu-lhe prazer e nenhuma dica de como seria o futuro ao lado de um fotógrafo, viajante do mundo a serviço da National Geographic. A segunda opção? Bem mais simples: fazer absolutamente nada. Continuar sentada, voltar para a segurança de seu lar, cuidar do maridão e dos filhos pequenos, cozinhar, limpar, envelhecer com a lembrança marcante daquele rápido e surpreendente romance, que ela teria que guardar em eterno segredo. Corta!!!! Bom, quem viu se lembra, quem não viu é melhor parar de ler aqui e alugar o filme... Tempo esgotado! Silêncio, gravando!!! Num pranto contido, ela acompanha a caminhonete sair da cidade, levando, no meio da poeira, sonhos e um pedaço dela. É isso, vidinha do interior que segue! Lamento, leitoras amigas, mas tenho que registrar: quem conhece as mulheres, sabe que, em não podendo compartilhar aquele romance com outro ser do mesmo sexo, coisa mais sem graça, o que mais resta a uma pobre, angustiada e sofrida mulher???? Escrever tudinho, detalhe por detalhe, guardar numa caixa e esconder em lugar estratégico, onde o pacato cidadão não tivesse a curiosidade de mexer, nem as crianças alcançariam durante muitos anos. Agora, pelo amor de Deus, no fundo ela esperava e morreu acreditando que alguma bendita alma curiosa naquele lado do Mississipi haveria de encontrar o diário e divulgar a sua história, nem que fosse o pessoal da Wikileaks. Brincadeira à parte, a nova proprietária da casa encontra o diário e o entrega aos filhos, gancho para o filme começar. A trilha sonora assinada pelo diretor, músico na vida real, é absolutamente linda! Por fim, o ministério da saúde adverte a quem for assistir pela primeira vez, que mantenha algumas caixas de clinex ao lado da pipoca, porque até os marmanjos ficam raspando a garganta e reclamando de irritação e ciscos nos olhos, durante as mais de duas horas desse ótimo filme, que eu super recomendo.
Diretor: Clinton Eastwood – 1995
Atores: Meryl Streep e Clint Eastwood
A caminhonete está parada no semáforo. Robert deixa a seta ligada, indicando que tomará a direção de saída da pequena cidade em Iowa e nunca mais voltará. No carro atrás, ao lado do marido, Francesca, angustiada, entende a mensagem implícita naquele código decisivo e tem poucos segundos para optar entre dois caminhos tortuosos: sair do carro, entrar na caminhonete, abandonar casa, marido, filhos e ir embora com um desconhecido que, em apenas quatro dias, decifrou-lhe um lado impulsivo que ela própria desconhecia, valorizou-a em sua simplicidade, devolveu-lhe energia, trouxe-lhe risos, deu-lhe prazer e nenhuma dica de como seria o futuro ao lado de um fotógrafo, viajante do mundo a serviço da National Geographic. A segunda opção? Bem mais simples: fazer absolutamente nada. Continuar sentada, voltar para a segurança de seu lar, cuidar do maridão e dos filhos pequenos, cozinhar, limpar, envelhecer com a lembrança marcante daquele rápido e surpreendente romance, que ela teria que guardar em eterno segredo. Corta!!!! Bom, quem viu se lembra, quem não viu é melhor parar de ler aqui e alugar o filme... Tempo esgotado! Silêncio, gravando!!! Num pranto contido, ela acompanha a caminhonete sair da cidade, levando, no meio da poeira, sonhos e um pedaço dela. É isso, vidinha do interior que segue! Lamento, leitoras amigas, mas tenho que registrar: quem conhece as mulheres, sabe que, em não podendo compartilhar aquele romance com outro ser do mesmo sexo, coisa mais sem graça, o que mais resta a uma pobre, angustiada e sofrida mulher???? Escrever tudinho, detalhe por detalhe, guardar numa caixa e esconder em lugar estratégico, onde o pacato cidadão não tivesse a curiosidade de mexer, nem as crianças alcançariam durante muitos anos. Agora, pelo amor de Deus, no fundo ela esperava e morreu acreditando que alguma bendita alma curiosa naquele lado do Mississipi haveria de encontrar o diário e divulgar a sua história, nem que fosse o pessoal da Wikileaks. Brincadeira à parte, a nova proprietária da casa encontra o diário e o entrega aos filhos, gancho para o filme começar. A trilha sonora assinada pelo diretor, músico na vida real, é absolutamente linda! Por fim, o ministério da saúde adverte a quem for assistir pela primeira vez, que mantenha algumas caixas de clinex ao lado da pipoca, porque até os marmanjos ficam raspando a garganta e reclamando de irritação e ciscos nos olhos, durante as mais de duas horas desse ótimo filme, que eu super recomendo.
quinta-feira, 24 de março de 2011
CENAS DE FILMES 1 – ENTRE DOIS AMORES
Cinema é uma grande paixão que sempre tive, namoro antigo, desses de mãos dadas, bilhetinhos, beijos e carinhos nas horas certas, com trilha sonora, cenografia, iluminação e, a grande vantagem, o único diretor que podia cortar a cena era eu. Nessa nova série, intitulada CENAS DE FILMES vou apresentar e analisar determinadas passagens que me emocionaram, me inspiraram e me fizeram voltar ao cinema várias vezes à procura daquela primeira emoção, que embora volte diferente, mais elaborada e detalhada, é sempre surpreendente. Pretendo apresentá-las de maneira sucinta, elegante, sem grandes comentários técnicos ou sociológicos, pois não é minha intenção impressionar ou convencer alguém, apenas registrar momentos importantes produzidos numa mídia cultural que eu admiro e considero fundamental. Muitas dessas passagens me serviram de escada para inícios de namoros, amizades e trocas de informações acompanhadas de vinho tinto e música instrumental de qualidade em noites de chuva, que ninguém é de ferro.
ENTRE DOIS AMORES – OUT OF AFRICA
Diretor: Sydney Pollack – 1985
Atores: Meryl Streep e Robert Redford
Baseado numa história real, o filme se passa no Quênia. Fotografia excepcional, trilha sonora de John Barry, sete Oscars, um dos melhores filmes que já vi. Em pleno deserto africano, calor, poeira, uma cena simples e de extrema sensualidade se destaca, abrindo esta série: Usando uma jarra, Denys lava os cabelos longos e cacheados de Karen com extrema habilidade. A expressão de tranqüilidade e satisfação com que ela brinda a câmera é de tirar o fôlego. Há diversas partes num corpo feminino que chamam a atenção dos homens, mas duas delas são especiais: cabelos e pés. Redford é um ótimo ator, empresta seu charme e segurança aos personagens como poucos. Meryl é, na minha opinião, a maior atriz de todos os tempos. Já protagonizou muitos filmes e cenas espetaculares, densas, dramáticas, cômicas, românticas, mas essa cena é extraordinariamente bem filmada. Escolas de arte cinematográfica e de preparação de modelos fotográficas deveriam estudá-la, agências de publicidade poderiam usá-la como case para ajudar aos lindos e iniciantes rostinhos como passar naturalidade, intensidade e sensualidade em seus trabalhos. Recomendo que a vejam ou revejam, depois me contem se gostaram. Gravando !!!!
ENTRE DOIS AMORES – OUT OF AFRICA
Diretor: Sydney Pollack – 1985
Atores: Meryl Streep e Robert Redford
Baseado numa história real, o filme se passa no Quênia. Fotografia excepcional, trilha sonora de John Barry, sete Oscars, um dos melhores filmes que já vi. Em pleno deserto africano, calor, poeira, uma cena simples e de extrema sensualidade se destaca, abrindo esta série: Usando uma jarra, Denys lava os cabelos longos e cacheados de Karen com extrema habilidade. A expressão de tranqüilidade e satisfação com que ela brinda a câmera é de tirar o fôlego. Há diversas partes num corpo feminino que chamam a atenção dos homens, mas duas delas são especiais: cabelos e pés. Redford é um ótimo ator, empresta seu charme e segurança aos personagens como poucos. Meryl é, na minha opinião, a maior atriz de todos os tempos. Já protagonizou muitos filmes e cenas espetaculares, densas, dramáticas, cômicas, românticas, mas essa cena é extraordinariamente bem filmada. Escolas de arte cinematográfica e de preparação de modelos fotográficas deveriam estudá-la, agências de publicidade poderiam usá-la como case para ajudar aos lindos e iniciantes rostinhos como passar naturalidade, intensidade e sensualidade em seus trabalhos. Recomendo que a vejam ou revejam, depois me contem se gostaram. Gravando !!!!
sexta-feira, 18 de março de 2011
POEMA DA VIVÊNCIA MUSICAL
Saindo da cama, abriu a janela à procura de sol
enquanto ele, cheio de si, continuava deitado lá,
sentia-se ré naquele clima de falta de harmonia,
pausas falavam mais que discursos repletos de dós e
agora breves, diminutos, suspensos na pauta do dia.
Carente de improvisos, intuiu a abertura da hora
de ganhar ritmo e alçar vôo solo por outras trilhas,
numa condução de vida mais dinâmica, vibrante,
menos confusa, afinada em margem mínima de erros,
nada de compassos de espera, necessitava aplausos.
Partiu, assim, em todos os sentidos, cores e tons,
sonhos outrora esquecidos, lacrados a quatro chaves
ora pediam atenção, técnica, divisão e concentração.
O modo firme das batidas de seu coração alterado e
pulsante se mixando a um coro uníssono de energia
conduzia ao grand finale, onde agora tudo recomeçava.
NOTA DO AUTOR: Leitores amigos, esta poesia fala de encontros e desencontros, usando pano de fundo musical que dita os sons e acompanha os atos numa seqüência dramática, mas libertária. Agora, peço que a releiam, identifiquem e anotem a quantidade encontrada de expressões e conceitos musicais, uns claros, outros nem tanto. Sugiro paciência aos três mosqueteiros, músicos geniais e profundos conhecedores do tema, para que respirem um pouco, guardem a resposta e se manifestem por último. É apenas uma brincadeira, um jogo de palavras. Sintam-se abraçados.
enquanto ele, cheio de si, continuava deitado lá,
sentia-se ré naquele clima de falta de harmonia,
pausas falavam mais que discursos repletos de dós e
agora breves, diminutos, suspensos na pauta do dia.
Carente de improvisos, intuiu a abertura da hora
de ganhar ritmo e alçar vôo solo por outras trilhas,
numa condução de vida mais dinâmica, vibrante,
menos confusa, afinada em margem mínima de erros,
nada de compassos de espera, necessitava aplausos.
Partiu, assim, em todos os sentidos, cores e tons,
sonhos outrora esquecidos, lacrados a quatro chaves
ora pediam atenção, técnica, divisão e concentração.
O modo firme das batidas de seu coração alterado e
pulsante se mixando a um coro uníssono de energia
conduzia ao grand finale, onde agora tudo recomeçava.
NOTA DO AUTOR: Leitores amigos, esta poesia fala de encontros e desencontros, usando pano de fundo musical que dita os sons e acompanha os atos numa seqüência dramática, mas libertária. Agora, peço que a releiam, identifiquem e anotem a quantidade encontrada de expressões e conceitos musicais, uns claros, outros nem tanto. Sugiro paciência aos três mosqueteiros, músicos geniais e profundos conhecedores do tema, para que respirem um pouco, guardem a resposta e se manifestem por último. É apenas uma brincadeira, um jogo de palavras. Sintam-se abraçados.
domingo, 13 de março de 2011
RELEITURAS 5 – A SÉRIE LEVADA A SÉRIO
APERTE O CINTO QUE O PILOTO EMAGRECEU
“Pedimos sua atenção para demonstração do nosso equipamento de emergência. Em caso de despressurização da cabine, máscaras individuais cairão automaticamente dos painéis acima de seus lugares. Puxe a máscara mais próxima para liberar o oxigênio, aplique-a sobre o nariz e a boca e respire normalmente. Lembramos que os assentos de suas poltronas são flutuantes.”
RELEITURA
Meu amigo, no finalzinho daquela tortura que acostumamos chamar de vôo (o sujeito fica com a perna dormente pois não consegue dobrá-la, isso sem falar no pinto dentro do bolso de moedas da calça), vem aquela vozinha lendo um testículo, com a maior cara de pau, que agradece a preferência do passageiro porque a escolha da companhia é um direito do cidadão!!! Dá um tempo, oh filisteu!!! Num país com extensão territorial continental, onde cabem uns quatro países europeus mais metade da América do Sul e só temos duas companhias aéreas???? Que escolha é essa??? É encarar um gol contra ou se fazer de tantã, não tem saída!!! Vamos abrir concorrência internacional e oferecer opções reais a quem precisa viajar, afinal tudo na vida é passageiro, mas isso está ficando ridículo. Eu fico rindo e, ao mesmo tempo mais compreensivo, quando imagino as viagens das seleções de basquete ou de vôlei, já pensaram como deve ser??? E quando esses atletas vão ao banheiro??? Haja contorcionismo... Esse aviso de despressurização é o mesmo que afirmar: em caso de pane, não temos a menor idéia da causa do problema e nem do que fazer, daí ganhamos um tempo, pois vocês ficam entretidos tentando ajustar a porra da máscara no rosto, enquanto o comissário lê o manual de emergência e tenta descobrir alguma coisa!!! E tem mais, essa dos assentos serem flutuantes em case do boeing cair no mar é uma sacanagem... Seria mais justo sugerir viajarmos com a identidade presa entre os dentes, pois isso facilitaria a identificação dos cadáveres. Sente o clima: o avião cai em parafuso de uma altura de mais de dez quilômetros e o bóia fria tem a esperança de se agarrar em seu assento e se safar lembrando das aulinhas de natação quando tinha dez anos??? Hoje a música vai ser: ‘Foi por medo de avião, que eu segurei pela primeira vez a sua mão’...
“Pedimos sua atenção para demonstração do nosso equipamento de emergência. Em caso de despressurização da cabine, máscaras individuais cairão automaticamente dos painéis acima de seus lugares. Puxe a máscara mais próxima para liberar o oxigênio, aplique-a sobre o nariz e a boca e respire normalmente. Lembramos que os assentos de suas poltronas são flutuantes.”
RELEITURA
Meu amigo, no finalzinho daquela tortura que acostumamos chamar de vôo (o sujeito fica com a perna dormente pois não consegue dobrá-la, isso sem falar no pinto dentro do bolso de moedas da calça), vem aquela vozinha lendo um testículo, com a maior cara de pau, que agradece a preferência do passageiro porque a escolha da companhia é um direito do cidadão!!! Dá um tempo, oh filisteu!!! Num país com extensão territorial continental, onde cabem uns quatro países europeus mais metade da América do Sul e só temos duas companhias aéreas???? Que escolha é essa??? É encarar um gol contra ou se fazer de tantã, não tem saída!!! Vamos abrir concorrência internacional e oferecer opções reais a quem precisa viajar, afinal tudo na vida é passageiro, mas isso está ficando ridículo. Eu fico rindo e, ao mesmo tempo mais compreensivo, quando imagino as viagens das seleções de basquete ou de vôlei, já pensaram como deve ser??? E quando esses atletas vão ao banheiro??? Haja contorcionismo... Esse aviso de despressurização é o mesmo que afirmar: em caso de pane, não temos a menor idéia da causa do problema e nem do que fazer, daí ganhamos um tempo, pois vocês ficam entretidos tentando ajustar a porra da máscara no rosto, enquanto o comissário lê o manual de emergência e tenta descobrir alguma coisa!!! E tem mais, essa dos assentos serem flutuantes em case do boeing cair no mar é uma sacanagem... Seria mais justo sugerir viajarmos com a identidade presa entre os dentes, pois isso facilitaria a identificação dos cadáveres. Sente o clima: o avião cai em parafuso de uma altura de mais de dez quilômetros e o bóia fria tem a esperança de se agarrar em seu assento e se safar lembrando das aulinhas de natação quando tinha dez anos??? Hoje a música vai ser: ‘Foi por medo de avião, que eu segurei pela primeira vez a sua mão’...
sexta-feira, 11 de março de 2011
RELEITURAS 4 – A SÉRIE LEVADA A SÉRIO
ENTRE UMA RÃ E UM DERRAME
“Conto de fadas para mulheres do século 21: Era uma vez, numa terra muito distante, uma linda princesa, independente e cheia de auto-estima que, enquanto contemplava a natureza e pensava em como o maravilhoso lago do seu castelo estava de acordo com as conformidades ecológicas, se deparou com uma rã. Então, a rã pulou para o seu colo e disse: -Linda princesa, eu já fui um príncipe muito bonito. Mas uma bruxa má lançou-me um encanto e eu transformei-me nesta rã asquerosa. Um beijo teu, no entanto, há de me transformar de novo num belo príncipe e poderemos casar e constituir um lar feliz no teu lindo castelo. A minha mãe poderia vir morar conosco e tu poderias preparar o meu jantar, lavarias as minhas roupas, criarias os nossos filhos e viveríamos felizes para sempre... E então, naquela noite, enquanto saboreava pernas de rã à sautée, acompanhadas de um cremoso molho acebolado e de um finíssimo vinho branco, a princesa sorria e pensava: - Nem fo..den..do!”
RELEITURA
Aqui temos uma linda princesa que fica contemplando o seu lago, literalmente a ver navios, sozinha, entediada e encontra um sapo. A fábula conta, você se lembra, o coitado foi enfeitiçado pela maldade e inveja de uma rainha mal amada, frígida e, mais uma vez, sozinha. Ok, o sapo, na sua magnitude anfíbia, compreensivo, sabendo-se participante de uma experiência dolorosa, mas necessária, para que a rainha evoluísse e atingisse algum estágio de transcendência, entendeu a situação e ficou na dele. Aproveitou para comer todas as pererecas que apareceram durante muitos e muitos anos, inclusive a perereca da vizinha, solta na gaiola. Quando a linda princesa o encontrou, já idoso, sapo jururu, astuto, sabia que suas alternativas eram poucas: ganhar um selinho da Hebe, assistir 'Procurando Nemo' na lagoa ou ver big brother. Jogou um agá pra cima da princesa e, pela grosseria e baixaria com que ela o tratou, resoluto, inocolou veneno em seu próprio corpo e deixou que ela o matasse e 'saboreasse' no jantar suas panturilhas à dorê. Eu 'adorê' essa versão, e você, amiga leitora??? A música de fundo é: o sapo não lava o pé, não lava porque não quer, ele mora na Lagoa Rodrigo de Freitas, é flamengo e tem uma nega chamada Teresa...
“Conto de fadas para mulheres do século 21: Era uma vez, numa terra muito distante, uma linda princesa, independente e cheia de auto-estima que, enquanto contemplava a natureza e pensava em como o maravilhoso lago do seu castelo estava de acordo com as conformidades ecológicas, se deparou com uma rã. Então, a rã pulou para o seu colo e disse: -Linda princesa, eu já fui um príncipe muito bonito. Mas uma bruxa má lançou-me um encanto e eu transformei-me nesta rã asquerosa. Um beijo teu, no entanto, há de me transformar de novo num belo príncipe e poderemos casar e constituir um lar feliz no teu lindo castelo. A minha mãe poderia vir morar conosco e tu poderias preparar o meu jantar, lavarias as minhas roupas, criarias os nossos filhos e viveríamos felizes para sempre... E então, naquela noite, enquanto saboreava pernas de rã à sautée, acompanhadas de um cremoso molho acebolado e de um finíssimo vinho branco, a princesa sorria e pensava: - Nem fo..den..do!”
RELEITURA
Aqui temos uma linda princesa que fica contemplando o seu lago, literalmente a ver navios, sozinha, entediada e encontra um sapo. A fábula conta, você se lembra, o coitado foi enfeitiçado pela maldade e inveja de uma rainha mal amada, frígida e, mais uma vez, sozinha. Ok, o sapo, na sua magnitude anfíbia, compreensivo, sabendo-se participante de uma experiência dolorosa, mas necessária, para que a rainha evoluísse e atingisse algum estágio de transcendência, entendeu a situação e ficou na dele. Aproveitou para comer todas as pererecas que apareceram durante muitos e muitos anos, inclusive a perereca da vizinha, solta na gaiola. Quando a linda princesa o encontrou, já idoso, sapo jururu, astuto, sabia que suas alternativas eram poucas: ganhar um selinho da Hebe, assistir 'Procurando Nemo' na lagoa ou ver big brother. Jogou um agá pra cima da princesa e, pela grosseria e baixaria com que ela o tratou, resoluto, inocolou veneno em seu próprio corpo e deixou que ela o matasse e 'saboreasse' no jantar suas panturilhas à dorê. Eu 'adorê' essa versão, e você, amiga leitora??? A música de fundo é: o sapo não lava o pé, não lava porque não quer, ele mora na Lagoa Rodrigo de Freitas, é flamengo e tem uma nega chamada Teresa...
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