segunda-feira, 4 de julho de 2011

O TRAMPOLIM DA ALMA

Com o passar dos anos, começam a ficar frequentes aqueles momentos em que retomamos situações de nossas vidas, flash backs involuntários de nós mesmos, depósitos emocionais de comportamentos questionáveis, registros capciosos de poeira em baixo de nossos tapetes. Tem jeito não, eles insistem em montar acampamento e mostrar presença em cada vacilada de nossa concentração, no ponto morto do sinal de trânsito, no aconchego da fronha limpa e macia, na mudança da série nos aparelhos da academia, no abraço carinhoso dos filhos que sujam de chocolate a camiseta recém saída da lavanderia. Como evitar, resistir ou relevar? Atire o primeiro aparelho touchscreen, sempre disponível e nos disponibilizando a tudo e a todos, aquele que não passou por experimentações da natureza! Em meio ao nada da vida atribulada, nas requisições de atenção à mediocridade urgente, escondido entre toda aquela papelada a ser lida e assinada, eis que eles se apresentam, faceiros, em câmera lenta, folgados, acomodados e confortáveis no ar condicionado de nossos infernos astrais. Como evitar, resistir ou relevar? Quantas oportunidades perdidas para, no momento certo e pessoas em questão, desfilar o repertório completo de indelicadezas, desopilar incontestáveis argumentações em ordem crescente numérica, desencadear um arrazoado de motivos que se utilizem de vasto e complexo vocabulário da fina flor do lácio inculta e bela. Longe disso, quantas confissões gastas com ouvintes equivocados, tantas verdades reveladas em situações inadequadas, um sem número de declarações amorosas arquivadas sem direito a recursos, inúmeros discursos ensaiados com direito a suporte de iluminação, figurino e música, mas que foram mal representados e, por consequência, mal interpretados, tiros nos pés em pelica de cromo alemão nos sapateados criativos dos musicais de nossos sonhos e da nossa imaginação? Vida que segue, sala aconchegante com dimer de iluminação indireta, ogivas perfeitas varrendo mondrians milimetricamente pendurados em parafusos com buchas, brisa do mar que invade a cobertura e balança delicadamente a orquídea negra de nossa emoção, set list de orquestras com melodias preferidas de nossos bailes de formatura, tudo a serviço e gasto de modo equivocado com pessoas erradas, ingênuas, insensíveis. Como evitar, resistir ou relevar? E se, no lugar da confusa e criativa verborragia lusitana, tivéssemos simplesmente dito verdades cruas, revelando formas simples e diretas, abraços e apertos de mãos estendidos ao romance com direito a taças de vinho branco gelado, morangos maduros e Bill Evans nos convidando a dançar de rosto colado? O ministério da paciência adverte: gente lesa gera falta de gentileza!

quarta-feira, 22 de junho de 2011

O TETO EM RODOPIO

Foi a primeira pessoa que ele viu quando entrou no salão. Em meio à multidão, cores, movimentos, luzes, sons, brindes e gargalhadas, nada mais lhe chamava a atenção, nada lhe parecia novo ou interessante. Simplesmente não conseguia mais tirar os olhos dela. Acompanhava o gesticular de suas mãos como a reger a sinfonia que lhe saía da boca, tentava adivinhar o significado daquelas palavras intercaladas com sorrisos discretos, via o balançar dos cabelos que cobriam parte de seu rosto e que eram ajustados atrás das orelhas com charme e delicadeza. Quando deu por si, estava rindo sozinho e já estabelecia um avançado diálogo imaginário do que seria dito e ouvido. Levou as mãos à altura da boca para disfarçar o estado de alegria natural e nervosismo que o deixava estranhamente confiante e empolgado. Iria acontecer. Tinha que acontecer. Simplesmente adorava momentos como aquele. Ansiava por situações de completo desconhecimento, quando são estabelecidas conexões através de olhares, de gestos e códigos improvisados, conduzidos por ímpetos carnais, rubores faciais, cefaléias sutis, taquicardias controladas, adrenalina pura. Calmamente bebeu o último gole, depositou a taça de conhaque na mesinha ao lado e levantou-se. Distraída, quando percebeu estava com a mão estendida aceitando o convite para dançar. Foram até o meio do salão, olharam-se, encostaram os corpos quebrando a barreira da intimidade e começaram a mover-se em pequenos círculos, ao som de Billie. Falaram de amores passados, de longas noites em quartos de hotéis, de passeios de bicicleta pelo vale do loire, de viagens surpreendentes, de restaurantes inesquecíveis e de caminhadas noturnas nas madrugadas frias. Enquanto falavam e dançavam crescia a impressão sinestésica de que já se conheciam. Agora a orquestra tocava Cole Porter e eles estavam mais próximos e mais ousados. Passado e presente misturando-se, à medida que se revelavam e interagiam. Falaram também de antigos planos frustrados, de desequilíbrios, de viagens perigosas sem fim, de absintos, de pulsos cortados e de andaimes de pontes à mercê de transeuntes que os acudissem de volta à realidade. Intimidade e confiança estabeleciam-se de maneira tão singular e rápida, deixando-os meio inseguros e mais próximos. Àquela altura da vida, sabiam reconhecer e valorizar oportunidades, corações e mentes atraídos por alguma força que os tornara juntos e, de repente, tudo fazia sentido, tudo era convite à entrega, dúvidas e óbices iam ficando para trás. O despertador do destino tocara na mesma hora para os dois. Caso lhes fosse dada a chance de recomeçar, jamais fariam tudo de novo da mesma forma; longe disso, acreditavam que novos erros e novos acertos fossem primordiais para preservar a mística das surpresas e o colorido especial do desconhecido. Deram-se as mãos e saíram em direção à porta principal.

terça-feira, 21 de junho de 2011

ENSAIO: JUVENTUDE – MUDANÇAS x REBELDIA

Juventude: substantivo feminino que se refere ao período da vida entre a infância e a idade adulta. É a fase de contestações, de descobertas e de experimentações. Ao jovem praticamente tudo cabe, nada é impossível, nada é perfeito, tudo pode e deve mudar. Esse é um paradigma que permanece e se sustenta, pois o jovem não tem mais a dependência física e legal da criança e, ao mesmo tempo, sem a experiência e a natural acomodação do adulto, ele se lança de peito aberto questionando o mundo que o cerca, os temas sociais, antropológicos, éticos, teóricos e práticos. Essa euforia contestatória alimentada por hormônios, força física, beleza latente e autoconfiança, com frequência o levam a cometer erros, excessos e confusões, com a consequente taxação de rebeldia. O dramaturgo Nélson Rodrigues dizia, com sua contumaz ironia e sarcasmo: “a juventude é uma mal que passa rápido; se querem um conselho, envelheçam!.” Já Pedro Naves, escritor mineiro, contestava essa abordagem rodriguiana, quando dizia: “a experiência é como uma locomotiva com os faróis voltados para trás, apenas ilumina o passado, de nada lhe serve o que aprendeu, porque o futuro são apenas trevas.” O jovem é, naturalmente, um rebelde. Exatamente por conta dessa coragem de enfrentar questões estabelecidas na sociedade e de propor mudanças sem a preocupação de que tenham o mínimo sentido ou necessidade premente é que ele muitas vezes acerta, ainda que inconscientemente ou sem embasamento técnico que justifique esses acertos. Potencializados à coragem e rebeldia, o jovem traz dentro de si aspectos sensoriais importantes, que são produtos de feelings, insights, sacadas inteligentes, enfim, soluções muitas vezes simples e diretas, que passam despercebidas aos olhos de uma criança e também do adulto. O adulto, por sua vez, ao usar o bom senso e mergulhar no passado, rememorando aquelas suas várias aprontadas, erros e acertos da juventude, certamente terá paciência e lucidez para entender que o jovem apenas precisa de oportunidades, compreensão e afeto. Por estar sempre contestando e propondo mudanças em questões nas quais não tem conhecimento ou experiência, o jovem é taxado de maluco, de irresponsável, de inconsequente, mas essa abordagem adotada por muitos adultos é paradoxal: se o jovem for tímido, introspectivo e inseguro será acusado de acomodado, preguiçoso, sem iniciativa. Ao contrário, quando falante, extrovertido e independente será taxado de rebelde, folgado e perigoso. Com essa perspectiva social e cultural que se apresenta na maioria das vezes, a tendência natural do jovem é procurar ser diferente dos adultos que o cercam e que são responsáveis por sua formação. Ele não quer repetir o modelo que enxerga e contesta nos adultos, longe disso, procura pensar e agir exatamente de forma contrária. O jovem não se conforma com injustiças, ele tem um senso comum de se proteger e aos membros de sua turma contra atos e fatos que vão de encontro às suas crenças e valores. Na história política recente do país, indignados com a corrupção, falta de seriedade e abusos de autoridade, jovens universitários e estudantes do ensino médio, os caras-pintadas, foram às ruas em passeatas e ao Congresso Nacional questionar a permanência do Presidente da República no poder. A eles juntaram-se sindicados de trabalhadores, políticos, membros do clero, empresários, juristas e representantes de vários movimentos, num exemplo de manifestação democrática que acabou no episódio do impeachment de Collor, situação política até então inédita no Brasil. Graças ao ímpeto e ao sentimento contestatório da juventude, virou-se uma página na história brasileira e o que se viu depois disso foi o início de um período de crescimento e estabilidade, que permanece até os dias atuais.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

HUIT ZÉRO UN

Sim ou não
apenas diga-me sim ou não
pois, entre essas duas opções, há um mundo
e, acredite, um mundo de atalhos que irá nos engolir.

Yes or not
adiciona-me ou me apague de vez
deixe que eu a veja de perfil, em close, de costas
faça do rosto livro aberto para eu ler, escrever e decorar.

Oui ou non
decifra-me ou me devore por inteiro
nada pela metade, estamos à vontade agora
fique linda e deixe que, eu, paul, faça a nossa música.

Sì o no
transcenda-me ou me surpreenda
nossos corpos agora são lares, evitemos que
detalhes tão pequenos de nós dois fiquem para depois.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

CINCO MÚSICAS NACIONAIS COM NOMES DE MULHERES

A música brasileira é extremamente rica e versátil em estilos, vertentes e ritmos. Quanto mais se escuta, mais se aprende e mais se descobre acerca de sua qualidade e criatividade. Aqui destaco, entre muitas composições com nomes de mulheres, cinco das minhas preferidas. Ficaram de fora pérolas como Ligia, Carolina, Maria, Maria, Flora, Conceição, apenas para citar algumas das mais de cem músicas que pesquisei para fechar este trabalho. Imagino que os amigos leitores terão outras indicações e espero que as registrem nos comentários, pois isso é bom para comprovarmos a riqueza de nossa produção musical. Aproveitem!


BEATRIZ - Edu Lobo – Chico Buarque

Edu e Chico já escreveram juntos várias músicas, todas excelentes. A sensibilidade e o conhecimento de harmonia de Edu dão um sentido especial às letras do Chico. Destaco a gravação de Milton Nascimento para a trilha do musical GRANDE CIRCO MÍSTICO, de 1983, que é definitiva! Segundo Leny Andrade, atual grande dama da música brasileira, fica difícil ouvir outra gravação depois que o Bituca carimbou a versão dele para essa obra de arte. Penso que apenas uma cantora conseguiria tal feito, mas, infelizmente, ela nos deixou em 1982 e atendia pelo nome de Elis.


LUIZA – Tom Jobim

Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim é um gênio. Ponto! A qualidade de sua obra pode ser comparada aos grandes compositores e clássicos americanos e, na minha opinião, ao lado de Villa-Lobos e Chico Buarque forma a santa trindade da música brasileira de todos os tempos. Criou a bossa nova e influenciou muitos artistas, com harmonias complexas, sofisticadas e geniais pela simplicidade e originalidade. A letra dessa música é de uma beleza estética impressionante, num envolvente jogo de palavras que acompanha a melodia em crescente e emociona pela forma como ele cria atalhos e encontra saídas harmônicas surpreendentes. Adoro a gravação feita em dueto vocal com Edu Lobo, no disco Tom e Edu, de 1981.


MADALENA – Ivan Lins – Ronaldo Monteiro

Elis Regina consagrou essa música numa gravação espetacular de 1971, ainda jovem, no disco ELA. César Camargo Mariano escreveu um arranjo magnífico que explora de forma competente a extensão vocálica dela, imprimindo um crescente harmônico com balanço, sensibilidade e numa levada rítmica quebrada, diferente do registro original de Ivan Lins. Elis a regravou ao vivo em 1979 no Festival de Jazz de Montreux na Suíça, com uma super banda que incluía Hélio Delmiro (guitarra), Luisão Maia (baixo), Chico Batera (percussão) e Paulinho Braga (bateria).


MARINA – Dorival Caymmi

Um clássico da MPB, samba-canção de 1947, composto e gravado pelo mestre Dorival naquele mesmo ano. Foi registrado por outros excelentes intérpretes, como Nélson Gonçalves e Francisco Alves, mas a versão que fez mais sucesso foi a de Dick Farney, exímio pianista e cantor que possuía um registro vocálico aveludado raro, um artista completo, que se apresentou nos Estados Unidos ao lado de Nat King Cole, David Brubeck e Bill Evans. Marina recebeu inúmeras gravações, entre elas a de Maria Betânia em 1968. Gosto muito da versão pop extremamente original feita por Gilberto Gil, em 1979, no ótimo disco REALCE.


ROSA – Pixinguinha – Otávio de Sousa

Essa pérola é outra obra de arte da música popular brasileira, composta em 1917 e imortalizada através de gravações extraordinárias do seresteiro Silvio Caldas e de Orlando Silva, ‘o cantor das multidões’. Gosto muito, também, da gravação de Marisa Monte no disco MAIS, de 1998, delicada e sutil, com arranjo minimalista executado pelo tecladista japonês Ruyichi Sakamoto. Ficou elegante e moderna, mas manteve o rigor da melodia e o andamento original de valsa. A letra é um tratado perfeito de como se deve, formalmente, elogiar uma mulher, deixando-a envaidecida e, literalmente, nas nuvens.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

ESSA TAL FELICIDADE

Lá pelas tantas, quase no final do evento, alguém pergunta se o entrevistado se considerava um homem feliz. Rápido, brincalhão e espirituoso, pela primeira e única vez nas mais de duas horas ele fica sério, trava, pensa, vem aquele branco de alguns segundos e ele responde que se sente feliz quando consegue se levantar na fria madrugada da capital gaúcha para pegar um copo de água e voltar para a cama quente e confortável, sentindo-se corajoso e feliz com o ato. Saiu-se bem o poeta e cronista Fabrício Carpinejar, que falava sobre sua vida e processo criativo, enquanto ouvia alguns trechos de sua obra lidos pela atriz Bidô Galvão, no CCBB. Saia justíssima! Não é fácil definir ou mesmo falar sobre felicidade. Para mim, são aqueles momentos mágicos inesperados com variação de cinco segundos para mais e para menos sem que algo ou alguém lhe interrompa. Felicidade é uma arma quente, ironizava e previa John, antes de ser baleado por um fã, ao voltar para casa. Brincadeira sem graça do destino e das palavras, logo para alguém que pregava paz e tolerância ao dizer que tudo que precisávamos era amor, mas ‘a estrela guia não fez a bala parar’. Felicidade pode acontecer a qualquer momento: na descoberta do nome com letras mínimas na última página da lista de aprovados, no sensor da porta automática do aeroporto que mostra a pessoa querida encoberta pela bagagem, no freio do carro que funciona a tempo do garoto em sua bicicleta atravessar a faixa atrás do preocupado e atento pai, na relação de contemplados para o sonho de ter o seu espaço onde morar, no ansioso rasgar do lacre do envelope na calçada do laboratório, no primeiro choro da criança naquele corredor frio e silencioso, no brinde especial do toque inesperado de um torpedo que afunda porta-aviões na batalha naval da conquista da mulher a ser amada. Tudo isso é felicidade. E é só isso. São momentos. São fragmentos. São extras. Eles acontecem em meio ao caos da loucura diária, chegam por conta e risco do inexplicável, na briga desordenada por posições, no quebracabeças do quebrar a cabeça alheia sem escrúpulos, no cais do porto, na fria madrugada dos desabrigados, nos dez segundos de respiração profunda que evitam o mal, no tempo que se dedica ao próximo sem intenções outras que não a de oferecer atenção e compreensivo silêncio. A grande questão e dádiva cotidiana é saber identificar, saudar e valorizar esses curtos e especiais momentos, esses brindes do universo que conectam almas, que recarregam baterias, que inundam os seres do mais puro oxigênio, que existem para justificar a existência, que não entram no mérito das questões, apenas chegam, se instalam e se vão.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

A ARCA DE MANOÉ MENEZES

A seleção brasileira fez dois jogos amistosos preparatórios para a Copa América que será realizada na Argentina agora em julho: contra a Holanda, em Goiânia, placar oXo e contra a Romênia, no Pacaembu, 1x0, gol do Fred, jogo que marcou a despedida oficial do Ronaldo. Confesso que fiquei preocupado com a baixa qualidade técnica e tática do time. Sei não, se vacilar vamos pagar mico! Os poucos bons momentos ficaram por conta dos malabarismos e da criatividade do Neymar, excelente atacante e mergulhador nas horas vagas, destaque para o número de vezes em que ele se joga ao chão, característica negativa que já o deixa marcado pelos juízes. O time estava praticamente completo, faltando apenas a dupla Pato e Ganso. É pouco bicho pra resolver tantos problemas e, se brincar, a vaca vai pro brejo! Pra quem viu as feras do Saldanha, a elegância do Falcão e tantos outros cobras do time canarinho é de ficar com a pulga atrás da orelha, afinal ninguém tem sangue de barata pra aguentar tanta zebra. Em quinze minutos, o Fenômeno teve boas oportunidades de marcar, apesar da rapidez de tartaruga e da forma estilo fora de forma, lá pelas tantas recebeu um toque sutil de Robinho e mandou um pombo sem asa que destruiu a caixa de isopor do garoto do picolé, na arquibancada, setor pqp. Nos bons tempos, ágil feito serpente, ele colocaria a bola onde a coruja dorme e nem um goleiro com olhos de águia e rapidez de lince evitaria o lance, uma pintura, que deixaria a torcida pulando feito cabrito, feliz como pinto no lixo e o técnico adversário com cara de cão chupando manga. Mas isso faz parte de um passado glorioso, agora é tirar o cavalinho da chuva, aproveitar a ótima aposentadoria ao lado dos tubarões especuladores de carreiras alheias, abraçar amigos ursos de plantão e lavar a égua de felicidade. Como diria o narrador oficial: que beleza!!!!

segunda-feira, 9 de maio de 2011

PROJETO CULTURAL PENSAR BRASÍLIA

UM ENSAIO SOBRE IDEIAS E AÇÕES A SEREM IMPLEMENTADAS NA CAPITAL


Brasília é o grande centro das atenções políticas, concentra embaixadas e organismos internacionais, tem o maior nível per capita do país, com localização centralizada e estratégica, grande parte da população tem formação educacional superior, viaja ao exterior com freqüência, possui nível cultural destacado, demonstra interesse e tem acesso a eventos e produções culturais de modo geral.

Entretanto, essa massa populacional concentrada, politizada, privilegiada tem carência de mais produções locais, com organização, infraestrutura e segurança. Com frequência, o público brasiliense se desloca para outros estados para se informar, prestigiar e assistir shows internacionais, eventos esportivos, entretenimento ou fazer turismo nacional e internacional.

Artistas consagrados costumam mencionar em coletivas de imprensa a importância de se apresentarem na capital, sobretudo em função da qualificação intelectual do público, informado, exigente e participativo. Além do público distinto, aqui são formados músicos, atores, dançarinos e esportistas que se destacam pela qualidade, originalidade e vanguarda. Aqui se estuda muito, treina-se muito, a falta de praia e a facilidade de deslocamento contribuem para essa base na formação.

Dada à diversidade cultural da população, que veio de outros centros do país e do mundo para trabalhar, estudar, representar grupos financeiros ou montar negócios, além dos aqui nascidos, que optaram por permanecer na cidade e desenvolver seu lado empreendedor, não necessariamente ligado ao setor público, a cidade cresce na área de serviços e eventos criados para esse público.

Apesar do muito que já foi desenvolvido e produzido, ainda há espaço para crescimento, profissionalização, há que se criar uma cultura de consumo que permita aos artistas ficar aqui, perto de suas famílias e de seu espaço de estudo, treino e aprimoramento. A idéia é chamar a atenção do público de outros centros para que se desloquem para a capital, para que consumam cultura, serviços e produtos locais, ganhando espaço na mídia em geral e atraindo cada vez mais pessoas, grupos e investidores.

Essa esperança de que tudo aconteça intensamente é posta contra a parede, quando vemos o descaso com que são tratados alguns centros formadores de talentos, a precariedade das instalações, a falta de manutenção, o desconforto com que professores, técnicos e alunos são obrigados a passar. É incompreensível como espaços que já formaram e projetaram talentos geniais, artistas e esportistas destacados no exterior, verdadeiros expoentes e, no entanto, esses locais estão sendo destruídos pela falta de uma política cultural e educacional inteligente, competente e compatível com os valores que aqui se encontram. Algumas ações envolvem trabalhos integrados nas áreas de educação, cultura, turismo e esportes, ou seja, todos órgãos voltados para o bem estar mental, físico e cultural dos cidadãos. Exemplos:


ESCOLA DE MÚSICA DE BRASÍLIA

Trata-se de um verdadeiro centro de excelência em ensino de música, formação de músicos, bandas e orquestras. Quantos talentos ali formados se destacam como músicos, professores e líderes formadores de opinião na área musical e cultural, além de representar um excelente mercado de trabalho. O Curso de Verão daquela instituição atrai personalidades, músicos e alunos de várias partes do país e do mundo. Tudo isso se aplica apenas às pessoas, ao patrimônio humano, porque as instalações são extremamente precárias, as salas são apertadas, sem tratamento acústico, aparelhos de ar condicionado e ventiladores quebrados, banheiros sem condições mínimas de uso. A despeito de toda essa falta de estrutura física e desrespeito, a comunidade de professores, alunos e pais continua a freqüentar o espaço, criando e revelando talentos a cada semestre. Por tudo que já produziu e representa, a Escola de Música de Brasília merece e precisa de um projeto de reforma, o que resultará em melhores condições de ensino e será um estímulo à continuidade do excelente trabalho ali desenvolvido.


TEATRO NACIONAL

Um dos melhores teatros do país, possui ótimo palco, excelente acústica, espaço que possibilita apresentações de música, teatro, dança e performances de qualquer natureza, mas está em péssimo estado de conservação. As três salas: Villa-Lobos, com 1.300 lugares, Martins Pena, com 500 lugares e Cláudio Santoro, com 80 lugares para concertos de câmara estão abandonadas. Os camarins estão destruídos, há infiltrações, instalações elétricas precárias que, próximas a cortinas de tecido e madeira, representam riscos de incêndio e acidentes. Músicos, atores, dançarinos, empresários, produtores pagam caro e enfrentam burocracia para ter acesso ao espaço, o público fica mal instalado, os banheiros estão praticamente interditados, não há cafeteria, bombonière, bistrô ou restaurante para que artistas e público possam se encontrar e confratenizar. As únicas reformas são feitas na parte exterior do prédio, de forma a dar uma impressão apresentável ao local, mas quem ali frequenta sabe das péssimas condições do teatro. A meu ver, há necessidade de interrupção no funcionamento e reforma em todo o espaço, com gestão profissional, inclusive no que concerne à segurança e à venda de ingressos, de forma a se evitar a ação de atravessadores e cambistas.


CINE BRASÍLIA

Quem reside na cidade e gosta de cinema já se acostumou à realidade do Cine Brasília, paradoxal, eu diria, no que se refere à sua ocupação. Durante o ano todo o cinema fica praticamente abandonado, a audiência é baixíssima, os filmes se repetem frequentemente e ficam em cartaz várias semanas, sem qualquer ação de marketing ou gestão comercial que atraia a população. Apesar de ser um local com boa acústica e ótimo espaço físico, as instalações são precárias, cadeiras rasgadas e quebradas, carpetes que nunca foram trocados desde a inauguração, infiltrações, equipamentos obsoletos e sem manutenção, um retrato de total abandono. De forma surreal e como um passe de mágica, na última semana do mês de novembro acontece o Festival de Cinema, o mais antigo e importante evento cinematográfico do país e que atrai excelente público durante toda a semana, com lançamentos, premières, palestras, discussões. O local e os convites são concorridíssimos, demonstrando o potencial cultural e comercial a ser explorado nessa área. Para que o festival aconteça, a cada ano são feitas maquiagens, como pequenos ajustes, pinturas e reparos nos banheiros. O espaço precisa ser revitalizado de forma integral e planejada, para que seja utilizado o ano todo, sobretudo porque é muito bem localizado e possui um ótimo estacionamento.


COMPLEXO SALA FUNARTE

O complexo Sala Funarte tem ótima localização, mas é pouco utilizado e valorizado. Seria interessante uma revitalização no local, transformando o espaço num verdadeiro pólo cultural e de entretenimento, uma espécie de Corredor Cultural, que iria da Torre de TV até o Centro de Convenções. A construção da nova sede do Clube do Choro e da Escola Raphael Rabello é muito bem vinda, mas há necessidade de reformas nas Salas Cássia Eller e Plínio Marcos, abertura do Planetário, instalação de salas de cinema, espaços para exposição e aulas de dança, oficinas de teatro infantil, cafés culturais, bares com música ao vivo e estacionamento compatível com o número de usuários. A experiência poderia servir como balão de ensaio para o espaço múltiplo ser replicado em cidades satélites, gerando emprego e levando cultura e arte à população em geral.


TURISMO

Enfatizando análise já abordada no início deste ensaio, aspectos como localização privilegiada, característica populacional, vocação para instalação de indústrias e serviços não poluentes, vasta rede hoteleira e excelentes restaurantes são itens que credenciam nossa capital a se tornar um grande pólo de Turismo e Lazer, a exemplo do que acontece em Las Vegas. Atualmente, aqui acontecem alguns poucos eventos, mas, de forma organizada e sistematizada, a cidade pode e deve receber eventos o ano inteiro, como congressos, shows, feiras, concursos, festivais, exposições de carros, moda, couro, franquias, móveis, jóias, ou seja, é uma vasta gama de setores a serem escolhidos e representados. Os eventos certamente atrairiam turistas e investidores e poderiam acontecer nos finais de semana, quando existe um deslocamento de políticos e seu staff para os respectivos estados de origem, de modo que essa lacuna seria preenchida e explorada comercial e culturalmente através desses eventos.

Essas idéias, traçadas nesse ensaio numa visão macro, representam nichos de atuação cultural e desenvolvimentista, que podem e devem ser exploradas e detalhadas de forma profissional, planejada, estratégica e que, bem implementadas, certamente contribuirão para o crescimento da cidade, criando novas oportunidades de emprego, projetando uma imagem positiva da capital, preparando-a para a Copa do Mundo de 2014 e inserindo-a, definitivamente, num círculo virtuoso de destaque no país e no mundo.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

DE MÉDICOS E LOUCOS

Sabe aquele antigo ditado: de médico, bipolar e louco todo mundo tem um pouco, não sabe? Ok, fiz uma pequena adaptação, pois os tempos são outros e tem gente dando boa noite no início da tarde, outros parando o carro na faixa de pedestre como recomendado, mas matando o coitado de susto, já que deveriam parar antes da faixa, tem cozinheiro confundindo cheiro verde com desodorante do hulk, tem control-alt-del aí pra dar com pau e, como já dizia mano caetano, de perto ninguém é normal. Voltemos ao plantão médico. Atire o primeiro desfibrilador quem não tem um amigo, parente ou chegado que saiba tudo de medicina, de remédios e de receitas caseiras para todo e qualquer tipo de enfermidade. Aposto que o atento leitor está rindo e lembrando-se de alguns entendidos ou situações do gênero, não é mesmo? Isso é um costume, uma tradição, um vírus, permitam-me o trocadilho, que é transmitido e pega na prática, zero de teoria, essa, quase sempre, passa longe. Antigamente, na carência de médicos graduados que não queriam ir para cidades do interior, a tarefa era ocupada por farmacêuticos experientes, respeitados, que atendiam, diagnosticavam e prescreviam medicamentos na maior tranqüilidade e segurança. Nem cobravam consulta, estava tudo embutido no preço do remédio. Lilico diria: tempo bom, não volta mais, saudade desses tempos iguais! No vácuo: tempo bom, da goiabada cascão em caixa, do compacto simples com duas pérolas e nada mais, dos maiôs brancos brincando com nossa imaginação, do padeiro na bicicleta de casa em casa vendendo roscas com cobertura de côco. Foco, meu camarada, voltemos ao plantão médico! O sujeito vai à consulta, fala tudo, demonstra conhecimento de causa graças ao doutor google, zera todas as dúvidas. Pronto, passa a régua! Pedidos de exames debaixo do braço, vai confirmar com um segundo médico e com o terceiro. Bingo! Falaram a mesma coisa, meno male. Ele chega em casa ou no trabalho e, inocente útil ou língua grande, comenta sobre a via crucis das consultas e a bateria de testes. Como quem não está muito interessado, o doutor nosso de cada dia da cadeira ao lado pede para dar uma olhada, põe os óculos de leitura, fica sério e, hipócrates dos hipócritas, manda na maior cara de pau: isso aqui não está certo!!! está faltando coisa... mas ele não pediu aquele outro... não sei não, heim!!!! A vontade que dá é dizer: você não sabe, mas o médico sabe!!! Antes de colocar aquele jaleco, o sujeito estudou uns doze anos, perdeu noites em claro nas emergências cuidando de gente que caiu do quinto andar, levou facada em briga de bar, participou de juntas médicas que discutem os casos antes de diagnosticar, mas o nosso amigo ou amiga tem opinião própria, receita florais, xaropes, pílulas, genéricos, só faltam carimbo e bloquinho personalizado!!! Já vi entendidos questionando ecografias: desculpe, mas na minha ignorância(???) acho que esse gineco (olha a intimidade) se enganou quanto ao sexo do bebê e, olhando bem, pra mim são dois e não apenas um bebê!!! Está rindo? Pois olha a cena: entrada do colégio, crianças entregues, calçada de emergência, ficam aquelas mães trocando figurinhas, uma espécie de congresso local de médicas amadoras, um zero oitocentos disque cobaia alheia infantil, qualquer nota, bossa nova, tarja multicolorida, quem dá mais? Em tempo: rápido, alguém disque 192, que esse sujeito está passando mal...

domingo, 10 de abril de 2011

CENAS DE FILMES 5 – TORMENTA

WHITE SQUALL – TORMENTA
Diretor: Ridley Scott - 1996
Atores: Jeff Bridges – Caroline Goodall

Hoje recomendo um drama excepcional. Não foi um grande sucesso de bilheteria, mas isso nos states é comum. Com a lista extensa e variada de produções e a disputa de marketing por lançamentos, ótimos filmes ficam sem espaço. O diretor Ridley Scott dispensa comentários: Thelma e Louise, Hannibal, Blade Runner, Alien, Cruzada, só para citar alguns. O enredo aborda trabalho em equipe, hierarquia, motivação, superação, temas fortes e importantes em qualquer atividade. Vamos lá: em 1961, um grupo de adolescentes embarca para uma longa viagem no veleiro "Albatroz", navio-escola comandado pelo severo capitão Christopher Sheldon que, junto com sua mulher Alice, pretende transformar aqueles jovens em homens. No decorrer da viagem, o medo que os alunos sentem pelo capitão é substituído por respeito e admiração, mas uma tragédia poderá colocar esta confiança em risco. Jeff Bridges, como sempre, dá um show de interpretação, dessa vez ao lado da linda atriz inglesa Caroline Goodall, que eu gosto muito. Vinda do teatro, ela tem um estilo de atuação clean, sem afetações, uma presença segura e tranqüila. Atualmente está em cartaz no filme ‘O retrato de Dorian Gray’, baseado no livro de Oscar Wilde. Acredite, por mais de duas horas, ‘Tormenta’ prende a atenção e a respiração do expectador, com muitas cenas de ação, suspense e embate psicológico entre as personagens. Aqui destaco uma passagem especial, quando Alice fica presa num compartimento do navio e o capitão tenta, desesperadamente, retirá-la, pois o local está ficando inundado. Ciente do perigo, mas demonstrando concentração e serenidade, em contraste com o desespero de seu marido, ela o fita num olhar profundo que é meio despedida, meio agradecimento, meio conformação. A câmera vai se aproximando e ‘fecha’ em seus olhos. A fotografia dessa cena é de uma intensidade dramática, uma verdadeira aula de expressão facial, sem texto, sem efeitos, sem grandes mudanças de planos. Talvez não seja um filme fácil de encontrar, mas vale a pena encomendar, esperar e se emocionar, com tudo a que tem direito, pipoca, ar condicionado, edredon e uma companhia sensível ao seu lado, para lhe passar a caixa de lenços descartáveis. Ação!!!

quarta-feira, 6 de abril de 2011

CENAS DE FILMES 4 – SUSIE E OS BAKER BOYS

SUSIE E OS BAKER BOYS – THE FABULOUS BAKER BOYS
Diretor: Steven Koves - 1989
Atores: Michelle Pfeiffer – Jeff Bridges

Adoro filmes que usem música de qualidade como enredo e que tenham ótimos atores. Esse é um deles. Frank e Jack Baker são dois irmãos de Seattle que tocam piano juntos em bares, mas suas poucas apresentações estão decadentes e perdendo público. Decidem mudar o formato e incluir uma cantora para participar e dar um up no show. Após testar sem sucesso trinta e sete candidatas, a dupla acaba encontrando Susie Diamond, uma mulher sensual, desbocada e agressiva que acaba se envolvendo com Jack e cria atritos entre os irmãos. Steven Koves surpreende de forma positiva, pois é seu único filme como diretor. Ele é roteirista respeitado em Hollywood e escreveu a série Harry Potter. Técnica impecável, ele utiliza a química natural entre Michelle e Jeff para criar um anticlima entre os personagens, com joguinhos de sedução, egos e competição, o que deixa a trama bem interessante. A primeira convidada para o papel de Susie foi Madonna, que acabou recusando o convite. A direção musical é de Dave Grusin, o segundo pianista preferido de meu pai - o primeiro, claro, é o compositor e produtor José Antônio Almeida. Jeff Bridges aprendeu e realmente tocou todas as músicas no filme. Embora não seja músico, ele tem muita facilidade para representar papéis do gênero, tanto que ganhou o Oscar e o Globo de Ouro em 2009 com o filme Crazy Heart - Coração Louco em que interpreta um músico country. Separei uma cena inesquecível, em que Susie canta de forma altamente sensual o tema Feelings do brasileiro Morris Albert, com um vestido vermelho s.e.n.s.a.c.i.o.n.a.l.!!! Voz pequena, mas bem colocada, ela manda muito bem e, enquanto canta, chega a subir no piano de cauda para surpreender e seduzir Jack. Charmoso e experiente, ele se faz de durão, mas são almas parecidas, artistas talentosos e calejados por relações mal sucedidas e pela difícil rotina na profissão de músicos desconhecidos e sem grandes oportunidades. Outra característica interessante e que torna esse filme especial são os desdobramentos dramáticos que permeiam as vidas das personagens, com humor, romance e drama nas medidas corretas, em cenas que se desenrolam sem obviedades, lugares comuns e sem finais previsíveis, mas isso eu não vou entrar em detalhes, deixarei você descobrir. Espero que goste. Boa diversão.

segunda-feira, 28 de março de 2011

CENAS DE FILMES 3 – QUATRO CASAMENTOS E UM FUNERAL

QUATRO CASAMENTOS E UM FUNERAL – FOUR WEDDINGS AND A FUNERAL
Diretor: Mike Newell – 1994
Atores: Hugh Grant – Andie MacDowell

Como o nome já antecipa, há realmente quatro casamentos nessa excelente comédia romântica, uma de minhas favoritas. Cinema europeu de qualidade, bem diferente do estilo americano de filmar, foi muito premiado, tem roteiro inteligente, ótimo timing de diálogos e piadas sutis, trilha musical incrível com Sting, Elton John, entre outros. Charles, londrino, solteirão, bonito e charmoso, numa das recepções se apaixona por Carrie, americana linda, misteriosa e irreverente. Ela surge de tempos em tempos apenas nos casamentos e o deixa inseguro, transtornado e feito um tímido garotinho sem ação. A química entre o casal é perfeita, aliás, aí está o segredo de uma comédia romântica de sucesso, a escolha e direção dos atores principais; o público tem que se emocionar e ficar torcendo para os dois, independente do que façam e se ficarão juntos ou não. Destaco uma cena hilária: desanimado com os vários desencontros naquela relação indefinida, Charles não resiste aos assédios da fila de pretendentes e resolve se casar. No meio da cerimônia, a americana reaparece sem ser convidada e o deixa todo transtornado, tremendo e andando de um lado para o outro na sacristia. Ritual na ponta da língua, o padre pergunta se há alguém que saiba de algo que possa impedir o casamento. O irmão dele se apresenta para ‘depor’. Detalhe: ele é surdo-mudo. Fala gestual, decidido, começa a esclarecer e convencer Charles de que aquilo tudo é um grande erro, que será infeliz, pois ama outra pessoa. Igreja lotada, clima tenso e formal até o teto, parentes e convidados ouvem, perplexos, o próprio Charles traduzindo a linha de argumentação do irmão e, quando ele finalmente revela que gosta de outra pessoa, o caos se estabelece, a noiva aplica um direto à la anderson silva no rosto do vacilão e se retira, muito pêdavida. Há várias passagens engraçadas nas cerimônias e também aquelas situações surrealistas que acontecem em recepções de casamentos, as gafes, as roupas, os amigos de infância se encontrando e trocando confidências. O leitor deve estar curioso quanto ao funeral do título. Trata-se de uma cena muito bem feita, complexa, com humor, emoção e revelações surpreendentes. Só não entendi porque você ainda está aí, parada, lendo. Trate de levantar e correr para a locadora mais próxima. Obrigado pela atenção e bom divertimento.

sexta-feira, 25 de março de 2011

CENAS DE FILMES 2 - AS PONTES DE MADISON

AS PONTES DE MADISON – THE BRIDGES OF MADISON COUNTY
Diretor: Clinton Eastwood – 1995
Atores: Meryl Streep e Clint Eastwood

A caminhonete está parada no semáforo. Robert deixa a seta ligada, indicando que tomará a direção de saída da pequena cidade em Iowa e nunca mais voltará. No carro atrás, ao lado do marido, Francesca, angustiada, entende a mensagem implícita naquele código decisivo e tem poucos segundos para optar entre dois caminhos tortuosos: sair do carro, entrar na caminhonete, abandonar casa, marido, filhos e ir embora com um desconhecido que, em apenas quatro dias, decifrou-lhe um lado impulsivo que ela própria desconhecia, valorizou-a em sua simplicidade, devolveu-lhe energia, trouxe-lhe risos, deu-lhe prazer e nenhuma dica de como seria o futuro ao lado de um fotógrafo, viajante do mundo a serviço da National Geographic. A segunda opção? Bem mais simples: fazer absolutamente nada. Continuar sentada, voltar para a segurança de seu lar, cuidar do maridão e dos filhos pequenos, cozinhar, limpar, envelhecer com a lembrança marcante daquele rápido e surpreendente romance, que ela teria que guardar em eterno segredo. Corta!!!! Bom, quem viu se lembra, quem não viu é melhor parar de ler aqui e alugar o filme... Tempo esgotado! Silêncio, gravando!!! Num pranto contido, ela acompanha a caminhonete sair da cidade, levando, no meio da poeira, sonhos e um pedaço dela. É isso, vidinha do interior que segue! Lamento, leitoras amigas, mas tenho que registrar: quem conhece as mulheres, sabe que, em não podendo compartilhar aquele romance com outro ser do mesmo sexo, coisa mais sem graça, o que mais resta a uma pobre, angustiada e sofrida mulher???? Escrever tudinho, detalhe por detalhe, guardar numa caixa e esconder em lugar estratégico, onde o pacato cidadão não tivesse a curiosidade de mexer, nem as crianças alcançariam durante muitos anos. Agora, pelo amor de Deus, no fundo ela esperava e morreu acreditando que alguma bendita alma curiosa naquele lado do Mississipi haveria de encontrar o diário e divulgar a sua história, nem que fosse o pessoal da Wikileaks. Brincadeira à parte, a nova proprietária da casa encontra o diário e o entrega aos filhos, gancho para o filme começar. A trilha sonora assinada pelo diretor, músico na vida real, é absolutamente linda! Por fim, o ministério da saúde adverte a quem for assistir pela primeira vez, que mantenha algumas caixas de clinex ao lado da pipoca, porque até os marmanjos ficam raspando a garganta e reclamando de irritação e ciscos nos olhos, durante as mais de duas horas desse ótimo filme, que eu super recomendo.

quinta-feira, 24 de março de 2011

CENAS DE FILMES 1 – ENTRE DOIS AMORES

Cinema é uma grande paixão que sempre tive, namoro antigo, desses de mãos dadas, bilhetinhos, beijos e carinhos nas horas certas, com trilha sonora, cenografia, iluminação e, a grande vantagem, o único diretor que podia cortar a cena era eu. Nessa nova série, intitulada CENAS DE FILMES vou apresentar e analisar determinadas passagens que me emocionaram, me inspiraram e me fizeram voltar ao cinema várias vezes à procura daquela primeira emoção, que embora volte diferente, mais elaborada e detalhada, é sempre surpreendente. Pretendo apresentá-las de maneira sucinta, elegante, sem grandes comentários técnicos ou sociológicos, pois não é minha intenção impressionar ou convencer alguém, apenas registrar momentos importantes produzidos numa mídia cultural que eu admiro e considero fundamental. Muitas dessas passagens me serviram de escada para inícios de namoros, amizades e trocas de informações acompanhadas de vinho tinto e música instrumental de qualidade em noites de chuva, que ninguém é de ferro.


ENTRE DOIS AMORES – OUT OF AFRICA
Diretor: Sydney Pollack – 1985
Atores: Meryl Streep e Robert Redford

Baseado numa história real, o filme se passa no Quênia. Fotografia excepcional, trilha sonora de John Barry, sete Oscars, um dos melhores filmes que já vi. Em pleno deserto africano, calor, poeira, uma cena simples e de extrema sensualidade se destaca, abrindo esta série: Usando uma jarra, Denys lava os cabelos longos e cacheados de Karen com extrema habilidade. A expressão de tranqüilidade e satisfação com que ela brinda a câmera é de tirar o fôlego. Há diversas partes num corpo feminino que chamam a atenção dos homens, mas duas delas são especiais: cabelos e pés. Redford é um ótimo ator, empresta seu charme e segurança aos personagens como poucos. Meryl é, na minha opinião, a maior atriz de todos os tempos. Já protagonizou muitos filmes e cenas espetaculares, densas, dramáticas, cômicas, românticas, mas essa cena é extraordinariamente bem filmada. Escolas de arte cinematográfica e de preparação de modelos fotográficas deveriam estudá-la, agências de publicidade poderiam usá-la como case para ajudar aos lindos e iniciantes rostinhos como passar naturalidade, intensidade e sensualidade em seus trabalhos. Recomendo que a vejam ou revejam, depois me contem se gostaram. Gravando !!!!

sexta-feira, 18 de março de 2011

POEMA DA VIVÊNCIA MUSICAL

Saindo da cama, abriu a janela à procura de sol
enquanto ele, cheio de si, continuava deitado lá,
sentia-se ré naquele clima de falta de harmonia,
pausas falavam mais que discursos repletos de dós e
agora breves, diminutos, suspensos na pauta do dia.

Carente de improvisos, intuiu a abertura da hora
de ganhar ritmo e alçar vôo solo por outras trilhas,
numa condução de vida mais dinâmica, vibrante,
menos confusa, afinada em margem mínima de erros,
nada de compassos de espera, necessitava aplausos.

Partiu, assim, em todos os sentidos, cores e tons,
sonhos outrora esquecidos, lacrados a quatro chaves
ora pediam atenção, técnica, divisão e concentração.

O modo firme das batidas de seu coração alterado e
pulsante se mixando a um coro uníssono de energia
conduzia ao grand finale, onde agora tudo recomeçava.



NOTA DO AUTOR: Leitores amigos, esta poesia fala de encontros e desencontros, usando pano de fundo musical que dita os sons e acompanha os atos numa seqüência dramática, mas libertária. Agora, peço que a releiam, identifiquem e anotem a quantidade encontrada de expressões e conceitos musicais, uns claros, outros nem tanto. Sugiro paciência aos três mosqueteiros, músicos geniais e profundos conhecedores do tema, para que respirem um pouco, guardem a resposta e se manifestem por último. É apenas uma brincadeira, um jogo de palavras. Sintam-se abraçados.

domingo, 13 de março de 2011

RELEITURAS 5 – A SÉRIE LEVADA A SÉRIO

APERTE O CINTO QUE O PILOTO EMAGRECEU

“Pedimos sua atenção para demonstração do nosso equipamento de emergência. Em caso de despressurização da cabine, máscaras individuais cairão automaticamente dos painéis acima de seus lugares. Puxe a máscara mais próxima para liberar o oxigênio, aplique-a sobre o nariz e a boca e respire normalmente. Lembramos que os assentos de suas poltronas são flutuantes.”

RELEITURA

Meu amigo, no finalzinho daquela tortura que acostumamos chamar de vôo (o sujeito fica com a perna dormente pois não consegue dobrá-la, isso sem falar no pinto dentro do bolso de moedas da calça), vem aquela vozinha lendo um testículo, com a maior cara de pau, que agradece a preferência do passageiro porque a escolha da companhia é um direito do cidadão!!! Dá um tempo, oh filisteu!!! Num país com extensão territorial continental, onde cabem uns quatro países europeus mais metade da América do Sul e só temos duas companhias aéreas???? Que escolha é essa??? É encarar um gol contra ou se fazer de tantã, não tem saída!!! Vamos abrir concorrência internacional e oferecer opções reais a quem precisa viajar, afinal tudo na vida é passageiro, mas isso está ficando ridículo. Eu fico rindo e, ao mesmo tempo mais compreensivo, quando imagino as viagens das seleções de basquete ou de vôlei, já pensaram como deve ser??? E quando esses atletas vão ao banheiro??? Haja contorcionismo... Esse aviso de despressurização é o mesmo que afirmar: em caso de pane, não temos a menor idéia da causa do problema e nem do que fazer, daí ganhamos um tempo, pois vocês ficam entretidos tentando ajustar a porra da máscara no rosto, enquanto o comissário lê o manual de emergência e tenta descobrir alguma coisa!!! E tem mais, essa dos assentos serem flutuantes em case do boeing cair no mar é uma sacanagem... Seria mais justo sugerir viajarmos com a identidade presa entre os dentes, pois isso facilitaria a identificação dos cadáveres. Sente o clima: o avião cai em parafuso de uma altura de mais de dez quilômetros e o bóia fria tem a esperança de se agarrar em seu assento e se safar lembrando das aulinhas de natação quando tinha dez anos??? Hoje a música vai ser: ‘Foi por medo de avião, que eu segurei pela primeira vez a sua mão’...

sexta-feira, 11 de março de 2011

RELEITURAS 4 – A SÉRIE LEVADA A SÉRIO

ENTRE UMA RÃ E UM DERRAME

“Conto de fadas para mulheres do século 21: Era uma vez, numa terra muito distante, uma linda princesa, independente e cheia de auto-estima que, enquanto contemplava a natureza e pensava em como o maravilhoso lago do seu castelo estava de acordo com as conformidades ecológicas, se deparou com uma rã. Então, a rã pulou para o seu colo e disse: -Linda princesa, eu já fui um príncipe muito bonito. Mas uma bruxa má lançou-me um encanto e eu transformei-me nesta rã asquerosa. Um beijo teu, no entanto, há de me transformar de novo num belo príncipe e poderemos casar e constituir um lar feliz no teu lindo castelo. A minha mãe poderia vir morar conosco e tu poderias preparar o meu jantar, lavarias as minhas roupas, criarias os nossos filhos e viveríamos felizes para sempre... E então, naquela noite, enquanto saboreava pernas de rã à sautée, acompanhadas de um cremoso molho acebolado e de um finíssimo vinho branco, a princesa sorria e pensava: - Nem fo..den..do!”

RELEITURA
Aqui temos uma linda princesa que fica contemplando o seu lago, literalmente a ver navios, sozinha, entediada e encontra um sapo. A fábula conta, você se lembra, o coitado foi enfeitiçado pela maldade e inveja de uma rainha mal amada, frígida e, mais uma vez, sozinha. Ok, o sapo, na sua magnitude anfíbia, compreensivo, sabendo-se participante de uma experiência dolorosa, mas necessária, para que a rainha evoluísse e atingisse algum estágio de transcendência, entendeu a situação e ficou na dele. Aproveitou para comer todas as pererecas que apareceram durante muitos e muitos anos, inclusive a perereca da vizinha, solta na gaiola. Quando a linda princesa o encontrou, já idoso, sapo jururu, astuto, sabia que suas alternativas eram poucas: ganhar um selinho da Hebe, assistir 'Procurando Nemo' na lagoa ou ver big brother. Jogou um agá pra cima da princesa e, pela grosseria e baixaria com que ela o tratou, resoluto, inocolou veneno em seu próprio corpo e deixou que ela o matasse e 'saboreasse' no jantar suas panturilhas à dorê. Eu 'adorê' essa versão, e você, amiga leitora??? A música de fundo é: o sapo não lava o pé, não lava porque não quer, ele mora na Lagoa Rodrigo de Freitas, é flamengo e tem uma nega chamada Teresa...

RELEITURAS 3 – A SÉRIE LEVADA A SÉRIO

ATRÁS DE UMA GRANDE MULHER

“Conto de fadas para mulheres do século 21: Era uma vez uma linda moça que perguntou a um lindo rapaz:- Você quer casar comigo? Ele respondeu:- NÃO! E a moça viveu feliz para sempre, foi viajar, fez compras, conheceu muitos outros rapazes, visitou muitos lugares, foi morar na praia, comprou outro carro, mobiliou sua casa, sempre estava sorrindo e de bom humor, nunca lhe faltava nada, bebia cerveja com as amigas sempre que estava com vontade e ninguém mandava nela. O rapaz ficou barrigudo, careca, o pinto caiu, a bunda murchou, ficou sozinho e pobre, pois não se constrói nada sem uma MULHER. FIM.”

RELEITURA
As mulheres são realmente surpreendentes!!! O que uma linda moça, razoavelmente normal, independente e inteligente propõe a um lindo rapaz quando o conhece? Vamos sair para jantar, ir ao cinema, tomar um café, fazer um curso de artes cênicas juntos, participar de uma corrida em grupo, e por aí vai... A linda moça, no caso, chega e manda logo: quer casar comigo???? O cara pensa: caramba, tanta coisa legal a propor e muito a se fazer antes de um relacionamento definitivo e essa maluca obsessiva tarja preta vem com proposta de casamento de cara???? Please, go check if I am in the corner, will you??? Daí a desequilibrada fica dodói e sai queimando tempo e grana pelo mundo fazendo trezentas coisas ao mesmo tempo, dando pra todo zé mané que aparece, comprando e trocando no outro dia tudo o que vê nas vitrines, tudo isso pra compensar um aprouch mal feito na medida e época erradas? Hello... Com um pouco mais de habilidade, estaria com o lindo cara fazendo tudo isso de forma equilibrada e contínua, inclusive economizando a grana do analista. Quanto ao lindo rapaz, experimenta coisas bacanas e o que acontece com seu corpo é o natural, processos de envelhecimento normal, queda de cabelo, algum ganho de peso, tudo dentro da normalidade médica e de quem se aceita. Quanto ao pinto caído, no caso do sexo masculino o viagra resolve (você pega o trem azul, o sol na cabeça...). Agora, convenhamos, que o homem precisa de uma mulher pra construir, isso é verdade: muitos empresários da construção civil já sacaram isso e estão contratando mulheres eletricistas (entendem de curto circuito), pedreiras (muitas são uma pedrada nos ovos), pintoras (sabem como brochar um homem), bombeiras (botam fogo no sossego do cidadão), marceneiras (deixam o cara duro feito tábua), entre outras. A música de fundo é: entrei de gaiato no navio, entrei, entrei pelo cano!!!!

terça-feira, 8 de março de 2011

RELEITURAS 2 – A SÉRIE LEVADA A SÉRIO

PODE BEIJAR A NOIVA

“Você promete ser fiel a ela, amá-la e respeitá-la na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, todos os dias de suas vidas, até que a morte os separe? A partir desse momento, eu os declaro marido e mulher.”

RELEITURA
Pronto. Parabéns. Acabou a cerimônia. Mundo novo, vida nova. Agora é encher a cara pra agüentar o dj com aquela criatividade musical na volta aos anos oitenta, passando por pivetesangalo até chegar ao luansantana. Já notou que a tradição é jogar arroz nos noivos na saída da igreja? Interessante, mas ninguém se lembra de jogar feijão também, afinal aquela transição ‘meu bem-meus bens’ vai virar um feijão com arroz sem tempero e com pouco sal. Lembra do futebol com os amigos nas noites de terça e quinta? E a cervejinha depois, está lembrado? E aquela descontração no sofá nas noites de quarta, zapeando todos os jogos? Bom, não é que isso vai acabar. O que muda são os comentários: vai ter jogo de novo? Mas o campeonato não acabou? Esse seu time sempre perde, né? Pois é, na moral, existe um tipo de garota pior do que aquela que não gosta de futebol: é a que gosta, não tem a menor noção de quando o time dela joga, mas se sente no dever de ser solidária e ver o jogo do seu time, ao seu ladinho! A probabilidade de vitória? A tendência de rolar um clima de mau humor? Nem Freud explica, mas eu tenho uma teoria: a mulher concorda em mexer no nome de solteira, mas isso tem um custo: vai passar os próximos anos mexendo em tudo que lhe diga respeito: seu jeito, suas roupas, seu cabelo, hábitos e piadinhas sem graça, tudo vai mudar. Roberto já mandava a boa: daqui pra frente tudo vai ser diferente, você vai aprender a ser gente e seu orgulho não vale nada!!! nada!! Mas esse falador que vos locuta vai encerrando os trabalhos aqui, pois a caixa de comentários hoje vai bombar, não é minhas amigas? O importante é que emoções eu vivi....

segunda-feira, 7 de março de 2011

RELEITURAS 1 – A SÉRIE LEVADA A SÉRIO

O DELEGADO DEU SINAL VERDE

“Você tem o direito de permanecer em silêncio; tudo o que disser poderá e será usado contra você no tribunal. Você tem direito a advogado presente durante qualquer interrogatório; se não puder pagar um, o estado lhe indicará um defensor público.”

RELEITURA:
Você está numa fria danada, falta pouco para se lascar por completo. O melhor a fazer é calar essa boca e ficar na sua. A julgar pela merda que acabou de fazer e pelo seu estilão você não deve ter grana pra pagar um advogado. A gente vai arrumar um genérico pra você, que jamais ganhou uma causa e não consegue passar no exame da OAB, mas usa terno, tem anel e uma pasta 007 pra 171 nenhum botar defeito. Assim que a imprensa sair daqui você irá conhecer nossas instalações e, no aconchego da privacidade que o espera, certamente irá nos contar em detalhes a sua versão do acontecido. Ao não concordarmos com ela, usaremos técnica moderna, sutil e eficiente que lhe ajudará, consideravelmente, a recobrar a memória. Quando, no afã de sua fase reivindicatória, alegar ser trabalhador e pedir uma oportunidade, nossos consultores usarão um objeto semelhante a um taco de bilhar revestido de borracha, com os dizeres: oportunidade para trabalhador. Bastante experiente, nosso corpo técnico usará técnica em seu corpo que possibilitará rápido acordo entre as partes. Esqueça aqueles filmes de polícia cheios de lugar comum, o mocinho sofre o tempo todo, armadilhas aparecem direto para atrapalhar a vida dele mas, quando parece que tudo vai dar errado e que não há mais saídas, alguma coisa inesperada acontece e o bem sempre vence. Não é por aí meu garoto, aqui o buraco é mais embaixo e vale a lei do quanto mais sujo melhor. E tome cuidado com a cabeça ao entrar no carro, ou melhor: watch your head!

sexta-feira, 4 de março de 2011

DIAS DE DIVA E DIVÃ

Bateu a porta do taxi. Parado em frente ao prédio, confirmou o endereço enquanto olhava os arredores para se ambientar com tudo aquilo. Passou pela portaria e preferiu subir pelas escadas. Há muito não confiava em nada que fosse sustentado por cabos. Chegou ao quinto andar, caminhou até o fim do corredor, abriu a porta da sala e entrou. O sensor denunciou-lhe a presença. Minutos depois ela apareceu, estendeu-lhe a mão, cumprimento firme e carinhoso, um beijo no rosto. Olhos fechados, deixou que o perfume o conduzisse de volta no tempo. Sinestesia absoluta, reconhecia aquele aroma. Alta, bonita, olhos verdes, definitivamente eram verdes. Ela o ajudou a tirar o paletó, conduziu-o até o sofá, pediu que aguardasse um pouco e saiu. Afrouxando a gravata, olhava os objetos, quadros e livros, tudo em sintonia com a luz indireta que deixava o ambiente muito agradável. Entretanto, por mais que procurasse, nada havia ali que lhe fosse familiar. Precisava, desesperadamente, ouvir daquela mulher tudo ou qualquer coisa que resgatasse a memória de sua amada, que o deixara há quase um ano. Acidente de carro. Cansaço. Sono ao volante. Capotamento. Morte instantânea. Vácuo. Remexendo fotos e documentos descobrira o local onde ela estivera duas tardes por semana durante dois anos. Sentia-se curioso e inseguro do que poderia ouvir daquela estranha, confidente e detentora de segredos e confissões da pessoa mais importante de sua vida. Tinha a sensação de que já não a conhecia mais. No processo de desconstrução de sua imagem, começara a fechar e abrir compartimentos como forma de defesa. A cânula aspirou, sem dó nem coerência, gordura junto com sangue, tecidos, músculos, nervos, restaram carne, ossos e um inexplicável instinto de sobrevivência. Agora precisava recorrer a fotos para se lembrar de seu rosto. Luto e luta para se recompor e voltar a viver levaram de sua mente e de seu coração sentimentos bons e ruins. O gosto era de que, mesmo intensa a alma, nem tudo valera a pena. Aceitou um cálice de porto. Começou a falar e perguntar, de forma desconexa e desconfortante, tudo que lhe vinha à mente. Explosão passada, veio o silêncio. Só então ela começou a falar, de forma segura e pausada. Olhos fechados, concentrado e tranquilo, ouviu o que a incomodava, o que sentia, de como pretendia deixá-lo embora ainda o amasse, de como guardava com ternura as longas noites de confidências, do vinho, da música e de como lamentava não cumprir o plano de ficarem sempre juntos. Quantas vezes o emudecimento se fez mais forte do que a vontade de abraçá-la, de reiterar que ainda a queria e o quanto sentia a sua falta, mesmo tendo-a ao lado. Agora nada mais importava, gavetas se fechavam, janelas guardavam o vento frio e forte do lado de fora. Aos poucos, enquanto a voz dela ia ficando distante, seus ouvidos se recusavam a receber mais informações e sua mente foi ficando calma, uma certa paz outrora distante aconteceu. Desceu os cinco andares, passou pela portaria, esperou o sinal abrir, atravessou a rua e decidiu caminhar um pouco. Quase nada fazia mais sentido. Naquele momento precisava apenas caminhar.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

COLO DE MÃE

Mergulho no tempo. Vinte e sete de fevereiro de setenta e seis, Divinópolis, mineira cidade do Divino. Desde lá mamãe nos deixou, seguiu seu caminho, partiu para outros planos de vivência e convivência. Já são mais de dois terços de minha existência sem a sua presença física, a vida passou muito depressa e a emoção ficou congelada no tempo. Porque muito doente e em longo processo de sofrimento, concordamos, sem combinação prévia, que foi o melhor que lhe aconteceu. Aceitei mas não entendi, acostumei mas não esqueci, toquei o barco mas o olhar ficou naquele cais. Fiquei assim, sem latim, sem treino, sem muita conversa, sem troca de intimidades, sem desabafos, ficou assim. E o que ficou, o que teria sido, o que não foi e nunca será? Não fosse o amor, a serenidade e o exemplo de nosso pai, nada teria valido a pena, nada teria feito sentido, seria vida desvivida. Mas tudo valeu, evoluiu, os dias se alternaram, as estações vieram e se foram, emoção e razão caminhando lado a lado, lágrimas contidas e sorrisos amarelos ocupando todos os espaços. Aos dezessete, quando se apresenta a fase adulta, quando ficam pra trás as tolices da adolescência, quando se quer e é preciso mudar o verbo e dizer tudo o que não foi dito, elogiar, agradecer, desculpar-se, nada disso foi possível porque ela não estava mais lá. Uma vez sem Lia, eu lia e relia meus cadernos e anotações do que me fazia bem e me confortava, eu escrevia e declamava em voz alta pra mim mesmo que algum sentido e que coisas boas estavam no forno da alma, no aroma perfumado dos temperos do bem, na neblina que esconde e aos poucos mostra a curva bem feita da vida. Na conversa diária desses trinta e cinco anos muito já foi dito, agradecido, pedido e confessado, coisa de mãe e filho, olhares que já vêm com legendas, risos com trilha musical, lágrimas coloridas, arco íris da vida que tudo constrói e explica. Lembro que era linda, séria, carinhosa, presente, ela era um presente! Sua beleza ficou impregnada e brilhante nos rostos e maneiras de filhos, sobrinhas, netas e bisneta, e isso é muito bom de ver. Quando o escuro se pronuncia e o silêncio invade minhas entranhas, pego minhas coisas e entro num lugar imaginário, universo próprio de quem fez por merecer um pouco de paz, uma espécie de depósito onde os sonhos foram guardados, onde tudo foi dito e nada ficou a dever. É de lá que vem o ar, é lá onde eu fico, durmo, acordo e volto para os que amo.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

A MOÇA DA BICICLETA

Ela adorava as manhãs de sábado. Esperava ansiosamente que chegassem logo as manhãs de sábado. Pegava sua bicicleta e saía, feliz, pelos vilarejos, pelos campos, passava por rios, sempre alegre. Ia visitar os enfermos e necessitados, doentes crônicos ou aqueles que tivessem passado por um pequeno acidente qualquer. Era um anjo que andava de bicicleta. Todos a cumprimentavam e ela acenava, sem diminuir o ritmo das pedaladas, precisava fazer muitas visitas. Era uma reabilitadora. Adorava fazer isso, ajudar pessoas a reaver seus movimentos, voltar à rotina diária, recuperar a auto-estima e tocar o barco da vida. Era uma reabilitadora de almas. Sentia tamanho prazer em seu ofício, acreditava que todos mereciam uma segunda chance e tomava para si as dores, as dificuldades, toda espécie de deficiências. Não havia limitação ou impossibilidade para ela em sua missão, tudo podia sempre melhorar, nada havia que a desanimasse ou que a fizesse desistir do seu trabalho. Era uma reabilitadora de corpos, de almas e de mentes. Na adolescência, acostumara a cuidar de sua mãe com massagens, compressas e conversas. Sabia contar estórias. Gostava disso. Ela as inventava enquanto deslizava as mãos, de forma cadenciada e suave. Suas mãos pequenas e macias percorriam os corpos, os músculos, nervos e ossos preguiçosos sucumbiam ao seu toque e respondiam de forma surpreendente. Criava uma estória para cada paciente, velhos, crianças, a todos dedicava um tema. Ao final dos encontros, prendia a estória no varal da imaginação de cada um e retomava do ponto exato, a cada sábado, a cada visita. Era uma reabilitadora e todos mereciam uma segunda chance. Sonhava conhecer o mar, viajar e ficar deitada no convés de uma embarcação olhando a lua e as estrelas, naquela imensidão sem fim, ouvindo o barulho das ondas e sentindo o vento forte em seu rosto. No fundo de seu coração, sentia que esse sonho nunca chegaria, que nunca sairia daquele lugar, que tanto amava e onde crescera. Sabia dosar sonhos, queria contar estórias, podia ajudar pessoas. Sempre haveria manhãs de sábado. Pegava sua bicicleta e saía, feliz.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

O ABC DO BBB

Durante o comercial, o charmoso apresentador manda aquela vinheta, de boca cheia: preparem-se para visitar a casa mais falada do país, a mais famosa, a mais animada!!! As famílias brasileiras se ajeitam no conforto de seus sofás, impacientes, curiosas, de norte a sul, dos oito aos oitenta: vai começar o abc do bbb. O falador que locuta a chamada pula a parte informativa de que serão hipnotizados, torturados e alienados, tudo em nome da cultura e dos bons costumes locais. Já sei, muitos não concordam, outros se sentem ofendidos, serei chamado de radical, insensível, mas a vida é isso, cada um no seu quadrado, e bota quadrado e enquadramento nisso... Confesso minha ignorância, minha incapacidade de entender a riqueza da formatação do programa, os diálogos, a trama, tudo tão sofisticado que me passa batido, não consigo captar a magnitude desse evento que literalmente une e pára o país. Quando aqui chegou, o programa já fazia sucesso nos States, Itália, França, Japão, entre outros. A diferença é que esses países interromperam a transmissão dois anos depois, pela baixa audiência e desinteresse dos patrocinadores, mas aqui a coisa pegou e já se vai mais de uma década de sucesso. Outros canais tentaram competir, Casa dos Artistas no Sbt, A Fazenda na Record, mas nada se compara ao BBB. Fico impressionado com a qualidade dos diálogos, as argumentações, quando será que a gostosona siliconada vai beijar o saradão, estão apenas se apalpando ou rolou uma transa debaixo do edredon? Será assim a vida real? Quem, com um mínimo de sanidade mental, fica falando sozinho no quarto, olhando para as paredes, inconformado, lágrimas escorrendo, enquanto se posiciona em direção à câmera 'escondida' no teto? Em que mundo de tanta mediocridade haveria habitantes desse naipe? A emissora pega os espectadores numa hora de descontração, banho tomado, jantar maneiro, horário nobre, momento perfeito para educar, informar, questionar, mas a direção prefere usar a grade para alienar, deseducar, inverter valores, dar espaço e tornar famosas pessoas sem o mínimo de talento dramático, dispostas a tudo para virar celebridade a caminho da ilha de Caras. Penso que, nos piores delírios maquiavélicos dos produtores, a idéia é apresentar a novela das oito, ou nove, sei lá, onde famosos tentam se comportar como pessoas comuns e depois, no bbb, comuns tentam se passar por famosos. Fico imaginando um reality show desses com pessoas realmente cultas, inteligentes, interessantes, discutindo e apresentando temas, de forma didática, popular, acessível, sem desfiles melodramáticos de apresentação nem egos inflados, imagino como seria produtivo, agradável, um verdadeiro serviço prestado à cultura, vindo de quem domina e concentra a mídia nacional. Houve projetos, no passado, quando concertos eruditos foram apresentados ao ar livre e eram concorridíssimos, a população mais humilde respondia de forma emocionante, com atenção, interesse e gratidão a oportunidade de acesso a eventos daquela natureza. O poeta Fernando Brant já cantou a pedra há muito tempo: 'todo artista tem de ir aonde o povo está, se for assim, assim será'! Beleza, mas corta, pois o apresentador charmoso está de volta e, de forma natural, minha mente busca adjetivos e termos afins com as iniciais do programa: bbb de bobagem, de besteira, de brega, de bigamia, de babaquice, de briga, de baixeza, de baitolagem, de bial.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

POEMA PARA BRUNO

Bruno sonhou muito, carinha de anjo, sorriu dormindo,
despertou tranquilo, descansado, espreguiçou bastante
e quando ele acorda tudo começa a funcionar,
a vida fica mais legal e o sol trata de aparecer.

Bruno vai fazer dez anos, craque, vai fazer dez gols,
tem barriga de tanquinho, corpo são em mente sã,
popular, faz muitos amigos e brinca com todos,
gargalhada deliciosa, cócegas da cabeça aos pés.

Assim que chegou, Bruno tratou de achar seu espaço,
tarefa complicada, família arrumada, mas ele venceu,
logo mostrou seu talento, adivinhou como encantar e
não parou mais de conquistar, de crescer e brilhar.

Bruno vai tocar baixo, bateria, guitarra e cantar Help,
se diverte com seu irmão e juntos vão ganhar o mundo,
esse vasto mundo ficará pequeno quando Bruno viajar,
janelas e portas abertas, verão os verões por chegar.

Bruno é carinhoso, gosta de abraços, beijos e cafunés,
curioso, desafia o tempo e pergunta tudo o que quer,
tratei de fazer um acordo com seu anjinho da guarda e
combinamos que ele terá dias lindos e será muito feliz.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

CARTA PARA RAFAEL

Rafael, filho querido, há doze anos você nos brindou com sua chegada, de forma única e marcante. Obrigado por ter vindo. Eu estava lá quando você apareceu, aos poucos, ajudando, chorando, aceitando aquela mudança abrupta de espaço, temperatura, textura, claridade, vozes, mas tudo de forma tranquila e bela. Assim que o conduziram à sala ao lado para os procedimentos de limpeza, pesagem e medição a enfermeira o enrolou bem apertado, arrumadinho e você ficou ali, quieto, sem chorar, olhando para mim! Parecia já conhecer-me, saber que seríamos amigos, que estaríamos juntos e que nada de mal nos aconteceria. Filho, você não faz ideia de como eu me senti feliz ao vê-lo, de como tudo se modificou e se fez mais brilhante e mais importante em minha vida. Naquele momento, algo dentro de mim se abriu de maneira irreversível, senti que um novo ciclo se iniciava e que minha vida nunca mais seria tediosa ou questionável. Com o passar dos anos, verá que o amor entre homem e mulher muda com o tempo, também aquele entre amigos, parentes, colegas, o gostar vai se ajustando e se modificando. Já o amor que um pai sente por seu filho é imenso, é crescente, não finda e não se adapta, só aumenta, duplica, triplica e vai crescendo dia a dia em direção ao infinito. Longe de esperar anos e anos para lhe dizer isso, decidi registrar hoje, para que saiba que estarei sempre a seu lado, a auxiliá-lo, a orientá-lo em tudo, haja o que houver você terá o meu amor. Quando estiver longe, quando precisar de algo, quando disser ou fizer alguma coisa que lhe traga problemas, não importa o quê, saiba que irei até você e, juntos, resolveremos o que se apresentar. Talvez não compreenda, hoje, certas adaptações e mudanças pelas quais está passando, mas tudo vai dar certo e ficará cada vez melhor. O futuro lhe reservará muitos momentos felizes e respostas a suas dúvidas. Filho, desde pequenino você sempre foi um garoto especial. Curioso, sempre a perguntar tudo ao mesmo tempo e antes que eu lhe desse respostas já queria saber mais. Atencioso, logo demonstrou um senso de justiça muito grande. No maternal protegia crianças que eram maltratadas e fazia companhia àquelas rejeitadas pela turma. Sensível, protagonizava cenas hilárias quando chorava compulsivamente no cinema em cenas de separação ou brigas de animais e crianças. Precoce, começou a falar com desenvoltura muito cedo e a impressionar adultos pela organizada linha de argumentação. Habilidoso, sempre fez desenhos geniais em preto e branco e sempre preferiu não colorir seus trabalhos. Musical, tem facilidade e sensibilidade para distinguir estilos e tons musicais. Filho, a janela do mundo está aberta para que experimente e aproveite tanta coisa positiva, criativa e interessante. Com frequência, o mundo vai testar a sua paciência e a sua habilidade, você achará que tudo está errado, que as coisas não surtirão o efeito esperado. Pessoas tentarão lhe influenciar ou modificar o seu jeito, para que se enquadre no modo mais fácil de convivência, mas saiba que você é único. Não se engane ou perca tempo e energia tentando ou pensando ser melhor que ninguém, e nem se subestime diante de outras pessoas. Apenas seja o melhor Rafael que conseguir ser, tranquilo, confiante e consciente de que é amado e admirado. Meu querido, quando estiver triste ou desanimado, respire fundo, concentre-se e lembre-se que meus pensamentos estarão sempre com você. Seja feliz! Deus o proteja! Eu te amo!

SONÍFERA ILHA

Sempre gostei de viajar. Já não curto mais viagens longas, essas eu evito. Melhores são as de dez dias, mais baratas, sente-se menos saudades de casa e fica aquela vontade de quero mais, com motivo para voltar e explorar outros espaços. Durante muito tempo meus destinos eram as praias do nordeste e do Rio, Búzios em especial, que eu adoro. Tive várias oportunidades e convites para ir a Camboriú, Ocktoberfest e Floripa, mas deixei passar, vacilei, fazer o quê? Reparei a grave falha agora neste reveillon, quando conheci a ilha dos manezinhos. Adorei! De manés os caras não têm nada. São simples, educados e bonitos. Se o visitante estiver solteiro e sozinho, deve tomar cuidado, pois ao abastecer o carro vai se deparar com uma frentista bem vestida, sem aqueles uniformes que dispensam comentários, educada, sorridente, enquanto enche o tanque e o ambiente com muita simpatia. Quando ela perguntar se quer mais alguma coisa, o desavisado vai mandar firme: quer casar comigo? Também nos supermercados, nas farmácias, nos restaurantes, só dá gente bonita e sorridente. Quem conhece sabe, a ilha tem características interessantes, um misto de simplicidade do interior, turistas do mundo todo, festas privadas com dj’s super famosos, paulistas que mandam seus porsches, ferraris e motos de caminhão para desfilar, comme il faut, a força da grana que ergue e destrói coisas belas. Estamos em Jurerê, internacional, please..., com suas super casas, novas e modernas, grandes e claras, a maioria com placa de vende-se, para recuperar o investimento as soon as possible. Realmente o espaço e ambiente lembra muito Beverly Hills, com suas mansões sem grades ou cercas vivas. Cesta de três pontos para Jurerê, sinal de que a violência é mínima, tudo aberto, tudo certo como dois e dois são cinco. Ronaldinho Gaúcho, pagodeiro famoso contratado pela bagatela de um milhão e seiscentos mil por mês para conduzir o mengão à segunda divisão, com o auxílio luxuoso do Luxemburgo estava lá, descansando em sua casa, que ninguém é de ferro. Falar em futebol, meus meninos ficaram na maior felicidade quando conheceram o Dorival jr, técnico do GALO mais lindo do mundo, tranquilo, recarregando baterias e a caminho de muitos títulos em Beagá. Corta e volta para Jurerê, internacional please! Como ninguém é perfeito, os riquinhos desaculturados e alguns argentinos de plantão - ai que endurecer pero sin perder la ternura... na ânsia de detonar os pobres mortais, se metem a tomar champagne na praia com canapés, servidos por garçons com smoking. Acho isso de um mal gosto tremendo, bola fora total. Aquele sol de quarenta graus, areias brancas e lindos corpos pede cerveja, estupidamente gelada, com camarãozinho à milaneza. Por falar nisso, as famosas sequências de camarão são um capítulo à parte, sensacionais, aí sim, com um belo vinho branco. Mas há que se tomar cuidado com a conseqüência do camarão, fenômeno que acontece quando chega a fatura do cartão de crédito e o sujeito entra debaixo da cama e chora. Falar em choro, valeram os 'discretos' avisos do Carlão, amigo de fé e irmão camarada, advertindo-me que passar o reveillon na ilha seria a maior roubada, que eu escolhesse um lugar e ali permanecesse, imóvel, até me certificar que o ano velho tinha ficado pra trás, pois a cidade recebe o triplo da população nessa época . Ok, ele estava certo, fiquei duas horas e meia dentro do táxi no trajeto aeroporto-ingleses, o que se faz em trinta minutos noutras ocasiões. Mas valeu à pena. A ilha do Guga é muito legal. Amy Winehouse começou a sua turnê lá e mandou bem, com tudo a que tem direito: whisky caubói, tombos, fuck isso, fuck aquilo, baladas de tirar o fôlego e sua linda e privilegiada voz. Pretendo voltar logo à sonífera ilha, que descansa meus olhos, sossega minha boca e me enche de luz...

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

NA TAL ÉPOCA DO NATAL

'I am dreaming of a white christmas, just like the ones i used to know…’, esse é o começo do tema ‘White Christmas’ escrito por Irving Berlin, musical de grande sucesso na broadway e imortalizado na voz suave de Bing Crosby. É uma das minhas músicas favoritas de natal, provavelmente a que mais gosto. Como não temos esse natal branco, com neve por todo lado, charmoso e emocionante, sempre que a ouço penso estar num cenário apropriado, onde papai noel se sinta confortável naquela roupa vermelha, quente e de botas, já que por aqui estamos em pleno verão, quarenta graus, praias e o bom velhinho fica melhor de bermuda, regata, havaianas, boné, barba aparada e com uma cervejinha gelada, que ninguém é de ferro. Amigos leitores, não caiam da cadeira ou fiquem chateados e surpresos, mas eu não gosto de natal, não é minha época favorita, não me sinto bem, fico meio estressado e deprimido com tanto alvoroço de compras, tumultos, preparações de festas, lista de presentes, ceias e bebidas em excesso. Pronto! Falei! Corro o risco de ser chamado de chato, sem graça, insensível, mas agora que falei me sinto melhor, pode parecer politicamente incorreto, mas acho que há algumas pessoas que pensam da mesma forma e não se sentem à vontade em declarar isso. É muita confusão, estacionamentos lotados, shoppings cheios, detesto shoppings e ainda mais cheios, gosto é de comércio de rua. Compras feitas às pressas, sem tempo para escolher algo que tenha a ver com a pessoa, preços altos, estoques baixos, quanto mais se compra mais se lembra de que falta alguém e isso vira um efeito pororoca, que deixa muita gente preocupada se tem que dar presente porque acha que vai ganhar presente e por aí vai. Perde-se a espontaneidade, a tranqüilidade de dar ou receber uma lembrança na calma, a emoção fica contida, dividida, assim como a surpresa de receber um presente surpresa. Mas há que se esforçar e manter a tradição em nome das crianças, sobretudo as pequenas, que aproveitam o clima e o mistério da festa. Tenho ótimas recordações de nossos natais. Ao contrário de hoje, ganhávamos poucos presentes, mas eram caros e sempre surpresa: o primeiro autorama, jogos, brinquedos com controle remoto, máquina fotográfica, rádios, nosso papai e mamãe noel de plantão eram criativos e sempre nos surpreendiam. Os presentes só deveriam ser abertos na manhã de vinte e cinco, mas acordávamos de madrugada e, em silêncio, extasiados e felizes íamos abrindo e montando os brinquedos e jogos até amanhecer. Depois as crianças iam todas para a rua se exibir e se divertir com seus presentes, até a hora do almoço em família. Corta! É a deixa do diretor para curiosidades natalinas. Observador crítico e cronista de plantão, sempre me diverti com as comemorações de trabalho...Os almoços nas churrascarias, as trocas de presentes, que beleza!!!! Os amigos ocultos que viravam inimigos declarados, oportunidades imperdíveis para brincadeiras, surpresas e cotoveladas à vontade. E tome criatividade nos presentes: as caixas de ferramentas que ficavam no porta-malas e nunca eram usadas, os kits de beleza...os pós barba...os perfumes...o quê dizer dos perfumes??? quem ficava no lucro era a empregada, feliz da vida! Funcionários mais simples querendo impressionar o chefe com aquela garrafa de vinho, denominação chatô ressaquê, os licores de origem duvidosa, quanta alegria e tragédia juntas numa mesma festa! Uma vez ganhei uma camisa chinesa creme brilhosa, de um mal gosto inacreditável! Sorriso amarelo de agradecimento, tentava, desesperadamente, guardar aquela merda na caixa, na vã esperança de que poucos vissem aquilo e evitar o famoso: prova, prova, aí o mico seria completo. E tinha a parte dois no dia seguinte, que era descobrir quem tinha sido mais sacaneado e completar a fatura alugando o coitado a semana toda. Detalhe, imaginem a embalagem que envolvia o sofisticado produto têxtil em referência! Como desgraça pouca é bobagem, esbarrei no fumante ao lado e o distinto deixou cair uma brasa na camisa. Meus amigos, a camisa era tão vagabunda, um tecido sintético da pior qualidade que pegou fogo e se autoflagelou em dez segundos! Incrível! Acho que devia ser usada por aqueles homens bomba ou colocadas em reféns na faixa de gaza. A etiqueta com instruções de lavagem tinha um aviso de segurança: uso não recomendado em países tropicais, a fricção com o calor do corpo pode produzir faíscas e causar acidentes!!! Momentos engraçados de amizade e carinho, confraternizações que ficaram em nossas lembranças, o espírito do natal sempre prevalece, afinal, como diz a música: seja rico, seja pobre, o velhinho sempre vem. Feliz Natal!!!

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O DIA EM QUE TIRIRICA CHOROU

Antes que o leitor pense que este texto se dedica a piadas e esculhambações ao deputado Tiririca, informo que isso não acontecerá. O título da crônica pega emprestada parte do nome que o psicoterapeuta e professor da Universidade de Stanford, Irvin Yalom, escolheu para o seu romance de estreia: ‘Quando Nietzsche chorou’, combinando personagens reais e ficção, ótimo livro e que até virou filme. O que tem a ver o suposto choro do filósofo alemão com as lágrimas do comediante Tiririca, logo ele que faz todo mundo chorar de rir e a muitos alegra com suave e inocente performance circense? Quando e onde será que se encontram filosofia e comédia, cultura e ignorância, consciência e manipulação, fartura e necessidade, poder e opressão? Em que esquina do mundo, em que espaço acadêmico, em qual mesa de bar esses opostos marcaram encontro? Corta. Dois momentos: dias atrás, meu caçula gargalhava de forma contagiante e, querendo dividir comigo aquele momento, mostrou-me um vídeo no youtube com uma musiquinha do Tiririca em que ele ia preso e brincava com os colegas de cela. O jeito dele cantar era hilário, adorei! Naquele mesmo dia os jornais mostravam, em destaque, a primeira visita do deputado Tiririca ao Congresso Nacional para conhecer as instalações, fazer contato com funcionários, enfim, começar a se ambientar com as atribuições e responsabilidades parlamentares que o aguardam nos próximos quatro anos. Bem vestido, terno e gravata, cabelo aparado, centro das atenções por onde passava, causou o maior tumulto e deu trabalho à polícia legislativa da casa. Na alegre confusão, assediado e empurrado, pisaram-lhe o pé e perdeu um dos sapatos, comprados, certamente, em tamanho bem maior do que o seu número normal, a partir de hábito adquirido em anos de preparação visual condizente com o espetáculo que o aguardava. Agora terá que se acostumar a outras estratégias e sua vida mudará bastante. Ironia do destino, analfabeto funcional que mal consegue escrever, ler e entender conceitos básicos da linguagem formal, orientado a dizer a que veio e demonstrar preocupação com a liturgia do cargo, Tiririca informou que está estudando a Constituição Federal e sua intenção será melhorar as condições de vida dos artistas, ciganos e animais, não necessariamente nessa ordem. Será o representante de mais de um milhão, trezentos e cinqüenta mil paulistas, votos de amigos, admiradores, debochados, descrentes, sarcásticos e críticos da imagem que está colada à maioria dos políticos. Fico imaginando quem serão seus assessores, conselheiros e seu staff de gabinete? Da noite para o dia passará a receber salário e vantagens com as quais jamais sonhou em seus melhores contos de fada. Quantos familiares, amigos e admiradores o procuração em busca de emprego, empréstimos e doações? Quantos empresários se apresentarão como padrinhos artísticos, credores de contas atrasadas, marqueteiros e seus planos mirabolantes para elaborar projetos com destinação de verba para divertimentos, para o circo e chanchadas? Quantos cobrarão o espaço político oferecido na campanha e lhe mostrarão o colo que lhe é reservado para o exercício da política ventríloca? Como serão as piadas e brincadeiras no cafezinho, os copos furados que sujarão suas roupas novas, quantos tapinhas nas costas serão usados para colarem bilhetes de ‘chute meu traseiro’, quanto tempo perderá o nobre deputado procurando envelopes redondos para cartas circulares? Lembro-me do que aconteceu com Juruna, Moacir Franco, Agnaldo Timóteo, Clodovil, entre tantos outros. Iludidos com promessas e espaço fácil na mídia, acharam que conseguiriam se impor e usar a popularidade para combater o sistema por dentro, mas as casas legislativas e o poder não são para amadores! Há que se jogar o jogo dos profissionais, com dados e baralhos próprios, regras escusas, ética e respeito são valores depositados em cofres cujos segredos e combinações não existem. Tiririca primeiro perdeu o sapato, em seguida perderá autonomia na condução de sua vida, perderá os verdadeiros amigos, perderá o sossego, a alegria, a inocência e então verá que não conhece e não se sente humano no circo em foi colocado. Mineiro desconfiado, quisera eu estar enganado porque, no fundo, gostaria que Tiririca fosse feliz e mantivesse a criança que tem dentro de si, mas temo estar escrevendo a crônica de uma lágrima anunciada!

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

ALÔ AMIGO, PREPARE-SE PARA SER TORTURADO

Você está sentado tranquilo, tomando aquele expresso cremoso bem tirado e uma cena meio insólita lhe chama a atenção: do outro lado da rua um sujeito bem vestido fala sozinho, gesticula, leva as mãos à cabeça, anda, pára, olha para o chão, faz rodopios com o corpo enquanto ensaia uma espécie de mímica com o braço. Não, caro leitor, não há necessidade de chamar o segurança ou encomendar camisa de força, pois ele está apenas falando com alguém e usa um fone de ouvido. Antigamente, falar sozinho era coisa de maluco, agora é normal. Sinal fechado, no carro ao lado o desequilibrado grita, dá socos no volante e pelo visual não parece ser um fã tentando decorar a última música do Sepultura. Ele está é brigando com alguém no viva voz e tudo indica que alguém não vai ficar vivo quando chegar em casa. Comunicação global, entenda-se piração geral. A tecnologia disponível também pode ser de grande utilidade para algumas situações: quando estou parado no sinal, finjo que estou falando ao telefone pra me livrar de pedintes, vendedores, entregadores de folders e malabaristas do sinal vermelho. Parece cruel, mas é muita gente desconhecida e existe o aspecto segurança. Assim, vidros fechados e simulando o uso do celular, eles passam direto e vão pra outros carros. Conheço mais gente que usa essa estratégia. Algumas pessoas perderam a noção da realidade e de como incomodam os outros. Fila do banco, o sujeito franzino conversa tranquilamente com alguém, fala mansa, numa boa. Quando toca o celular, ele atende e começa a falar numa altura totalmente incompatível com o padrão vocal que ele usava há poucos segundos. Será que ele considera a hipótese da transmissão de voz não estar ideal e acha que, gritando, o sujeito do outro lado pode ouví-lo, mesmo que a ligação caia? Nesse caso, deveria pedir um desconto na operadora pelo empenho físico gasto em prol do diálogo. As pessoas conversam sem a menor cerimônia, assuntos pessoais, sigilosos, nada fica secreto, uma espécie de wikileaks ambulante, chega a ser grotesco. No escurinho do cinema ou do teatro, a garota abre o celular pra enviar o torpedo e parece que a companhia elétrica acabou de instalar um poste no local. Até lembra passagem bíblica: no terceiro dia, fez-se a luz... Pronto, o diretor contrata o melhor nome no mercado de fotografia pra cinema ou investe uma grana no projeto de iluminação da peça e a luluzinha fica ali, na segunda fila, com aquele farol de milha voltado para o resto dos idiotas, que tentam manter a concentração, mas é uma luta inglória. Tenho uma prima de Beagá que acorda cedo pra caramba e não consegue dormir mais, porque a prefeitura resolveu trocar o asfalto da rua dela em plena madrugada. É caminhão dando ré com buzina de segurança, gente que resolve namorar no skype às duas da matina, moedinha que cai no andar de cima e fica pipocando uma eternidade na cerâmica, parece uma chuva de metal pesado. Raciocina comigo, quem fica usando moedinha de madrugada? Qual é a lógica? O infeliz contrata serviço sexual e pede que a garota leve um cofrinho, pois vai pagar com moedinhas? Eu mereço... mas é como diz o outro: pior é na guerra, em que se morre e não se enterra.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

PROGRAMA T.O.S.S.E. - O INCOMODADO QUE SE RETIRE

Senhoras e senhores, boa noite! A produção agradece a presença de todos e informa que é proibido fumar, consumir bebidas, comidas e fotografar ou filmar o espetáculo. Por favor, desliguem os celulares e tenham todos uma boa diversão. Nesse momento a sala fica escura, silêncio total, clima perfeito de emoção, um certo suspense no ar e o que temos a seguir ??? Vem a primeira tosse. O segundo aproveita e tosse também. Agora um pigarro (isso deve ser mistura de pinga com cigarro), garganta arranhando e tome tosse!!! Em poucos segundos, um clima de recepção silenciosa e respeitosa aos atores vira uma sinfonia de grunhidos, rugidos, manifestações guturais, um verdadeiro cenário de guerra pneumônica, tuberculótica, resfriática, fica uma merda!!! Fala sério, estou exagerando? Estou não! É uma tristeza! Quem me conhece e está comigo nessa hora já sabe: eu fico muito puto! Em meu momento paraíso, os teatros deveriam, obrigatoriamente e sob pena de fechamento, ter um dispositivo automático preventivo para situações da natureza, de forma que o assento e o cidadão em questão seriam sugados para um calabouço e lá ficariam em silêncio absoluto numa espécie de quarentena cultural. Na minha modesta e isenta opinião, o problema desses infelizes é que não conseguem ficar concentrados para ouvir a beleza do silêncio e a pureza do som das pausas que um espaço tratado acusticamente nos oferece. O nojento tem que tossir, virar-se para o lado, alongar e estalar o pescoço, arrumar a cueca, abrir o mentex ou uma garrafa de água com gás! Olha, pensando bem, quarentena é pouco, essa gente deveria é ficar num ambiente fechado com caixas acústicas potentes de som e de retorno por todo o lado com tosses amplificadas, rangidos de portas, espirros e flatulências pra aprender o que significa alugar o ouvido alheio. Em meu momento compreensão, os teatros poderiam adotar alternativa interessante também: ao comprar o ingresso o sujeito receberia um kit-respeito-ao-próximo que incluiria cápsulas de gengibre, spray de menta, anti-inflamatório em pastilhas, cartela com duas sessões de inalação de soro fisiológico no posto de saúde mais próximo e consulta pré-agendada em clínica conveniada ao teatro com otorrino experiente em patologias da espécie e profundo conhecedor de música clássica. Pronto, com isso metade dos chatos seriam curados e a outra metade iria desistir desse processo preparatório, que eu chamaria de Programa TOSSE: iniciais de Todo Otário Será Sugado Exemplarmente. Agora relaxem e aproveitem que o espetáculo vai começar!

domingo, 12 de dezembro de 2010

VOVÔ VIU O OVO

No princípio era o ovo e a terra ficou oval,
o ovo pensou: estou frito, cozido e mal pago,
meio sem sal, mexido, virou omelete,
duro por fora mas mole por dentro,
ouviu que ovo unido jamais seria comido.

Viu que vovô tinha dois lados: um interior, caipira,
pequeno, gema escura, às claras, mais pra canavial,
simples, se ouve entende. Outro, de granja, esbanja
a todos diz gema, novo uma ova, mais pra caviar,
ignorante, óbvio, se vai ouvir sai eu não ovo.

Se é pro bem do povo diga ao ovo que fico com tudo,
ovo de serpente pede pra sair, cascadura, duro de roer,
nascimento, tentáculos do polvo, se o ovo der ré eu resolvo,
deslocado, o ovo é descolado, volta pro óvulo.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

A AMPULHETA

Família: substantivo feminino, usado para designar a união de pai, mãe, filhos, irmãos, sobrinhos, todas as pessoas do mesmo sangue; grupo de seres ou coisas que apresentam características comuns: família espiritual; os descendentes de um indivíduo, a linhagem, a estirpe; santa família, quadro que representa a Virgem Maria, São José e o Menino Jesus. Busquei ajuda com o mestre Aurélio, pai dos inteligentes e essas são algumas das muitas definições para o termo. Outra definição mais popular e titânica: família, família, papai, mamãe, titia, cachorro, gato e galinha, janta junto todo dia, nunca perde essa mania! Eu acho que família é uma palavra musical: tem um fá, um mi e termina com lia, apelido de mamãe e que adorava música. Quando queremos mostrar conhecimento e segurança dizemos: isso me é familiar. Quando precisamos ficar à vontade e tranquilos dizemos: preciso me familiarizar com isso. Viram? Família é o máximo. Não escolhemos a família da qual viemos e não importa se de forma biológica ou por adoção, mas temos o livre arbítrio de escolher ficar ou não com ela. Uma prima querida me encomendou esse registro, que dedico, em forma de poema, a todos os meus amados familiares, que são minhas raízes, meu conforto, minha referência, minha motivação e meu orgulho!


quem sugere, quem surge, quem se insurge, quem fere, quem confere, quem prefere, quem profere,
quem prova, quem reprova, quem gosta, quem aposta, quem briga, quem liga, quem se desliga,
quem sua, quem surta, quem surra, quem sussurra, quem censura, quem censura a censura,
quem lê, quem deleta, quem diz na lata, quem manda, quem demanda, quem dez mandamentos,
quem aprende, quem apreende, quem prende o riso, quem é preciso, quem muito riso pouco siso,
quem afeta, quem desafeta, quem vê a fresta, quem manifesta, quem vai à festa, quem detesta,
quem tem, quem retém, quem se abstém, quem tem abs, usa e abusa de freadas bruscas e seguras,
quem comemora bem, quem come e mora bem, quem peita, quem respeita, quem faz desfeita,
quem escreveu não leu e o pau comeu, quem tirou de letra, quem sorri, quem só ri, quem sorry,
quem confia, quem se fia, quem enfia, quem se filia, quem fez, quem fazia, quem se faz ilha,
quem sou, quem assinou, quem sinalizou, quem muitos são chamados, quem todos escolhidos,
quem caçou, quem caçoou, quem cansou, quem castrou, quem casou, mudou e não convidou,
quem separa, quem repara, quem resta, quem apara as arestas, quem cata o que resta,
quem pita, quem apita, quem dá pista, quem dá piti, quem dá pitaco, quem dá espetáculo,
quem mente, quem mente rara, quem veta, quem vota, quem revolta, quem volta, quem voltaire,
quem vinha, quem água e vinho, quem dessa água não beberei, quem tempestade em copo d'água,
quem brincou, quem brigou, quem abrigou, quem obrigou, quem corou, quem coroou, quem decorou,
quem crê, quem dita, quem credita, quem acredita, quem lê, quem é leitor, quem eleitor,
quem mora, quem namora, quem na moral, quem na morada, quem namorada, quem é amada,
quem é maria vai com as outras, quem é calmaria, quem é cau, quem é maria, quem amaria,
quem cede, quem tem sede de ver cidades, quem é diversidade, quem tem diversas idades,
homens de boa vontade, em verdade vos digo, tenham a bondade de deitar, rolar, beijar e cuidar!

SHOW DA BRUXA SÓ PRA BAIXINHOS

'Almoço aos domingos, a velha farra, todos vão inventando novos segredos, fica a ausência branca e marrom e a tristeza milenar, mas os meninos voltaram a brincar, como se ainda sentissem o seu olhar'. Eis um trecho da canção "Diana" escrita por Fernando Brant para uma cachorrinha dele e musicada por Toninho Horta. As brincadeiras das crianças eram boas durante o dia mas, quando iam pra cama, ficava difícil pegar no sono, impressionadas com algumas estorinhas, verdadeiras pérolas do gênero como traumatizar mentes inocentes. Nos supermercados, as crianças choravam quando viam aquela maçã grande e vermelha, que a madrasta usou pra aplicar um boa noite Cinderela na Branca de Neve. Assustadas, escondiam-se atrás das saias das mães, pedindo que comprassem pêras ou iogurtes da turma da Mônica. Também, essa estorinha é pra lá de cabeluda! Invejosa com a beleza alheia e não satisfeita com as aplicações de botox e muito menos com a sinceridade do espelho, a malvada contratou os serviços de um caçador, que deveria dar um corretivo na jovem. O pagamento seria efetuado mediante comprovante da execução. Escolada, foi bem clara: não me venha com essa de dar um sumiço na garota do fantástico usando rottweilers não, queridinho... hello!!!! Tem que botar o coraçãozinho dela aqui na mão da mamãe, ou nada feito! Mas a coisa saiu diferente. Impressionado com os atributos da beldade um-sete-um rodrigueana, bonitinha mas ordinária, o meliante aceitou a propina dela, deu um teco num veado que tentava intermediar a negociação e levou o coração da bicha pra madrasta. É script pra deixar o Zé do Caixão constrangido! Como roteiristas, os Irmãos Grimm estão mais para gremlins. O resto da estória todo mundo sabe: ela ficou na maior boa vida com os sete anões, micro empresários do setor de mineração, apaixonados e a tudo dispostos para o bem da rainha dos baixinhos. A exceção era o Dunga, que só pensava em futebol. Mudando o assunto, vou dissecar algumas musiquinhas com mensagens subliminares sutis, mas que dizem muito. Tema aquático: a canoa virou, deixá-la virar, por causa do fulano que não soube remar. Com certeza ninguém tinha curso de arrais amador e esqueceram os coletes salva vidas. Mas aí vem o problema: se eu fosse um peixinho e soubesse nadar, tirava o fulano de tal do fundo do mar... ora, peixe que não sabe nadar? Dá um tempo... peixe que não nada não está com nada. Não justifica a sua existência, não se qualifica pra continuar desfrutando as belezas do fundo do mar. Dançou. Vai virar degustação de tubarão ou entrar pra estatística de performance do anzol de Titoninho. Uma com temática militar: marcha soldado, cabeça de papel, se não marchar direito vai preso no quartel. Gente, a população acuada, à mercê do narcotráfico ou de ações de grupos terroristas e deixam a segurança a cargo de um bando de cabeças de papel, que não conseguem superar um esquerda, direita e vice versa? É preocupante! E tem mais: o quartel pegou fogo, a polícia deu sinal, acode, acode, acode a bandeira nacional! Tudo bem, é um símbolo patriótico super relevante, mas e os explosivos, o paiol de pólvora, não seriam prioridade? Isso vai dar merda, causar uma comoção local na comunidade e até interromper os bailes funk! Parece implicância minha, mas são quesitos de segurança fundamentais, sem falar nos traficantes que aproveitam o tumulto pra levar fuzis, munição e gatorates estocados. Enquanto isso, os bacanas salvando e dobrando a bandeira? Eu posso com isso? Mas, atenção pais: tirem as crianças da sala que agora vêm algumas com temática sexual: fui no tororó beber água, não achei, achei linda morena que no tororó deixei. Gente, tororó era o nome de uma sauna masculina e Rick Martin estava com muita sede. Por mais que a recepcionista fosse uma morena de dar água na boca, beber saliva não matava a sede e a futura capa da playboy não fazia a cabeça do rapaz, tanto é que ele a deixou lá! Pinóquio bem que poderia ser incluído nessa estorinha. Já imaginaram o garoto cara de pau nessa sauna, com uma porção de bofes contando mentiras pra ver o nariz dele crescendo, a moçada bronzeada batendo na madeira três vezes e ainda pedindo mais? Tem a do pau no gato! A gente canta e não se toca, mas vamos retomar a verdade dos fatos, companheiros: acompanhem a narração, em primeira pessoa, pois trata-se de sexo sadomasoquista, com direito a voyeurismo - no caso a dona xica -, que gosta de observar a turma se divertindo: atirei o pau no gato, mas o gato não morreu, dona xica admirou-se com o berro que o gato deu! Faz sentido ou não? E tem mais: tutu marambá, não venha mais cá, que o pai do menino te manda matar! Resumindo: mãe é mãe, sempre compreensiva e, na tentativa de evitar que o marido descarregue o três oitão em Turíbio, ou tutu, como é mais conhecido, passa uma mensagem cifrada via twitter para que ele não tente se encontrar com seu filho depois da aula de balé. Está tudo aí, bem claro. Não adianta fazer vista grossa, pois a criançada entende e fica traumatizada. Pra finalizar esse tema, pesado, diga-se, temos os escravos de jó, que jogavam caxangá, uma competição sexual, estilo maratona orgástica em que vários guerreiros tiram, botam e deixam ficar! A coisa vai esquentando e eles se empolgam na evolução artística: guerreiros com guerreiros fazem zigue, zigue, zá! Chega. Vamos mudar o tema e fechar com uma estória romântica, cheia de momentos de angústia e sofrimento, como deve ser, mas com final feliz: é a do príncipe sapo, nojentinha mas interessante. Recapitulando: uma das sete filhas do rei, esportista, gostava de treinar perto do lago. Concentrada em se preparar para mais uma competição, ao tentar um strike, deixou a bola de boliche cair no fundo do lago. Um sapo estava ali por perto, sem ter o que fazer, apenas sapeando o jogo da moça e se ofereceu pra pegar a bola. Tadinho, mergulhou, se esforçou pra caramba, quase morreu com o peso da bola, mas a força do amor é enorme e a tudo supera. Marketeiro, o sapo tinha uma boa rede de contatos na lagoa. Acionada, a turma se virou, saltitou pra valer e isso o ajudou a resgatar a bola. Ponto para o sapo. A moça ficou emocionada e perguntou como poderia recompensá-lo. Meio jururu, o sapo contou que era um príncipe lindo, mas que tinha sido vítima de uma bruxa malvada que lhe aplicara um corretivo pra ficar esperto e deixar de bancar o Justin Bieber. Arrependido, ele confessou que realmente se achava, mas que aquilo era passado e caso a moça lhe desse um beijo cinematográfico, daqueles de língua, o feitiço poderia ser desfeito, com chances reais de noventa por cento, variando em dois pontos percentuais pra cima ou pra baixo. Entediada naquele reino, onde nada acontecia, sem psp, internet ou sky, a moça topou o desafio, mas se esqueceu do aparelho ortodôntico fixo na arcada superior e, durante o beijo, o sapo ficou preso. Ela, chiando barbaridade e ele, coaxando de dor, foram conduzidos e atendidos no hospital mais perto, conveniado do sus, onde, passados três séculos, esperam a chegada do anestesista ou cirurgião para resolver o caso. Moral da estória: a patricinha não gostava de beijar os garotos do reino com medo de pegar sapinho e acaba numa gelada dessas! Agora, leitor amigo, proponho um teste de memória. como foram várias estórias, sugiro que pegue uma prancheta à la Joel Santana, tente se lembrar o nome e a sequência correta delas. Depois releia o texto e vá ticando o que estiver certo.